Saudades das peladas da Rua da Saudade

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Na minha pequena cartilha de regras — tão magrinha naqueles tempos e que, ao longo dos anos, foi engrossando cada vez mais —, estudar aos sábados estava completamente descartado. Sábado existia para ser aproveitado por inteiro, desde o raiar do dia até o fim da noite.

É bem verdade que, durante vários meses do ano, eu acabava acordando um pouco mais cedo, por volta das oito horas, porque o meu colégio tinha como hábito aplicar provas semanais justamente aos sábados pela manhã. Elas começavam pontualmente às nove e meia.

Mesmo nesses dias, porém, havia uma diferença curiosa no meu caminho. Quando saía de casa, caminhava na direção oeste, portanto no sentido contrário ao sol, pois o Colégio Esuda ficava na direção do bairro, na Rua Corredor do Bispo, na Soledade.

Talvez aquela tenha sido uma das primeiras vezes em que realmente acordei cedo e caminhei na direção leste, isto é, em direção ao mar.

É claro que isso já havia acontecido outras vezes. Ainda criança, eu costumava ir à praia aos domingos com minha mãe. Mas nunca antes havia caminhado em direção ao cais, no Recife Antigo.

Foi uma descoberta.

E uma linda descoberta.

Apesar de considerar o sábado o melhor dia da semana, eu normalmente perdia boa parte dele justamente no momento em que o dia era mais exuberante: o amanhecer.

Lembro disso hoje com certo pesar. E, talvez, com alguma tristeza também, porque as manhãs guardam aqueles instantes em que o dia ainda está prenhe de possibilidades. Tudo pode acontecer. O mundo ainda não decidiu o que será daquele novo dia.

Isso, entretanto, nunca esteve na minha programação.

Acho até que o Sol ficava um pouco triste comigo.

Naquele sábado, porém, por força de uma obrigação, fui obrigado a acordar mais cedo. Precisava me apresentar no Forte do Brum para regularizar minha situação com o Exército.

O Forte do Brum, cuja construção foi iniciada pelos portugueses em 1626 e concluída pelos holandeses em 1630, fica no Recife Antigo, próximo à zona portuária. Hoje funciona ali o Museu Militar do Exército, mas naquela época o local abrigava o quartel da 7ª Região Militar.

Levantei com muita dificuldade por volta das seis horas da manhã, pois precisava me apresentar às sete.

Ainda meio atordoado pelo sono, caminhei apressadamente pela Rua 7 de Setembro em direção à Avenida Conde da Boa Vista, andando como se carregasse uma tonelada em cada perna. Sentia-me profundamente injuriado. Ter de acordar tão cedo justamente num dos poucos dias em que tinha permissão para dormir até mais tarde transformava aquela obrigação num verdadeiro martírio.

Quando cheguei à esquina da Rua 7 de Setembro e entrei na Avenida Conde da Boa Vista em direção à Rua da Aurora, entretanto, levei um enorme tapa no rosto.

Foi tanta luz que fiquei momentaneamente atordoado.

Naquela manhã, a claridade que despencava do horizonte tornava todas as coisas um tanto misteriosas. Os contornos pareciam pouco definidos e os contrastes, bastante tênues. Pessoas, carros e edificações estavam mergulhados numa espécie de luz nebulosa.

Havia chovido durante a madrugada e as ruas ainda estavam molhadas. Algumas poças d'água espalhadas pelo caminho refletiam a luz do sol, formando miríades de pequenos pontos coloridos.

A cidade parecia outra.

E aquilo era apenas o começo.

O primeiro tapa não foi nada diante daquele que eu receberia mais adiante, já na Rua da Aurora.


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Rua da Aurora - trecho entre as pontes Princesa Isabel e dos Limoeiros


Aconteceu logo depois que atravessei a Ponte Princesa Isabel.

A partir dali, sobretudo depois de ultrapassar os fundos do Palácio do Governo, pude perceber a união do Capibaribe com o Beberibe. O encontro dos dois rios alargava o leito e descortinava uma visão muito mais ampla da zona portuária.

Foi então que recebi um verdadeiro banquete de luz e cor.

O vento parecia soprar do mar e trazer consigo uma mensagem. O sol, quase como se sussurrasse ao meu ouvido, parecia dizer:

— Veja o que você está perdendo todos os dias por insistir em acordar tarde. Eu estou aqui, sorrindo e esperando por você. E a única coisa que peço é um pouco de atenção.

Naquele instante, alguma coisa mudou.

A partir daquele dia, repensei meus hábitos e jurei que mudaria de postura. O encanto e o arrebatamento provocados por aquela profusão de luzes, ventos e contornos da cidade me encheram de regozijo.

Olhando para a beleza do encontro dos rios, fui tomado por um sentimento de orgulho. Só então me dei conta de tamanha beleza.

Aquela sensação me fez lembrar de um poema de Fernando Pessoa que havia lido pouco tempo antes, escrito pelo seu heterônimo Alberto Caeiro. Não recordava exatamente a sequência dos versos, nem de todo o poema, mas aquilo de que me lembrava já era suficiente:

“Poucos sabem qual é o rio da minha aldeia, e para onde ele vai e donde ele vem / O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia / mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.”

Alberto estava certo.

Não importava se o Tejo era mais bonito do que o rio que corria pela minha cidade, pela minha aldeia. O que importava era que aquele era o rio da minha cidade. E justamente por isso ele era o mais belo.

Estufei o peito.

Enchi-me de júbilo.

Daquele ponto em diante, passei a caminhar mais lentamente, mesmo tendo pela frente uma obrigação pouco animadora e com hora marcada.

Fui arrebatado pelo vento que soprava forte, trazendo uma mistura de aromas e odores. Alguns vinham do mangue, logo ali às margens do rio; outros chegavam da brisa marinha, soprada do horizonte como se trouxesse notícias frescas.

