Antológicos dias
Numa ensolarada manhã de sábado, eu e meus amigos — Lula, o gordinho, e Aroldo Bispo — deixávamos para trás mais uma de nossas provas semanais, já tomados por aquela excitação elétrica de quem pressente um dia prestes a se abrir como um portal, vasto e generoso, cheio de possibilidades ainda sem nome.
Naquele dia, em especial, o pai de Lula lhe emprestara o Opala — ainda novinho, reluzente como promessa — livrando-o do ritual habitual do ônibus e, a nós, oferecendo uma liberdade que logo se transformaria em vertigem.
Saímos os três quase saltitando, atravessados por uma energia que roçava o desvario. Havia um plano — e que plano. Iríamos à praia de Boa Viagem, não para o banho de mar, mas para algo que, à nossa maneira, julgávamos muito mais elevado: uma confraternização pambenílica — termo que criáramos com certa solenidade irreverente, derivado do xarope Pambenyl, nosso passaporte para outras camadas da percepção.
Queríamos mais do que estar juntos. Queríamos atravessar juntos.
O mar seria testemunha. O encontro, uma comunhão — de corpos, sim, mas talvez, quem sabe, de algo mais profundo e impreciso que ousávamos chamar de alma. E como trilha, inevitável, o Rock raiz e o Rock Progressivo com suas arquiteturas sonoras vastas, quase cósmicas, que nos envolviam e nos empurravam para dentro de estados onde o pensamento deixava de ser linha e se tornava névoa, vertigem, revelação.
Nesses estados, as ideias não vinham — emergiam.
O que descobriríamos naquele dia ainda pairava no ar, suspenso como um presságio benevolente.
Antes, porém, passamos pela Rua Sete de Setembro. Na nossa já lendária esquina, aguardavam Cléon — meu primo —, Cirinho e Marco Viana, morador do Edifício Amazonas, aquele prédio que ficava defronte ao meu, na Rua Martins Jr.
Foi ali, naquela proximidade quase inevitável entre janelas e corredores, que nossas histórias começaram a se entrelaçar. Marco, Jorge e Caneca também haviam morado naquele mesmo edifício — embora, àquela altura, estes dois últimos já tivessem se mudado. Ainda assim, permaneciam como presenças vivas no nosso circuito, como se a geografia da infância não obedecesse às regras formais da mudança.
Conheci os três quando ainda éramos muito novos — eu com meus doze anos, eles com idades que orbitavam a minha —, e foi justamente essa vizinhança que nos fez cúmplices antes mesmo que soubéssemos dar nome àquilo.
Com a tropa reunida, partimos. Era pouco depois das onze da manhã, e a pergunta óbvia — onde almoçar? — simplesmente não existia entre nós. Havia outras prioridades, mais urgentes, ainda que indefiníveis.
No Cais de Santa Rita, avistamos uma farmácia ao lado do Hotel Central. Lula encostou o carro, e coube a mim a missão: adquirir os seis vidros do nosso precioso xarope — seis, porque éramos exatamente seis naquele carro, naquele dia, e cada um teria o seu próprio frasco de Pam. Não havia partilha possível: aquele era um ritual estritamente individual.
Foi ao cruzar aquela porta que o dia sofreu sua primeira fissura.
Atrás do caixa estava Vicente — o Vincentão —, filho primogênito de um velho amigo do meu saudoso tio Carlinhos. Forte, imponente, ainda adolescente, mas já com presença de adulto. Jovem demais para ignorar, próximo demais para confiar.
Aquilo não era um bom sinal.
Mesmo assim, fiz o pedido. Seis unidades de Pambenyl. O atendente hesitou — seu olhar oscilava entre a perplexidade e um certo temor, direcionado não a mim, mas a um senhor que permanecia ali por perto: alto, grisalho, de expressão cerrada. Descobriria depois que se tratava do dono do estabelecimento — e, para completar o quadro, também um velho conhecido de meu tio.
Mas naquele instante, a gravidade ainda não se revelara por inteiro.
Segui adiante.
Talvez por imprudência. Talvez por uma espécie de fé juvenil na invulnerabilidade.
Tudo desandou de vez quando o meu primo Cléon, inquieto como sempre, entrou na farmácia para saber da demora. Bastou um segundo. O suficiente para que o homem o reconhecesse:
— Cléon, como está seu pai? Faz tempo que não o vejo.
Foi como se o ar se partisse.
Ali, sem cerimônia, o segredo deixou de ser segredo.
Meu primo, pego de surpresa, tentou recompor-se, mas já era tarde. Os frascos estavam separados, embalados, pagos. Não havia mais retorno — apenas consequências, ainda invisíveis, mas inevitáveis.
Saímos dali carregando, além do pacote, uma inquietação muda: a certeza de que aquela história, de algum modo, encontraria o caminho até os ouvidos de Seu Carlinhos.
Mas o tempo — esse velho alquimista — tratou de dissolver a tensão.
Ao chegarmos à praia, a ansiedade já se dispersara quase por completo, como se o próprio mar tivesse absorvido nossos receios.
Estacionamos o carro e começamos a procurar um lugar que nos acolhesse — não apenas fisicamente, mas em espírito. Após uma breve exploração, encontramos o ponto ideal: espaço suficiente para todos, alguma privacidade e, sobretudo, a proteção de um coqueiro generoso, sob cuja sombra poderíamos nos abrigar do sol que já se impunha, alto, embora suavizado pela primavera.
Ali, naquele pequeno território improvisado entre céu e mar, algo maior começava a se formar.
A reunião estava prestes a acontecer.
