Seu Martinho, meu Mestre.
A turma da esquina da Sete se reunia ao longo de um muro.
Não era um muro qualquer — era um limite. Um território. Um traço fincado na Rua Sete de Setembro, espremido entre a Conde da Boa Vista e a Martins Júnior, quase invisível para a cidade, mas absolutamente central para nós.
De um lado, o Edifício Unidos. Do outro, um antigo casarão gradeado — propriedade do desembargador João Roma, pai de Joca, nosso conhecido. E, entre esses dois mundos, erguia-se o muro: um metro e meio de altura, meio metro de largura, uns vinte metros de extensão.
Uma linha contínua onde o tempo sentava.
Na base, pelo lado de trás, os blocos sustentavam outdoors que anunciavam um mundo que ainda não era o nosso. Ou talvez nunca fosse.
Durante a semana, chegávamos depois do jantar — como quem cumpre um ritual que não precisa ser explicado. Nos fins de semana, o muro se tornava confluência: gente que vinha das boites do sul — Candeias, Piedade —, outros dos clubes — Português, Internacional, Náutico —, e havia ainda os que chegavam das sessões da meia-noite.
Filmes antes do tempo.
Primeiro no Cine São Luiz, à beira do Capibaribe, na Rua da Aurora, quase tocando a ponte Duarte Coelho. Depois, já nos anos 70, no Veneza, na Rua do Hospício, em frente ao Carneiro Leão — onde fiz meu ginásio.
Havia um refrão cruel que rondava aquele colégio. Nunca gostei dele. Algumas frases ferem mais do que brincam.
Mas ali, no muro, éramos outra coisa.
Um organismo vivo.
O grupo era grande — e, como todo corpo vivo, se dividia. Afinidades, idades, pequenas órbitas. Sentados lado a lado, alinhados como notas numa pauta, formávamos círculos involuntários. A própria arquitetura nos impedia de ser um só — e, ainda assim, éramos.
E havia ele.
Moreno, forte, presença constante. Guardião informal do estacionamento. Uma autoridade sem imposição — dessas que simplesmente se reconhece.
Às vezes, atravessava a fronteira invisível e se tornava um de nós.
Foi ele quem trouxe o jogo.
E todo jogo, no fundo, é uma forma de organizar o caos.
Formávamos um círculo. Ele era o centro:
— Seu Martinho, meu mestre.
Nós éramos casas. Números. Identidades provisórias.
— Onde foi parar o presente do Seu Martinho, meu mestre?
E, sem dar tempo ao tempo:
— Na casa do Seu Martinho não está… então deve estar na casa número quatro!
A casa quatro precisava existir naquele instante:
— Na casa número quatro não está; deve estar na casa número sete!
E o fluxo seguia. Sem pausa. Sem falha. Uma corrente que não admitia silêncio.
Quem quebrasse… pagava.
A punição vinha seca: uma palmada com um pedaço de madeira. Uma palmatória improvisada. Simples. Inevitável.
E havia quem gostasse.
Eu, franzino, aprendia a medir forças. Batia leve — sobretudo nos mais fortes. Sabia que o jogo tinha memória. E que ela cobrava.
SR, F e N.
Matéria densa.
F e N — compactos, pesados, quase mecânicos. SR — tensão pura. Como se estivesse sempre à beira de um curto-circuito.
SR, por sua vez, raramente sorria. E, quando sorria, havia algo de brusco, quase fora de lugar. Os cabelos claros caíam sobre o rosto, e ele os afastava com impaciência — como quem luta contra algo que não se vê.
Mas não era mau.
Havia nele uma fenda. Algo que escapava. E isso sempre me fez olhá-lo com uma estranha compreensão.
Até aquela noite.
SR já vinha carregado. Palmadas acumuladas. Uma conta aberta com o mundo.
E o mundo, às vezes, escolhe.
Eu errei.
Justo na vez dele.
Naquele instante, tentei negociar com o invisível. Um pensamento lançado ao alto — como quem busca abrigo onde não há.
Mas ele já não estava inteiro ali.
Nos olhos, fogo.
Lembrei de As Vinhas da Ira. Ele era aquilo — a ira em estado bruto.
Pegou a madeira.
— Segurem a mão dele. A minha vingança será maligna.
Disse rindo.
Mas não havia riso.
Preparou o gesto. Alongou o tempo. Criou um silêncio que pesava. Me seguraram o braço. E eu fechei os olhos.
Era inevitável.
Esperei.
E então—
o erro.
Um pequeno desvio no fluxo. Uma falha mínima.
Mas, naquele jogo, o mínimo era absoluto.
Errou a fala.
Perdeu a vez.
A palmada não aconteceu.
A energia, toda ela, desfeita no ar.
SR explodiu. Disse que eu havia me mexido. Tentou reescrever o instante. Mas meus amigos — cúmplices da regra — sustentaram o que era.
Ele pediu outra chance.
E eu, agarrado à única coisa que me protegia, respondi:
— Chance desperdiçada é chance perdida… e segue o jogo.
E o jogo seguiu.
Como tudo seguia.
E assim eram as noites.
Mãos vermelhas. Latejantes. Ardendo.
Mas não era dor o que levávamos para casa.
Era outra coisa.
Hoje, as dores são mais profundas. Não ardem na pele — atravessam por dentro.
A cidade endureceu. O mundo se tornou excesso. Violência, ruído, consumo, pressa, abandono, desgaste. Tudo pesa.
Diante disso, aquelas pequenas dores… quase não contam.
Porque ali — naquele muro, naquele jogo — havia algo raro:
pertencimento.
Não era um paraíso. Nunca foi.
Havia ditadura, medo, um mundo em tensão constante.
Mas não era isso que nos habitava.
Talvez fôssemos ingênuos. Talvez protegidos pela falta de excesso. Talvez simplesmente vivos demais no presente para carregar o peso do todo.
O mundo era aquela esquina.
Aquele muro.
Aquele círculo imperfeito.
E bastava.
O futuro não existia. Era apenas uma ideia distante — sem corpo, sem urgência.
Hoje eu sei:
aquele tempo não passou.
Ele permanece.
Como um mestre silencioso.
Como uma frequência contínua sob o ruído do mundo.
E talvez seja isso que insiste —
lembrar que a felicidade não é um acidente.
É uma exigência.
E que, apesar de tudo,
há coisas
que não podem —
e não devem —
ser esquecidas.
Carlos Pessegatti (Carlinhos)
Comentários
Postar um comentário