Entre Dois Rios e Nenhum Tempo (A Conspiração Aurora)

Entre Dois Rios e Nenhum Tempo

A Conspiração Aurora





  — Plano TXT em ação!

Foi essa a senha, quase solene, que ouvi ao telefone por volta das onze da noite, numa primavera qualquer que ainda hoje insiste em não envelhecer dentro de mim.

O telefone ficava estrategicamente ao lado do meu chefe — o lendário Mestre Timba — soberano absoluto daquela sala de digitação no oitavo andar do prédio do Bandepe, no Recife Antigo. Dali ele regia, com olhar atento e uma paciência quase burocrática, o balé mecânico das teclas e dos números.

Eu cumpria o turno da noite — das sete da noite à uma da madrugada — naquela rotina de códigos, cheques, fichas e dados que, àquela altura da vida, já nos parecia excessivamente comportada para o tanto de inquietação que carregávamos.

Mas naquela noite, havia um plano.

Eu e Ciro havíamos combinado, com a seriedade própria das grandes conspirações inúteis, escapar mais cedo do trabalho.

O destino: as margens do Capibaribe, naquele ponto em que ele encontra o Beberibe — uma confluência silenciosa, onde as águas pareciam hesitar por um instante antes de seguir. 

Ciro, naquele tempo, trabalhava no Banco Nacional do Norte — ironicamente ocupando a vaga que um dia fora minha. Seu turno começava antes do meu, às seis da tarde, e terminava à meia-noite. A engenharia do plano previa precisão: ele sairia uma hora antes, eu duas.

E então veio o toque de genialidade — ou de irresponsabilidade, dependendo do ponto de vista.

O tal Plano TXT consistia numa pequena encenação telefônica: um de nós ligaria para o outro, assumindo o papel de um cunhado aflito, enviado pelas esposas, anunciando uma emergência doméstica irrefutável — uma filha recém-nascida com febre alta, resistente a qualquer medicamento.

Era impossível competir com um drama desses.

De posse da notícia, aproximei-me de Mestre Timba com a gravidade de um ator em sua melhor cena. Expliquei a situação, carregando na voz o peso da urgência. Ele, humano como normalmente se permitia ser, autorizou minha saída imediata.

Atravessei a velha ponte Maurício de Nassau com uma leveza que não combinava em nada com o drama recém-encenado. Ao chegar à pracinha dos Diários — onde o Diário de Pernambuco observava tudo com sua habitual indiferença — encontrei um orelhão próximo à Av. Dantas Barreto, local onde ficava a agência matriz do Banorte. Ali, cumpri meu papel na engrenagem da farsa: liguei para Ciro e repeti, com igual dramaticidade, o mesmo roteiro.

Minutos depois, ele surgiu — não com a expressão aflita de um pai desesperado, mas com um sorriso que entregava tudo.

Sem trocar muitas palavras, pegamos um táxi logo no início da Avenida Guararapes e seguimos para a Encruzilhada. Havia ainda um detalhe essencial naquele ritual: a parada obrigatória na lendária Farmácia dos Pobres, aberta madrugada adentro, atendendo por uma fresta na porta, como se vendesse segredos em vez de remédios.

Ali, adquirimos nosso insubstituível companheiro de jornada: o xarope Pambenyl.

De posse do “elixir”, retornamos no mesmo táxi — agora não mais fugitivos, mas exploradores oficialmente descompromissados com qualquer responsabilidade imediata.

Destino final: a Rua da Aurora.

 

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Ao chegarmos ao nosso destino, escolhemos um dos bolsões de estacionamento que margeavam a rua — uma rua tão larga que mais parecia uma avenida, com suas duas pistas de cada lado e uma ilhota tímida separando os fluxos, como se tentasse impor ordem àquela vastidão urbana.

Ao longo daquele extenso trecho que vinha desde o centro da cidade, havia três desses bolsões, improvisadas concessões de espaço para prédios que, erguidos sem garagens, dependiam daquela borda entre o asfalto e o rio.

Era ali, justamente nesse intervalo — entre a cidade e a água — que ficava o nosso território.

No limite desses estacionamentos, já quase invadindo a margem do rio, estendia-se um longo banco de cimento, frio e silencioso, que àquela hora da noite nos pertencia por inteiro. Era ali que se instalaria a nossa assembleia informal — uma reunião sem pauta, sem ata e, sobretudo, sem hora para terminar.

À frente, quase como sentinelas discretos, pequenos postos de gasolina resistiam à madrugada. Eram mínimos: duas bombas alinhadas, uma ao lado da outra, e uma geladeira baixa, dessas de comércio modesto, onde repousavam algumas garrafas de água, sucos, cervejas e uma ou outra Coca-Cola, aguardando clientes tão ocasionais quanto nós.

Mas havia um detalhe importante — estratégico, até.

