Os segredos de François Holderling



Os segredos de François Holderling



Esta história se passa em um 

único dia na provinciana

Recife do início dos anos 1970


Capítulo I

Ciência X Religião – A Física propõe uma trégua

Em uma inesperada e ensolarada tarde de maio, deixei o Colégio Esuda carregando comigo uma inquietação incomum. Algumas ideias lançadas pelo nosso professor de física ainda ecoavam em minha mente, como se recusassem a se dissipar no ar quente daquela tarde. Eu cursava o segundo ano do Científico — nome que se dava ao que hoje conhecemos como Ensino Médio — e vivia um daqueles períodos raros da vida em que o conhecimento nos atravessa como uma enxurrada luminosa. Todos os dias traziam consigo novas descobertas, e cada uma delas parecia expandir ainda mais os limites da minha curiosidade juvenil. Era uma idade em que tudo soava inaugural, como se o mundo estivesse sendo revelado pela primeira vez, revestido de mistério.

Naquele tempo, o Científico se voltava às ciências exatas, enquanto o Clássico era o caminho daqueles que seguiriam para as Humanidades. Havia ainda o Biológico, reservado aos que aspiravam à medicina e suas derivações. Éramos, de certo modo, jovens já destinados — ainda que não plenamente conscientes — às engrenagens do mundo adulto.

O professor, homem de sotaque estranho aos nossos ouvidos — era paulistano —, tinha o hábito de, vez por outra, romper os limites do previsível com ideias que nos deslocavam do eixo. Naquele dia, ao discorrer sobre a Teoria das Cordas, trouxe à tona uma afirmação que me capturou por inteiro. 

Disse-nos que, segundo os princípios matemáticos dessa teoria, o universo possuiria onze dimensões.

Explicou que a Teoria das Cordas concebe a realidade não mais como composta por partículas pontuais, mas por entidades unidimensionais, semelhantes a cordas vibrantes — estruturas mínimas cuja oscilação daria origem a tudo o que existe. Mas o que verdadeiramente me atravessou foi quando mencionou que alguns estudiosos supunham que, entre essas onze dimensões, a sexta poderia ser o lugar onde habitariam os espíritos.

Aquilo abriu, diante de mim, um abismo.

Sempre soubemos do embate histórico entre Ciência e Religião — um conflito antigo, feito de perguntas que parecem não encontrar repouso. Talvez a mais emblemática delas seja aquela que, em sua simplicidade quase ingênua, condensa séculos de disputa: viemos dos macacos ou da costela de Adão?

Desde Galileu Galilei, que estabeleceu a primazia da medida e da quantificação, a ciência passou a reconhecer como verdadeiro apenas aquilo que pode ser mensurado. Depois dele, Francis Bacon consolidou o império da experimentação, submetendo a razão à prova concreta dos fatos. Assim se ergueu uma fronteira quase intransponível entre dois modos de compreender o mundo.

Seria possível, então, que aquela fala do professor insinuasse uma aproximação? Estaria a Física — essa guardiã do rigor — propondo uma espécie de trégua com o invisível?

Ainda hoje, não sei responder.

Ouvir um físico falar em espiritualidade — e, por extensão, em religião — soava, à época, como algo profundamente paradoxal. Mas talvez mais estranho do que isso tenha sido o fato de eu não ter ido até ele ao final da aula. Não o questionei. Não pedi explicações. E, pelo que me recordo, jamais voltei a tocar naquele assunto com ele. A dúvida permaneceu — silenciosa, intacta — atravessando os anos.

Talvez por duas razões. A primeira: minha absoluta ignorância sobre a doutrina espírita. A segunda: na minha mente ainda imatura, espiritismo e assombração eram praticamente sinônimos. E eu temia assombrações com uma intensidade quase física. Diante disso, parecia mais seguro permanecer no território firme da ciência.

Hoje penso diferente. Hoje, eu teria levado aquela questão às últimas consequências.

Antes de deixarmos o colégio, eu e meu amigo SL — um verdadeiro prodígio da matemática, companheiro desde os tempos de ginásio — tentamos esmiuçar o que havíamos escutado. Mas a conversa não avançou muito. SL era, em essência, um cartesiano rigoroso. Para ele, aquelas ideias simplesmente não faziam sentido.

Saí do colégio tomado por um sentimento ambíguo: inquietação e alegria. Inquietação pelas perguntas ainda sem resposta; alegria porque aquele era, invariavelmente, o estado que me acompanhava ao final das aulas. Comigo vinham AB e L-Gordinho, que tentavam, sem muito sucesso, encontrar explicações para a afirmação insólita do professor.

Descemos pela Rua Corredor do Bispo, mergulhados em uma enxurrada viva e ruidosa de estudantes que retornavam para casa. Havia ali uma energia festiva, quase contagiante. Mas, apesar das tentativas, nem AB nem L-Gordinho conseguiam sustentar uma análise mais consistente. AB, sempre meio deslocado do mundo, parecia ainda mais distante quando recorria ao velho Xarope Pambenyl — nosso improvável refúgio químico contra angústias que mal sabíamos nomear.

Ao alcançarmos a Avenida Conde da Boa Vista, o mundo se intensificou. O fluxo de pessoas, carros e ônibus criava uma sinfonia caótica que só aumentava à medida que outros estudantes se juntavam a nós. Atravessamos a avenida e logo fomos engolidos pela multidão que saía do Colégio Marista, incrustado naquela quadra imensa entre a Rua Gervásio Pires e a Rua do Hospício.

Era como se a cidade inteira respirasse juventude.

O grande muro cinza do colégio, geralmente austero e indiferente, parecia, naquele momento, transfigurado. A presença dos jovens lhe conferia uma espécie de alegria improvisada, como se a própria matéria urbana fosse capaz de sorrir.

Uma brisa vinda do mar atravessou-me o peito, trazendo consigo uma sensação de plenitude. Eu sabia que a noite ainda nos reservaria encontros, risos, histórias — e isso bastava. A vida, naquela idade, parecia um parque de diversões em funcionamento contínuo. Havia angústias, sim, mas elas não tinham força suficiente para obscurecer a alegria fundamental de existir.

Passamos pela loja de discos A Modinha, no Edifício Suape quando ouvimos o chamado de Fernando. Magro, de feições delicadas e cabelos lisos, ele nos saudava com entusiasmo, segurando nas mãos uma espécie de relíquia recém-chegada.

Era o novo álbum do Grand Funk Railroad — Pluribus Funk. Mas ninguém o chamava assim. Para nós, era simplesmente o Disco da Moeda.

A capa, redonda, destoava de tudo o que conhecíamos. E o som — intenso, quase visceral — nos arrebatou. Ouvimos trechos ali mesmo, extasiados, como quem descobre uma nova dimensão da experiência sonora. Não havia dúvida: precisaríamos comprá-lo. Ainda que, para isso, tivéssemos que organizar uma vaquinha.

Fernando riu da nossa precariedade financeira — e nós rimos junto, sem qualquer constrangimento. Éramos duros, sim. Mas havia uma alegria genuína nessa condição compartilhada.

Falamos longamente sobre aquele objeto estranho e fascinante. O LP — Long Playing — surgido em 1948, não era apenas um suporte. Era um universo. Para muitos, como o professor Lorenzo Mammi, tratava-se de uma verdadeira forma artística, comparável à sinfonia ou ao romance.

Naquelas décadas, não apenas ouvíamos música. Nós éramos a música.

Hoje, tudo parece diferente. A música tornou-se etérea, quase impalpável. Antes, podíamos segurá-la nas mãos, contemplar suas capas, percorrer seus encartes. Agora, ela habita arquivos invisíveis, dissolvida em nuvens digitais. O que antes era presença tornou-se fluxo.

Saímos da loja já arquitetando o plano para adquirir o disco e ouvi-lo no apartamento de C-Zinho — nosso american-man — no Edifício Iran.

Ao chegarmos à esquina da Rua Sete de Setembro — nosso quartel-general existencial — encontramos B-Zinho, SC e C-Léo, entretidos com o fluxo incessante da vida.

Aquela esquina era mais do que um lugar. Era um território simbólico. Ali, a cidade e o lar se fundiam. Ali, éramos, ao mesmo tempo, habitantes do mundo e guardiões de um pequeno universo próprio.

Hoje, penso nos chamados não-lugares” — os shoppings, espaços homogêneos e desprovidos de identidade. Como se lembrarão deles? O que guardarão em suas memórias?

Como nos lembra Paul Virilio, é na rua que a vida acontece. É nela que se dão as manifestações, os encontros, as revoluções. Nos shoppings, ao contrário, o sujeito cede lugar ao consumidor.

Ali, naquela esquina, éramos livres.

Ficamos observando o cair da tarde, enquanto a cidade acendia suas luzes. Havia beleza em tudo — talvez porque a alegria dentro de nós fosse abundante. Hoje, percebo o quanto a realidade tem sido capturada por simulacros e, como diria Beatriz Sarlo:

 "Triste daqueles que hoje transitam por esses lugares assépticos e pasteurizados, essas cápsulas espaciais condicionadas pela estética do mercado”. 

Vive-se menos o mundo, e mais suas representações.

Naquela noite, porém, tudo era real.

Respirei profundamente. Luzes, sons, odores — tudo girava ao meu redor como um redemoinho sensorial que me arrastava para o centro da vida.

A noite chegou.

E, aos poucos, cada um tomou seu rumo. Alguns atravessaram avenidas, outros seguiram em direção às pontes e bairros distantes. Nós, que morávamos ali, sabíamos: a festa ainda não havia terminado.

Convidei SC para jantar em minha casa — a sopa de feijão da Têca era irresistível. Ele aceitou prontamente.

No caminho, quando passávamos pela calçada do Edifício Ouro, uma música dos Beatles chamou minha atenção. Era Come Together.

Ali, na antiga garagem do prédio, funcionava uma pequena loja que pertencia a um sujeito forte, de cabelos muito compridos, quase à maneira dos próprios Beatles. A entrada da loja ficava abaixo do nível da calçada, e para chegar até ela era preciso descer uma rampa um pouco íngreme.

Foi justamente o som que vinha lá de dentro que me fez olhar para a loja. E então vi nosso amigo F conversando com Tarzan.

Ao percebermos aquela cena, paramos e perguntamos a F o que ele estava fazendo ali.

A resposta veio com a maior naturalidade do mundo: havia levado um velho rádio do pai para ver se tinha conserto.

E foi assim, por causa de uma música dos Beatles que vinha de uma loja instalada na antiga garagem do Edifício Ouro, que encontramos F e Tarzan naquele dia. 

Uma cena absolutamente banal, talvez esquecível para qualquer outra pessoa, mas que permaneceu guardada na memória — como tantas outras daquele tempo, em que as coisas mais simples acabavam se transformando, sem que soubéssemos, em lembranças para toda a vida.


Seguimos pela Rua Sete de Setembro, falando sobre o espírito empreendedor de F. Tínhamos certeza: ele iria longe.

Antes de chegar, fomos interceptados pelo aceno afetuoso de Pascoal, do Mercadinho Carioca. Sua alegria era intensa, quase transbordante. Perguntou se estaríamos mais tarde no estacionamento. Hesitamos. Respondemos com evasivas.

E seguimos.

Deixando para trás, talvez sem perceber, um pequeno rastro de ausência.