Os cheiros se entrelaçavam num bafo quente e suave que parecia acariciar não apenas o meu rosto, mas também a minha alma.

Minha visão estava um pouco obnubilada pelo excesso de luminosidade, mas as imagens e os contornos da paisagem que se descortinavam à minha frente eram tão sedutores que, por alguns momentos, esqueci completamente o dever que me esperava.

Estava maravilhado.

Lembro de ter pensado comigo mesmo, com os meus tortos botões:

Preciso vivenciar isso mais vezes.

Eu sequer imaginava que, alguns anos depois, passaria a fazer aquele mesmo percurso todas as manhãs, a caminho do trabalho.

Acordar cedo, entretanto, nunca foi o meu forte.

Mas as recompensas que isso nos traz são tremendamente gratificantes.



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Encontro dos rios Capibaribe e Beberibe


Queria estar fazendo aquele percurso em outra situação. O problema é que meu compromisso era urgente e o horário da apresentação estava se aproximando. Fui obrigado a apressar novamente os passos, pois precisava chegar o quanto antes à Ponte dos Limoeiros. Logo ali, na outra margem do rio, encontrava-se o temível Forte.

Naquela época, não apenas para mim, mas para boa parte dos jovens da minha idade, aquela construção tinha um significado muito claro:

Sofrimento.

A Rua da Aurora, no trecho entre a Ponte Princesa Isabel e a Ponte dos Limoeiros, é bastante extensa, com uma distância que deve chegar a quase um quilômetro. Era um percurso longo e sem nenhuma sombra.

Embora estivesse exuberante naquela manhã, haveremos de convir que não era fácil percorrê-lo.

A brisa soprava forte, mas o calor era intenso.

Fiquei até mais aliviado quando avistei vários remadores fazendo um esforço tremendo sob o comando de um técnico tirano que bradava suas ordens aos quatro ventos.

Minha caminhada, mesmo a passos largos, era um refresco diante da dureza que aqueles rapazes enfrentavam.

Jamais tive vocação para os esportes, por mais interessantes que fossem.

E aquele, menos ainda.

Cheguei ao meu destino faltando pouco menos de cinco minutos.

Ainda da ponte pude perceber o sofrimento que me aguardava. De longe, avistei uma enorme fila formada logo na entrada do quartel.

Respirei fundo, como se estivesse me preparando para um ato sacrificial.

Depois de esperar durante um longo tempo, em pé e sob aquele sol escaldante, a fila começou a andar. Pouco a pouco, um por um daqueles extenuados rapazes — eu incluído — começou a ser chamado.

Antes, obviamente, tivemos de prestar juramento à bandeira e repetir todas aquelas ladainhas e cumprir os rituais obrigatórios das rotinas militares.

Lembro de ter perdido ali aproximadamente quatro horas e meia do meu precioso tempo, ouvindo aqueles sujeitos fardados me dando ordens a todo instante.

Estava irritado.

Aborrecido.

Cansado.

Mas minha paciência e minha resignação acabaram dando resultado.

No final, saí de lá ostentando o meu alvará de soltura: o tão esperado Certificado de Reservista.

Estava livre do Exército.

E ainda mais livre para aproveitar o meu dia favorito.

E, por que não, para encarar a própria vida.

Aliviado pelo dever cumprido, corri direto para casa, pois logo mais encontraria meus amigos. Era dia das nossas tão esperadas peladas, que costumavam acontecer num estacionamento localizado na esquina da Avenida Conde da Boa Vista com a Rua da Saudade.

Cheguei à residência num pinote só.

Estava faminto.

E louco para saborear o feijão da Têca.


Aquele almoço estava tão maravilhoso que tive a sensação de estar saboreando um verdadeiro banquete.

No cardápio, o melhor feijão da região, regado a muito tempero, entre eles o coentro, claro, que implorava pela presença de uma farofa, complemento indispensável e obrigatório.

O arroz, o purê e os bolinhos de batata com carne moída preparados pela minha avó completavam aquela deliciosa refeição.

No final, tomei um enorme gole do meu guaraná preferido, o Fratelli Vita, e, como agradecimento aos céus, fiz o sinal da cruz, hábito que havia adquirido ainda garoto com meu padrasto.

Comi tanto que fiquei leso.

Na gíria daqueles tempos, eu diria que estava “morgado”.

Fosse aquele um dia normal da semana, provavelmente não resistiria a uma sesta.

Só que aquele era o sábado das nossas tão aguardadas peladas da turma da Sete.

Despi minha calça Western, uma das minhas prediletas, e substituí-a por uma surrada bermuda de Tergal. Na sequência, vesti a maior meia que possuía, já que não tinha um meião de verdade, e finalmente calcei meu Ki-chute novinho.

Iria estreá-lo naquele dia.

Como nunca fui um jogador de linha — era um perna-de-pau de dar dó —, não esperava dele um chute a gol ou um drible desconcertante.

No máximo, uma defesa salvadora.

Ainda em casa, ouvi quando SC gritou meu nome do outro lado da rua.

Ele falava através dos combogós localizados no corredor do Edifício Amazonas, que ficava defronte ao meu prédio, numa posição que dava de frente para a varanda da minha sala. Os dois locais estavam praticamente no mesmo nível: meu apartamento e o corredor onde ele se encontrava ficavam no segundo andar.

— Carlinhos! — bradou ele do outro lado.

— Fala, mermão! E aí? — corri até a varanda e respondi, todo contente.

— Já tá pronto?

— Prontinho da Silva — respondi.

— Então desce! — ordenou quase em tom militar.

— É pra já! — completei, todo acelerado.

Antes, porém, peguei meu Cassete Crown e minhas adoradas fitas, itens indispensáveis. Aproveitaria os intervalos em que não estivesse jogando para ouvir o bom e ainda novo Rock and Roll.

