Quando o Sonho Acabou na Sessão da Meia-Noite





Memórias do Cine São Luiz e de uma noite em que descobrimos que o tempo passa.





Vez por outra, quando a noite cai silenciosa e a memória resolve passear por caminhos antigos, volto àquele tempo em que a cidade ainda tinha poucos cinemas e nós, garotos da Boa Vista, acreditávamos que as sessões da meia-noite eram a porta de entrada para um mundo maior do que o nosso.

Foi numa dessas noites que descobrimos, sem perceber direito, que até os sonhos mais barulhentos podem terminar em silêncio.


As sessões da meia-noite eram um acontecimento naqueles tempos em que a cidade oferecia poucas distrações aos seus jovens. Até o final da década de 1960 existiam apenas quatro cinemas no centro, e as opções de lazer se resumiam a pequenas tertúlias — festas simples regadas a ponche de suco de uva com pedaços de maçã — ou aos encontros de juventude nos clubes da cidade.

Quando não havia bailinho à vista, restava-nos o cinema.

Todos os sábados aconteciam as famosas sessões da meia-noite no Cine São Luiz — mais tarde transferidas para o recém-inaugurado Cine Veneza — onde eram exibidas as avant-premières dos filmes que só entrariam em cartaz semanas depois.

Mas antes de entrar no cinema havia um ritual.

Quase sempre nos reuníamos primeiro na ponte Duarte Coelho, que ficava em frente ao São Luiz, especialmente quando o filme era proibido para menores de dezoito anos — o que era um problema, já que boa parte do nosso grupo ainda não havia atingido essa idade gloriosa.

Sentávamos nas balaustradas de pedra-sabão, fumávamos nervosos e observávamos de longe o movimento da multidão que se espremia diante das bilheterias. Esperávamos pacientemente que a maior parte das pessoas entrasse.

Só então, quando o tumulto diminuía, reuníamos coragem para enfrentar o maior obstáculo daquela aventura: o porteiro.

Ele implicava conosco sistematicamente.

Éramos jovens demais, alguns ainda imberbes, e nossas tentativas de parecer adultos raramente convenciam alguém.

Felizmente contávamos com a ajuda de um personagem singular: P-zinho.

P-zinho era um pouco mais velho do que nós e, por alguma razão misteriosa, havia adquirido entre o grupo a aura de um sábio — embora, olhando hoje, ele tivesse apenas dois anos a mais que a gente. Era tio de alguns dos rapazes do bairro e talvez isso lhe conferisse, aos nossos olhos juvenis, uma maturidade que ele próprio provavelmente desconhecia possuir.

Falava sempre com uma calma distraída e tinha um talento extraordinário para falsificar carimbos e assinaturas.

Foi assim que se tornou, por aclamação geral, o nosso falsificador-mor.

Todas as nossas carteiras de estudante haviam passado por suas mãos, especialmente no item mais sensível: a idade.

P-zinho era o tipo de sujeito que respondia a qualquer pergunta com um:

— Não sei... acho que talvez... quem sabe...

Era o indeciso oficial do grupo.

Mas naquela questão específica — adulterar documentos — era surpreendentemente eficiente.

Munidos dessas carteiras milagrosas, enfrentávamos o porteiro com uma coragem que nem sempre era suficiente.

Eu, particularmente, atravessava aquele momento tremendo como vara verde.

O homem pegava o documento, olhava para a foto, depois para mim, depois novamente para a foto, como se estivesse examinando um caso de polícia.

— Você tem dezoito anos, rapaz?

— Tenho, sim, senhor.

— Não parece.

— Fiz mês passado.

Era sempre o mesmo interrogatório.

Às vezes passávamos. Às vezes não.

Os melhores filmes, afinal, eram justamente aqueles proibidos para menores.


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Mas houve um sábado que se tornaria inesquecível, eu diria que foi mesmo antológico.

Passava das onze da noite quando, ainda na Rua Sete de Setembro - ali no centro da cidade, no bairro da Boa Vista - vimos um grupo grande de garotos caminhando pela Avenida Conde da Boa Vista em direção ao cinema.

Logo percebemos o motivo.

Naquela noite seria exibido pela primeira vez em Recife o documentário Let It Be.

Os Beatles.

A notícia havia corrido pela cidade como um relâmpago.

Havia rumores de que a banda estava se separando e aquele filme parecia ser, de alguma forma, um retrato do fim.

Caminhamos juntos naquela espécie de procissão juvenil. Alguns grupos eram barulhentos, outros mais quietos, mas todos compartilhavam da mesma expectativa.

Entre nós havia fãs ardorosos.

Eu era um deles.

Tinha chovido pouco antes e o ar quente que subia do asfalto se misturava à brisa fresca vinda do oceano. O cheiro do Capibaribe pairava no ar.