Chegando em casa, deixei SC na varanda, entretido em conversa com um dos hóspedes, e segui para o quarto, onde depositei os livros como quem tenta aliviar, ainda que por instantes, o peso invisível de um dia cheio de pensamentos. Lavei as mãos e retornei à sala principal, onde eram servidas as refeições da pensão, pedindo a um dos empregados que nos trouxesse o jantar.

Ai, ai, ai, olha aqui novamente travestidas as nossas raízes coloniais! — pensei.

A Casa Grande e a Senzala ali se insinuavam, discretas, quase disfarçadas na rotina, mas ainda assim presentes, como uma memória estrutural que insiste em não desaparecer. Um ranço antigo, persistente, que talvez nunca tenha nos abandonado por completo.

À mesa estavam o Sr. Avani e o Dr. Laerte, dois frequentadores assíduos. O Sr. Avani, alto, imponente, trazia consigo uma elegância que beirava o aristocrático. Seus cabelos grisalhos recuavam para as laterais, deixando à mostra a calvície luminosa. Vestia camisas de linho branco, sempre impecáveis, e ocupava a cabeceira da mesa, como se aquele lugar fosse uma extensão natural de sua presença.

Ao seu lado, o Dr. Laerte — dentista da família —, baixo, de feições contidas, mas de olhar vivo, carregava um ar de jovialidade que contrastava com sua experiência. Havia nele uma leveza pronta a se transformar em humor.

Eu e SC nos sentamos do lado oposto. Enquanto jantávamos, Felipe chegou da faculdade, cumprimentando a todos com seu jeito descontraído, antes de se acomodar próximo a nós.

Sem demora, começou a falar, tomado por um entusiasmo quase febril. Estava impressionado com as ideias de Friedrich Nietzsche, e foi sobre ele que passou a discorrer.

Falava do niilismo — palavra que até então nos era completamente estranha — explicando:

— Consideramos o niilismo positivo quando, pela crítica, desmascaramos a terrível ausência de cada fundamento, verdade, critérios absolutos e universais e, assim sendo, acabamos sendo convocados diante da nossa própria liberdade e responsabilidade, que agora já não estão mais garantidas.

Fez uma pausa breve, como quem organiza o pensamento, e continuou:

— Nietzsche pensa que todos os ideais, seja quais forem, possuem a mesma estrutura, a mesma finalidade: fundamentalmente eles partem de uma estrutura teológica, já que se trata sempre de inventar um além melhor do que este mundo, de imaginar valores pretensamente superiores e exteriores à vida ou, no jargão dos filósofos, de valores transcendentes”. Ora, para Nietzsche, tal invenção é sempre secretamente, é claro, motivada por más intenções”.

E então citou:

— “Seu verdadeiro objetivo não é ajudar a humanidade, mas apenas conseguir julgar e finalmente condenar a própria vida, negar o verdadeiro real em nome de falsas realidades, em lugar de assumi-la e aceitá-la tal como é.”

Olhou para nós, buscando cumplicidade:

— É essa negação do real em nome de um ideal que Nietzsche chama de niilismo", sacaram?

Enquanto isso, à margem daquela aula improvisada, o Dr. Laerte desenvolvia um assunto completamente distinto — e não menos curioso.

Com seu humor característico, virou-se para o Sr. Avani e disse:

— Avani, como pode uma coisa tão pequena, o cu, ter mais de setenta nomes para designá-lo?

E seguiu, quase saboreando cada palavra:

— Veja — continuou ele — temos furico, fiofó, rabicó, roseleta, rabiola, rosca, roscof, tutu, fueiro, foba, viegas, fiote e por aí vai.

O Sr. Avani o ouvia entre o constrangimento e a surpresa, tentando manter a compostura diante de um tema tão deslocado daquele ambiente que ele parecia habitar com tanta formalidade.

Felipe, percebendo que parte da atenção se dispersava, voltou-se inteiramente para nós e retomou seu fluxo:

— Diferentemente do que muitos pensam, Nietzsche não era a favor do niilismo, muito pelo contrário. Para Nietzsche, o niilismo seria um anseio do vazio”, que na verdade era uma manifestação dos seres doentes que se conformam e idealizam o vazio e não um verdadeiro estado de força.

E concluiu:

— É que para o pensamento nietzschiano, não existe essa transcendência, e que todo juízo é um sintoma, uma emanação da vida que faz parte da vida e nunca se situa fora dela.”

Aquela noite nos oferecia, sem aviso, uma aula improvável — filosofia e irreverência compartilhando o mesmo espaço, como se a própria vida recusasse compartimentos rígidos.

Mais adiante, ao nos despedirmos daquele mergulho em ideias, senti que algo havia se acendido, ainda que de forma difusa.

— Chega, agora eu quero é descontrair! — confidenciei a SC.

Descemos.

Ao sairmos, encontramos Jo e M-Mentiroso:

— Eu estava indo agora mesmo na tua casa — falou Jo.

— Queria saber o que vocês vão fazer.

— Nós estamos indo lá pra esquina da Sete — respondi.

— Vamo nessa! — disse ele, sem hesitar.

Seguimos pelo corredor estreito do estacionamento do Edifício Mandacaru, atravessando aquele pequeno túnel urbano que nos levava de volta ao nosso território.

No murinho, estavam os de sempre.

SC, com seu humor imediato, lançou:

— O que estão fazendo aí Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse?

E veio a resposta, direta:

— Tamo paquerando as mina, mermão!

Sentamo-nos.

E então, como uma aparição performática, surgiu François, em seu fusca Rosa-Pink.

François era um sujeito  de feições delicadas, alto e esguio e que andava sempre muito alinhado. 


Tinha apenas vinte e dois anos - eu acreditava que ele fosse mais velho -  e seus modos refinados lhe conferiam um certo ar burguês.  Com seus olhos claros, sua barba sempre bem feita e seus cabelos loiros, podíamos dizer que aquele indivíduo era um belo exemplar do gênero masculino, muito embora suas preferências sexuais fossem outras. – “Taí um belo desperdício de homem”, - disse-me certa vez So, irmã de um dos rapazes.


Assim que ele apareceu, ele foi logo se debruçando sobre a janela do seu carro e em seguida gritou:

— Olá meus gostosos, como vocês estão?

A resposta veio no mesmo tom irreverente:

— Vai tomar no seu cu, seu viado.

François, sem perder o compasso, devolveu:

— Deus te ouça... Deus te ouça!

E completou, teatral:

— Olha aí moçada, quero fazer um convite! Quem quiser conhecer os meus trabalhos, passa lá em casa mais tarde.

Gritei de volta:

— Sei que você mora na Rua Imperatriz, só não sei onde!

Ele respondeu, já acelerando:

— O SC sabe onde moro. Vai lá! Estou esperando por vocês com o ânus bem aberto!

Risadas explodiram.

— Êta bicha depravada! — comentou M-Mentiroso.

E Jo, curioso:

— Vamo, vamo nessa! Vamos conhecer a casa desse fresco.


Depois que François partiu, os meninos mais novos, como C-Zinho, C-Linho, T-Ninho falaram que tinham compromissos enquanto P-Zinho disse que teria que ir pra casa pois estava cheio de deveres escolares.   Ficamos ali por mais algum tempo e por volta das nove da noite, decidimos dar um pulo na casa do François afinal de contas ele morava a poucos metros dali num daqueles sobrados antigos da Rua Imperatriz.  Embora o François fosse um pintor que já gozava de um certo prestígio na cidade, nem eu, nem os meus amigos, conhecíamos o seu trabalho.  Aquela noite, não sabíamos, nos reservaria uma tremenda e divertidíssima surpresa.


A noite, naquele instante, parecia abrir mais uma de suas portas inesperadas.

E nós, como sempre, decidimos atravessá-la.












Capítulo II

A descoberta do segredo

Foi um tempo em que Mequinho estampava manchetes e nomes como Richard Nixon, Leonid Brejnev, Mao Tsé-Tung, Lin Piao e os vietcongues atravessavam os noticiários como ecos de um mundo em ebulição. Era também a época de Salvador Allende, de Emerson Fittipaldi, de Maurice Chevalier, dos temporais devastadores em Bangladesh e das chamas que consumiam o edifício Andraus. Corria o ano de 1972 — o ano em que eu alcançaria os meus tão esperados dezoito anos. 

Se tivesse consciência da velocidade com que o tempo se dissolve, talvez tivesse pedido, em silêncio, que aquela idade demorasse mais a chegar.

de Barros dizia não gostar que colocassem datas na existência. Para ele, a data maior era o quando.

Quem équandocriança, a natureza nos mistura com as suas árvores, com as suas águas, com o olho azul do céu. Quandocriança, a gente sorri dos galanteios que a vida nos oferece todos os dias. Quando criança, de tudo se pode sorrir e, quando a gente ri, a vida nos confraterniza com as suas descobertas e o tempo estanca.”

Naquela noite, eu ainda não sabia, mas o que estava prestes a descobrir me faria rir como poucas vezes ri na vida — talvez como só o quando criança permite.

Do outro lado da rua onde ficava o nosso querido murinho — nosso quartel-general existencial — havia uma biblioteca pública. Ou melhor, um dos escritórios da antiga Sudene. Um prédio modesto, de dois andares, com um pequeno recuo que servia de estacionamento. Era dessas construções de portas recuadas, teto alto, onde o espaço parecia respirar mais devagar.

Ali ficava o Seu Antônio.

Chegava sempre por volta das vinte horas, puxava sua cadeira de palha, acomodava-se discretamente e ligava o inseparável radinho de pilha. Vigia do prédio e guardião informal de alguns carros da vizinhança, observava-nos com um sorriso permanente — como quem acompanha, em silêncio, um espetáculo cotidiano que nunca se repete da mesma forma.

Naquela noite, ao descermos do murinho rumo à casa de François, atravessamos a rua para cumprimentá-lo. Era quase um ritual. E também queríamos saber das novidades que chegavam pelo seu pequeno oráculo sonoro.

Falou-nos então de um rumor distante, vindo dos Estados Unidos. Um escândalo que começava a rondar a Casa Branca, envolvendo o nome de Richard Nixon. Segundo ele, o Washington Post noticiara um arrombamento na sede do Comitê Nacional Democrata, no complexo Watergate.

Naquele momento, aquelas informações nos atravessaram como tantas outras — rápidas, quase superficiais. Mas algo naquele relato permaneceu, como um ruído persistente. Dois anos depois, saberíamos o desfecho: a renúncia de um presidente. A primeira na história americana.

Despedimo-nos do Seu Antônio e seguimos — eu, SC, M-Mentiroso e Jo — todos com o pau-na-mão”, avançando em direção à casa de François. Não havíamos dito nada explicitamente, mas havia entre nós um certo receio. O desconhecido, naquela época, ainda era carregado de sombras.

Perguntei a SC se ele realmente sabia o endereço.

Ele hesitou, como quem tenta puxar uma lembrança pela ponta:

Disse que achava que era um sobrado na esquina da Rua Imperatriz com a Bulhões Marques, ao lado da Confeitaria Confiança.

A rua estava quase vazia. Poucos carros passavam. Pelas janelas do velho casario, vimos telas penduradas — manchas de cor suspensas na penumbra de uma sala que parecia ampla.