E, com ela, a promessa de uma experiência que — sabíamos, mesmo sem saber — nos transformaria de alguma maneira.
Sentamo-nos lado a lado, como se aquele gesto simples selasse um pacto silencioso entre nós e o instante. Foi então que liguei o meu inseparável Cassete Crown e inseri as fitas que havia escolhido para aquele dia, como quem acende um ritual.
E quando os primeiros acordes de I Can Feel Him in the Morning, do álbum Survival, da banda Grand Funk Railroad, começaram a se espalhar pelo ar, algo se abriu.
O mundo, que já se encontrava inundado de sol, pareceu iluminar-se ainda mais — como se a própria manhã tivesse sido elevada a uma outra frequência, mais vasta, mais íntima, mais reveladora.
X
Passado algum tempo, alguém entre nós intuiu — mais do que percebeu — que ainda faltavam certos elementos indispensáveis àquela pequena liturgia que estávamos prestes a celebrar.
Faltava-nos o rito dos acompanhamentos, os objetos quase sagrados que dariam corpo e duração ao encontro. Escolheu-se, então, um emissário, incumbido de atravessar a curta distância até o quiosque mais próximo e retornar munido de nossas inseparáveis garrafas de Coca-Cola e de alguns maços de cigarro — companheiros silenciosos que, entre um gole e outro daquele xarope generoso, sustentariam o fluxo das ideias. Um não existia sem o outro; eram, à sua maneira, partes de um mesmo organismo. Mas o tempo avançava, e o meio-dia já se insinuava com sua fome concreta.
Alguém, então, com a lucidez prática que por vezes irrompe nos momentos mais etéreos, sugeriu que acrescentássemos alguns cachorros-quentes à lista. Assim foi decidido. Aquele seria o nosso almoço — ou melhor, o nosso banquete, investido de uma dignidade que só a juventude sabe conferir às coisas simples.
Com tudo enfim disposto — como se cada elemento ocupasse um lugar previamente determinado por alguma ordem invisível —, demos início à reunião. E ela começou com a solenidade improvisada de um grande conselho, como se estivéssemos ali reunidos para deliberar sobre os destinos do mundo, ou ao menos sobre os nossos próprios. Na pauta, como não poderia deixar de ser, estavam as nossas recorrentes filosofices, agora ancoradas em obras que funcionavam como portais de entrada para abismos mais profundos: O Processo, de Franz Kafka, O Muro, de Jean-Paul Sartre e As Portas de Percepção do Aldoux Huxley — textos que não apenas líamos, mas que, de certo modo, nos liam de volta.
E, orbitando tudo isso como uma revelação ainda em estado de assombro, estava o álbum Fragile, da banda Yes, trazido por Cirinho em sua viagem aos Estados Unidos, carregando consigo o frescor das descobertas que mudam silenciosamente o eixo de uma vida. Não menos presente, como um eco de outra vertente sensível, surgiam também as faixas do álbum Survival, do Grand Funk Railroad, cujas melodias pareciam nos lembrar que, entre o pensamento e o sentir, havia uma ponte que só a música sabia atravessar.
Eu diria — e hoje o afirmo com a lucidez que só o tempo concede — que aqueles debates, ao mesmo tempo tão divertidos quanto vertiginosamente esclarecedores, dificilmente encontrariam existência se estivéssemos ancorados em nossa condição ordinária. Havia algo que nos atravessava, abrindo clareiras inesperadas no pensamento e permitindo que as ideias descessem a camadas mais fundas de nós mesmos. Sabíamos disso, ainda que não o formulássemos com precisão: o estado em que nos encontrávamos era, de algum modo, um portal. A codeína diluída no xarope operava como esse limiar — não apenas um desvio, mas uma passagem, um deslocamento sutil da consciência em direção a zonas onde o pensamento se tornava mais fluido, mais ousado, quase luminoso.
Mas não era só isso. Havia ainda um outro efeito, talvez mais decisivo: aquele opióide rompia as amarras invisíveis que nos continham, desfazia as couraças que, no cotidiano, insistem em nos separar. Despidos dessas armaduras, éramos devolvidos a uma forma mais essencial de presença, onde cada um se deixava tocar pelo outro sem reservas.
Funcionava como um catalisador silencioso, mas de potência avassaladora, que nos reunia numa intensidade rara. O que dali emergia não era apenas cumplicidade — era algo mais denso, mais verdadeiro: um sentimento de pertencimento profundo, como se, por algumas horas, tivéssemos acesso à consciência íntima de que éramos partes de uma mesma matéria sensível, ligados por uma fraternidade que não precisava ser nomeada para existir.
X
O tempo avançava sem deixar rastros, como se tivesse desaprendido a marcar sua própria passagem. Quando a tarde começou a declinar, dissolvendo a luz em uma claridade rarefeita, quase líquida, o estado em que nos encontrávamos já havia atingido um grau de comunhão difícil de nomear. Era como se estivéssemos suspensos — entre o pensamento e o sentir, entre o riso e o assombro. E então, como quem recolhe do invisível uma verdade ainda não dita, Cirinho rompeu o silêncio com algo que nos atravessou de imediato:
— Gente… vocês não estão percebendo que isso aqui… é amor?
A frase caiu entre nós como uma pedra em águas muito fundas. Houve um instante de estranhamento — não de recusa, mas de reconhecimento adiado. Ele, percebendo nossa hesitação, avançou, como se precisasse nos conduzir até onde ele já havia chegado.
— Meus irmãos… quando estive, neste primeiro semestre, lá nos Estados Unidos, uma coisa me chamou atenção…
Silenciamos. Havia, naquele momento, uma espécie de reverência tácita, como se soubéssemos que algo importante estava prestes a se revelar.
