A CASA DOS ESPÍRITOS

                     A CASA DOS ESPÍRITOS

Estávamos em julho de 1966.

Naquelas férias escolares, vim de Fortaleza — onde morava com minha mãe e meu padrasto — para passar uma temporada no Recife, ao lado da minha avó.
Mas talvez o que já habitasse silenciosamente dentro de mim, havia algum tempo, fosse um desejo mais profundo: o de voltar a morar ali definitivamente.

Assim que cheguei à pensão administrada pela minha querida avó, ela me levou até o seu quarto e mostrou o presente que me aguardava.

Sobre o guarda-roupa, repousava uma linda bicicleta reluzente, como uma promessa suspensa no tempo, esperando apenas que alguém a conduzisse com aquele espírito livre e absoluto que só pertence às crianças.

Lembro-me dela até hoje.

Era uma Monark, edição especial lançada em homenagem à Copa do Mundo daquele mesmo ano.

Modelo: BR-66.

Diante daquela recepção calorosa e daquele presente fabuloso, fui imediatamente tomado por uma euforia difícil de descrever. Passei a imaginar, ansiosamente, o momento em que poderia finalmente estreá-la.

Como minha avó morava no centro da cidade, eu teria de esperar a chegada da noite, quando a rua onde ficava a pensão — administrada por ela com mãos firmes e disciplina de quartel — se tornava menos movimentada.

A Rua Martins Jr. era pequena, curta, quase uma passagem escondida entre a Rua Sete de Setembro e a Rua do Hospício.

Apesar de situada no coração agitado do bairro da Boa Vista, ela adquiria um silêncio particular quando a noite caía sobre o Recife.

Antes mesmo de estrear a bicicleta, pedi à minha avó que me levasse até a mais famosa loja de departamentos da cidade: a Casa Viana Leal.

Eu queria comprar um carrinho de Autorama.

Na verdade, queria adquirir apenas um carro de cada vez, comprando as peças aos poucos para eu mesmo montá-lo. Não tinha coragem de pedir um Autorama completo — sonho absoluto de quase todos os meninos daquela época — porque era caro demais e eu não queria que minha avó gastasse ainda mais dinheiro comigo. Afinal, eu já havia acabado de ganhar aquela bicicleta maravilhosa.

Numa noite de semana, voltando da casa da minha tia — que morava no Edifício Ouro, na esquina da Rua Sete de Setembro com a Avenida Conde da Boa Vista, aquela esquina que anos depois se transformaria em um dos grandes pontos de convergência da minha adolescência — encontrei aquele que viria a se tornar um dos amigos mais importantes da minha infância: Jorge Lins.

Em 1966, eu tinha apenas doze anos.

Ele estava parado diante do prédio onde eu morava, encostado em um dos muitos carros estacionados diante do Edifício Amazonas, onde residia.

Por alguma razão inexplicável, aproximei-me dele e comecei a conversar.

Contei que já havia morado ali quando era menor e que passara um longo período distante, vivendo em Fortaleza com minha mãe.

Em determinado momento daquela conversa inaugural, ele me perguntou de forma direta:

— Tu gosta de Autorama?

Meus olhos quase brilharam.

— Rapaz, acabei de comprar um carrinho. Ainda estou montando.

Ele então respondeu imediatamente:

— Então aparece lá em casa qualquer dia desses pra gente fazer uma corrida.

Ali nascia uma amizade que atravessaria décadas.

Foi justamente naquele instante — quando parecíamos celebrar silenciosamente uma espécie de pacto infantil de amizade — que surgiu Caneca.

Assim como Jorge, ele também morava no Edifício Amazonas.

Ao me ver, foi curto, seco e direto:

— O que esse puto tá fazendo aqui?

Por algum motivo que nunca compreendi inteiramente, minha chegada parecia desagradá-lo.

Talvez me julgasse comportado demais para integrar aquele grupo de garotos vistos pela vizinhança como pequenos arruaceiros.

Foi graças à insistência do Jorge — que pareceu reconhecer alguma coisa em mim antes mesmo que eu próprio reconhecesse — que comecei a me aproximar daquela turma.

Com o passar do tempo, eu, Jorge e Caneca nos tornamos inseparáveis.

Uma amizade tão sólida que acabou se transformando numa espécie de irmandade resistente ao próprio tempo.