Paramos diante da porta número 272.

Tocamos a campainha.

François surgiu na varanda, espreitando. Ao nos reconhecer, abriu um sorriso que parecia maior do que o próprio rosto. A porta se abriu por meio de uma corda que descia do andar superior — um mecanismo simples, quase teatral.

Subimos.

A escada era estreita, escura, íngreme. Cada passo produzia estalos que nos faziam imaginar, por um segundo, que tudo poderia ruir sob nossos pés.

Mas chegamos.

E, ao alcançar o primeiro andar, fomos recebidos por uma explosão de alegria. François rodopiava, como se celebrasse algo muito maior do que uma simples visita.

Entreolhamo-nos.

E, sem palavras, pensamos:

Nossa Senhora! A bicha está parecendo uma libélula de tão feliz.

E fazia sentido.

Aquele homem, possivelmente solitário, recebia em sua casa quatro jovens atravessados por espinhas, hormônios e curiosidade. Um acontecimento improvável — e, talvez por isso mesmo, tão precioso.

Ele mesmo parecia não acreditar.

Quantas vezes já nos havia convidado?

E quantas vezes recusamos?

Agora estávamos ali.

E ele disse, com entusiasmo transbordante:

Meus lindos, ai que felicidade! A presença de vocês aqui fez arrepiar até os pelos do meu relógio.

Vestia um avental amarelo-ouro, manchado de tinta. Evitou o abraço — talvez por respeito, talvez por cuidado — e nos convidou a entrar.

Venham e não pensem que estão me atrapalhando, tá? Eu estou trabalhando naquele quadro pois tenho um prazo até o final da semana para entregá-lo.

Caminhava em direção a uma grande tela ao fundo, com um trejeito leve, quase coreografado.

O espaço nos surpreendeu.

Amplo como um galpão de ideias, iluminado por lustres generosos, com janelas avarandadas que deixavam a noite entrar. O piso de madeira, disposto em diagonal, brilhava como se tivesse memória própria. Tapetes espalhados, alguns com aparência persa, davam ao ambiente um ar de refinamento inesperado.

Não era o que imaginávamos.

Esperávamos um lugar pequeno, escuro, mofado.

Mas ali havia luz.

Havia espaço.

Havia vida.

François explicou, em algum momento, que o local fora transformado por ele — paredes derrubadas, limites rompidos. Uma arquitetura moldada pela vontade.

Então, erguendo levemente o queixo, anunciou:

Venham aqui meus meninos, venham conhecer as telas do grande mestre François Holderling.

O gesto que acompanhou a fala era quase teatral — um movimento delicado, como quem oferece algo invisível.

SC sorriu.

E eu, para não rir, escondi-me atrás de M-Mentiroso. Vieram-me à mente as suas imitações, sempre acompanhadas da frase:

— “Vamos Christóvão, eles não nos querem aqui!”

François seguiu, incansável, e logo perguntou:

Venham aqui, venham! Deixa eu mostrar minha humilde morada pra vocês.

Conduziu-nos ao fundo — cozinha, banheiro, um pequeno quarto.

Na cozinha, apontou para a garrafa:

Olha! Eu, se fosse vocês, experimentava esse vinho da região da Borgonha. É divino!

E completou:

Eu o ganhei de presente de um homem muito rico, dono de uma grande empresa daqui que me presenteou assim que lhe entreguei um quadro que ele havia encomendado.

Alguns aceitaram. Outros, não.

Voltamos à sala.

As telas nos cercavam — cajus vibrantes, cores pulsantes, naturezas reinventadas.

M-Mentiroso assumiu sua persona habitual, analisando tudo com uma convicção que nos fazia trocar olhares cúmplices.

Afastei-me.

Fui até a janela.

Chamei Jo.

E ficamos ali, observando a Rua Imperatriz de um ângulo inédito. O mundo, visto de cima, parecia outro.

Foi quando ouvimos:

Vem cá, Josinho, vem!

François o chamava, cheio de intenções:

Gritou ele cheio de insinuações para o nosso querido Humphrey Bogart.

Jo se desfez em constrangimento.

Rimos.

E enquanto todos se distraíam, algo me puxou.

No canto esquerdo, perto da entrada, havia uma pequena sala.

Aproximei-me.

Era um escritório.

Livros por todos os lados — no chão, na estante, sobre cadeiras, empilhados como pensamentos que não cabiam em si mesmos.

Sobre a mesa, uma máquina de escrever.

Remington.

Dentro dela, uma folha.

Inacabada.

Ao lado, pequenos livros — pocket books.

Parei.

E pensei:

Será que François também escreve?

Talvez ali estivesse algo mais profundo do que suas telas.

Talvez ali residisse um outro François.

Um segredo.

Mas não apenas o fato de escrever.

E sim… sobre o que escrevia.


Capítulo III

Os segredos de François


Ainda um tanto perplexo com algumas coisas que consegui enxergar naquele primeiro momento, e, confesso, até um pouco assustado, mesmo porque havia adentrado em um espaço para o qual não tinha sido convidado, resolvi voltar para a sala e com os olhos um tanto arregalados fiz um movimento em direção aos rapazes. Ocorre, porém, que como eles se encontravam bastante entretidos numa deliciosa conversa sobre quadros e vinhos, resolvi ficar um pouco afastado para ver se alguém percebia algum movimento estranho em mim.

No meio daquela conversa animada, François disparou: – Meus meninos, que coisa feia estou fazendo com vocês, meus ilustres convidados!


M-Mentiroso, que àquela altura mais parecia um entendido marchand, tamanha era sua desenvoltura, rebateu: 

— Que coisa feia... que coisa feia que nada, François! Você está sendo um anfitrião fantástico.

— Ai Meu Deus, mas que falso!  Pensei sorrindo entre os dentes... 

— Acho que o sujeito está atacado, — concluí.

— Mas que bom ouvir isso meu fofinho! (M-Mentiroso era um rapaz moreno e forte, para não dizer gordinho) — respondeu François, resposta esta que o deixou todo enrubescido.

— Venham! Acompanhem-me até a cozinha. Quero lhes servir uns queijos, franceses também, tá! — convidou na sequência.

— François, vou ficar um pouco aqui olhando da janela, tá? Achei muito legal a visão da rua vista daqui de cima, respondi.

— Legal! Fique à vontade, meu querido — respondeu ele.

Foi a minha deixa. Aproveitei a debandada deles e rapidamente me dirigi ao escritório, pois, cheio de curiosidade, queria ver que tipo de livros iria encontrar ali.

Em cima da mesa, além da máquina de escrever e de várias folhas já escritas que estavam ao seu lado com a frente voltada para baixo, havia uma carta de um tal de Jean-Pierre Valentin endereçada a François junto a alguns pequenos livros colocados uns sobre os outros. Na parte de trás da mesa, havia uma estante composta por  algumas poucas prateleiras onde se encontravam alguns objetos decorativos, como um pequeno vaso de flores, uma estátua do Buda e algumas bijuterias, e, para meu espanto, um pênis dourado que estava em pé apoiado sobre uma base de madeira onde havia a seguinte inscrição: Prêmio - 'O Pinto de Ouro1969 – O Último Pingo em Paris.”


A princípio, não entendi do que se tratava mas logo em seguida avistei, num canto na parte superior da mesa, um livro com o mesmo título que estava gravado naquele que logo deduzi ser, um troféu. 

Retirei o livro da prateleira e vi o nome do autor: François Holderling, Editora Gai.  Só muito mais tarde é que fui atentar para a palavra Gai, que em francês tem o mesmo significado que Gay em inglês. O problema é que a palavra Gay, que em inglês significa 'alegre, jovial', e que é proveniente do francês medieval gai,  não tinha àquela época a mesma conotação que possui hoje.


—  Ah! entendi.  Ele ganhou esse prêmio por causa do seu livro O último, — pensei falando para mim mesmo, baixinho.

—    O cara também é escritor, caramba! — concluí um tanto surpreso.

A partir daquele momento, aquela nuvem que pairava sobre a minha cabeça começou a se dissipar e as descobertas que fiz na sequência foram me fazendo entender melhor o  panorama que se desenrolava à minha frente. Encontrei aquele livro premiado e na sua contracapa pude ler o depoimento de um jornalista. Nas palavras deste jornalista, aquele romance era magistral e, segundo ele, em alguns aspectos até se assemelhava ao famoso livro Ulisses de James Joice pela forma como descreve os personagens e seus dramas e pelo fato de que a história se passa em apenas uma única semana, em Paris, mais-ou-menos como no livro de Joice em que toda a trama acontece em apenas um único dia na cidade de Dublin.


O Último Pingo, narra a história de dois jovens gays, Di Lulu e Gui Lalá, que se apaixonam perdidamente e por uma semana vivem um intenso e ardente romance. A história acaba quando Di Lulu descobre que o seu novo parceiro  já vivia uma relação estável há mais de dez anos com um argelino de nome estranho, (Fie Fifih era o nome dele), que era, inclusive, um homem bem mais velho que ele. No final, Gui Lalá fala para o seu amante que apesar de ter se apaixonado loucamente, não poderá acompanhá-lo de volta ao seu país de origem pois ainda ama o seu companheiro. Na cena final, descrita como magistral por este jornalista, Di Lulu resolve voltar ao Brasil e enquanto esperava pelo seu voo ainda no aeroporto Charles de Gaulle, em Paris, no momento em que foi ao toilette para urinar, percebeu na saída do último pingo de sua urina - que por mais que tivesse balançado, não caíra no mictório - até porque como diz o ditado, não adianta balançar, o último pingo sempre será o da cueca -, e que embora aquele instante íntimo e singelo estivesse relacionado a um fato real presente no ato da micção, podia muito bem ser considerado bastante simbólico pois tratava-se de um gesto que definitivamente colocava um ponto final naquela grande paixão. A moral da história parecia nos dizer que até mesmo grandes amores podem acabar saindo pela urina.  Fiquei por alguns momentos refletindo sobre aquelas palavras mas logo lembrei que muito havia a ser descoberto. 


Curioso, resolvi abrir rapidamente aquele livro e caí justamente numa página que narrava que uma das razões pelas quais Gui Lalá desistira de acompanhar seu novo amor, fora que ele tinha consciência de que dificilmente iria conseguir se separar do seu amante argelino já que vivia uma relação um tanto doentia, que era um misto de veneração e medo ao mesmo tempo, num processo onde parecia imperar uma total submissão a este sujeito.  Dizia, inclusive, que essa admiração de Gui Lalá pelo seu amante era tão grande, que no dia-a-dia ele se dirigia a ele quase que rastejando. 

A forma como ele o chamava, diz tudo. Quem conviveu com eles, relatou que Gui Lalá sempre o chamava de um modo em que ficava muito claro essa sua relação de submissão. Gui, todas as vezes que se dirigia a Fie Fih, costumava chamá-lo assim:

-  Fie Fifiiiih, Fie  Fifiiiih, au, au, au!!!

Nesse momento, eu quase tive uma síncope e falei com meus botões:

-   Vai ser bicha assim na puta que te pariu!

A mesa estava repleta de pequenos livros, todos do François, e os títulos, ah! os títulos, eram cada um mais inusitado que o outro.  Eu não conseguia acreditar em todas aquelas novidades que estavam se fazendo revelar perante meus olhos atônitos.