Ao descer, encontrei SC, o Magro Zé, M-Mentiroso e Jo, cada um com uma indumentária que dava dó de tão mal-ajambrada.

Naquela época, não tínhamos roupa certa para as peladas. Não havia uniforme de verdade, com camisetas, calção, meião, chuteiras e tudo mais.

Pegávamos aquilo que mais se parecesse com um uniforme.

As chuteiras iam de um Bamba a um horrível Ki-chute.

Era o que dispúnhamos.

E isso, acreditem, era mais do que suficiente.

Quando nos avistamos, cada um riu da cara do outro, como se tivéssemos algum senso de ridículo.

E lá fomos nós, felizes da vida.

Chegando à esquina da Sete de Setembro, encontramos o resto da tropa, que nos esperava angustiada.

SR, todo nervosinho como de costume, foi logo gritando:

— Pô, seus frescos, onde vocês tavam? O que é que as bichas estavam fazendo que demoraram tanto? Passando batom e rouge?

— A bicha tá nervosinha? — retrucou SC.

Era tanta gente que a frente do Edifício Ouro estava completamente congestionada.

Além de SR, estavam lá P-Zinho, C-Léo, Gu e seu irmão M-Toso, os irmãos F e N, os irmãos B-Zinho e SO, o baixinho AT, M-Louco e seus dois irmãos, e M-ZINHO.

Além deles, meus dois primos mais novos, C-Ruca e AC, que ainda eram muito garotos para jogar, mas faziam questão de nos acompanhar.

Adoravam ficar vendo aquele monte de pernas-de-pau jogando e brigando.

Brigando, sim.

Porque vira e mexe saía um arranca-rabo daqueles.

E, quando faltava gente para completar os times, vez por outra acabávamos aproveitando alguns deles.

Do outro lado da rua, embaixo do Edifício Iran, avistei C-Zinho, que de longe gritou para mim:

— Carlinhos, espera aí, espera aí! A farmínia nos espera.

Farmínia era o nome que dávamos às farmácias, lugares onde, naquela época, sempre fazíamos nossas paradas obrigatórias.

Antes do jogo começar, era de praxe comprarmos nosso barbitúrico predileto: o Xarope Pambenyl.

Para não dar bandeira, resolvemos descer a avenida até a farmácia próxima ao prédio onde ficava o Cine São Luiz, evitando assim que algum morador da região nos visse e nos dedurasse aos nossos pais.

Compramos nosso líquido precioso e lá fomos nós, todos contentes, para a pelada.

A tarde prometia.


Foi com certa dificuldade que atravessamos para o outro lado da Avenida Conde da Boa Vista. Naquele ponto não havia semáforos, e o trânsito de veículos e ônibus era intenso.

Demos uma parada na loja A Modinha para sapear as novidades.

Ouvimos um trecho do novo disco do Uriah Heep, Magician's Birthday.

Óbvio que ele precisaria ser adquirido.

É bem provável que, naquela época de vacas magras, fizéssemos uma vaquinha para comprá-lo.

Saindo dali, seguimos em direção à Rua da Saudade.

Na esquina, demos uma parada na Fan's e compramos uma Coca-Cola.

Xarope, Coca e cigarros eram os ingredientes indispensáveis para a nossa festa.

Quando chegamos ao estacionamento, a maior parte da rapaziada já estava lá, fazendo os aquecimentos iniciais.

Ao perceber nossa chegada, o baixinho AT foi logo dizendo:

— Chegaram os xaropeiros! — falou com um enorme sorriso no rosto.

Foi uma gargalhada só.

AT era um sujeito atarracado, com uns tiques estranhos que lhe conferiam uma característica totalmente singular. Certa vez, alguém chegou a dizer que, quando ele andava, lembrava um rinoceronte.

Perto dele, o grupo dos entendidos começava a enrolar seus baseados.

“Entendidos” era a forma como nosso amigo Fada Loira chamava aqueles que pegavam fumo.

Convenhamos: era uma maneira bem menos perniciosa e bandeirosa de chamar os maconheiros.

Fizemos uma pequena reunião para definir os times.

Foi uma longa discussão.

Cada um queria levar para seu grupo aqueles que considerava os melhores, enquanto outros, normalmente os menos favorecidos no que dizia respeito ao talento futebolístico, queriam tornar as coisas mais equilibradas, misturando os pernas-de-pau com os pelezinhos da turma.

É claro que naquele grande grupo existiam as chamadas panelinhas, ou patotas, como dizíamos na época, em que seus participantes preferiam sempre jogar juntos.

Depois de um longo bate-boca, conseguimos montar seis times, cada um composto por cinco jogadores: um no gol e quatro na linha.

Na sequência, para não haver brigas, sorteamos os grupos e montamos a tabela.

Todos os times se enfrentariam e, no final, os quatro melhores fariam um mata-mata em partida única: o primeiro colocado contra o terceiro e o segundo contra o quarto.

Eu, para variar, fui escolhido como goleiro do time que contava com SR, SC, C-Linho e C-Zinho.

Confesso que considerei aquele grupo razoável, com boas chances de chegar à final.

Bem, essa era a minha vontade.

Isso nunca havia acontecido antes.

As partidas começaram.

Meu time, seguindo a tabela, fez o primeiro jogo contra o grupo comandado pelo baixinho AT.

Não demorou muito para que o nervosinho SR começasse a se desentender com ele, que de santo não tinha nada.

Por um momento, quase chegaram às vias de fato, tamanha a troca de farpas entre os dois todas as vezes que se cruzavam.

A turma do deixa-disso logo interveio e o jogo recomeçou, embora as provocações continuassem de lado a lado.

Como havia sido combinado no início, as partidas teriam vinte minutos de duração, com parada aos dez para troca de lados.