Depois daqueles primeiros momentos de desconfiança e certa hostilidade, minha presença foi sendo lentamente aceita por aquele grupo de pivetes desordeiros — como eram conhecidos pelas pessoas do bairro.

Além de Jorge e Caneca, a turma ainda contava com outras figuras já bastante célebres pelas redondezas, como Marco Viana e Zé Elízeo.


Em determinado momento, Jorge me perguntou abruptamente:

— Tu tem bicicleta?

— Tenho. Ganhei agora há pouco.

Ele abriu um sorriso:

— Então vamos marcar uma noite dessas pra dar umas voltas pelo bairro.

Na sequência, começou imediatamente a traçar o percurso dos nossos futuros passeios.

A ideia era irmos até uma rua próxima dali, onde as donas de casa costumavam colocar cadeiras de balanço nas calçadas e passavam as noites conversando animadamente, enquanto os filhos brincavam sob seus olhos atentos.

A Rua da Glória era estreita, sinuosa e cheia de casas antigas.

As calçadas eram tão altas que, em algumas delas, era preciso subir pequenos degraus para alcançar a porta das residências.

Segundo Jorge, aquele era o lugar ideal para nossos passeios noturnos.

— Ali tem muita moçoila bonita — dizia ele.

Caminhando por aquela rua animada nas noites do Recife, teríamos boas chances de paquerar algumas meninas.

Com o tempo, descobri que havia, de fato, um fundo de verdade nisso.

Mas apenas para Jorge.

Não para mim.


———————————— X————————————-


Saíamos por volta das oito da noite, quando o movimento incessante de carros e pessoas já começava a diminuir.

Eu e Jorge pegávamos nossas reluzentes bicicleta e seguíamos em direção à Rua do Hospício que, daquele trecho até a Praça Maciel Pinheiro, era dividida em duas pistas separadas por um enorme corredor de mangueiras antigas.

Percorríamos sempre o lado mais tranquilo da via, onde quase não circulavam automóveis e os carros permaneciam apenas estacionados sob a sombra pesada das árvores.

Ao chegarmos diante da Matriz da Boa Vista — aquela imensa igreja onde fui batizado, fiz minha Primeira Comunhão e servi como coroinha aos nove anos de idade — atravessávamos a Rua da Imperatriz e seguíamos pela Rua da Matriz, estreita e silenciosa, margeando a lateral do templo.

Depois de cruzarmos aquela pequena viela e atravessarmos a Rua Velha, finalmente chegávamos ao nosso destino, já com a certeza de que ali nossa pequena festa noturna começaria.

E éramos sempre muito bem recebidos.

Ou melhor… talvez pelas garotas.

Os rapazes da rua, não.

Para eles, éramos concorrentes invasores.

Vez por outra, algumas meninas criavam coragem e vinham nos cercar em pequenos bandos, puxando conversa entre risos e olhares tímidos.

Foi ali que descobri que minha sorte jamais se compararia à do Jorge.

Ele, desde muito cedo, passou a ser conhecido entre nós como o Humphrey Bogart do grupo — o galã natural da turma.

E, obviamente, eram para ele que as moçoilas daquela rua lançavam seus olhares mais demorados.

Eu, coitado, acabava sempre meio escanteado.

O tempo foi passando.

Crescemos.

E aquelas nossas incursões noturnas pela Rua da Glória foram, lentamente, desaparecendo do nosso itinerário sentimental.

A Rua Sete de Setembro, com seu famoso “murinho” e sua esquina lendária, acabou nos absorvendo completamente.

Além disso, estávamos ficando mais velhos e desejávamos descobrir novas paisagens, novos rituais, novas aventuras.

Os bailes espalhados pela cidade, as sessões da meia-noite no Cine São Luiz e as boates da zona sul passaram então a ocupar nossas noites e a redefinir nossos horizontes de diversão.

Entretanto, numa dessas noites que parecem surgir apenas para nos trazer revelações inesperadas, lembrei-me daqueles antigos passeios de bicicleta pelas ruas do bairro e resolvi fazer uma proposta ao Jorge.

A mãe dele havia acabado de comprar um Fusca.

Como não tinha a menor vontade de dirigir, ordenou ao filho — que acabara de completar seus tão aguardados dezoito anos — que tirasse carteira de habilitação, pois seria ele o encarregado de conduzir o carro dali em diante.

E assim aconteceu.