Naquele instante, a minha curiosidade que já havia se mostrado enorme desde que adentrei aquele ambiente, se aguçou de uma maneira assustadora. Eu não sairia dali sem saber exatamente em que solo estava pisando.


Certo de que para poder me inteirar de todas aquelas descobertas que estavam começando a se delinear diante de mim eu iria precisar de um bom tempo, comecei a elaborar estratégias que me fizessem atuar de forma mais focada e logo comecei a bisbilhotar todo aquele material de uma maneira que me permitisse agilizar as minhas buscas. Ocorre que, ao mesmo tempo, percebi que estava ficando tremendamente receoso de que François a qualquer momento voltasse da cozinha e me flagrasse ali. Naquele instante, comecei a suar frio e a minha respiração começou a ofegar de tal forma que precisei me conter para não perder o controle, pois, ciente das minhas fragilidades, sobretudo a maior delas, que era o fato de ser asmático e que em situações de estresse ou emoção mais exacerbada acabava ficando bastante aflito e sem ar, precisei parar um pouco e assim resolvi me dirigir à varanda da sala para poder conter toda aquela ansiedade. Mas não demorei nem um minuto, tamanha era a vontade de saber mais acerca de todo aquele universo que se descortinava à minha frente.


Puxei aleatoriamente um outro livro da prateleira de baixo e diante do inusitado título, arregalei os olhos de tal forma que foi difícil fazê-los voltar ao normal tamanho foi o meu espanto.  O Homem que caga, e ri era o título deste outro livro, também tendo o François como autor e publicação feita pela mesma editora do anterior, a Gai. Fiquei tão perplexo diante daquela inscrição que, por incrível que pareça, não consegui sequer rir, tal era o meu estupor. Abri meio que a esmo e, um tanto inquieto e louco para descobrir o seu conteúdo, pois, a julgar pelo título, parecia tratar-se de um ensaio filosófico, fui logo tentando ler a primeira página que se descortinasse à minha frente.  E esse foi o trecho escolhido.


                                                 


 Alucinante frenesi

(Passando de mão em mão)

Alternando entre um conto e outro, Moli Colino deixava sua verve escorrer como um rio em cheia, num fluxo que parecia não conhecer repouso. Seu temperamento, já naturalmente irrequieto, tornava-se ainda mais elétrico quando se entregava à escrita. Havia nele uma espécie de combustão interna, como se múltiplos universos narrativos disputassem, ao mesmo tempo, o direito de existir.

Era tanta a quantidade de eventos simultâneos que se digladiavam em sua mente que lhe parecia impossível dedicar-se a um único livro. Naquele exato instante, encontrava-se mergulhado em três romances, todos avançando de forma entrelaçada. Quando a escrita emperrava em um, saltava imediatamente para outro — e assim seguia, num ritmo quase convulsivo.

Lembram do Marquês de Sade? Pois é... Moli, nesse aspecto, guardava com ele uma curiosa semelhança. Não lembram? Não sabem de quem estou falando? Não? Esquece!                        


                                                  


Ao interromper a leitura naquele ponto, percebi de imediato o tom irônico — quase zombeteiro — do, agora revelado, escritor François, e a maneira peculiar como ele parecia dialogar com o leitor. Haveria ali traços de um romance autobiográfico? A ideia me atravessou rapidamente, mas foi a curiosidade que falou mais alto.

Retomei a leitura.

                


A tarde escorria lenta, como se o tempo tivesse decidido desacelerar. Diante de sua máquina de datilografar, Moli Colino escrevia mais um de seus contos. Seus olhos estavam fixos na página, mas seu olhar, na verdade, atravessava o papel — vagava por territórios distantes, imprecisos.

Havia nele uma leve angústia, difusa, sem causa aparente.

Sem inspiração, entregava-se a pensamentos que o vinham assombrando havia tempos: a explosão demográfica que testemunhara ao longo de seus cinquenta anos de vida. Recordava-se de sua infância, quando o mundo parecia mais espaçoso, mais silencioso, menos povoado.

Lembrou-se então de Ernst Gombrich, que certa vez afirmara:
“A principal característica do século XX é a terrível multiplicação da população no mundo. É uma catástrofe, uma tragédia. Não sabemos o que fazer a respeito.”

Sim — era exatamente isso.

Antes, havia espaço.

Agora, havia excesso.

Uma sensação melancólica o atravessou: os natais pareciam mais próximos uns dos outros — e, ao mesmo tempo, menos significativos. Como se o tempo tivesse se comprimido, e com ele, o próprio sentido das coisas.

Estava há três dias sozinho em casa.

Nenhuma visita.

Nenhum telefonema.

Nem mesmo o vizinho, sempre tão inconveniente, batera à sua porta.

E, convenhamos...

gente com esse perfil costuma ser um sério candidato a suicida, não é mesmo?

Bem, deixa isso pra lá. Isso não é da nossa conta.

Sigamos.

Moli levou a mão à testa. A solidão, que normalmente lhe era companhia tolerável, naquele dia pesava mais do que o habitual. Pensou em sair, caminhar, ver gente. Mas lembrou-se da última vez — da multidão opressiva, da sensação de invasão.

Como tinha gente no mundo!

Chegara até a escrever, em tom de deboche, uma paródia do célebre poema de Carlos Drummond de Andrade. Pegou suas anotações e releu:


Everywhere (em todos os lugares)
Everybody (todo mundo)

No meio do caminho tinha uma porrada de gente.
No meio só, não. No início, no meio e no fim.
Everywhere!

Como tem gente nesse mundo, meu Deus!
Tem tanta gente, que o mundo já não é mais...
“vasto mundo”.

Mundo, mundo, pequeno mundo,
se eu me chamasse Raimundo
mandava todo mundo para a
puta que pariu.


Naquela tarde, havia abandonado temporariamente seus três romances para se dedicar a um novo conto — sobre o envelhecimento. Mas a inspiração, caprichosa, parecia tê-lo desertado.

Foi então que um incômodo nas narinas interrompeu seu fluxo de pensamentos.

Num gesto quase automático, levou o dedo anelar ao nariz.

E pensou:

— Há todo um trabalho a ser feito aqui!

E ali permaneceu.

Por longos minutos.

Dedicado.

Minucioso.

Extraindo, uma a uma, suas noninhas”.

O tempo parecia imitar a lentidão da tarde.

E Moli, absorto, seguia em sua incursão nasal como um explorador de territórios íntimos. Ficou tanto tempo nessa atividade que alguém poderia sugerir, sem exagero, que colocasse à sua frente uma placa:

Man at work.”

A cada extração, um pequeno suspiro de prazer:

Ah! Que delícia!

E, em certos momentos, evocava seu fiel companheiro:

Helinhoooô!

Helinho, um vira-lata dócil, era seu companheiro constante — exceto em situações muito específicas.

Como quando Moli ia ao banheiro.

Ou quando soltava seus gases.

Ou, claro... quando iniciava suas expedições nasais.

Certa vez, Helinho ousara acompanhá-lo ao banheiro.

Erro fatal.

Diante do odor, refugiou-se sob o guarda-roupa, cobrindo o focinho com as patas. Não houve quem o convencesse a sair antes do fim da operação.

E Moli, do banheiro, ainda gritava:

Helinhoooô, vem ver como esse é grande e lindo, olha!

Ou então:

Helinhooooô, esse tá difícil de sair; vem aqui me ajudar!

Helinho, sábio, permanecia onde estava.

Silencioso.

Resguardado.

Aprendera.

Também já fora vítima de um acidente: uma petelecada” mal direcionada que lhe atingira o pelo. A memória daquela experiência bastara para moldar seu comportamento dali em diante.

Moli, alheio a tudo, prosseguia.

Quando o anelar — seu vizinho” — não estava em ação, ele moldava as catotinhas” entre o polegar e os outros dedos, formando pequenos projéteis que tentava lançar ao espaço.

Algumas resistiam.

Outras grudavam.

Havia as mais persistentes — as chamadas rebeldes”.

E havia também as esquecidas”, alojadas nas regiões mais profundas — verdadeiros depósitos ocultos da experiência humana.

Uma dessas, ao ser resgatada, despertou-lhe uma lembrança antiga.

Infância.

Competição.

Ele, o irmão e Gina — a lendária garota da catota”.

Haviam criado o Mural Melecográfico.

Ali, expunham suas maiores conquistas.

Selecionavam.

Comparavam.

Elegiam campeãs.

Uma ternura inesperada o invadiu.

E ele pensou, sorrindo:

A vida de um homem pode muito bem ser contada pelas melecas que retira.


De mão em mão

Em sua jornada, encontrou uma particularmente resistente.

Difícil acesso.

Região crítica.

Uma verdadeira fortaleza.

E então declarou:

Helinhooooô, vou ter que apelar para o serviço de um profissional.

Após longa batalha, venceu.

Mas a vitória foi parcial.

A catotinha”, fiel ao seu nome, recusava-se a se desprender.

Girava.

Grudava.

Resistia.

Foi nesse exato momento que a campainha tocou — insistente.

Moli levantou-se, ainda em luta.

Olhou pelo olho mágico.

Era seu primo, Moli Caluno.

Hesitou.

Tentou se livrar da intrusa.

Sem sucesso.

Num gesto final, esfregou a mão na calça.

Inútil.

Ela permaneceu.

Abriu a porta.

O primo sorriu, estendendo a mão.

E Moli, sem alternativa, correspondeu.

Foi então que, silenciosamente, inevitavelmente, a pequena e obstinada catotinha” encontrou seu novo destino:

a mão do primo.


                                                


Naquele instante, fui tomado por um súbito sobressalto. Do fundo da casa, vindas da cozinha, começaram a ecoar gargalhadas — primeiro tímidas, depois crescentes, até se tornarem quase um coro descontrolado de alegria. O vinho, pensei, começava a cumprir seu antigo papel alquímico: restaurar ânimos, dissolver pesos, reacender esquecidas centelhas de felicidade.

Fechei o livro com rapidez. Havia em mim um incômodo difuso, uma sensação de estar ultrapassando um limite invisível — como se, ao ler aquelas páginas, eu estivesse invadindo não apenas um espaço físico, mas uma intimidade que não me pertencia. Para afastar esse desconforto, caminhei novamente até a varanda, buscando no ar da noite algum tipo de equilíbrio para digerir o que acabara de descobrir.

Mas o efeito foi outro.

Um estado de quase torpor se instalou em mim. Eu não conseguia organizar o turbilhão de sensações que me atravessava. Antes mesmo que pudesse interpretar o texto, foram os nomes — sim, os nomes — que se apoderaram da minha mente com uma força perturbadora. Eles reverberavam incessantemente, como um eco que se recusava a cessar, repetindo-se com uma insistência quase patológica.


 — Moli Colino, Moli Caluno, Moli Colino, Moli Caluno, Moli Colino, Moli Caluno...  para, caramba!, - bradei internamente no momento em que comecei a rir meio sem controle.

Voltei ao escritório, ainda sob o efeito daquele estranho encantamento, mas não sem antes lançar um olhar na direção da cozinha, tentando medir a intensidade das vozes e gargalhadas que dali escapavam. Precisava me certificar de que minhas pequenas transgressões ainda passavam despercebidas.

A curiosidade, agora, já não pedia licença — exigia continuidade.