— Eles, os americanos, não dizem “I like you”… — fez uma pausa breve — …eles dizem “I love you”.
Aquilo ecoou. Não como tradução, mas como deslocamento.
— Ou seja — continuou —, os amigos dizem uns aos outros que se amam.
Meu primo, ainda tentando ancorar aquilo na nossa realidade, perguntou:
— Tu quer dizer… assim, naturalmente?
— Sim. E percebam… — sua voz ganhou um tom mais grave — …não há esse ruído que existe aqui. Nenhuma suspeita, nenhum filtro. É dito como se deve ser dito.
E então ele tocou, com precisão quase dolorosa, numa ferida que até então permanecia silenciosa entre nós: ali, entre nós, aquela mesma frase poderia ser mal compreendida, distorcida, reduzida a um gesto que nossa própria cultura, ainda aprisionada em suas limitações, trataria com preconceito. Amar um amigo — dizê-lo em voz alta — parecia, naquele instante, um ato quase subversivo.
Foi quando, como se puxada por um fio invisível, emergiu na memória de um de nós uma cena antiga, assistida anos antes na série Route 66. E, ao ser narrada, a cena não veio como lembrança, mas como presença.
Dois amigos, cruzando os Estados Unidos em busca de algo que talvez nem soubessem nomear, chegam a uma pequena cidade. Ali, o personagem Buz Murdock se apaixona pela filha de um dono de circo — um amor súbito, arrebatador, que o faz romper, de forma inesperada, com a jornada que até então dava sentido à sua vida. Seu companheiro, atônito, vê-se diante da dissolução de algo que era mais do que uma viagem: era um vínculo.
Mas o destino — esse escultor impiedoso — intervém. A jovem morre em um acidente brutal na roda-gigante. E o que resta a Buz é um vazio absoluto, um abismo sem nome.
Tomado por uma dor que não cabia no corpo, ele sobe na mesma roda que havia tirado a vida de sua amada. Lá do alto, suspenso entre o céu e o desespero, interrompe o movimento e, diante do mundo, desfaz-se em lamento. Sua voz, carregada de uma infância ferida, denunciava uma história de abandono, de ausência de afeto, de uma vida inteira sem amor — até aquele instante que lhe fora arrancado com violência.
E então, no ponto mais agudo do desespero, quando a morte já parecia uma decisão tomada, vem o grito — não de cima, mas de baixo. Não do abismo, mas da presença:
— Buz… eu te amo!
A voz do amigo rasga o espaço.
— Não se mate! Eu estou aqui… eu te amo, você sabe disso!
E foi esse gesto — simples, absoluto, irrefutável — que o trouxe de volta. Buz desce. Abraça o amigo. E os dois seguem viagem. Não mais em busca de sentido, mas sustentados por ele.
Quando a história terminou, não éramos mais os mesmos. Algo havia sido deslocado dentro de nós. Fomos tomados por uma onda — não de emoção passageira, mas de reconhecimento profundo. Como se, pela primeira vez, estivéssemos diante de uma verdade que sempre esteve ali, mas que nunca ousáramos nomear.
Cirinho estava certo.
Aquilo que vivíamos naquele dia era, sim, amor.
Eu amava o meu amigo. Ele me amava.
E, pela primeira vez, nos permitíamos saber e dizer disso — sem medo, sem ruído, sem tradução.
Nós nos amávamos. Como talvez nunca tivéssemos nos permitido amar antes.
X
Entre Dimensões e Descompassos
Imersos naquele espaço paralelo — como se tivéssemos atravessado um portal invisível e aportado numa dobra secreta da realidade — tudo ali parecia suspenso de qualquer lógica conhecida. O tempo não corria: pairava. As coisas não aconteciam: emergiam.
E foi então que, como uma interferência abrupta nesse campo de suspensão, alguém nos puxou de volta.
Lula, sem qualquer preâmbulo, rompeu o tecido daquele instante:
— Carlinhos… tu não tem que ir pra casa da tua namorada hoje?
A frase caiu como um corpo estranho naquele universo rarefeito.
— Verdade, cara!… Que horas são?
Já nos aproximávamos das dezoito. E, como um eco distante que enfim encontra o ouvido, a lembrança se impôs: o compromisso semanal. Desde o início do namoro, eu e P nos encontrávamos religiosamente — sábados e domingos à noite, como quem tenta dar ordem ao caos dos afetos.
E é aqui que a narrativa se rompe.
Um daqueles lapsos.
Uma falha na continuidade do real.
Esses vazios de memória — tão recorrentes sob o efeito daquela substância — tinham uma natureza curiosa: certas lembranças se cristalizavam com uma nitidez quase dolorosa, como fósseis de emoção; outras, no entanto, simplesmente se dissolviam, como se jamais tivessem existido.
E assim aconteceu.
Não sei dizer como saímos dali. Não sei se voltamos à cidade para, então, eu seguir o caminho esperado até a casa dela, ou se simplesmente nos deixamos levar — à deriva — pegando carona no carro de Lula, como quem atravessa dimensões sem perceber a travessia.
O que restou — e isso não se apagou — foi a imagem súbita e quase absurda:
Eu, chegando à casa de Dona Maria.
E, a tiracolo…
Cinco figuras.
Cinco testemunhas deslocadas de um universo que não lhes pertencia.
Imaginem a cena.
Imaginem o impacto.
— Posso saber do que se trata isso?
A pergunta veio seca, direta, carregada de uma reprovação que dispensava qualquer explicação.
E, de fato, não havia explicação.