Jorge passou a levá-la diariamente ao trabalho, buscá-la no final do expediente e, em algumas noites escolhidas por ela, conduzi-la até a casa de parentes e amigas.

Sabendo que aquele Fusca poderia nos transportar para um novo estágio das nossas aventuras juvenis — muito além das antigas bicicletas que haviam embalado nossos passeios “românticos” pelo bairro — perguntei se ele não conseguiria convencer a sua mãe a nos emprestar o carro numa dessas noites.
Afinal, percorrer aquelas mesmas ruas dentro de um automóvel nos parecia algo infinitamente mais sofisticado.
Era como subir mais um degrau em direção ao mundo adulto.

E, convenhamos, embora a Rua da Glória fosse extensa o suficiente para aqueles intermináveis trajetos de bicicleta que fazíamos na adolescência, ela se tornava pequena demais para um passeio de automóvel. Claro que ainda passaríamos por lá, mesmo que rapidamente, deslizando devagar pelas calçadas na esperança de flertar agora já não mais com meninas, mas com algumas jovens moças que começavam a surgir naquele nosso horizonte sentimental. Mas aquilo, sozinho, já não bastava.

Quando sugeri ao Jorge pegar o Fusca emprestado, eu tinha em mente incursões um pouco mais adultas. Imaginava-nos atravessando as pontes em direção ao Recife Antigo, naquela época ainda marcado pela atmosfera boêmia e decadente da velha “Zona”, como todos conheciam a região dos prostíbulos do porto. Não passava pela minha cabeça entrar em nenhum daqueles lugares nem procurar prostitutas. O fascínio era outro. Era apenas circular por aquelas ruas úmidas e mal iluminadas, observar o movimento dos bares, os marinheiros, os táxis, as figuras noturnas que iam e vinham pelas calçadas estreitas, sentindo pela primeira vez aquele estranho perfume de liberdade, pecado e aventura que parecia pairar sobre o cais recifense.

Fiz a proposta no final de uma tarde quente de quarta-feira.

— Carlinhos… vou perguntar à minha mãe. Se ela deixar, te aviso e a gente sai hoje mesmo.

Fomos jantar em nossas respectivas casas e, assim que terminei, atravessei a rua em direção ao apartamento dele, quase em frente ao meu.

Entrei ansioso.

— E aí? O que tua mãe respondeu?

Jorge fez uma pequena pausa antes de responder:

— Carlinhos… ela até falou que empresta o carro… só que…

— Só que o quê?

Não sei por quê, mas naquele instante senti uma espécie de pressentimento atravessar meu corpo.

Como se alguma coisa, ainda invisível, começasse lentamente a se aproximar.

— É que ela quer que eu leve ela primeiro lá na Várzea.

O bairro da Várzea não carregava aquele nome por acaso.

Localizado no final da imensa Avenida Caxangá, era praticamente uma grande várzea tomada por terrenos úmidos, ruas escuras e uma atmosfera meio isolada do restante da cidade.

— E o que ela vai fazer lá? — perguntei, curioso.

Jorge abriu um sorriso enviesado.

— Rapaz… acho que tu, medroso do jeito que é, não vai gostar não.

Senti um arrepio imediato.

— Fala logo caráio… o que tem lá?

Ele então respondeu com uma naturalidade perturbadora:

— Ela vai visitar uma sensitiva.

— Sensitiva? O que é isso?

— É uma mulher que baixa uns espíritos.

Naquela época, eu não tinha o menor conhecimento sobre espiritismo ou mediunidade.

E pior: carregava dentro de mim um medo absolutamente pavoroso de qualquer coisa ligada a assombração.

Quando Jorge revelou o verdadeiro motivo daquela viagem, senti meu corpo estremecer por inteiro.

— Cara… se tu quiser sair de carro hoje à noite, vai ter que ir comigo até lá.

Ele já dizia aquilo se divertindo antecipadamente com meu sofrimento.

Olhei para ele quase indignado:

— Mermão… eu vou contigo… mas nem fudendo que entro nessa casa.

Falei aquilo como quem decretava uma sentença irrevogável.

Mas, dentro de mim, alguma coisa começou a mudar naquele instante.

Um medo estranho se apoderou completamente dos meus pensamentos.

Como se um presságio ainda informe começasse lentamente a ganhar contornos.

Hoje compreendo claramente:

aquela não seria uma noite qualquer.

Aquela noite mudaria minha vida para sempre.