Sobre a escrivaninha, ao lado da máquina de escrever, repousava uma carta aberta. O envelope, dos Correios, denunciava sua origem: Senegal, África. Mesmo consciente — ou talvez justamente por isso — de que ler correspondência alheia é um delito, senti-me incapaz de resistir. Quando percebi, já estava com o papel nas mãos, mergulhado em suas linhas.

Comecei com uma leitura apressada, diagonal, como quem apenas tateia. Mas algo, em determinado ponto, me capturou de forma definitiva. Minha atenção se aguçou. O nome Valentin surgia ali como um personagem vivo, narrando suas andanças pelo continente africano em busca de modelos negras para um ensaio fotográfico cujo título provisório me atingiu como um estilhaço:

— Ânus Negro??? O que é isso? — minha imaginação explodiu de tanta curiosidade.

Pouco a pouco, o quebra-cabeça se montava. Valentin era fotógrafo de uma revista masculina francesa, Jouer Garçon, uma espécie de equivalente europeu da Playboy, e estava ligado ao mesmo grupo editorial que publicava os livros de François — o Le Trois, algo que hoje chamaríamos de uma holding que controlava a Gai.

A carta era um relato febril de viagens e projetos. Do Egito, escrevera sobre um ensaio intitulado A roseleta púrpura do Cairo, que, segundo ele, havia enviado ao próprio François. Perguntava, inclusive, se o amigo já o havia recebido. Foi impossível não pensar — ainda que de forma especulativa — que dali pudesse ter nascido, anos depois, a inspiração para A rosa púrpura do Cairo.

Das regiões geladas do norte europeu surgira L'anus Rose (O Ânus Rosa), publicado apenas na França.

Minha mente já não acompanhava o ritmo das descobertas. Era como se cada nova informação abrisse um abismo ainda maior de perplexidade.

Instintivamente, comecei a procurar pelo tal livro mencionado na carta. Mas antes que o encontrasse, algo menor — e talvez mais perturbador — desviou completamente o meu foco.

No canto inferior esquerdo da escrivaninha, três pequenos livros coloridos repousavam discretamente. Verde, azul e vermelho. Peguei o primeiro.

O título me desarmou completamente: 

Como peidar – Profissões – Volume I.

Meu Deus, que troço é esse? – minha cabeça deu um nó.

Abri na página de índice, e lá estavam:

 Como peidar como um Bombeiro;
 Como peidar como um Escudeiro;
 Como peidar como um Armeiro
 Como peidar como um Pedreiro
 Como peidar como um Escoteiro;
 Como peidar como um Livreiro;
 Como peidar como um Tesoureiro;
 Como peidar como um Cozinheiro;
 Como peidar como um Santo Padroeiro.

Fui obrigado a interromper a leitura. O riso, violento e inesperado, ameaçava escapar. Fechei o livro às pressas e, quase sem pensar, agarrei o seguinte:

Como Peidar – Profissões – Volume II.

Mais uma vez, abri diretamente no índice:
Como peidar como um Psicólogo;
Como peidar como um Podólogo;
Como peidar como um Biólogo;
Como peidar como um Ornitólogo;
Como peidar como um Sociólogo;
Como peidar como um Paleontólogo.

Dessa vez, não resisti. O riso veio em ondas, violentas, descontroladas. Levei a mão à boca, tentando sufocá-lo. Corri até a varanda e ali, à beira do descontrole, quase desabei.

Meu Deus, não estou acreditando no que estou vendo!  — falei meio que em voz alta tamanho era o meu estupor.

Voltei às pressas, como se temesse perder aquele insólito tesouro, e apanhei o terceiro livreto:

Como peidar – Ambientes – Volume I.

"Abri novamente o índice:

Como peidar em um Conservatório;
Como peidar em um Laboratório;
Como peidar em um Consultório;
Como peidar em um Ambulatório;
Como peidar em um Escritório;
Como peidar em um Parlatório;
Como peidar em um Reservatório (Cuidado com o eco!).

Agora não havia mais contenção possível. A gargalhada explodiu, viva, incontida. Apertei as bochechas, tentando aprisioná-la dentro de mim, temendo que atravessasse as paredes e denunciasse minha presença.

Mas ainda não era o fim.

Atrás daquele conjunto, outro título emergiu, ainda mais absurdo:

Como peidar no Toilete sem que te ouçam no Outlet.

A essa altura, meu rosto já não me pertencia. Eu sorria de forma permanente, quase grotesca — um sorriso aberto, exagerado, digno de um Coringa perdido na noite.

Ao lado, um volume maior chamou minha atenção. Tinha aparência de romance. Peguei-o com cuidado.

Quando li o título, congelei:

Quando o ânus coça, o sujeito perde a bossa.

Ué!!! 

Falei pra mim mesmo soltando um grito de espanto.

Algo naquele título ressoava como memória.

— Eu já vi esse livro – pensei, ainda tentando localizar a origem da lembrança.

E então veio o estalo:

Ah! já sei. Este foi o livro que o baixinho AT, lá nas nossas peladas da Rua da Saudade, falou que gostaria de escrever um dia.

— Caramba! Pensei assustado.

Será que o baixinho já conhecia os talentos do François como escritor?


Por alguns instantes, permaneci imóvel, como se aquele pequeno universo recém-descoberto tivesse desorganizado completamente a arquitetura do meu pensamento. Virei o livro.

Na contracapa, comentários de críticos e artistas.

O primeiro, assinado por um tal de Astrud Wilson, dizia:

Mais uma vez o escritor, romancista, artista e poeta François Holderling nos surpreende com uma história cativante. O seu personagem principal nos leva a fazer uma reflexão profunda sobre a condição humana, traduzindo de forma tocante os desencontros que nos são impostos pelo destino e a maneira como lidamos com ele, já que muitas vezes, numa constante e desesperada tentativa de acertar, acabamos errando muito mais do que aceitamos que errem conosco. Talvez seja preciso lembrar que na vida, poucas vezes as coisas acontecem como gostaríamos que fossem.”

Fiquei em silêncio por um instante, absorvendo o contraste entre o título e a gravidade das palavras.

- Cara, o sujeito não é fraco, não! – falei como se estivesse dirigindo aquelas palavras a mim mesmo fitando-me em um espelho.


Movido por uma curiosidade já irreversível, abri o livro ao acaso.

E comecei a ler.


                                                

Fiofó Resende deixara sua casa carregando nos ombros um peso difícil de nomear — uma mistura de desalento, urgência e desorientação. As circunstâncias que a vida, com sua habitual indiferença, lhe impusera nas últimas horas exigiam decisões que ele não se sentia capaz de tomar sozinho. Por isso, como tantas outras vezes, dirigia-se ao encontro de seu primo, Furico Teixeira — homem mais velho, mais vivido, e, aos seus olhos, depositário de alguma forma de lucidez que lhe faltava naquele momento.

Sempre que o chão parecia desaparecer sob seus pés, era nele que buscava abrigo.

Haviam combinado um encontro na Vestal — um café antigo, de mesas já gastas pelo tempo, mas que para ambos representava uma espécie de território neutro, onde as inquietações podiam ser ditas sem pressa.

Em uma das mãos, Fiofó carregava um pequeno livro, já manuseado ao ponto de apresentar sinais de cansaço: Flatulum Deo — algo como O peido de Deus” — obra atribuída ao excêntrico filósofo greco-romano Flatulus Maximus Meteorídios, autor da célebre máxima:

"Se te desprezam, flatos neles˜."

Aquele livreto, por mais insólito que parecesse, vinha servindo-lhe como uma bússola torta, mas ainda assim necessária, para orientar sua existência rarefeita de sentido.

Caminhava apressado, quase atropelando o fluxo dos transeuntes, como se o próprio corpo não conseguisse acompanhar a turbulência de seus pensamentos. Mas, àquela inquietação de ordem existencial, somava-se agora outra, mais concreta, mais urgente — e infinitamente mais incômoda.

Uma coceira brutal se instalara em seu traseiro.

Ao mesmo tempo, uma pressão interna crescia — um acúmulo de gases que parecia reclamar liberdade. Estava tomado por flatos desde o amanhecer, fruto, certamente, de algum deslize alimentar da noite anterior. Mas não eram gases discretos, desses que passam despercebidos; ao contrário, exigiam esforço, força, empenho — e prometiam, em troca, um espetáculo sonoro nada discreto.

E ele estava na rua.

Tentou acelerar o passo, à procura de algum ponto de resguardo. Assim que se afastou de um grupo ruidoso de mulheres, julgou ter encontrado sua oportunidade. Preparava-se para agir quando, de súbito, uma porta se abriu à sua frente e dois senhores, mergulhados em conversa animada, bloquearam-lhe o caminho.

Mudou de direção.

Atravessou a rua com rapidez. Mal teve tempo de se posicionar quando a porta de um carro estacionado se abriu, e uma senhora morena, gentil, lhe acenou.

Recuou novamente.

Mal alcançara a calçada oposta quando uma mulher gordamente— surgida de lugar nenhum — interpôs-se em seu trajeto com uma presença tão absoluta quanto incômoda.

Desesperado, voltou a atravessar a rua. Avistou então uma viela — uma possível rota de escape. Mas, ao se aproximar, deparou-se com Altolá George, velho conhecido, ocupado em suas habituais investidas inconvenientes sobre uma jovem, comportamento que lhe rendera, aliás, o apelido que carregava como marca registrada. Na verdade, ele sempre fora muito, como diriam alguns, saidinho. 

Não foi à toa que ganhara aquele apelido, Alto lá!, ou Altolá, pois aquela expressão de tanto ser usada já tinha se transformado em nome.


A chance evaporou.

O desconforto agora era insuportável. Tentou, em vão, aliviar a coceira roçando discretamente uma nádega contra a outra. Nada funcionava.

— Se ao menos eu conseguisse soltar este peido, talvez a própria saída dos gases, roçando o ânus, conseguisse efetuar o ato de coçar,— pensou consigo mesmo, já à beira do colapso.

A coceira, nesse momento, atingiu um nível quase insano.

Sua mente, então, reduziu-se a um único impulso primordial, uma urgência quase infantil, quase primitiva:

enfiar o dedo no rabo e fazer Ui! Ui! Ui!

Sem pensar mais, correu.

Mais adiante, avistou outra viela — estreita, suja, evitada por todos. Perfeita.

Ao adentrá-la, sentiu-se invadido por um alívio imediato. Nenhuma alma à vista. Caminhou alguns passos, certificou-se novamente, olhou ao redor — e, finalmente, entregou-se ao momento.

Coçou, com gosto, com intensidade, com abandono.

E então, libertou o que há tanto tempo se acumulava.

Um peido sonoro, pleno, quase triunfal.

Mas o instante de glória durou pouco.

No alto de um dos antigos casarões que ladeavam a viela, uma pequena janela — discreta, quase invisível — abrigava um espectador inesperado. Um senhor negro, tranquilo em seu posto elevado, fumava seu cachimbo enquanto observava o mundo lá embaixo.

E assistira a tudo.

Com um sorriso largo e uma pontaria verbal precisa, lançou ao ar, em tom alto e cristalino:

— Pelo som dessa buzina, esse carro já parou em minha oficina!!!

O efeito foi imediato.