O jogo continuou pegado, com forte marcação, e talvez fosse justamente por isso que os desentendimentos ocorressem com tanta intensidade.

Da posição onde estava, no gol, eu tinha uma visão privilegiada da partida e procurava tirar proveito disso dando orientações ao meu grupo.

SR não gostava muito de me ouvir gritar dando ordens. Considerava-se o bonzão daquele time e não seria eu, um sujeito ruim de bola, quem saberia dar instruções.

Mas eu tinha uma visão do conjunto.

Nada errado em querer ajudar, pensava.

Só que, no futebol, como em tantas outras áreas da atividade humana, o jogo das vaidades corre solto.

Cada um quer puxar a sardinha para o seu lado por se considerar o mais importante.

O jogo prosseguiu sem que eu desse a menor atenção às reclamações de SR.

Eu gritava de um lado, ele do outro e, vez por outra, SC e C-Zinho também davam seus palpites.

No fundo, todos buscavam a mesma coisa:

Sair vitoriosos.

A partida terminou com nossa vitória por 5 a 4, acompanhada de muitas discussões e reclamações dos dois lados.

Foi falta.

Não foi.

Foi pênalti.

Não foi.

Você me empurrou.

Quem me empurrou foi você.

E por aí vai.

Isso sem falar nos palavrões e nas agressões verbais, que eram constantes.

Era por razões como essas que muitas vezes eu preferia ir à praia, tomar meu xarope e filosofar a ter de ficar assistindo àquele tipo de coisa.

Eram rapazes que normalmente se davam muito bem.

Só que, na hora do futebol, alguns passavam um pouco da conta e acabavam colocando seus recalques para fora.

Apesar disso, eu sabia que, no fundo, eram garotos de boa índole.

No final do jogo, geralmente os ânimos se acalmavam e aquelas pequenas rusgas logo desapareciam.

Recostados no canto de um muro que dava para os fundos de um prédio localizado na Rua 7 de Setembro — já na quadra que dava para a Rua do Riachuelo — estavam meus primos C-Léo, AC e C-Ruca.

Sentei ao lado deles e peguei meu Cassete.

Naquele momento tocava “Comfort Me”, do novo disco da banda americana Grand Funk, o lindo Survival.

— Essa música é uma das minhas preferidas desse disco — falei para C-Léo.

— Gosto mais de “I Can Feel Him in the Morning” — respondeu ele, seco e direto.

Tivemos de interromper nossa conversa porque aqueles dois nervosinhos não paravam de discutir.

— Puta que pariu, caralho! Precisava ficar chutando o meu tornozelo o tempo todo? — bradou AT.

— Porra, velho, eu não fiz isso porque quis. Só errei o tempo da bola. Precisava dar cotovelada? Isso é filho-da-putice, cacete! — retrucou SR.

— Você não é santo, não, mermão. Eu te conheço — respondeu AT.

— Para de discutir vocês dois, cacete! — gritou F, tentando apartar aquilo que já estava prestes a se transformar em briga.

— Vamo jogar bola, jogar bola, carai! — revidou M-Mentiroso.

— Vamo seguir a tabela. Times em campo, times em campo — completou B-Zinho.

C-Zinho sentou ao meu lado com um largo sorriso no rosto, como se tivesse alguma coisa muito importante para me dizer.

— Esses caras não sabem brincar... Puta que pariu!

— Mermão, se for para esses neguinhos ficarem discutindo o tempo todo, semana que vem, em vez de vir pra cá, eu vou pra praia — respondi, um tanto chateado.

— Deixa pra lá — respondeu ele.

Mudando de assunto, perguntou:

— Cara, eu te falei que tô lendo Sartre, não falei?

— Falou. E aí?

— Cara, eu acho o Existencialismo um marco no estudo da filosofia — falou como se fosse um verdadeiro entendido no assunto.

Em seguida, continuou:

— Cara, ontem eu tava lendo um conto chamado “Intimidade” e gostei tanto que tive a manha de copiar um trecho. Olha só!

Pegou um pedaço de papel que estava no bolso e começou a ler.

“Lulu dormia nua não só porque gostava de se acariciar com as cobertas, mas também porque lavagem de roupa custa caro. A princí­pio Henri protestou; não se deve dormir nu, isto não se faz, é nojento. Acabou, porém, por comodismo, seguindo o exemplo da mulher; ele era correto como uma estaca quando se achava no meio de outras pessoas (admirava os suí­ços e particularmente os genebrinos, achava-os altivos porque eram impassí­veis) mas negligenciava as pequenas coisas, por exemplo, não era muito asseado, raramente mudava de cuecas; quando Lulu as punha na roupa suja, não podia deixar de observar o seu fundo amarelado à força de roçar contra o rego das nádegas. Pessoalmente, Lulu não se incomodava com a sujeira: dá um ar de intimidade, cria certos sombreados familiares. No cíncavo dos cotovelos, por exemplo. Não gostava dos ingleses, dos seus corpos sem personalidade, sem nenhum cheiro. Sentia, porém, horror às negligências do marido, porque refletiam um carinho excessivo por si próprio. De manhã, ao acordar, ele se sentia sempre terno, a cabeça cheia de sonhos, e o dia claro, a água fria, o pelo áspero das escovas lhe faziam o efeito de brutais injustiças.”

Ouvi aquele trecho sem entender muito bem onde C-Zinho pretendia chegar.

Quando terminou, fiquei olhando para ele.

— Confesso que não entendi bem.

— Mermão, esse lance da sujeira que a Lulu vê nas cuecas do marido e a forma como Sartre coloca isso, resgatando a questão da intimidade, e de como isso cria, nas palavras dele, um certo sombreado familiar, é existencialista pra cacete! — respondeu, com uma vibração que quase me convenceu.