———————————— X————————————-

A Noite dos Espíritos

No caminho para a casa daquela sensitiva da qual o Jorge havia me falado, eu ruminava meus pensamentos no banco de trás do fusca, enquanto à frente seguiam o meu amigo ao volante e sua mãe ao lado, no banco do passageiro.

Algo dentro de mim parecia estar em ebulição, como se prenunciasse alguma coisa que eu não sabia definir. Afinal de contas, o que poderia me acontecer?

Medo daquelas sessões espíritas eu carregava desde muito cedo, por alguma lembrança remota que não me ocorria naquela ocasião. Entrar na casa, eu tinha certeza de que não entraria. Então, qual seria o perigo? Nada. Absolutamente nada.

Mas a vida, com seus segredos e mistérios, sempre nos reserva surpresas que sequer imaginamos.

Assim que terminou toda a extensão daquela enorme avenida que perfazia um total de seis quilômetros — e que durante muito tempo ostentou o título de maior avenida urbana em linha reta do país — chegamos a uma rua muito mal iluminada, sombria, e que sequer era asfaltada, onde ficava a casa daquela senhora da qual até aquele dia eu nunca ouvira falar.

Paramos diante de um imenso casario antigo que se erguia acima do nível da rua. Para acessá-lo, havia uma pequena escada de cimento construída na própria calçada.

A mãe do Jorge desceu do carro e logo adentrou por uma porta larga, atravessando um amplo e escuro corredor onde podiam-se ver algumas portas, uma do lado direito e outra do lado esquerdo. Talvez aqueles ambientes funcionassem como salas de inverno ou mesmo bibliotecas.


Ao final daquele corredor, abria-se uma ampla sala que, àquela altura, estava bastante iluminada. De onde eu me encontrava, pude perceber uma grande mesa comprida ao centro, cercada por cadeiras enfileiradas ao longo de toda a sua extensão.

A rua, além de escura, parecia profundamente sinistra. Não havia ninguém circulando por ela e existiam apenas algumas poucas casas espalhadas aqui e ali. Dos postes pendiam luzes domésticas daquelas antigas lâmpadas de cem velas, que mal conseguiam iluminar a via, produzindo mais sombras do que claridade.

Do lado esquerdo daquela imensa casa — que mais parecia uma dessas mansões mal-assombradas dos filmes de terror — existia um terreno baldio. Havia outro também à sua frente.

Do lado direito erguia-se um amplo casarão bastante recuado. Era enorme e protegido por um muro que alternava partes de cimento e gradis de ferro em estilo rococó, estendendo-se por pelo menos uns quinze metros.

À sua frente havia um jardim imenso onde, além de árvores enormes, podiam-se ver também algumas palmeiras que balançavam lentamente ao sabor do vento daquela noite estranha.

Lá no fundo encontrava-se a casa. Enorme. Silenciosa. Quase toda às escuras.

Pelo que consegui observar, apenas uma única janela exibia um fio de luz em seu interior. E tão fraca ela era, que talvez viesse de um velho lampião a gás.

Eu e o Jorge ficamos ali confabulando sobre o quão sinistra era aquela rua, aquelas casas e aquele silêncio. Num lugar como aquele, dizia ele em tom de brincadeira, era de se imaginar que fosse amplamente habitado por… espíritos que vagavam sem rumo.

Mas o medo, que já vinha me acompanhando desde o momento em que soubera daquela visita, só se intensificava. E parecia que, à medida que o tempo passava, ele crescia dentro de mim como uma névoa escura.

Vez por outra, o Jorge me chamava para ir até a sala e ver a quantas andava aquela sessão. Nessas ocasiões, pedia que eu o acompanhasse, mas eu, medroso como sempre fui, recusava-me ferrenhamente.

O ruim era que ele fazia essas incursões de tempos em tempos e, quando adentrava a casa, ali naquela rua sinistra eu ficava… sozinho.

E o medo?
Ah, o medo…

Esse só aumentava.

— Puxa, cara… não me deixa aqui sozinho, não. Tudo isso aqui é muito tenebroso — eu lhe dizia, já sem conseguir esconder o nervosismo.

Foi então que, numa dessas suas rápidas investidas à casa, movido pela curiosidade juvenil que sempre teve, ele retornou alguns minutos depois dizendo em voz baixa:

— Carlinhos… a mulher mandou te chamar.

Senti um gelo percorrer lentamente o meu corpo.

