Antológicos dias
Numa ensolarada manhã de sábado, eu e meus amigos — Lula, o gordinho, e Aroldo Bispo — deixávamos para trás mais uma de nossas provas semanais, já tomados por aquela excitação elétrica de quem pressente um dia prestes a se abrir como um portal, vasto e generoso, cheio de possibilidades ainda sem nome. Naquele dia, em especial, o pai de Lula lhe emprestara o Opala — ainda novinho, reluzente como promessa — livrando-o do ritual habitual do ônibus e, a nós, oferecendo uma liberdade que logo se transformaria em vertigem. Saímos os três quase saltitando, atravessados por uma energia que roçava o desvario. Havia um plano — e que plano. Iríamos à praia de Boa Viagem, não para o banho de mar, mas para algo que, à nossa maneira, julgávamos muito mais elevado: uma confraternização pambenílica — termo que criáramos com certa solenidade irreverente, derivado do xarope Pambenyl, nosso passaporte para outras camadas da percepção. Queríamos mais do que estar juntos. Queríamos atravessar juntos. O mar...