Tal era a fé que colocava naquelas ideias que comecei a acreditar em suas palavras.

Foi quando pensei comigo mesmo:

O xarope já está fazendo efeito. O neguinho tá a todo vapor.

— Cara, osóriamente falando, acho que você tá tomando xarope demais — falou P-Zinho, com um largo sorriso.

Ele estava ali perto e também havia escutado a conversa.

Todos que estavam por perto danaram-se a rir, divertindo-se a valer com as maluquices viajantes de C-Zinho e, principalmente, com o “osóriamente falando”, uma expressão-gíria criada e adotada por nós.

Os termos “osóriamente” e “erôneamente” — leia-se “erôneo”, e não “errôneo”, derivado de erro — faziam parte do nosso jargão diário.

Diziam alguns que o primeiro a aparecer com aquilo no grupo havia sido um bandidinho conhecido pelo apelido de Barão Bá Bá Bá, um sujeitinho repugnante que tinha aportado por aquelas bandas pouco tempo antes.

O cara era um punguista que costumava circular pelo centro da cidade atrás de vítimas distraídas.

Um belo dia, encostou em nosso grupo para pedir um cigarro, puxou conversa e, a partir de então, vez por outra dava as caras na esquina da Sete de Setembro, bem ali no nosso pointer.

— C-Zinho, é por isso que você hoje tá irreconhecível no campo. Isso é muito xarope na cabeça, mermão! — falou SR em alto e bom som.

Ele já estava mais calmo. Seu conhecido tique havia voltado, e ele não parava de tirar o cabelo da testa.

Nesse instante, para alegria dos que estavam por perto, a música “I Want Freedom”, do Grand Funk, começou a tocar.

Era quase uma unanimidade entre nós.

Todos adoravam aquela música, principalmente pela ideia genial dos músicos.

A canção começa como se a banda estivesse ensaiando. Algo dá errado e a música é interrompida logo no início. O baterista e o tecladista trocam algumas palavras sobre a parada abrupta que deverão fazer na segunda parte da introdução.

A ideia era genial.

Era como se nós, ouvintes, fôssemos convidados a entrar na sala de gravação e participar do ensaio.

Dava a sensação de que estávamos entrando na música.

No momento em que ela começou a tocar, B-Zinho, que naquele instante estava em pleno jogo, gritou:

— Aumenta isso aí! Aumenta isso aí!

— Se liga no jogo, B-Zinho! Nós tamo perdendo, carai! — esbravejou SO, seu companheiro de equipe.

Enquanto esperávamos pela próxima partida, eu, C-Zinho, C-Léo, P-Zinho e outros ficamos confabulando nossas filosofices yessiânicas.

Era o termo de que mais gostávamos para definir aquele som viajante do grupo inglês Yes, banda que C-Zinho havia acabado de nos apresentar.

Ele ganhara o disco Fragile durante uma estada recente nos Estados Unidos.

Aquele disco provocou, pelo menos em mim, uma verdadeira revolução.

Até então, nós só ouvíamos Rock pesado de bandas como Led Zeppelin, Uriah Heep, Grand Funk e Black Sabbath.

Aquele som, mistura de Rock, Jazz e música Clássica, provocou uma verdadeira quebra de paradigma em nossas visões musicais.

Digamos assim.

Enquanto nós estávamos mergulhados nessas filosofices, AT, indiferente a tudo, estava sentado ao lado de SR. Os dois não paravam de tirar sarro da rapaziada que jogava.

De repente, AT levantou-se.

Levou a mão ao rabo e anunciou:

— Pô, mermão! Hoje pela manhã dei uma cagada monumental. A merda que saiu foi tão grande que me deflorou! — falou enquanto coçava a bunda de maneira acintosa.

Confesso que considerava o baixinho AT um sujeitinho execrável pela sua falta de modos.

“Modos” era uma das palavras prediletas da minha avó quando queria me repreender por algum desvio de conduta.

— Tenha modos, menino!

Ela dizia isso sempre que achava que eu estava fazendo alguma coisa que não devia.

AT, entretanto, parecia desconhecer completamente a existência dessa palavra.

Continuou se coçando com uma veemência desenfreada, sem o menor pudor.

Logo depois, falou:

— Estou com uma coceira danada no dedo hoje!

Virou-se para nós com a cara mais lavada do mundo.

E não parou por aí.

— Cara, imagina o sujeito todo elegante, andando pela rua, e de repente é acometido por uma tremenda coceira no rabo. Já pensou?

Levantou-se e virou-se para nosso lado.

— Te digo uma coisa: ainda vou escrever um livro sobre isso. E o título vai ser, sabe como?

Fez uma pausa.

— Quando o rabo coça, o sujeito perde a bossa.

Foi uma gargalhada geral.

C-Léo, que costumava rir por qualquer bobagem, quase foi à loucura. Sorriu tanto que quase urinou nas calças.

O sorriso dele, obviamente, contagiou todos nós.

Acho que ficamos rindo durante uns dez minutos seguidos.

O baixinho se divertia a valer.

Aliás, esse era o termo predileto que ele utilizava quando assistia a filmes de comédia.

Por várias vezes eu o flagrei no cinema dando pernadas para o ar de tanto rir diante de uma cena engraçada.

Nessas ocasiões, costumava falar bem alto:

— Eu me divirto! Eu me divirto! Meu Deus! Eu me divirto!

Quando isso acontecia e eu estava por perto, afastava-me completamente dele, de tanta vergonha que sentia.

O cara era um sujeitinho muito escroto.

Que Deus o tenha, pois ele já não está mais entre nós.

Quando acreditávamos que o festival de bobagens finalmente iria parar, SR disparou:

— Moçada, vocês não sabem a cena que presenciei ontem na entrada do Edifício Unidos!

Mais uma vez levou a mão ao rosto para levantar a franja que insistia em cair sobre os olhos.