— Como? Ela nem sabe que eu estou aqui.

— É verdade. Acredite em mim. Não estou brincando — respondeu ele com uma seriedade que imediatamente me desarmou.

— Traga aquele seu amigo aqui. Eu preciso muito falar com ele — havia sentenciado a médium.

Olhei fixamente para o Jorge, tentando descobrir algum traço de deboche em seu rosto, algum sorriso mal contido, qualquer coisa que denunciasse uma brincadeira.

Mas não havia nada.

— Cara… se tu tiver mentindo, vou te encher de porradas.

Ele permaneceu calado.

E foi naquele exato instante, parado diante daquela casa antiga, naquela rua escura e silenciosa, sentindo o vento frio atravessar lentamente a noite, que alguma coisa dentro de mim mudou.

Eu ainda não sabia… mas aquele momento alteraria para sempre a minha vida e a minha visão do mundo.

———————————— X——————————-

A HORA DA REVELAÇÃO

O Chamado


Enquanto Jorge seguia à minha frente, gesticulando apressadamente para que eu o acompanhasse, eu caminhava logo atrás, a passos largos, como se estivesse sendo conduzido ao meu próprio calvário.

Respirava ofegante. Tremia como vara verde. Naquele momento, eu já sabia que algo muito grave estava prestes a acontecer.

Ao me aproximar da porta que dava acesso à sala principal, deparei-me com uma enorme mesa retangular ocupando quase todo o centro do ambiente. Imagino que ali coubessem umas vinte pessoas sentadas ao redor.

De costas para mim, à cabeceira da mesa, encontrava-se a tão falada “sensitiva”, a médium que, naquele instante, parecia incorporar alguma entidade espiritual.

Ao perceber minha chegada — mesmo sem virar o rosto — ela começou imediatamente a falar algo que eu jamais imaginei ouvir um dia.

— Quanto tempo faz que não nos vemos, meu filho...

Aquela frase, que a princípio deveria soar absurda, provocando em mim alguma reação do tipo “Não sei quem é você. Nunca a vi antes”, produziu exatamente o efeito contrário.

E foi justamente isso o mais assustador.

Suas palavras me pareceram estranhamente familiares, como se despertassem alguma lembrança adormecida, perdida em regiões profundas e imemoriais da minha existência.

Não... aquilo não me soava absurdo.

Aquilo me parecia real.

Eu tinha a estranha sensação de conhecer aquela mulher, embora não soubesse de onde.

E então ela continuou, numa voz que mais parecia anunciar uma sentença.

— Lembra do que você prometeu antes de nascer?

Fez uma pequena pausa.

— Lembra?

E prosseguiu:

— Pois bem... está chegando a hora de começar a cumprir a sua promessa.

Senti um frio percorrer minha espinha.

Então ela continuou:

— E tem mais... você está andando em más companhias. E como médium que é, você sabe disso, não sabe? Vejo que está bastante carregado.

Aquelas palavras atravessaram meu corpo como uma lança afiada, rasgando-me de cima abaixo.

Em seguida, ordenou:

— Aproxime-se. Você está sendo obsidiado e eu preciso limpá-lo.

Sua voz não admitia hesitação.

— Venha até mim. Segure minha mão.

Aproximei-me lentamente, completamente abalado por aquelas revelações que me atingiam sem qualquer aviso, sem nenhuma preparação.

Quando segurei sua mão, senti uma descarga violentíssima atravessar meu corpo, como se estivesse sendo eletrocutado. Um choque percorreu cada parte de mim, fazendo-me estremecer por inteiro, invadido por uma força que jamais havia experimentado antes.

Hoje sou espírita e trabalho há alguns anos como passista em um centro. Já participei de trabalhos de desobsessão e testemunhei inúmeras manifestações mediúnicas. Ainda assim, jamais voltei a sentir algo semelhante ao que senti naquela noite.

Depois de alguns instantes, ela soltou minha mão lentamente e então cravou em mim outra sentença:

— Agora você está limpo.

Fez uma pausa breve antes de continuar:

— Mas trate de buscar o seu desenvolvimento. A você foi dada uma missão.

Até aquela noite, eu acreditava estar neste mundo apenas de passagem, vivendo a vida como qualquer outro rapaz da minha idade. Mas ali, diante daquela mulher, algo dentro de mim foi abalado de forma definitiva.

E então veio a parte mais perturbadora.