Ou, se havia, ela não cabia naquele mundo.
Não me recordo do que respondi — se é que respondi algo. A verdade é que nenhuma narrativa possível daria conta daquele descompasso entre o que vivêramos e o que ali se exigia.
Meus amigos, por sua vez, rapidamente perceberam o território hostil. Cansados de sustentar uma presença deslocada — e talvez intuindo que ali eram corpos estranhos demais — decidiram, pouco a pouco, se retirar.
Foram saindo como quem recua de uma realidade que não lhes diz respeito.
E eu fiquei.
Mas a noite… a noite já estava perdida.
Ela não cedeu.
Não houve abertura, não houve trégua. Apenas o silêncio pesado e o semblante fechado, como uma porta que se recusa a ser reaberta.
Restava-me o domingo.
Um dia inteiro como possibilidade de reparação.
Ou, quem sabe…
Como mais uma tentativa de atravessar — agora sóbrio — o abismo entre dois mundos que, naquela noite, se recusaram a coexistir.
X
A Segunda-Feira ou O Retorno do Real (Fragmento I)
O domingo… ficou em suspensão.
Talvez tenha existido apenas como um intervalo morno entre dois abismos — um dia sem registro, sem marcas, como uma fita que alguém apagou deliberadamente antes de devolvê-la ao arquivo da memória.
E então veio a segunda-feira.
Ah… a segunda-feira.
Ela não chegou.
Ela se impôs.
Retornei do colégio por volta das cinco da tarde, na companhia de Aroldo Bispo — aquele mesmo que morava em Boa Viagem — ainda atravessado por uma espécie de torpor residual, como se partes de mim permanecessem presas àquele sábado que insistia em não terminar.
Ao chegar na nossa velha tão adorada esquina, encontrei Cléon, meu primo, entregue a uma conversa animada com Marco Viana. Não sei ao certo o que Marco fazia ali — talvez voltasse do dentista, talvez apenas tivesse sido capturado, como tantos outros, pela força gravitacional daquele lugar.
Porque aquele ponto… não era apenas uma esquina.
Era um campo de atração.
Um bolsão vivo que sugava tudo e todos — não pelo alarde, mas pelo brilho discreto dos encontros, pelo rumor contínuo da cidade que se insinuava sem pedir licença. Ali, a vida acontecia em camadas, como se cada gesto carregasse um pequeno excesso de sentido.
Para Aroldo, aquele era o trajeto natural de retorno: da Sete, cruzaria a ponte em direção aos pontos de ônibus que o levariam de volta à Zona Sul. Mas, como tantas vezes acontecia, o caminho não resistiu ao chamado do instante.
E nós também não.
Ainda estávamos imersos — talvez até mais do que imaginávamos — nos acontecimentos daquele sábado. Nas conexões improváveis que se teceram, nas percepções que pareciam ter expandido os limites do mundo… e, claro, naquela cena final, tão absurda quanto inesquecível: nós cinco, surgindo, como uma comitiva deslocada, na casa da minha namorada.
Ela… ainda não havia feito as pazes comigo.
E, convenhamos, era compreensível.
O que ela presenciou não cabia em nenhuma previsão, nem sequer tangenciava o repertório possível de sua experiência. Foi como se dois universos incompatíveis tivessem colidido diante dos seus olhos — sem aviso, sem tradução.
Foi então que Aroldo, ao se ver cercado por três daqueles sobreviventes do encontro — ainda impregnados de uma alegria que beirava o indizível — lançou a proposta:
Iríamos todos para a casa dele.
A ideia era simples e, ao mesmo tempo, grandiosa: subir até a laje do edifício onde morava — cinco andares apenas, mas suficientes para nos afastar do chão comum — levar a vitrola e, quem sabe, recriar, ainda que parcialmente, aquele estado de comunhão que nos atravessara.
Havia ali uma tentativa quase ingênua…
De repetir o irrepetível.
A proposta foi recebida como se fosse inevitável. Ficou combinado: cada um seguiria para sua casa, cumpriria o ritual doméstico do jantar — essa concessão mínima à ordem — e depois nos reencontraríamos. Eu, Cléon e Marco seguiríamos juntos até a casa de Bipo, enquanto ele nos antecederia.
Tudo parecia, de algum modo, alinhado.
Encaminhado.
Mas foi exatamente aí…
Que o fluxo se rompeu.
Porque, silenciosamente, sem qualquer anúncio, as consequências daquele encontro na farmácia — naquele sábado — começaram a emergir.
E não como um detalhe.
Mas como um castigo.
Desses que não pedem explicação.
Apenas se impõem.
X
A Segunda-Feira ou O Retorno do Real (Fragmento II)
— O Julgamento (ou: Como Não Rir Diante do Abismo)
Cheguei em casa por volta das dezoito horas. O dia já havia cedido lugar à noite — como se, de algum modo, o mundo tivesse decidido acompanhar o peso que se anunciava.
Fui direto ao encontro da minha avó, minha querida e inesquecível Dona Yolanda.
Nós dois ocupávamos uma espécie de refúgio dentro daquele grande apartamento — uma velha cabana de madeira, erguida ainda nos anos 60, plantada numa ampla área descoberta nos fundos. Enquanto os seis quartos da casa serviam aos hóspede daquela pensão, nós habitávamos aquele espaço quase à parte, como se vivêssemos numa dobra mais silenciosa daquele universo doméstico.
O prédio, pequeno, de apenas dois andares, ficava encravado na Rua Martins Jr., essa artéria discreta que liga a Sete de Setembro à Rua do Hospício — um lugar onde o cotidiano parecia sempre prestes a escorregar para o inesperado.