Dois jovens sentados à beira do rio, na penumbra, poderiam facilmente despertar suspeitas nas rondas policiais que, de tempos em tempos, atravessavam aquela via. E nós, ainda que inocentes em essência, éramos profundamente conscientes do mundo ao nosso redor.

Foi então que criamos nossa própria camada de disfarce.

Levávamos conosco, dentro de mochilas de couro a tira-colo — dessas que os últimos ecos do movimento hippie ainda insistiam em manter vivas, mesmo já em 1978 — alguns manuais bancários, ostentando orgulhosamente os logotipos das instituições onde trabalhávamos.

Chegávamos ao posto com os livros nas mãos, como quem carrega responsabilidades. Pedíamos uma cerveja, pagávamos adiantado e, com naturalidade ensaiada, avisávamos que iríamos nos sentar ali, à beira do rio.

E então começava o teatro.

— E como estão as mudanças lá no Bandepe? — perguntava Ciro, com um ar de preocupação quase acadêmica.

— Rapaz… aquilo lá está meio enrolado. Ainda não sabemos no que vai dar — respondia eu, grave, como se estivesse à beira de uma decisão institucional histórica.

Tudo aquilo tinha um único propósito: parecer.

Parecer que éramos dois jovens aplicados, discutindo burocracias e reformas administrativas, quando, na verdade, nem nós sabíamos ao certo para onde a conversa nos levaria naquela noite.

E por que tanto cuidado?

Porque, se uma ronda policial resolvesse parar ali — e isso não era raro — bastaria uma pergunta ao frentista para que toda a nossa encenação fosse colocada à prova. Queríamos que, se interrogado, ele pudesse dizer, com convicção, que nos ouvira falar de trabalho, de banco, de coisas sérias. Qualquer coisa que nos afastasse de suspeitas mais… criativas.

Eram outros tempos. E os “meganhas”, como dizíamos, não eram exatamente conhecidos pela delicadeza.

Instalados no banco de cimento, sentávamo-nos frente a frente. Entre as pernas, a cerveja. Entre nós, o silêncio cúmplice de quem sabe que a noite ainda está só começando.

E então vinha o ritual.

Um gole generoso do nosso precioso xarope — o suficiente para que a codeína começasse, lentamente, a redesenhar o mundo ao nosso redor.

Por precaução, os frascos não ficavam conosco. Eram cuidadosamente escondidos à distância, debaixo de alguma árvore próxima — uma pequena medida de segurança, caso a noite resolvesse nos testar com uma abordagem inesperada.

Ali, entre o cálculo e o delírio, entre a vigilância e a liberdade, começava, de fato, a nossa noite.


Dali, sentados à beira do rio, podia-se ver o desenho curvo dos fundos do Palácio das Princesas acompanhando o encontro dos dois rios, como se a própria arquitetura tivesse aprendido a se dobrar à geografia. As luzes da cidade se refletiam na superfície escura, fragmentadas pelo movimento lento das correntes, enquanto o palácio, sereno, observava tudo como um guardião antigo. 

Ao fundo, o Recife se erguia em planos de luz e sombra, e nós, entre um gole e outro de liberdade, assistiríamos àquele espetáculo como quem, por algumas horas, havia escapado completamente do mundo.



Aquilo era essencial.

Porque seria a partir daquele instante que tudo começaria a se deslocar — lentamente, quase imperceptível no início — como se a própria noite ajustasse seus contornos para nos acolher em outra frequência.

A codeína, silenciosa e paciente, iniciaria o seu trabalho.

E tudo aquilo que havíamos ido buscar — sem saber exatamente nomear — começaria, enfim, a se revelar.

O rio deixaria de ser apenas rio.
A cidade, mais do que cenário.
O tempo… menos rígido.

O que se anunciava ali não era apenas uma noite diferente, mas uma espécie de travessia: sair da superfície conhecida das coisas e tocar, ainda que por algumas horas, uma borda mais rarefeita da realidade.

Algo que não cabia na lógica dos dias.

Algo que se sentia mais do que se compreendia.

Uma experiência quase cosmo-sensorial — como se, entre um gole e outro, entre uma risada e um silêncio, nos aproximássemos de uma frequência oculta, sempre presente, mas raramente acessível.

Mas isso… ainda estava por começar.



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Havia, contudo, um detalhe que não pode passar despercebido — quase uma ausência inaugural, dessas que, ao invés de faltar, fundam.

Naquelas noites, a música — nossa eterna companheira nas viagens cósmicas que inventávamos para sobreviver ao mundo — não estava presente.

E, ainda assim, tudo era música.

As luzes da cidade, piscando ao longe como pirilampos urbanos, começavam a se dissolver no escuro, enquanto outras, mais íntimas e indecifráveis, acendiam-se dentro de nós, em pontos que nenhum mapa ousaria registrar. O rio exalava seu cheiro antigo, denso, quase mineral, e a brisa que vinha do mar tocava a pele como um sopro de origem remota — algo entre lembrança e presságio.