E prosseguiu:

— Cara, ontem eu vi SO dando o maior amasso numa pinil do quinto andar.

“Pinil” era o abreviativo de “piniqueira”, expressão que, segundo nossa interpretação na época, remontava ao período da Casa-Grande, quando as escravas limpavam pela manhã os penicos dos senhores da fazenda.

Era assim que utilizávamos, de forma pejorativa, diga-se de passagem, o termo para designar as empregadas domésticas.

— Todo mundo aqui sabe que SO adora uma pinilzinha, não é verdade, B-Zinho? — falou AT, dirigindo-se ao irmão.

SO não deixou por menos.

— Olha quem fala!

E continuou sua defesa:

— Esses dias eu tava chegando em casa da escola, acho que era umas cinco e meia da tarde, e, de repente, ouvi uns gemidos. Sabe quem era?

Falou com uma expressão de interrogação, olhando em nossa direção.

— Quem? — perguntou M-Louco.

— Esse sujeitinho aí... O baixinho.

Fez uma pausa dramática.

— Gente, vocês não vão acreditar. O sujeito tava comendo a pinilzinha do sétimo andar. Sabe quem é? Aquela gostosinha que trabalha na casa da Dona Eliete?

— E aí? — alguém perguntou, curioso.

— Pois é! Ele tava comendo a mina, moçada. Acreditem: na escada do segundo andar. No meio da escada. Olha só que perigo! Esse cara é completamente maluco.

— Essa praga aí é um tarado de marca maior — completou M-Mentiroso, com ares de indignação.

— Santo Deus! Esse sujeitinho é completamente desregrado — falou C-Zinho, olhando para mim e balançando a cabeça como se desaprovasse tudo aquilo.

A conversa ainda rendeu por um bom tempo.

Enquanto isso, na quadra — chamar aquele chão batido de quadra já era um elogio —, a moçada continuava se digladiando.

— Fim de jogo! Uhuuuuuuu! — gritou B-Zinho, feliz da vida porque seu time havia vencido aquela disputada partida.

— Próximo time em quadra! — gritou M-Mentiroso, chamando os companheiros para o campo.

As partidas foram se sucedendo.

Meu time continuava vencendo seus confrontos.

Havíamos nos classificado em segundo lugar, por saldo de gols, e fomos para a disputa do primeiro mata-mata.

Novamente contra o time do baixinho.

Confusão à vista, pensei.

E não deu outra.

Logo no início do jogo, os dois nervosinhos se desentenderam.

Dessa vez, foram às vias de fato.

Corremos todos para apartar aquela briga, que por pouco não se transformou numa confusão ainda maior, pois, no meio da discussão, outros elementos também acabaram se envolvendo.

Foi um empurra-empurra para cá, outro para lá, com a turma do deixa-disso no meio de todos tentando acalmar os ânimos, que naquele momento estavam bastante exaltados.

Depois de muita conversa, os grupos se separaram e a partida foi retomada.

Só que, para variar, aqueles dois continuaram a se estranhar.

O baixinho, em vez de jogar, ficou próximo a SR, girando ao redor dele enquanto movimentava o braço, que, fechado em punho, parecia pronto para desferir um golpe.

— Cara, se tu me bater, eu vou te arrebentar — falou SR, com um sorriso nervoso no rosto.

— Eu vou te bater, eu vou te bater, lá, lá, lá — repetia o irritadinho.

Nesse momento, um coro se formou dentro e fora do campo, pedindo para que aquelas pendengas acabassem.

Alguém chegou a sugerir que, se as rusgas não fossem deixadas de lado, o melhor seria interromper os jogos e encerrar o campeonato.

De certa forma, os pedidos surtiram algum efeito.

Os arranca-rabos diminuíram.

Pedimos que os dois ficassem em lados diferentes do campo, justamente para evitar encontros mais duros.

No fim, eles acabaram se afastando e o jogo chegou ao final com nova vitória da nossa equipe.

2 a 1.

Estávamos na final.

Ficamos esperando pela partida do outro grupo.

Enquanto isso, ouvimos mais um pouco de Rock, fumamos mais alguns cigarros e tomamos mais um pouco de xarope.

Aquela altura do campeonato, comecei a sentir os efeitos da codeína de forma ainda mais acentuada.

Percebi isso no momento em que sentei ao lado de C-Zinho, C-Léo e To, meu irmão mais novo.

Não lembro exatamente qual era o tema da conversa. Aquele momento já estava permeado pelo som viajante do Yes, mas provavelmente tratava-se de alguma das nossas filosofices habituais.

Eu estava completamente chapado.

Foi então que percebi claramente que o lema daquela nossa geração fazia todo sentido.

Eu era só Paz e Amor.

Ficamos ali olhando aqueles jovens correndo de um lado para outro.

Em nossas cabeças começava a se delinear um estado alterado de consciência no qual tudo parecia coberto de sentido.

Na nossa visão, aquele jogo era pura poesia.

C-Zinho, como se estivesse em estado de êxtase, virou-se para mim:

— Cara, olha essa bola e esses caras aí correndo atrás dela. Que coisa louca, não?

Olhou novamente para o campo.

— A bola é um verdadeiro símbolo. Algo, eu diria, xamânico.

Pensei comigo mesmo:

C-Zinho hoje passou da conta.

Mas ele não parou por aí.

Em seguida, confidenciou-nos um poema que havia feito sob inspiração de sua voz da consciência, a quem chamava de Antracília.

Não me pergunte por quê.

Acho que nem ele mesmo sabia explicar de onde havia surgido aquele nome.

Ali, olhando para o movimento da bola, que não parava de sambar à nossa frente, declamou:

Antracília me falou
que a bola é uma aposta
onde nela tudo se joga
até aquilo que não se gosta.