Ela ergueu levemente a cabeça e disse, numa voz grave, quase cortante:

— Agora que você se lembrou da sua promessa e da missão que terá de cumprir nesta reencarnação, trate de cuidar.

Meu coração disparou.

— Porque, se você não desenvolver a sua mediunidade e não começar a trabalhar, nós iremos lhe cobrar muito pesado.

A sala inteira pareceu mergulhar num silêncio sepulcral.

E ela continuou:

— Primeiro, iremos retirar o seu dinheiro... a sua capacidade de sobrevivência. Depois, se isso ainda não for suficiente, iremos tirar a sua saúde.

Naquele instante, senti como se um punhal invisível atravessasse lentamente o meu peito.

Então, para encerrar de vez aquela noite que marcaria minha vida para sempre, ela pronunciou a frase que jamais consegui esquecer:

— Se não for pelo amor... será pela dor.

Fez uma última pausa.

— Você escolhe.


—————————————- X —————————————

A NOITE QUE NUNCA TERMINOU

Saí daquele lugar completamente diferente de como havia chegado.

Jorge e sua mãe, talvez tentando aliviar o peso daquelas revelações, ainda brincavam comigo durante o caminho de volta. Falavam em tom de diversão, quase zombaria, como se procurassem dissolver no riso tudo aquilo que eu acabara de ouvir.

Nunca interpretei aquilo como maldade. Jorge era meu amigo e gostava sinceramente de mim.

Talvez apenas não imaginassem o tamanho do abalo que aquela noite provocara dentro de mim.

Sentado no banco traseiro do carro, enquanto as luzes da cidade deslizavam pela janela como espectros silenciosos, eu permanecia mergulhado num estado de perplexidade quase irreversível.

Uma única pergunta martelava dentro da minha cabeça:

Por que eu?

Por que não Jorge?

Por que eu havia sido escolhido para carregar aquela sentença?

Naquela noite, tudo o que eu desejava era viver aventuras típicas de rapazes que começavam a descobrir a vida adulta. Queria apenas experimentar o mundo, atravessar a madrugada, rir sem culpa, perder-me pelas ruas da cidade como tantos jovens da minha idade.

Mas alguma coisa havia se rompido dentro de mim.

O passeio que eu imaginara horas antes já não fazia mais sentido.

Eu precisava de silêncio.

Precisava compreender o que havia acontecido naquela casa.

Ou talvez compreender o que havia acontecido comigo.

Quando finalmente retornamos, a mãe de Jorge falou comigo de maneira surpreendentemente maternal:

— Carlinhos... aquela entidade que se manifestou hoje é muito séria. Siga os conselhos que ela lhe deu.

Depois acrescentou:

— Se eu fosse você, procuraria a Federação Pernambucana de Espiritismo.

— Onde fica? — perguntei, ainda atordoado.

— Na Avenida João de Barros.

Despedi-me dela tentando aparentar alguma normalidade, embora soubesse que já não era mais o mesmo rapaz que entrara naquele carro horas antes.

Ainda demos algumas voltas pela cidade naquela noite. Acabamos indo até a Zona, o antigo bairro dos prostíbulos da área portuária.


Lembro vagamente das ruas, das luzes, das mulheres nas calçadas, do movimento dos bares e da agitação que já começava a tomar conta daquele pedaço da cidade


Mas minha mente estava em outro lugar.

Tudo à minha volta parecia distante, abafado, quase irreal.

Aquela noite não havia apenas me assustado.

Ela havia me marcado.

Durante muitos anos, sempre que encontrava alguma sensitiva, ouvia praticamente as mesmas palavras:

— O tempo está passando... e você não está cumprindo a sua missão.

Depois vinha o aviso.

Ou a ameaça.

— Se você continuar ignorando o seu compromisso, a cobrança virá.

Ouvi aquilo durante décadas.

E, com o passar dos anos, comecei a assistir, lentamente, ao cumprimento daquela sentença.

Primeiro vieram as dificuldades materiais.

Depois, a saúde.

E foi somente muito tempo mais tarde que compreendi algo perturbador:

na verdade, eu nunca saí daquela casa.

Uma parte de mim permaneceu para sempre diante daquela mulher, ouvindo, pela primeira vez, que existiam promessas feitas antes do nascimento.

E que algumas delas...
mais cedo ou mais tarde...
acabam voltando para nos encontrar.


Carlos Pessegatti (Carlinhos)















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