E escorregou.
Ao entrar no quarto, deparei-me com a cena:
Minha avó… em lágrimas.
E, ao lado dela, meu tio Carlinhos — pai de Cléon — com aquela expressão que já dispensava qualquer introdução.
A razão da sua presença ali logo se revelou: o dono da farmácia — seu velho amigo de juventude — havia cumprido seu papel de arauto moral e informado, com riqueza de detalhes, que eu e seu filho havíamos adquirido… seis frascos daquele “inofensivo” barbitúrico no sábado anterior.
Seis.
Número que, convenhamos, não ajuda em nada na defesa.
Minha avó chorava como quem presencia uma tragédia anunciada.
Meu tio, por sua vez, já havia emitido seu veredito:
Éramos viciados.
Assim que me viu, não houve transição. Apenas a sentença:
— Senta aí, mocinho. O senhor e o seu primo me devem uma explicação.
A pausa que se seguiu não era espaço — era pressão.
— E eu quero a verdade. Porque comigo, fique sabendo… eu não vou tolerar filho viciado.
Naquele instante, confesso: me senti pequeno. Vulnerável. Encurralado.
Sem Cléon ao meu lado, o cenário ganhava contornos ainda mais dramáticos.
Enquanto o sermão se desenrolava — longo, enfático, quase litúrgico — um único pensamento me atravessava:
Cadê esse meu primo que não chega?
E então…
Ele chegou.
Como um reforço em campo de batalha.
— Muito bem, seu Cléon… sente aí também. Agora eu quero ouvir uma boa explicação dos dois.
E foi ali — naquele exato momento — que algo curioso aconteceu.
Com a presença dele, algo em mim se reorganizou.
Ganhei coragem.
Ou talvez… irresponsabilidade criativa.
Resolvi falar.
E falei.
— Tio, o senhor não precisa se preocupar.
— Como assim?
Respirei.
E comecei.
— Eu e meu primo ficamos sabendo que alguns amigos, lá das boates da Zona Sul, já fazem uso desse remédio… assim como usam maconha…
Ali nascia — sem qualquer compromisso com a realidade — a minha versão dos fatos.
E, à medida que eu avançava, algo inesperado acontecia:
Eu me sentia cada vez mais confortável.
Mais dono da situação.
Aquilo já não era mais uma defesa.
Era uma performance.
— A gente só quis experimentar… entender o que aquilo provocava…
O cenário, àquela altura, já beirava o dramalhão mexicano — e eu, sem perceber, assumia o papel principal com uma convicção quase artística.
— Quem me falou desse xarope foi o Caneca… o senhor sabe… músico… vive pelas noites…
E então mergulhei de vez:
— Um dia ele apareceu lá na esquina da Sete dizendo que tinha descoberto uma maravilha… e o pior: disse que já estava sob o efeito!
— E o que você está sentindo? — perguntei a ele, curioso…
Agora, eu já não narrava.
Eu encenava.
— “Ah, Carlinhos… não tem como explicar… é como se a cidade inteira se iluminasse… como se milhares de luzes acendessem ao mesmo tempo…”
Parei por um instante, como quem revive a cena.
— “Tudo fica maravilhoso… as pessoas, os carros, os ônibus… esse movimento todo… não dá pra descrever…”
Naquele ponto, sejamos honestos…
Eu já tinha perdido completamente o compromisso com qualquer coerência.
E, no fundo, eu sabia:
Se meu tio pedisse um pouco mais de rigor… aquilo tudo desmoronaria.
E pior…
A verdade — essa sim — era ainda mais comprometedora.
Porque aquilo não havia começado no sábado.
Aquilo vinha de antes.
E, se fôssemos seguir a lógica do meu tio…
Talvez ele estivesse certo.
Mas isso… definitivamente… não seria dito.
O problema é que ele não estava convencido.
— Não pode ser assim… todo mundo usando pela primeira vez…
A desconfiança agora ganhava forma.
— Tem um viciado nesse grupo. Alguém que levou vocês por esse caminho.
Naquele exato instante em que fomos interpelados, eu e meu primo — meu parceiro naquela travessia meio nebulosa — nos entreolhamos. Foi um olhar rápido, quase um pacto silencioso, como se uma mesma versão dos fatos brotasse simultaneamente em nós dois.
— A gente não gostou não, tio… — eu disse, quase ao mesmo tempo em que ele começava a falar. — Foi ruim… muito ruim.
Engoli seco e emendei, sentindo que precisava dar corpo àquilo:
— Eu mesmo passei mal… no domingo… tive uma diarréia daquelas.
Virei o rosto na direção dele, puxando-o para dentro da narrativa que improvisávamos:
— Primo, você também passou mal, não foi?
Ele entrou no jogo com uma prontidão quase admirável:
— Passei… no dia seguinte… fiquei com uma náusea… achei que ia vomitar.
Houve um breve silêncio depois disso, como se o ar precisasse se reorganizar ao redor da nossa versão.
Mas a pergunta já estava lançada como uma lâmina:
— Quem foi?
Silêncio.
— Diga. Ou eu vou à polícia.
E ali…
Naquela encruzilhada moral absolutamente questionável…
Eu e meu primo — que evitávamos a qualquer custo cruzar os olhares, sob o risco real de explodirmos em riso — tomamos uma decisão.
Escolhemos um nome.
Um sacrificado.
Um mártir involuntário.
Lula.
O gordinho.
Naquele instante, ele foi promovido — sem consulta prévia — a corruptor oficial da juventude.
Eu já fazia planos mentais de alertá-lo:
“Meu amigo… por um tempo… evite minha casa.”