Era então que o inaudível se organizava.

Sem instrumentos, sem melodia reconhecível, sem compasso que pudesse ser contado, tudo ao redor — e dentro — passava a vibrar como uma sinfonia secreta. Uma música sem autoria, feita de lampejos, de correntes, de respirações e silêncios, que nos conduzia, sem aviso, por territórios onde o pensamento já não comandava.

E os devaneios vinham.

Permitidos ou não.
Desejados ou não.
Pressentidos ou absolutamente inesperados.

Eles emergiam como quem sempre esteve ali, à espreita, aguardando apenas a suspensão do mundo ordinário para se manifestar em sua forma plena.

E então compreendíamos — ainda que sem palavras — que talvez, naquela noite, naquele ponto exato entre a cidade e o rio, entre o corpo e o que o excede, nossas músicas de cabeceira… aquelas que tantas vezes haviam nos conduzido…

simplesmente não eram mais necessárias.

Porque nós próprios — atravessados, abertos, em estado de escuta — havíamos nos tornado a própria música.


E então… já não éramos exatamente nós.

Havia um instante — impossível de marcar no relógio — em que o eu começava a se desfazer, não em ruptura, mas em diluição. Como se algo em nós, cansado de fronteiras, resolvesse escorrer para dentro da paisagem. Já não sabíamos ao certo onde terminava o corpo e onde começava o rio. A brisa atravessava sem pedir licença, as luzes nos habitavam, e o pensamento… esse já não comandava coisa alguma.

Éramos atravessados.

Pelo tempo, pela noite, por uma vibração que não tinha nome, mas que nos reorganizava por dentro. Cada sensação parecia expandir-se para além de si mesma, como se carregasse ecos de algo muito maior — algo anterior, talvez, à própria ideia de mundo.

E, de repente, tudo acelerava.

Não como um movimento externo, mas como uma compressão silenciosa do tempo. A noite, que em outras circunstâncias se arrastaria lenta e pesada, ali se contraía — como se fosse sugada por uma força invisível. Um segundo continha horas. Um olhar, uma eternidade.

Era como se tivéssemos sido abduzidos.

Arrancados do fluxo comum e lançados numa travessia sideral, onde o tempo já não obedecia às mesmas leis. Viajávamos — não sabíamos para onde — numa velocidade que não se media em quilômetros, mas em intensidade. E, como nos relatos improváveis daqueles que dizem ter ido e voltado, o descompasso se impunha: lá, alguns instantes; aqui… uma madrugada inteira desfeita.


Quando demos por nós, o dia já estava ali.

O sol irrompeu pela Rua da Aurora — fiel ao seu nome — como quem anuncia o retorno inevitável. Ali, a luz chegava primeiro, invadindo tudo, redesenhando contornos, expulsando suavemente os vestígios daquela outra realidade que, há pouco, nos parecia mais verdadeira do que qualquer outra.

Voltávamos.

Mas não os mesmos.

Algo havia sido tocado — e, uma vez tocado, não se recolhe mais. Nossos sentidos, agora, carregavam uma memória ampliada do mundo. Como se tivéssemos aprendido, ainda que por algumas horas, a escutar frequências que permanecem ocultas na vida comum.

E então vinha a parte mais delicada da travessia: o retorno ao cotidiano.

As casas. As esposas. As explicações.

Era preciso sustentar a versão mais plausível: duas pessoas que, como sempre, haviam se perdido em conversas intermináveis — daquelas que começam sem rumo e terminam sem conclusão. E, de fato, não era exatamente mentira. Apenas não era toda a verdade.

Íamos juntos, um à casa do outro, quase como quem oferece prova material de inocência.

E elas, sábias à sua maneira, aceitavam.

Não sem antes decretar, com a firmeza de quem governa o dia:

— Não quero saber se você dormiu ou não. Hoje você prometeu levar as crianças ao parque. Então tome o que for preciso… porque eu quero você bem acordado.

E ali, diante daquela sentença simples e irrefutável, compreendíamos que toda viagem tem um preço.

O dia se tornava denso, arrastado, quase hostil. O corpo, ainda preso a outra frequência, resistia ao retorno. Mesmo jovens, havia um limite — e ele se fazia sentir em cada gesto, em cada tentativa de parecer funcional dentro de um mundo que, naquele momento, nos parecia excessivamente concreto.

Mas, no fundo… havia um segredo.

Um leve sorriso interno, quase imperceptível.

Porque, apesar do cansaço, apesar do peso do dia, apesar das obrigações que nos puxavam de volta…

sabíamos.

Sabíamos que, na noite anterior, havíamos tocado algo raro.

Algo que não se explica, não se prova, não se repete à vontade.

Uma fresta.

E, por mais penoso que fosse o dia…

não havia como estragá-lo completamente.

Porque a noite — ah, a noite —
tinha sido absolutamente nossa.

















 

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