Fiofó congelou por um segundo, depois ergueu os olhos e, ao perceber a figura sinistra que o contemplava com evidente deleite, explodiu — não mais em gases, mas em fúria:

— Vai pra puta que te pariu, preto do caralho!!!


Eu me agarrei à estante atrás de mim como quem busca abrigo contra uma força maior — e era mesmo: a gargalhada que me atravessava o corpo, violenta e incontrolável. Corri de novo para a varanda, e ali, exposto ao ar, ri ainda mais, até o limite do ridículo e da rendição, quase perdendo o controle do próprio corpo. As lágrimas desciam livres, abundantes, sem qualquer possibilidade de contenção. Eu já não ria: eu era riso em estado bruto.

Entre os pequenos livros que vasculhava como um arqueólogo do insólito, um outro me capturou de imediato. Como os anteriores, trazia um título estranho — mas este ultrapassava o curioso e adentrava o território do desconcerto absoluto. Era um daqueles livretos de bolso da Coleção Primeiros Passos, desses que prometem introduções sérias a temas relevantes. Mas o nome…

Mamãe, quero peido!”

Havia ali algo de profundamente deslocado. Não se tratava apenas do humor escatológico, mas de uma torção na própria estrutura da linguagem. O esperado seria o verbo — “quero peidar”, a ação, o fluxo, o acontecimento. Mas não: ali estava o substantivo, sólido, quase tangível — “quero peido”. Como se o ato tivesse sido reificado, transformado em objeto. Uma materialização grotesca do efêmero.

Aquilo não era apenas engraçado. Era, de maneira torta e improvável, filosofia em estado bruto — uma pequena insurreição semântica contra a ordem natural das coisas.

Diante de tamanha ousadia, não resisti. Abri o livro ao acaso e mergulhei:

     

                                                

Nicanozinho era um garoto de pele muito clara, quase translúcida, e de feições tão delicadas que lhe emprestavam um ar angelical. Tinha apenas oito anos.

Num certo dia, voltou-se para sua mãe, Dona Gertrudes — mulher ainda jovem, mas já marcada pelos sulcos de uma vida difícil, carregando no rosto um cansaço antigo — e, com uma seriedade desconcertante, declarou:

— Mamãe, quero peido!

Ela, com a naturalidade de quem já havia abdicado de qualquer surpresa diante da existência, respondeu:

— Por que não peida, Nicanino? O que está lhe impedindo?

(Chamava-o assim, Nicanino, por um amor quase desmedido pelos cães — como se o filho, de alguma forma, orbitasse essa mesma esfera afetiva, meio menino, meio filhote.)

E assim, autorizado, o garoto não hesitou. Liberou um pequeno flato que, de tão tímido, soou como um assobio fugaz:

Fuíiiiiiinnnn…

Mas o som suave traía a violência do odor. O ar foi imediatamente tomado por um fedor denso, quase palpável.

— Puta que o pariu, Nicanino! Que peido fedorento da porra!

— Mas mamãe, a senhora não disse que eu podia fazer peido?

— Disse! Mas precisava ser desse jeito, cacete?

— Eu não sabia que ia ser assim…

— Pois foi! Santo Padre… Senhor, tende piedade de nós! Clemência, Senhor!

Foi então que ocorreu algo ainda mais intrigante. Com a mesma serenidade de quem anuncia a chegada de uma visita, Nicanozinho informou:

— Mamãe, peidou.”


François Holderling se deteve nessa frase. Não porque ela fosse engraçada — embora fosse — mas porque continha uma estranheza difícil de ignorar.

Peidou.

Não "eu peidei".

Não "soltei um peido".

Não "fui eu".

Apenas: peidou.

Como se o acontecimento tivesse ocorrido por conta própria. Como se o peido fosse um fenômeno autônomo da natureza, semelhante à chuva que cai, ao vento que sopra ou ao trovão que ressoa no horizonte. O menino não se colocava como autor do ato. Parecia apenas testemunhá-lo.

E talvez a mesma lógica estivesse escondida na frase anterior:

— Mamãe, quero peido!

Ele não dissera "quero peidar". Não desejava praticar uma ação. Desejava o próprio peido, quase como quem deseja um objeto, uma entidade ou uma aparição.

Havia ali um deslocamento curioso entre o sujeito e o acontecimento. O ato parecia desprender-se daquele que o realizava e adquirir existência própria. Como se certas coisas simplesmente acontecessem através das pessoas, sem lhes pertencer inteiramente.

Questão profunda para um garoto de oito anos.

Ou talvez não.

Talvez as crianças, antes de serem domesticadas pela gramática dos adultos, conservem uma compreensão mais misteriosa da realidade.

Gente!  E aqui tem grifos meus: "Isso é filosófico pra caralho!"

Antes mesmo que Dona Gertrudes pudesse refletir sobre tão grave problema filosófico — ou, mais provavelmente, recuperar-se da agressão olfativa que ainda pairava no ambiente — Nicanozinho voltou à carga:

— Mamãe, quero peido de novo!

— Nããããooooo!


E saiu correndo, tomada por um desespero quase litúrgico


                                               


Fechei o livro como quem interrompe um curto-circuito na própria sanidade. Mas já era tarde. Um riso desesperado me tomou por inteiro, tão intenso que me fez perder o controle do corpo mais uma vez. Corri para a varanda, buscando no ar alguma forma de recomposição, respirando fundo como um náufrago que retorna à superfície.

A vontade de voltar ao escritório era irresistível. Havia ali um universo de descobertas absurdas esperando por mim — um território onde o riso e o estranhamento caminhavam lado a lado. Mas o tempo começava a pesar, e minha ausência prolongada poderia levantar suspeitas.

Retornei à cozinha.

Assim que me viram, os rapazes, quase em coro, exigiram minha permanência — como se minha fuga silenciosa fosse uma pequena traição ao pacto coletivo da noite.

— Acho que vou acompanhar vocês numa taça de vinho.

— Posso, François? — perguntei.

Ele, agora completamente entregue à leveza do momento, parecia flutuar numa felicidade líquida.

— Claro, meu lindo! Pegue uma taça, sirva-se… e não esqueça do queijo. Venha, junte-se a nós!

Aquela convocação, no entanto, caiu sobre mim como uma interdição. Eu precisava voltar. O escritório me chamava.

Permanecei por alguns instantes, fazendo comentários dispersos, desconectados — ecos de uma presença que já não estava ali. Meu pensamento orbitava outro lugar, e isso se tornava evidente.

— Acho que o Carlinhos tomou xarope demais! — provocou SC.

— Álcool não foi, ele nem bebeu ainda — completou M-Mentiroso, com uma cordialidade forçada que mal disfarçava o incômodo.

Optei pelo silêncio. Sorri, acenei, dissolvi-me. Eu precisava desaparecer em plena visibilidade — tornar-me transparente.

Foi então que uma ideia me atravessou.

— Jo, vem cá um minuto… deixa eu te mostrar uma coisa lá na varanda.

Piscar de olhos. Código silencioso.

Ele, entediado, agarrou a oportunidade como quem aceita um resgate.

— Cara, descobri algo fantástico.

— O quê?

— O François é escritor.

— E daí?

— Não é “e daí”, porra! Tu não tá entendendo… o que ele escreve… cara… eu tô me mijando de rir. Preciso da tua ajuda.

— Ajudar como?

— Vou voltar pro escritório. Preciso continuar vendo aquilo. Tu fica de vigia. Se alguém vier, tu me avisa. Não quero ser pego fuçando nas coisas do cara.

Ele me olhou por um segundo — entre o tédio e a curiosidade.

E então:

— Vai nessa.



Deixei-o ali, em posição de sentinela, enquanto eu mergulhava novamente naquele território proibido com uma voracidade que há muito não experimentava. Havia em mim algo de compulsivo, quase febril. Inclinei-me sobre a escrivaninha e, num gesto rápido, lancei o olhar à estante logo atrás — uma espécie de cartografia caótica de ideias, vozes e delírios impressos.

Num primeiro relance, não identifiquei nenhum título do anfitrião. O que se apresentava ali era um panteão respeitável: volumes de poesia, sobretudo dos chamados malditos — Verlaine, Baudelaire, Rimbaud, Mallarmé —, além de nomes como T. S. Eliot, Hemingway, Bakunin… uma constelação densa, carregada de peso histórico e estético. Mas, naquele momento, aquilo não me dizia respeito. Meu interesse havia sido deslocado — capturado por algo mais subterrâneo, mais grotescamente fascinante.

Já nem me lembrava mais do tal livro de Valentin. A curiosidade, depois das primeiras incursões pelos escritos de François, havia se transformado em obsessão.

Revirei a estante de um lado a outro, sem sucesso. Até que, quase como uma revelação tardia, meus olhos se elevaram à parte superior — e ali estavam. Vários exemplares, alinhados, todos com o nome de François estampado. Senti um pequeno arrepio.

Olhei para Jo, ainda firme ao meu lado, acompanhando em silêncio aquela minha inquietação quase patológica. Fiz um gesto para que se aproximasse e, com cuidado, puxei três pequenos livros coloridos.

— Dá uma olhada nisso… só pra tu ter uma ideia do que eu tô descobrindo — sussurrei.

Ele começou a folhear, ainda sem entender. Bastaram poucos segundos para que sua expressão se transformasse. Os olhos arregalaram-se como se tivessem tropeçado no absurdo.

— O que é isso, Carlinhos? — perguntou, agora tomado por uma excitação contida.

Levei o dedo aos lábios, pedindo silêncio. Aquilo exigia concentração.

— Depois eu te mostro mais… segura aí — murmurei.

Voltei minha atenção à estante. Foi então que percebi algo curioso: os livros estavam organizados por categorias, separados por cartolinas coloridas com pequenas abas indicativas — como se ali existisse um sistema, uma lógica interna regendo aquele caos aparente.

E que lógica estranha.

Havia de tudo: Contos Infantis, Romances, Ficção, Aventura e Suspense, Autoajuda, Gestão, Faroeste, Ensaios Filosóficos… Uma produção que atravessava gêneros com uma desenvoltura quase suspeita.

— Meu Deus… o homem é uma sumidade — murmurei, mais para mim do que para o Jo, que seguia sem compreender a dimensão do que estava diante de nós.

Puxei um exemplar da seção Romance”. O título, como já se tornara regra, era um convite ao espanto.

— Olha isso… olha esse título! — disse, mal contendo a excitação.

Ele leu, e sua reação foi imediata:

— “Deixa eu fazer cocô com você”? Que porra é essa?!

— Pois é… e, acredite se quiser, isso aqui é um romance.

— Romântico pra caralho… — respondeu, ainda entre o riso e a incredulidade.

Não era mesmo algo que se encontrasse todos os dias.

— Fica esperto aí. Vou ler um trecho…

E, sem esperar resposta, mergulhei.

                                                   

                                              


Dominique La Matro era um homem de hábitos contidos, quase invisíveis. Discreto até nos gestos mais banais, cultivava uma elegância silenciosa, dessas que não pedem reconhecimento. Aos trinta e quatro anos, havia aprendido a deixar a vida fluir — não por virtude, mas por exaustão de tentar controlá-la.

Mas havia exceções.

E essas exceções tinham nome: Monique La Matro.