A escolha, convenhamos, não havia sido aleatória. Lula, aos olhos da minha avó, era apenas mais um colega de colégio — desses que passam pela vida sem deixar maiores rastros. Morava longe, o que o tornava ainda mais conveniente para o papel que lhe atribuímos. Mas havia também um fundo de verdade naquela invenção: dentre todos nós, ele era, de fato, o mais ardoroso entusiasta do tal xarope.
Lula não apenas consumia o “Pam” — como o chamávamos —, ele o reverenciava. Guardava os vidros vazios como se fossem troféus silenciosos de uma liturgia particular. Uma coleção que, aos poucos, foi deixando de ser um detalhe curioso para se tornar um indício perturbador.
E foi justamente isso que o entregou.
Sua mãe, já tomada por uma desconfiança crescente, acabou por flagrá-lo um dia, em casa, com um daqueles vidros na mão. Não houve escapatória. Encurralado, pressionado contra a parede por perguntas que já não admitiam evasivas, Lula fez o que muitos fazem quando a verdade se torna insustentável: buscou companhia na queda.
Meu nome surgiu ali, como moeda de troca.
Fui imediatamente alçado à condição de cúmplice — ou talvez algo ainda pior. O resultado foi tão direto quanto implacável: assim como ele, passei a ser persona non grata em sua casa. Estávamos, ambos, interditados de uma convivência que, até então, parecia inofensiva.
Ao ouvir de mim quem era o “viciado”, meu tio pareceu, por um instante, encontrar o ponto de apoio que procurava. A revelação lhe deu uma espécie de alívio provisório — como se a desordem finalmente tivesse um nome, um rosto, um responsável.
Não plenamente — mas o suficiente.
Antes, porém, ele fez questão de registrar sua advertência final:
— Se eu souber que vocês dois usaram isso de novo… podem ter certeza… eu não terei o menor pudor de denunciar vocês à polícia.
A sentença estava dada.
O espetáculo, encerrado.
Pedi desculpas à minha avó — única pessoa ali que, de fato, não merecia nada daquilo.
E segui para a sala de jantar.
Eu e meu primo…
Ainda sem nos olharmos.
Por motivos óbvios.
Porque, se o fizéssemos…
Aquela tragédia inteira desmoronaria em gargalhada.
E, convenhamos…
Apesar de tudo…
A noite estava sendo… extraordinariamente divertida.
Mas o melhor — como sempre — ainda estava por vir.
X
Assim que terminei o jantar, eu e meu primo despencamos pelas velhas escadas do pequeno prédio — dois andares apenas, mas naquela noite pareciam uma torre inteira sendo vencida em fuga. Os degraus rangiam sob nossos pés como se também quisessem rir, cúmplices tardios daquilo tudo.
Ao alcançarmos a rua, lá estava ele: Marco Viana. Teso. Tensionado. Andando de um lado para o outro como quem guarda um segredo que não é seu — e já irritado por isso.
— Por que vocês demoraram tanto?
— Anda, Marco… vamos andando que no caminho eu te conto tudo — respondi, atropelando o ar.
— A gente precisa sair daqui… — emendou Cléon, já com a voz trêmula — porque não estamos mais conseguindo segurar o riso.
E não estávamos mesmo.
Seguimos pela Rua Imperatriz como dois conspiradores de uma alegria desgovernada, quase saltando, quase flutuando — serelepes, como se diz — enquanto o mundo, sério e alheio, seguia seu curso normal sem saber que ali passava uma pequena ruptura da ordem.
Ao cruzarmos a Ponte Maurício de Nassau, o vento do Capibaribe pareceu nos absolver por alguns instantes. E foi só ao pisarmos na Praça Joaquim Nabuco — território dos ônibus que rasgavam a cidade rumo à Zona Sul, Boa Viagem, Piedade, Candeias, Prazeres, Ipsep… esse outro Recife que já começava a ser Jaboatão — que sentimos que podíamos, enfim, respirar… e contar.
Contar tudo.
Entramos no ônibus como quem entra num confessionário às avessas. Marco sentou-se logo na primeira cadeira individual, colado à porta, quase ao lado do motorista — posição estratégica de quem prefere o mundo sob controle. Eu e Cléon ocupamos o banco duplo logo atrás, esse território perfeito para o desastre.
E então começamos.
Cada detalhe. Cada silêncio tenso. Cada invenção improvisada. Cada milésimo de segundo em que estivemos à beira de desmoronar diante do meu tio.
E quanto mais lembrávamos… mais impossível se tornava conter.
O riso veio primeiro como um soluço. Depois como uma fissura. E então… desabou.
Perdemos completamente a compostura.
Ríamos como dois condenados que escaparam por um erro do destino. Ríamos alto, sem medida, sem freio, sem qualquer noção do mundo ao redor — como se a juventude fosse, de fato, esse estado de suspensão onde a consequência ainda não tem corpo.
Marco, à nossa frente, endurecia.
Ele, que já trazia no rosto uma seriedade quase profissional, agora parecia carregar também o peso da vergonha alheia. Em certo momento, inclinou levemente a cabeça, evitando qualquer contato visual — um gesto claro, quase institucional:
“Eu não conheço esses dois.”
O motorista começou a nos vigiar pelo espelho. Primeiro com curiosidade. Depois com impaciência. E, por fim, com uma irritação que já beirava o decreto.
A cada gargalhada mais alta, seu olhar ficava mais pesado.
Por um instante, tive a nítida sensação de que ele pisaria no freio, se levantaria e, com a autoridade de quem conduz destinos e itinerários, nos expulsaria daquele microcosmo sobre rodas.
