A Esquina Sete - A esquina das nossas vidas



A Esquina Sete — A Esquina das Nossas Vidas

Naquela esquina cabia o mundo.
Éramos jovens. Éramos invencíveis. Éramos imortais — ou assim acreditávamos.
Exploradores de uma existência ainda por decifrar, descobríamos, entre risos, que pensar, viver e rir pertenciam à mesma matéria. E ríamos… ríamos de tudo.

Foi assim que certa vez escreveu o jornalista Fábio Hernandes.
E bastou lê-lo para que eu fosse lançado, com a velocidade de um raio, de volta à esquina onde vivi minha infância e juventude.

Ele tinha razão. O mundo cabia ali — na confluência da Rua Sete de Setembro com a Avenida Conde da Boa Vista.
Naquele ponto exato da cidade, como numa espécie de ágora improvisada, erguíamos nossos discursos feitos de espanto e alegria diante da vida que se desenrolava, viva e indomável, diante dos nossos olhos.

Como ríamos…
Ah, como ríamos naqueles tempos.

Tempos que hoje ecoam na lembrança como um verso antigo:
“Como eram bons aqueles tempos em que eu era feliz e ninguém estava morto.”

Agora, ao tentar reconstruir aqueles dias, procuro recompor não apenas os fatos, mas o clima — o espírito — daquela época.
Éramos jovens que deixavam crescer não só os cabelos, mas a imaginação.
E ela voava livre, leve, indisciplinada.

Daquela esquina assistimos ao desfile do mundo.
Ali, de pé ou sentados, testemunhamos o cortejo dos acontecimentos que marcaram uma era.
Era o nosso camarote. Era o nosso palco.

Reuníamo-nos todas as tardes, e muitas noites também — depois da escola, das primeiras festas, ou mesmo do trabalho para alguns.
Éramos muitos. Mais de trinta.
Um coletivo vibrante, inquieto, curioso, que observava a cidade — e, com ela, aprendia a existir.

Observávamos as moças que retornavam das escolas, os passos apressados rumo aos pontos de ônibus, o fluxo incessante da vida urbana.
Ali, diante de nós, passava Recife — com suas cores, seus ritmos, seus encontros e desencontros.

O ponto de ônibus em frente vivia cheio.
Jovens vindos do Marista, do Americano Batista, do Carneiro Leão, da Faculdade de Filosofia, da Católica, da Faculdade de Direito — todos atravessando aquele mesmo espaço, como se a cidade inteira respirasse naquele cruzamento.

Nosso ponto fixo era a frente do Edifício Ouro.
Alguns de nós moravam ali. Muitos vinham de ruas vizinhas — Boa Vista, Rua Velha, Rua da Glória — compondo uma geografia afetiva que ultrapassava qualquer limite físico.

E havia o vento.
Uma brisa que vinha do mar, atravessando o Capibaribe e o Beberibe, tocando-nos como um sussurro de eternidade.

A poucos passos, outra esquina: a ponte Duarte Coelho, o rio, e o inesquecível cinema São Luiz.
Do outro lado, o “quem-me-quer” — aquele banco de pedra onde, nas tardes de domingo, as moças aguardavam, e os rapazes, em bandos, orbitavam, em busca de um olhar, um gesto, um início.

Mas aquela outra esquina, apesar de bela, era movimento demais.
A nossa, não.
A nossa era abrigo.

Ali, éramos casa.

Chamávamo-nos, mais tarde, de Setembrinos.
Um nome que talvez só fizesse sentido para nós, habitantes daquela pequena imensidão.

Havia subdivisões — os mais velhos, os intermediários, os mais novos.
Mas, no fim, éramos um só corpo, uma só respiração coletiva.
Reuníamo-nos, às vezes, ao longo de um muro próximo, e ali a multiplicidade se tornava unidade.

Éramos, sem dúvida, uma família.
E que família extraordinária.

Mas não foram apenas rostos conhecidos que passaram por aquela esquina.
Por ali também desfilaram — invisíveis, mas presentes — figuras que habitavam nossas leituras, nossos discos, nossos sonhos.

Por ali passaram Elvis, os Beatles, Hendrix, Janis, Led Zeppelin…
Passaram também Kennedy, Martin Luther King, a Primavera de Praga, Woodstock, o Vietnã, a Passeata dos Cem Mil, o tricampeonato.

Tudo acontecia ali.
Ou melhor — tudo parecia acontecer ali.

Sentados conosco estavam também Proust, Kafka, Picasso, Neruda, Ginsberg, Sartre, Hesse, Gibran, Huxley, Marcuse, Orwell.
Não como espectros, mas como vozes vivas que ecoavam dentro de nós.

Tínhamos sede.
E abríamos nossas mentes como quem abre janelas para o infinito.

Éramos jovens em um mundo já envelhecido.
E, por isso, queríamos compreender.

Choramos quando John Lennon disse que o sonho havia acabado.
Talvez, naquele instante, tenhamos intuído que também a nossa eternidade tinha prazo.

E, ainda assim, vivíamos como se estivéssemos antecipando algo — uma rede invisível de conexões, uma espécie de proto-ciberespaço tecido pela imaginação.

O nosso mundo não precisava de tecnologia para existir.
Ele acontecia dentro de nós.

Era um real que se virtualizava na experiência.
Hoje, talvez, vivamos o inverso.

Naquele tempo, as mensagens ainda escapavam aos grandes meios.
Circulavam entre nós, livres, intensas, formando um inconsciente coletivo pulsante.

Mas também havia tensões.
Pais rígidos. Ditadura. O avanço silencioso da sociedade de consumo.

Já se desenhava, ali, o contorno das grandes corporações — ainda não globais como hoje, mas já suficientemente poderosas para inquietar.

E nós resistíamos.
À nossa maneira.

Enquanto hoje muitos pagam para pertencer ao sistema, nós pagávamos — às vezes caro — para escapar dele.

Vivemos intensamente.
Não apenas assistimos à história: participamos dela.

Não éramos espectadores.
Éramos atores — ainda que em papéis pequenos, mas profundamente sentidos.

Fomos moldados por aquele tempo.
E ele, por sua vez, ficou inscrito em nós.

Ah… como gostaria de revê-los.
Todos. Um por um.
Os nomes ainda vivem — como ecos de uma festa que não terminou, apenas se transformou.

Alguns se foram.
Outros se perderam.
Mas o que fomos — isso permanece.

Porque uma geração não se define pela idade, mas pelas afinidades.
E a nossa maior afinidade foi ter habitado uma mesma esquina.

Não uma esquina qualquer.
Mas a esquina.

A Esquina Sete.



A Esquina

Não era apenas mais uma esquina.
Era o mundo.

Não era apenas encontro.
Era experiência.

O mundo se revelava
na linguagem que inventávamos.

E a nossa linguagem
era densa, viva, carregada de sentido —
tecida na relação entre tempo e espaço.

Estávamos integrados.
Éramos parte.

A televisão ainda engatinhava.
A propaganda ainda sussurrava.

O mundo vivia nos livros,
nos cinemas,
nas páginas das revistas.

E mesmo quando mutilado, censurado, distorcido —
nós víamos além.

Porque a imaginação era livre.

A vida…
ah, a vida…

Ela acontecia nas ruas.
Nas ágoras da nossa pólis.
Nas esquinas do mundo.

Apesar das guerras,
das ameaças,
das ditaduras,
dos muros e das sombras —

para nós, o mundo era festa.

Um lugar de encontro.

E era a ele que cantávamos:

Gira, mundo, gira.
E quando te cansares,
descansa um instante aqui…

na esquina das nossas vidas.

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