Sua irmã mais velha — a primogênita — era uma força de perturbação constante. Junto à outra irmã, Kilaká, formava um dueto infernal que, desde a infância, fazia de sua vida um campo de testes para a paciência. As duas exploravam, com precisão quase científica, sua sensibilidade excessiva, seu apego à ordem e, sobretudo, sua condição de caçula — o protegido, o preferido, o alvo perfeito.

Monique, em especial, parecia encontrar prazer na desestabilização alheia. Mesmo adulta, mantinha intacto um traço perverso que se manifestava em ironias, olhares enviesados e um cinismo difícil de disfarçar. Discordar era seu estado natural. Conviver, um desafio permanente.

Fracassara em relações, empregos e afetos. De uma dessas uniões instáveis, nascera um filho — hoje com quase oito anos — que carregava, como herança inevitável, os traços mais agudos daquele desajuste.

Adamastorzinho.

Assim o chamava a avó, numa tentativa de suavizar o que era, em essência, indomável. O garoto era um pequeno agente do caos — inquieto, destrutivo, incapaz de respeitar limites. Dominique o evitava como quem evita um desastre anunciado.

Naquela tarde, pouco depois das cinco, o desastre chegou sem aviso.

Mãe, filha e neto.

Bateram à porta — ou melhor, invadiram o seu tempo.

Adamastorzinho entrou correndo, pulando sobre o sofá como se aquele espaço lhe pertencesse. Monique, com seu sorriso plastificado, lançou:

— Oi, querido irmãozinho… como tu tá?

— O que vocês estão fazendo aqui? — respondeu ele, já incapaz de disfarçar o incômodo.

Vieram por acaso, disseram. Um café, uns biscoitos. Um pretexto qualquer para instaurar o caos.

Mas havia algo mais urgente.

Dominique sentia, naquele exato momento, uma pressão interna que não admitia negociação. Dias sem evacuar haviam cobrado seu preço, e agora o corpo exigia resolução imediata.

Tentou ganhar tempo. Delegou tarefas, inventou afazeres, desviou atenções. Mas era inútil.

A urgência crescia.

Retirou-se para o quarto, caminhando em círculos, comprimindo o corpo contra si mesmo numa tentativa desesperada de contenção. Pequenos sinais já escapavam — discretos no início, mas cada vez mais audíveis. O silêncio tornava-se insustentável.

Espiou a sala. Pareciam ocupados na cozinha.

Era a chance.

Correu.

Mal teve tempo de fechar a porta. Sentou-se às pressas, o corpo em colapso iminente.

O que se seguiu foi uma sinfonia involuntária: gases comprimidos encontrando saída, emitindo sons mecânicos, quase industriais — como uma máquina desregulada tentando se ajustar. Tentou conter. Dosar. Modular o inevitável.

Mas o corpo tem sua própria lógica. 

Peidava pelos cotovelos

Quando a primeira liberação sólida deu sinais de chegada, acreditou — ingenuamente — que o pior havia passado. Que dali em diante haveria apenas fezes, fluxo, sem ruído.

Engano.

Aquilo era apenas o prenúncio.

Uma fração desprendida de algo maior, a merda-satélite que se desgarrara da merda-mãe, retida por uma massa gasosa que aguardava seu momento.

E quando veio…

Veio como ruptura.

Um estampido seco, inconfundível, atravessou o espaço doméstico com violência.

Na sala, Monique — que retornara para a sala com o objetivo de pegar o seu cigarro na bolsa que ficara em cima da mesa — ouviu.

E não perdeu a oportunidade:

— Mããããnhê! Temos música nesta casa!

        

                                               


— Puta que o pariu, mermão… puta que o pariu! — sussurrei para o Jo, travando uma batalha quase perdida contra o riso.

— O que foi, caráio?

— Meu irmão… esse cara é hilário. Hilário, tu não tá entendendo…

— Então fala logo, porra!

— Depois eu te conto. Aguenta aí. Preciso continuar… fica atento, não sai daí!

— Mermão, é melhor tu se apressar. Já tem tempo demais que a gente sumiu. Daqui a pouco os caras aparecem.

— Tá, tá… vou correr. Mas fica ligado. Qualquer movimento, me chama.

Voltei ao ataque como quem retorna a um campo de escavação onde cada centímetro pode revelar algo ainda mais absurdo que o anterior. Minha curiosidade, longe de se saciar, só se expandia. 

Havia ali uma lógica estranha, quase perversa: textos que começavam sob a aparência de uma certa gravidade — reflexivos, densos, por vezes até filosóficos — e, de repente, desabavam num abismo de escracho, de humor grotesco, de uma comicidade tão inesperada que beirava o delírio.

Confesso: nunca fui um leitor assíduo. Mas aquilo… aquilo era outra coisa. Era como se a literatura tivesse sido virada do avesso.

Devolvi o livro ao lugar e, agora pressionado pelo tempo — a vigilância do Jo já carregava um leve desespero — passei a agir com mais objetividade. Ou ao menos tentei. Porque objetividade e aqueles títulos não coexistiam.

Todos, sem exceção, eram convites ao espanto.

Mas foram os infantis que me capturaram naquele momento. Peguei três de uma vez e os coloquei sobre a mesa. O primeiro já me atingiu como um soco:

As Aventuras de Ultrapeido.

Abri. Na contracapa, lia-se:

Nesta história, Ultrapeido e seu fiel escudeiro, o monge shaolin Ku Soto Pun Fuun, enfrentarão seu maior inimigo: Nariz Entupido.”

Quase desabei.

— Jo… é foda… o cara é foda! — murmurei, entrecortado de riso.

— Fala, porra! O que é?

— Não dá… não dá… segura aí… — respondi, já voltando aos livros como um viciado em busca de mais uma dose.

O seguinte era da mesma saga”. O subtítulo me pegou desprevenido:

Ultrapeido contra os Incas Venusiânus.

Dessa vez, o riso veio em ondas. Precisei me sentar para não cair. Havia ali uma camada adicional de absurdo: uma paródia deslocada de memórias antigas, ecos de narrativas heroicas transformadas em algo completamente disforme.

— Que foi, mermão? O que é agora? — insistiu Jo.

Virei o livro para ele. Bastou a leitura do título.

Os olhos dele se arregalaram como se tivessem encontrado uma falha na realidade. Ele também lutou para conter o riso.

Segui. Mais títulos:

As Aventuras de João Peidão e Kid Ninho.

O Cocozinho Matreiro.

Naquele instante, me veio à cabeça um velho ditado: quem ri demais hoje, chora amanhã.

Que se dane”, pensei. Hoje eu rio até morrer.”

Recoloquei os infantis no lugar e, ao varrer novamente a estante, algo me chamou ainda mais a atenção: a seção de Gestão.

Ali, quatro pequenos volumes se destacavam como aberrações perfeitamente organizadas.

Peguei-os.

E li:

Desculpem-me, soltei um peidinho!
Hoje eu fiz um cocozão
Quem cheirou meu peido?
Não frite um bacon no cu

Fiquei alguns segundos imóvel, como se meu cérebro precisasse de tempo para aceitar aquilo.

Abri o primeiro.

E então veio o choque dentro do choque.

Na contracapa, um depoimento sério — corporativo, quase solene — de um executivo francês. Falava sobre liderança, sobre falibilidade, sobre a importância de reconhecer erros como caminho para relações autênticas dentro das organizações.

A tese era clara: admitir vulnerabilidades não enfraquece — fortalece.

E este executivo, que eu não fazia a menor ideia de quem era, a leitura daquela obra - Desculpem-me, soltei um peidinho -, "era vital pois deveria servir de exemplo para que todos nós, e não apenas os líderes, seguíssemos os seus conselhos, pois ao admitirmos que também somos vulneráveis, não estamos demonstrando sinal de fraqueza, muito pelo contrário. Na verdade, isso nos torna ainda mais fortes visto que ao nos despirmos da nossa armadura, aquela que nos protege mas também nos enclausura, ficamos de fato mais livres para podermos estabelecer conexões realmente autênticas com o outro e é justamente isso que nos capacita a construir relações verdadeiramente significativas".

E aquele livro, com aquele título absolutamente ridículo, era apresentado como ferramenta essencial para a formação de líderes.

Aquilo me desmontou.

— Cara… olha isso aqui — chamei o Jo.

— Que porra é essa agora?

— Tem um paradoxo aqui… uma contradição absurda.

— Como assim?

— O título é uma coisa… mas o conteúdo… isso aqui é sério, velho. Muito sério.

Voltei-me para o segundo: Hoje eu fiz um cocozão.

Ali, narrativas de fracassos empresariais — decisões catastróficas, erros estratégicos, quedas monumentais de grandes corporações. Tudo embalado sob um título que parecia sabotar qualquer tentativa de credibilidade.

Havia ainda outro:

É peidando que a gente se entende.

Esse tratava da importância do diálogo, da convivência, da construção de vínculos.

Eu já não sabia mais se ria, se analisava, ou se tentava compreender aquele sistema de significações completamente deslocado. Era como se a linguagem tivesse sido sequestrada — ou libertada.

O tempo apertava.

Recoloquei tudo às pressas e passei a folhear outros volumes de maneira quase automática, absorvendo fragmentos, títulos, ideias, como quem tenta capturar um sonho antes que ele se dissolva.

Num desses movimentos, abri um faroeste.

O título já anunciava o nível do delírio:

O Ânus Furado.

Parei.

Li uma linha.

E senti que estava prestes a atravessar mais um limite.


                                              


Ney era um pistoleiro de fama sombria, desses cuja reputação atravessa desertos antes mesmo de sua silhueta surgir no horizonte. Diziam — e no sertão lenda e verdade caminham juntas — que ele eliminava seus inimigos com uma precisão quase ritualística, disparando sua Colt 45 em um ponto tão específico que mais parecia um gesto simbólico do que um ato de violência comum. 

Ney eliminava a todos com o um tiro no…. Cu.

Mas havia, por trás daquela figura temida, uma verdade que ele enterrava com o mesmo rigor com que enterrava seus desafetos. Ney carregava dentro de si uma identidade que recusava aceitar. E dessa negação nascia um ódio difuso, direcionado sobretudo àqueles que, entre risos contidos e cochichos venenosos, o provocavam com alcunhas cruéis — sendo a mais recorrente a de descascador de macaxeiras”.

Quando atravessava as portas de um saloon, o ambiente se contraía. O medo que impunha era real — afinal, tratava-se de um caçador de recompensas implacável —, mas havia também outro tipo de tensão no ar. Olhares se cruzavam, sussurros escapavam:

Cuidado… lá vem ele…”

E, quase inaudível, alguém completava:

“…a fera ferida.”

— O grande descascador de macaxeiras. 

À boca pequena, circulava um nome que ninguém ousava dizer em voz alta. Ney Gay. Não como identidade assumida, mas como rótulo imposto, carregado de escárnio e risco. Pois bastaria que alguém o pronunciasse diretamente para que o ambiente se transformasse em arena. Ney não tolerava esse espelho.

Mas não era apenas essa contradição que o definia.

Havia também suas manias.

Excentricidades que, em outro contexto, poderiam parecer apenas curiosas, mas que nele assumiam contornos quase obsessivos. Uma delas era a de nomear aquilo que o corpo produzia — como se, ao dar nome, pudesse domesticar o que lhe escapava ao controle. Observava formas, medidas, texturas, e então batizava, com uma seriedade quase científica.