Quando chegamos ao cinema ficamos impressionados.

A fila dava volta no quarteirão.

Como morávamos ali perto, já havíamos comprado nossos ingressos mais cedo. Por isso nos sentamos novamente na ponte, observando de longe aquela multidão ansiosa.

Naquela noite não havia medo nem tensão.

Apenas excitação.

Afinal, aqueles rapazes de Liverpool tinham mudado o mundo.

Antes do rock, os jovens ouviam a música de seus pais. Depois dele, algo havia se transformado para sempre. E os Beatles estavam no centro dessa revolução.

Eles nos pertenciam.                                  X


O saguão do cinema estava lotado.

Uma nuvem espessa de fumaça de cigarro pairava no ar e a luz difusa criava um ambiente quase cinematográfico. Por um instante tive a impressão de estar dentro de um filme noir.

Transpor aquela multidão foi uma pequena batalha.

Conseguimos finalmente chegar ao andar superior, onde ainda havia alguns lugares vagos. Sentamos aliviados.

Mas a tranquilidade durou pouco.

A garotada mais nova, incluíndo vários amigos nossos também moradores do bairro, começou a fazer um barulho infernal e logo chamou a atenção dos policiais que faziam patrulha no local — coisa comum naqueles anos de ditadura.

Um deles se aproximou e gritou:

— Se continuarem com essa bagunça, todo mundo vai pra rua!

Ninguém levou a sério.

Minutos depois o grupo inteiro estava sendo expulso do cinema.

Aquilo, curiosamente, trouxe algum silêncio ao ambiente.


Quando as luzes finalmente se apagaram, um silêncio expectante percorreu o cinema. Logo surgiu na tela o inevitável Canal 100, o cinejornal que precedia todas as sessões naqueles tempos.

Para muitos de nós aquilo era apenas um ritual obrigatório — uma espécie de prólogo interminável antes do filme verdadeiro. As primeiras imagens quase sempre traziam as mesmas reportagens exaltando obras grandiosas, estradas recém-inauguradas e discursos solenes das autoridades que governavam o país naqueles anos de farda.

O tom era sempre ufanista, carregado de uma alegria oficial que soava artificial aos ouvidos mais atentos. A narração grave e solene falava de progresso, desenvolvimento e grandeza nacional enquanto as imagens mostravam ministros, generais e aquele presidente de sorriso sereno — um velho político de aparência cordial que carregava o nome pomposo de um antigo príncipe italiano.

A plateia assistia a tudo com uma mistura de paciência e indiferença. Sabíamos que aquilo fazia parte do espetáculo, uma etapa que precisava ser atravessada antes de chegar ao que realmente interessava.

Mas então vinha o momento esperado.

De repente a música mudava e ecoava pela sala a famosa vinheta que anunciava o início das matérias esportivas. Bastavam os primeiros acordes para que o humor da plateia se transformasse completamente.

Tan-tanran… tan-TAAAM…

Era o samba “Que Bonito É”, de Luiz Bandeira, que irrompia pelos alto-falantes como uma explosão festiva.

Instantaneamente o cinema despertava.

Assobios, risadas e comentários surgiam por todos os lados. Aquela era a parte do noticiário que realmente importava.

As imagens mostravam lances de futebol narrados pela voz metálica e vibrante que se tornara marca registrada do cinejornal. Naquele dia, a reportagem ainda celebrava a recente conquista da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1970 — o tricampeonato que havia transformado Pelé e seus companheiros em heróis nacionais.

O público reagia com entusiasmo.

Durante alguns minutos o cinema inteiro parecia vibrar novamente, como se aquela pequena celebração esportiva servisse para aquecer os espíritos antes da grande atração da noite.

E então, finalmente, o noticiário terminou.

As luzes permaneceram apagadas.

A tela ficou escura por um instante.

Era a hora.                                            

E então, finalmente, o filme começou.

O cinema explodiu em aplausos.


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Mas algo estava errado.

As cenas mostravam os Beatles conversando no estúdio, entrando e saindo de salas, discutindo, parecendo cansados uns dos outros.

Quase não havia música.

A expectativa da plateia começou a se transformar em inquietação.

Pouca música.

Muita conversa.

Um silêncio incômodo começou a surgir entre os espectadores.

Primeiro vieram alguns murmúrios.

Depois uma voz isolada:

— Toca alguma coisa!

Algumas risadas surgiram aqui e ali.

Mas as cenas continuavam mostrando apenas discussões e olhares cansados.

Outro grito ecoou no escuro:

— Queremos música!

Agora já não era apenas um espectador.

Várias vozes começaram a se levantar.

— Música!

— Toca logo!

De repente alguém gritou, com raiva:

— Quero meu dinheiro de volta!