— Mermão, o cara hoje tá inspirado, carai! Quantos vidros de Pam tu tomastes? Uns dois, acho! — falei para ele, misturando alegria e encantamento.

— E você tá esquecendo de uma coisa, né, C-Zinho? — perguntou C-Léo.

— O gol! — concluiu.

— Pois é! Outra coisa totalmente simbólica e xamânica — respondeu C-Zinho.

— É isso aí! — interrompeu C-Léo.

— O chamado Filó, como escreveu Chico — completou C-Léo, referindo-se a um poema de Chico Buarque e também à forma como o goal, em inglês, que significa meta, objetivo, era chamado nos meios futebolísticos.

— Estufar o filó é o momento mais mágico do futebol.

— Verdade — respondi.

— Repara quando um desses caras faz um gol. Olha só a felicidade que eles sentem nesse momento... É indescritível — completei.

— E quando esse gol ainda por cima traz a vitória? — indagou C-Zinho.

— Aí fudeu! — respondeu C-Léo.

— É isso aí — concordei.

Não apenas com C-Léo, mas como se estivesse fazendo um gesto de concordância global com tudo aquilo que estava sendo conversado ali.

Vendo aqueles rapazes correndo atrás da bola, com seus dorsos se contorcendo numa verdadeira dança, observei ainda mais atentamente a maneira como alguns tratavam aquela esfera com delicadeza, sobretudo os mais talentosos.

Gu era um deles.

A maneira como tocava a bola e a forma harmoniosa com que se infiltrava na zaga adversária pareciam desenhar no espaço um ritmo morno e, ao mesmo tempo, incisivo.

Ele mandava nos seus oponentes.

Fazia o que bem desejava.

Dava dó de ver a angústia dos marcadores que, de todas as maneiras, tentavam impedi-lo de chegar ao seu objetivo.

No fim, acabavam ficando para trás, um a um, como se estivessem caídos de podres, tamanha a impotência que sentiam ao tentar pará-lo.

Dava gosto de ver.

No final, não deu outra.

O time deles venceu o duelo e seria nosso adversário na final.

Estava claro que teríamos um jogo duríssimo pela frente.

Mas senti-me mais confortado porque aquela equipe não contava em seu grupo com nenhum elemento criador de caso.

Aquilo, por si só, já era um grande alívio.

O jogo seria jogado.

Na bola.


O desábito de vencer
não cria o calo da vitória
não dá à vitória o fio cego
nem lhe cansa as molas nervosas

Guarda-a sem mofo: coisa fresca
pele sensível, núbil, nova,
ácida à língua qual cajá,
salto no sol do Cais da Aurora

                                                                                 João Cabral de Melo Neto


Nos jogos de que participei naquela época, quando jogávamos nossa bola no estacionamento da Rua da Saudade, nunca havia chegado a uma final.

Meu time, formado na maioria das vezes pelos maiores pernas-de-pau do grupo, mesclado aqui e ali por um ou outro mais talentoso, nunca havia alcançado uma decisão.

Aliás, vencer não era uma palavra presente no meu vocabulário.

E que fique claro: na maioria das vezes, a grande culpa, como costuma acontecer nesses casos, recaía sobre mim.

O goleiro/mordomo.

Assim eu era chamado, porque sempre acabava considerado o culpado.

Além de ser ruim de bola, eu era um cara completamente viajandão, que vivia nas nuvens.

E, convenhamos, isso não é exatamente um pré-requisito muito apreciado para um goleiro.

Naquele dia, entretanto, eu até que estava me saindo bem.

Havia feito boas defesas e meu Ki-chute, a essa altura já não tão novo assim, havia tirado algumas bolas decisivas.

Só que, depois de todas aquelas discussões filosóficas regadas a xarope e muito Rock and Roll, era de esperar que eu já estivesse para lá de Marrakech.

Apesar das minhas sandices e de me encontrar naqueles exatos instantes bastante alhures, até que estava me saindo bem.

Fiz algumas boas defesas.

Consegui posicionar bem a defesa.

Passei instruções sobre como C-Zinho e C-Linho deveriam marcar o talentoso Gu.

— Não fiquem em linha! Não fiquem em linha! — gritava a todo momento.

— Um marca e outro fica na cobertura. SR, marca ele também aí no ataque! — falava sem parar.

Era uma tentativa desesperada não apenas de anular o principal jogador do time adversário, mas também — e essa era a parte mais importante — de me manter dentro do jogo.

Se não fizesse isso, com certeza rapidamente iria parar em outras plagas, como se estivesse numa viagem lisérgica.

Numa jogada mais aguda dos nossos adversários, Gu, de maneira inteligente, puxou a marcação dos meus dois zagueiros, deixando seu irmão livre para marcar.

Não demorou muito e SC, numa linda jogada individual, empatou para o nosso time.

O jogo seguia bastante disputado, mas sem jogadas mais ríspidas.

Embora estivesse sendo interrompido muitas vezes pela forte marcação exercida pelos dois lados, não havia grandes discussões.

Foi então que, do lugar onde estava, ouvi meu pequeno gravador começar a tocar a canção mais linda de Survival, o novo álbum do Grand Funk:

“I Can Feel Him in the Morning”.

As vozes singelas e angelicais daqueles garotinhos conversando sobre Deus logo no início da música fizeram-me viajar para muito longe dali.

Aquilo não poderia ter acontecido.

E aconteceu.

Porque, numa distração, Gu acabou virando o jogo.

SR foi à loucura.

Estávamos perdendo por 2 a 1 e a partida já se encaminhava para o final.

Foi quando, num ataque adversário, a bola saiu pela linha de fundo e foi parar bem longe do gol.

Eu, que já estava numa Nice só, saí caminhando bem devagar para buscá-la.

Estava completamente indiferente ao resultado desfavorável para nossa equipe.