E talvez tivesse razão.
Porque, àquela altura, já não éramos apenas dois garotos rindo.
Éramos um distúrbio.
Uma anomalia sonora.
Um curto-circuito no protocolo silencioso dos deslocamentos urbanos.
Os passageiros nos olhavam com aquele misto de reprovação e desconforto que só o espaço público sabe produzir. Alguns desviavam o olhar. Outros sustentavam, como quem aguarda o desfecho de uma cena inconveniente.
E Marco… imóvel… seguia fingindo não nos conhecer.
Ainda bem que o trajeto era curto.
Porque, se dependesse da altura das nossas gargalhadas, não chegaríamos ao destino — seríamos, antes, devidamente enxotados daquele ônibus, devolvidos à rua como dois ecos indomáveis de uma alegria completamente fora de hora.
X
Assim que chegamos ao edifício onde residia Aroldo, nos apresentamos ao porteiro com uma compostura que não nos pertencia. Anunciamos, com uma formalidade quase teatral, que desejávamos falar com o morador do apartamento 51, o senhor Aroldo Bispo — como se fôssemos portadores de alguma missão respeitável e não três emissários de uma alegria prestes a transbordar.
Antes disso, claro, fizéramos uma escala estratégica: uma farmácia no antigo Edifício Califórnia — aquele relicário dos anos 1950, erguido para que os abastados da Casa Forte pudessem desfrutar seus fins de semana à beira-mar, embalados por uma ideia de elegância que já nascia nostálgica. Ali, adquirimos mais três vidros do nosso precioso líquido. Já não bastavam os anteriores — nunca bastavam. E seguimos, faceiros, como quem carrega nas mãos não um risco, mas uma promessa.
Naquele instante, firmamos um acordo tácito — breve, frágil, quase risível: encenar seriedade. Vestir, por alguns minutos, a pele de jovens ordeiros, educados, respeitadores. Um papel que, convenhamos, nos caía tão mal quanto um terno emprestado em corpo inquieto. Éramos desordeiros de uma linhagem que hoje me parece rarefeita — ou talvez seja apenas a distância do tempo que me faça crer nisso. Afinal, somos agora sobreviventes de uma era analógica, das cartas manuscritas, atravessando — quase incólumes — a vertigem da inteligência artificial.
O Bispo autorizou nossa subida. Entramos no elevador em silêncio, mas por dentro éramos um tumulto. As gargalhadas do ônibus ainda ecoavam em nós como um trovão represado. Era preciso conter. Era preciso parecer. E assim seguimos, sufocando o riso como quem segura um segredo inflamável.
A porta se abriu.
— Rápido, entrem — disse ele, sem cerimônia. — Meus pais não devem demorar.
A urgência nos organizou. Havia uma operação em curso. Reunimos o essencial — ou aquilo que, naquela noite, definia o essencial: uma pequena vitrola, discos escolhidos a dedo, uma extensão elétrica, salgadinhos, cigarros, uma Coca-Cola de um litro… e, claro, os nossos vidros de Pam. Cada qual com o seu. Intransferível. Ritual íntimo de uma coletividade paradoxal.
Subimos com aquele arsenal improvisado até o topo do edifício. Da casa de máquinas, atravessamos uma passagem estreita e emergimos na laje — nosso território suspenso.
Dali, o mundo se abria.
À direita, uma mansão iluminada onde algumas figuras elegantes pareciam celebrar algo que jamais saberíamos o quê. À frente, a recém-inaugurada Avenida Domingos Ferreira — ainda uma estrada de terra, ainda promessa, ainda esboço de cidade.
Ligamos a vitrola numa tomada que o Bispo já conhecia — ele era frequentador antigo daquele refúgio aéreo. Ali, dizia ele, dava para respirar melhor. Ver mais longe. Sentir o vento do mar como uma linguagem secreta.
E viajar.
Porque, naquela noite, a carruagem sideral tinha nome: codeína.
Os primeiros acordes de Fragile se espalharam pelo ar — mas, curiosamente, a música ocupou um lugar secundário. Era cenário, moldura, atmosfera. O protagonismo era outro: uma alegria em estado bruto, irreprimível, quase selvagem.
E ela nos tomou.
Com o tempo, até Marco — sempre ele, guardião involuntário da sobriedade — começou a ceder. Primeiro um esboço de sorriso. Depois um riso contido. E, por fim, rendido àquela dança sem coreografia, contagiado pela torrente que eu e Cléon ainda despejávamos, resquícios da tensão vivida horas antes.
Ríamos de tudo.
De cada gesto. Cada frase. Cada perigo que havíamos atravessado. Ríamos da seriedade dos mais velhos — essa estrutura rígida que, por vezes, mais oprime do que protege. Lembrei, ali, de uma ideia de Mikhail Bakhtin: o riso corrói o poder por dentro. E nós, sem saber, éramos pequenos agentes dessa corrosão.
Nossos pais eram, ao mesmo tempo, escudo e contenção. Amor e limite. E naquela noite, o peso da autoridade ainda vibrava na lembrança do meu tio, com sua severidade quase institucional.
Mas ali… ali era outra coisa.
A noite era pura fruição.
Uma primavera mansa nos envolvia, e a brisa do mar nos acariciava como um bálsamo antigo, como se estivéssemos todos abrigados dentro de um mesmo sopro. Ríamos alto — alto demais. Rivalizávamos, em volume e intensidade, com a festa que acontecia lá embaixo na mansão vizinha. Talvez fôssemos menos. Mas éramos mais.