A frase caiu dentro do cinema como uma faísca em barril de pólvora.

As vaias começaram.

Primeiro dispersas.

Depois em coro.

O som era estranho, quase animalesco.

Assobios, gritos, palmas batidas com violência.

Algumas pessoas começaram a se levantar.

Outras chutavam o chão das poltronas.

A tela continuava mostrando os Beatles conversando no estúdio, alheios àquela revolta que crescia na sala.

— Enganação! — gritou alguém.

— Devolve o dinheiro!

O tumulto se espalhou como uma onda.

As luzes se acenderam de repente.

Por um segundo o cinema inteiro pareceu congelar.

Então veio o caos.

Pessoas levantaram ao mesmo tempo. Fileiras inteiras começaram a se mover em direção às saídas. O barulho era ensurdecedor.

Poltronas rangiam.

Passos ecoavam.

Gritos se misturavam.

No Hall superior, já fora da sala de exibição, alguém derrubou um grande cinzeiro de bronze cheio de areia. Outro atirou alguma coisa contra um vidro.

O estilhaço soou seco.

Vidros quebrados.

Chutes nas portas.

Alguns rapazes batiam na porta da gerência como se estivessem tentando arrombá-la.

— Queremos nosso dinheiro!

— Enganaram a gente!

Era uma verdadeira revolta.

A polícia apareceu rapidamente.

Mas mesmo assim a massa parecia movida por uma energia própria, como se todo o entusiasmo daquela noite tivesse se transformado subitamente em frustração coletiva.

Nós nos entreolhamos.

Era melhor sair dali.

Seguimos com a multidão até o saguão.

Do lado de fora o tumulto continuava.

O cinema parecia uma praça em levante.

Nós preferimos sair.

Saímos do cinema e ficamos do lado de fora assistindo àquela cena surreal.

Alguns dos garotos expulsos mais cedo já estavam ali também, rindo da confusão.

Nossa grande noite havia terminado em frustração.

Ou talvez em algo mais estranho: uma sensação de que tínhamos testemunhado o fim de alguma coisa.


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Semanas depois assistimos ao documentário com calma.

Nos minutos finais aparece o famoso Rooftop Concert, o último show dos Beatles, realizado no telhado do prédio da Apple.

Talvez tenha sido o melhor de todos.

E também o último.


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Os anos seguintes ainda nos reservavam muitas sessões de sábado.

Assistimos a filmes memoráveis no recém-inaugurado Cine Veneza — O Destino de Poseidon, Viva e Deixe Morrer, o novo 007 com trilha de Paul McCartney.

Mas, por mais moderno que fosse, o Veneza nunca teve o charme do velho São Luiz, plantado às margens do Capibaribe.

As sessões da meia-noite daquele cinema possuíam uma espécie de magia.

Quem viveu sabe.


Quando John Lennon disse “o sonho acabou”, nós ainda éramos jovens demais para entender o que aquilo significava.

Hoje sabemos.

Os anos 1960 foram uma época em que tudo parecia possível — e talvez por isso mesmo tenham terminado tão abruptamente.

Guerras, revoluções, assassinatos políticos, a chegada do homem à Lua, Woodstock, o surgimento de uma nova juventude.

Foi também o fim de muitos sonhos.

Naquela noite, saindo do cinema, senti pela primeira vez uma estranha intuição: algo estava terminando.

Nós ainda viveríamos muitas histórias juntos, é verdade.

Mas, de alguma forma silenciosa e inevitável, nada voltaria a ser exatamente como antes.

O tempo, esse paciente escultor das nossas vidas, trataria de nos ensinar isso lentamente, quase sem que percebêssemos.

Hoje, olhando para trás através das décadas, percebo que ainda carrego comigo todos aqueles momentos — os luminosos e também os sombreados — como pequenas lanternas acesas no interior da memória.

Eles pertencem a um tempo que já não caminha entre nós, um tempo que desapareceu nas curvas da história.

E, no entanto, de maneira misteriosa e quase secreta, continua vivo dentro daqueles que tiveram o privilégio de atravessá-lo.

Às vezes penso que aquela noite no velho cinema foi a primeira vez em que percebi, mesmo sem entender direito, que a juventude também tem prazo de validade.


E que certos sonhos — como aqueles que vinham de Liverpool embalados por guitarras elétricas — nascem já trazendo dentro de si a melancolia silenciosa do fim.


Carlos Pessegatti














Comentários

  1. Esse conto é um documento que registra uma passagem da história de Recife. Um momento extremamente efervescente de nossa comtemporaneidade. Tu tens que compilar e editar no futuro para que nossos netos leiam mermão!

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    1. Obrigado pelas suas palavras, amigo velho! Cabe a nós compartilharmos com nossos filhos e netos para que eles conheçam um pouco a nossa história.

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