Quando me preparava para voltar ao gol, ouvi SR bradando desesperadamente.

E, dessa vez, ele tinha razão.

Estávamos em desvantagem no placar e precisávamos correr contra o tempo para buscar o resultado.

— Manda a bola! Manda a bola, carai! Rápido, rápido!

Rápida e desastradamente, de onde estava — ou seja, fora do gol —, joguei a bola em sua direção.

Ela, caprichosamente, tomou outro rumo.

E caiu certeiramente nos pés de Gu.

Ele, de forma implacável, sem dó nem piedade, antecipou-se rapidamente à nossa defesa e largou o pé.

Estava decretada a nossa derrota.

SR saiu correndo em minha direção, com os punhos cerrados, chamando-me de nomes nada agradáveis de ouvir.

Não chegou a me bater porque foi segurado pelos demais.

O desábito de vencer não cria o calo da vitória.

Cabral estava certo.

Ficamos ali discutindo por um longo tempo.

Ele querendo me crucificar.

Eu, totalmente à deriva, tentando me justificar.

Afinal, havia atendido ao seu pedido para jogar-lhe a bola.

— Por que não esperou que eu voltasse ao gol? Eu iria demorar?

É provável que, naquele meu passinho de tartaruga, isso de fato fosse acontecer.

O fato é que, mais uma vez, por minha causa — o goleiro/mordomo, aquele que é sempre o culpado —, nosso time deixou de vencer.

E olha que nunca havíamos chegado tão longe.

No final de tudo, porém, entre mortos e feridos, salvaram-se todos.

Aquela tinha sido mais uma deliciosa tarde que passamos juntos.

E não seria por causa das desavenças daquele dia que o grupo se desagregaria.

Afinal, para aqueles rapazes, tudo era motivo de alegria.

Perder ou vencer faz parte do jogo.

Faz parte da vida.

O importante é que a vida seja vivida.

Em seu livro de memórias, Viver para Contar, Gabriel García Márquez define aquilo que considera a essência de estar vivo:

“A vida não é o que se viveu, mas sim, o que se lembra, e como se lembra para contar.”

É assim que me lembro desses fatos que vivenciei durante tantos anos junto com todos aqueles rapazes.

E é assim que gostaria de compartilhar com cada um deles:

contando essas pequenas e divertidas histórias.

Sei que alguns já se foram.

Mas aqueles que ainda estão vivos haverão de se lembrar dos momentos marcantes que vivenciamos.

E, ao relerem essas passagens, talvez voltem a ser os eternos garotos que são e que, tenho certeza, ainda moram dentro de cada um deles.

Que saudades sinto das nossas peladas jogadas naquele lugar.

Um espaço que não reunia a menor condição para que uma boa partida de futebol fosse disputada, mas que nos emprestava seu chão para que vivenciássemos aqueles momentos saborosos.

Como não morávamos nos subúrbios, lugares onde normalmente era possível encontrar espaços mais apropriados, ou até verdadeiros campinhos de futebol, aquilo era o que tínhamos.

E era com aquilo que haveríamos de nos contentar.

Não era um lugar apropriado.

Sabíamos disso.

Tratava-se de um terreno onde antes existiam enormes casarios construídos no final do século XIX e que haviam sido derrubados para dar lugar, algum dia, a algum prédio.

Jogávamos sobre restos de pisos de cozinhas, varandas e salas de jantar.

Por várias vezes, aquilo nos levou a pensar que pessoas e famílias haviam vivido naquele lugar.

Quer quiséssemos ou não, o simples fato de estarmos ali já nos fazia sentir como se estivéssemos tocando a outra ponta de um tempo que havia passado.

Talvez seja essa uma das coisas mais bonitas da memória.

Ela não precisa de lugares perfeitos.

Não precisa de estádios.

Não precisa sequer de uma verdadeira quadra.

Precisa apenas de um lugar onde alguma coisa tenha acontecido.

E nós fizemos acontecer.

Àquela altura, poderíamos perguntar:

Onde se joga futebol?

E eu lhes diria:

Futebol se joga em qualquer canto, em qualquer lugar que se ofereça para que uma bola e pessoas dispostas a correr atrás dela possam praticar suas traquinagens, suas molecagens e, por que não, realizar seus sonhos.

Mas, para finalizar, vou deixar que alguém muito mais preparado do que eu, o poeta Carlos Drummond de Andrade, responda a essa questão:

Futebol se joga no estádio?
Futebol se joga na praia,
futebol se joga na rua,
futebol se joga na alma,
a bola é a mesma: forma sacra
para craques e pernas-de-pau.

Mesma volúpia de chuta
na delirante copa-mundo
ou no árido espaço do morro.
São voos de estátuas súbitas,
desenhos feéricos, bailados
de pés e troncos entrançados.

Instantes lúdicos; flutua
o jogador, gravado no ar —
afinal, o corpo triunfante
da triste lei da gravidade.

E talvez seja justamente por isso que ainda sinto tanta saudade.

Não apenas das peladas.

Não apenas daquele estacionamento.

Não apenas do futebol.

Sinto saudade de nós.

Daqueles garotos que atravessavam a cidade atrás de uma bola, de uma Coca-Cola, de um disco novo, de um pouco de xarope e de qualquer desculpa que nos permitisse ficar juntos durante mais algumas horas.

Naquele tempo, não sabíamos.

Não sabíamos que um dia aqueles sábados acabariam.

Não sabíamos que alguns daqueles rostos desapareceriam.

Não sabíamos que os prédios mudariam, que os terrenos seriam ocupados, que os discos envelheceriam, que as vozes se calariam e que nossos próprios corpos deixariam de ser aqueles que corriam atrás da bola.

Só sabíamos que era sábado.

E que a tarde estava apenas começando.



Carlos Pessegatti







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