— Ei, mais baixo! — alertava o Bispo, vez ou outra.
Inútil.
A alegria não tem regulador.
Em dado momento, já não sabíamos exatamente do que ríamos. As histórias começaram a se repetir, os episódios se embaralhavam — inclusive aquele sábado inexplicável em que, por alguma conjunção misteriosa, fomos parar os seis na casa da minha namorada.
Quando o repertório se esgotou, alguém sugeriu:
— Vamos contar piadas.
Era uma tentativa quase técnica de conduzir o riso ao esgotamento. Um plano fadado ao fracasso.
— Me conta uma piada suja… bem pesada — pedi a Cléon, já exausto.
Ele não hesitou:
— Um elefantinho caiu na lama.
E então…
desabamos.
Rimos como se aquela fosse a mais sofisticada construção humorística já concebida pela humanidade. Rimos por minutos inteiros — cinco, talvez mais. Rimos como crianças. Porque, no fundo, éramos ainda isso: meninos disfarçados de adolescentes, com a quinta série intacta em algum lugar do espírito.
Até que, como sempre, foi Marco quem nos trouxe de volta ao mundo:
— Carlinhos… já está ficando tarde. A gente precisa ir. Daqui a pouco não tem mais ônibus.
E ali, naquele instante, a realidade fez sua primeira tentativa de retorno.
Mas confesso: o que aconteceu depois se perdeu.
Há um lapso. Um desses buracos de memória que certas substâncias gentilmente nos oferecem. Não me lembro exatamente como descemos com todo aquele aparato até o apartamento. Era quase certo que os pais do Bispo já estivessem em casa. Não sei como fomos recebidos. Nem o que foi dito. Nem como escapamos de um interrogatório que, àquela altura, seria inevitável.
Só sei que, de algum modo — e isso talvez seja o mais fascinante —, saímos.
Como se a noite, cúmplice, ainda nos concedesse mais um salvo-conduto.
X
Alguém — não sei mais quem — disse certa vez que a juventude precisa de suas pequenas transgressões. Não aquelas que nos perdem, mas aquelas que nos salvam. Travessuras luminosas, quase inocentes, que nos enchem de riso e nos deixam marcas invisíveis — dessas que o tempo não apaga, apenas amadurece.
Porque um dia — inevitavelmente — o corpo cansa.
Os filhos crescem e partem.
Os amigos se dispersam pelo mapa do mundo… ou pelo silêncio definitivo da ausência.
A casa se torna maior do que deveria.
E a solidão, às vezes, senta-se ao nosso lado como uma visita que veio para ficar.
É então que a memória abre suas janelas.
E lá estão elas.
As gargalhadas sem freio.
As noites improváveis.
As pequenas ousadias que, à época, pareciam imensas.
Elas voltam não como arrependimento, mas como abrigo. Como um bálsamo fresco nos dias em que a luz parece enfraquecer. Como uma energia antiga que insiste em nos lembrar: você viveu.
Nós — os garotos daqueles tempos áureos — carregamos um patrimônio invisível. Um acervo de histórias que talvez um dia contemos aos netos… se eles tiverem paciência para ouvir. E, ao contá-las, algo curioso acontece: não é apenas a memória que retorna — é a própria alegria que nos visita de novo, como se nunca tivesse partido.
Lembro-me agora de algo que escrevi em outro tempo, em outro conto. Dizia eu que sinto uma imensa saudade daqueles dias em que éramos felizes… e ninguém estava morto.
E a saudade — como nos ensinou Rubem Alves — é a inclinação da alma na direção das coisas amadas que se perderam. No fundo, onde ela habita, não existe esquecimento. Porque ali só vivem as coisas que foram verdadeiramente amadas. E o amor… o amor não aceita o esquecimento.
Hoje, ao revisitar essas passagens quase míticas da minha própria vida, percebo que não estou apenas lembrando. Estou resgatando. Retirando de alguma gaveta empoeirada da mente aquilo que o tempo tentou suavizar, mas nunca conseguiu apagar.
É verdade: envelhecemos.
Os cabelos embranquecem.
Os passos desaceleram.
E a paciência — essa mestra silenciosa — se instala onde antes havia pressa.
Mas há algo mais.
Se você olhar com atenção, perceberá que não somos apenas corpos atravessados pelo tempo. Somos testemunhas. Somos sobreviventes de uma das mais radicais transformações da história humana — uma geração que atravessou a ponte entre o mundo analógico e o digital sem perder, no caminho, aquilo que nos torna humanos.
Dizem — li em algum lugar — que fomos uma das gerações mais felizes que já existiram.
E, olhando para trás… eu acredito.
Porque há uma felicidade que não depende do presente. Ela se instala naquilo que foi vivido com intensidade. E isso… isso ninguém nos tira.
Hoje, talvez nos vejam como relíquias.
Mas não somos.
Somos pontes vivas.
Carregamos em nós uma memória que o mundo moderno precisa escutar — a de que o progresso não precisa apagar a delicadeza, nem substituir a experiência, nem silenciar a sabedoria.
Que vida vivemos!
Que história ainda carregamos.
E você, meu velho amigo, que me lê agora — saiba: você pertence a algo raro. A algo que não se repete.
Olhe-se no espelho hoje.
Mas olhe de verdade.
Você não está apenas envelhecendo.
Você está se tornando história.
Você atravessou um tempo que poucos compreenderão em sua totalidade. E, talvez, da forma mais silenciosa e profunda… estejamos todos nos tornando um pouco lendários.
E se fomos felizes um dia —
saiba:
seremos felizes para sempre.
Carlos Pessegatti (Carlinhos)
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