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Perto da Borda

  Perto da Borda Saímos naquela manhã do Colégio Esuda com a leveza de quem acabara de atravessar mais uma prova — não apenas escolar, mas quase iniciática. Era o ano mágico de 1972, e havia no ar uma promessa difusa, como se o mundo estivesse prestes a se revelar de outra maneira. Passava das dez e meia quando encontrei Aroldo Bispo à porta do colégio. Sem grandes cerimônias, como convém às amizades verdadeiras, decidimos seguir até Boa Viagem, almoçar em sua casa e deixar o dia nos conduzir. Descemos pela Rua Corredor do Bispo, aquela diagonal discreta que liga a Rua do Príncipe à Gervásio Pires, e dali ao pulsar nervoso da Avenida Conde da Boa Vista. Caminhávamos em estado de liberdade recém-conquistada, inventando possibilidades, como se o tempo nos pertencesse. Ao alcançar a avenida, já viva e tumultuada, uma brisa vinda do mar nos tocou. Trazia consigo algo mais que o vento — uma espécie de presságio. Misturava-se aos odores do Capibaribe, e naquele instante tive a impressão ...

Nelson, de Aracaju a Bahia

"Naquele sábado, havíamos nos preparado para irmos a um dos bailinhos da cidade. Vestimos as nossas melhores “becas”, todas elas, obviamente, estampadas em xadrez ou com listras nas cores mais diversas, como se aquelas cores gritassem por nós aquilo que ainda não sabíamos dizer. Elas haviam sido confeccionadas pelo nosso grande alfaiate Macedo, uma das bichas mais desvairadas daqueles tempos, figura quase mítica naquele pequeno universo de vaidades juvenis. Como de costume, nos encontramos na esquina da Rua Sete de Setembro, local que normalmente funcionava não só como ponto de encontro, mas também de onde se davam as partidas e chegadas — uma espécie de portal onde a vida começava e recomeçava a cada noite. Hoje em dia, com essa história do “politicamente correto”, o mundo ficou mais chato e careta e as pessoas já não podem mais falar esse tipo de coisa, como chamar alguém de bicha, por exemplo, pois isso pode revelar preconceito e dar até cadeia já que o indivíduo pode ser cha...

Os segredos de François Hold

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Esta história se passa em um  único dia na provinciana Recife do início dos anos 1970 Capítulo I Ciência X Religião – A Física propõe uma trégua Em uma inesperada e ensolarada tarde de maio, saí do Colégio Esuda bastante intrigado com algumas ideias que o nosso professor de física nos transmitira em sua aula.  Eu estava no segundo ano do curso Científico, nome que se dava ao que hoje conhecemos como Ensino Médio. Foi um período da minha vida onde praticamente todos os dias uma enxurrada de novos conhecimentos me eram apresentados e todas aquelas informações aguçavam ainda mais a minha curiosidade juvenil, sobretudo porque eu me encontrava em uma idade onde as coisas costumavam soar realmente como novas e cheias de mistérios. Naquela época, o Científico estava voltado para as ciências exatas, enquanto o Clássico era indicado para os alunos que iriam prestar o vestibular de Humanas.  Existia ainda o Biológico, que era direcionado a aqueles que iriam fa...