Outra mania: medir o tempo.

Assim que o processo se iniciava, erguia os dedos, um a um, numa contagem silenciosa. Cada dedo, um segundo — ou talvez um centímetro, dependendo do critério que adotasse naquele dia. Era sua forma peculiar de impor ordem ao caos fisiológico.

Conta-se que, certa vez, alcançou a marca de trinta e três.

Naquela ocasião, já vinha há dias carregando um incômodo crescente. A tensão acumulada exigia resolução, mas o ambiente não permitia descuidos. Encontrava-se em território hostil, onde qualquer distração poderia custar caro. Nem mesmo pequenos alívios eram possíveis — havia dias em que o corpo se tornava uma armadilha, e ele sabia disso.

Quando finalmente encontrou um lugar minimamente seguro, entregou-se ao inevitável.

O que ocorreu ali ultrapassou qualquer parâmetro habitual.

Não era mais uma sequência fragmentada, mas um evento único, contínuo, quase monumental. Um só gesto, uma só descarga, como se o corpo tivesse decidido condensar dias de espera em um único ato.

Ao final, ficou em silêncio por alguns segundos, contemplando o resultado como quem observa uma obra improvável.

Trinta e três.

Era o número que lhe vinha à mente.

Talvez um recorde. Talvez um marco pessoal. Talvez apenas mais uma de suas obsessões ganhando forma.

Mas o que se seguiu foi inesperado até para ele.

Uma leveza súbita.

Um estado de euforia quase infantil.

E então, rompendo o silêncio do lugar ermo, começou a falar sozinho, como quem declama para um público invisível:

Gente, gente, gente, que cagada diferente!;

Gente, gente, gente, como era grande essa serpente

Gente, gente, gente, quando a gente caga a vida se esclarece na mente!

Gente, gente, gente, como estou flutuando levemente!

Gente, gente, gente, que alegria, que felicidade… como estou contente!



 


E saiu andando, tomado por uma felicidade estranha, quase mística, como se tivesse atravessado algum tipo de portal interno.

Quanto à sua mania de nomear, havia padrões. Quando o resultado era fino e alongado, recorria sempre ao mesmo nome: Luiz Finório — uma referência a um antigo inimigo, talvez o mais difícil que já enfrentara. Como se, ao nomear, revivesse batalhas passadas dentro de um território completamente distinto.

Pelos indícios espalhados na narrativa, tudo levava a crer que aquela história se desenrolava nas paisagens áridas do sertão nordestino, em algum ponto perdido da década de 1930 — onde o real e o absurdo não apenas coexistem, mas se confundem sem pedir licença.                                               

                                             

Naquele instante, sentado à mesa, fui tomado por uma convulsão de riso tão intensa que por pouco não despenquei da cadeira. Era como se o corpo tivesse desistido de qualquer tentativa de compostura. Ao meu lado, de pé e alguns passos atrás, Jo assistia a tudo com um sorriso largo, estendido de ponta a ponta — um sorriso que misturava cumplicidade e perplexidade. Ele não entendia nada, mas intuía tudo.

— Tu vai ter que me contar o que diabos tu tá lendo, filho da puta!

— Vou… vou sim… — respondi, com os olhos marejados, a voz já dissolvida pelo riso.

Buscando algum respiro — ou talvez mais combustível para aquele estado — puxei um exemplar da seção Livros de Guerra”. O título, por si só, já era uma provocação:

Os Peidões de Navarone.

Aquilo me intrigou imediatamente. Eu tinha um apreço antigo por filmes de guerra, e aquele nome ecoava um clássico que me era caro: Os Canhões de Navarone, de 1961, com Gregory Peck, David Niven e Antony Quinn — uma narrativa de tensão e estratégia em plena Segunda Guerra Mundial.

Mas ali… o deslocamento era absoluto.

Movido por essa mistura de nostalgia e estranhamento, abri o livro ao acaso e comecei a ler:

                                                      



O Sr. Feliciano Rabão, general reformado do exército, veterano da Segunda Guerra Mundial e integrante do grupo conhecido como os Pracinhas, carregava consigo uma condição que o acompanhava com a mesma persistência de suas memórias de combate: uma intensa e contínua atividade interna, manifestada em forma de gases.

Era um homem de presença robusta, corpo compacto, quase talhado em bloco. Seu sobrenome, Rabão, embora sugestivo, não era apelido — era herança. E como toda herança, carregava peso e identidade.

Ao longo do dia, seus sinais”, ou seus peidos, se manifestavam sem distinção de hora ou contexto. Para ele, curiosamente, aquilo era quase um eco da vida militar — como se, a cada liberação, reafirmasse sua permanência em estado de prontidão.

Nem todos eram ruidosos. Nem todos eram perceptíveis.

Mas as manhãs…

As manhãs eram outra história.

Ao despertar, o general inaugurava o dia com uma sequência vigorosa, quase cerimonial. Sua esposa, Dona Adalgisa, após décadas de convivência, transformara aquele ritual em sistema. Nomeou-os.

Chamou a série inicial de Os Estupendos.

E, como todo sistema bem estruturado, cada elemento possuía sua identidade própria:

O primeiro: O Escandaloso.
Depois: O Espalhafatoso.
Em seguida: O Tenebroso.
Logo após: O Majestoso.
E, por fim: O Fabuloso.

Havia dias em que a sequência se estendia além do esperado. Do sexto em diante, já não possuíam a mesma intensidade — mas não escapavam à classificação da meticulosa Adalgisa.

Entre eles, destacavam-se o Insidioso e o Miraculoso — este último assim nomeado pela improbabilidade de sua existência após uma sequência já tão exaustiva.

Talvez, pensava ela, fosse reflexo da disciplina de um general.

Mas houve uma ocasião que transcendeu todas as outras.

Semana Santa.

Madrugada de sábado.

Naquele momento, o que se ouviu foram três manifestações de potência inédita — três episódios que romperam qualquer padrão anterior. Dona Adalgisa, profundamente religiosa, não hesitou em rebatizá-los:

Os Esplendorosos.

E, sendo três, formavam A Fortíssima Trindade.

O primeiro: o Pai.
O segundo: o Filho.
O terceiro: o Espírito Santo.

— Cruz credo… meu marido tem um rabo santificado… — murmurou ela, entre assombro e reverência.

Conviver com o general era, em muitos sentidos, habitar um campo de forças invisíveis. Cada momento do dia trazia sua própria manifestação — e, consequentemente, sua própria nomenclatura.

Após o almoço, surgia Jesus, Alegria dos Homens — uma referência quase musical à intensidade pós-refeição.

Depois da sesta: Jesus, Alegria dos Homens - A Festa Continua.

No meio da tarde: Os Acadêmicos do Salgueiro — mais leves, ritmados, quase festivos.

Ao entardecer: Bufas ao Cair da Tarde.

No jantar: Adivinhe Quem Vem para o Jantar.

E, ao final do dia, já às portas do repouso, surgiam manifestações mais solenes: Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse ou As Trombetas de Gideão.

Por volta das dez da noite, vinha o derradeiro:

Boa Noite, Cinderela.

Era o sinal.

— Boa noite, senhor meu marido! — dizia Dona Adalgisa, encerrando o dia como quem fecha um ritual.

O silêncio então tomava conta da casa — um silêncio pesado, quase sagrado — interrompido apenas, ao amanhecer, pelo reinício do ciclo.

Havia ainda episódios noturnos imprevistos. Quando o general despertava para pequenas necessidades, dois eventos discretos o acompanhavam.

Ela os chamou:

Dois Perdidos numa Noite Suja.

                                                    

Levantei os olhos do livro por um instante, já à beira de outro colapso de riso. Aquilo não era apenas humor — era uma arquitetura inteira construída sobre o absurdo.

Voltei ao texto, ainda ofegante:

                                                     

Numa certa noite, Dona Adalgisa foi despertada por um estrondo particularmente intenso.

Assustada, virou-se para o marido:

— Nossa! Que foi isso? Foi um dos Estupendos? Que cheiro de pólvora… você não tem um cu, tem um canhão nesse seu imenso rabo!

O general, ainda meio imerso no acontecimento, respondeu com certa gravidade:

— Foi forte… mas não sei se encaixa em alguma dessas categorias.

— Como assim?

— Pra mim… foi horroroso. E também… falacioso.

— Horroroso eu entendi… agora, falacioso?

Ele fez uma pausa breve.

     Digo que foi falacioso porque não foi só um peido.


     Não?


     Não!


     E por que, então?


     Peido pesa?


     Claro que não!


     Então acho que caguei.


                                                   


Fechei o livro lentamente.

E ali, entre o riso e o espanto, percebi que aquele universo não obedecia a nenhuma lógica convencional — e talvez fosse justamente por isso que era impossível sair dele ileso.

Antes mesmo que qualquer reação pudesse se formar dentro de mim — ainda suspensa entre o espanto e a incredulidade — fui arrancado daquele mergulho abruptamente pela voz de Jo, que já captara algo que meus olhos, imersos nas páginas, haviam negligenciado.

— Carlinhos… acho que eles estão vindo — sussurrou, com a urgência de quem fareja o perigo antes que ele ganhe forma.

— Vou sair!

Ergui-me de um salto contido, e ali ficamos, lado a lado, fingindo uma conversa silenciosa diante da grande tela apoiada no cavalete ao centro da sala — como dois críticos improvisados diante de uma obra que, na verdade, mal víamos. O tempo, porém, parecia ainda nos conceder alguns instantes de trégua. Pedi a Jo que redobrasse a vigilância. Eu voltaria. Precisava voltar.

Dessa vez, abandonei a leitura linear. Lancei-me numa espécie de cartografia caótica da obra de François — um sobrevoo apressado, porém atento, tentando apreender o todo a partir de fragmentos dispersos. Um livro aqui, outro acolá. Páginas folheadas com dedos já inquietos. Trechos curtos, quase flashes. Às vezes, apenas o título — e ele já bastava, como um estilhaço de sentido.

Eu já não lia: eu recolhia vestígios.

Queria sair dali com algo — um mapa mental, um inventário mínimo que pudesse depois compartilhar com os rapazes, como quem retorna de uma expedição a um território improvável.

Foi então que a encontrei.

Uma folha solta. Discreta. Mas decisiva.

Ali estava — como uma chave deixada à mostra — a lista completa das obras de François.

E o que se revelou diante de mim não era apenas uma bibliografia… era um universo.

Um cosmos escatológico, organizado com uma lógica interna tão absurda quanto coerente.

Eis a relação:

Faroeste — Só peidando por cima do meu cadáver; O ânus furado.

Autoajuda e comportamento (Comédia) — Como peidar, Profissões (vols. I e II); Como peidar, Ambientes – Vol. I; Como peidar no toilette sem que te ouçam no outlet; Como peidar com elegância e discrição nas recepções do embaixador (inspirado em A arte de peidar, de 1751, de Pierre-Thomas-Nicolas Hurtaut); As bufas do sofá.

Guerra — Os peidões de Navarone; O ânus sujou; A águia peidou.

Contos infantis — As aventuras de Ultrapeido (contra os Incas Venusiânus e Nariz Entupido); O cocozinho matreiro; João Peidão e Kid Ninho; O samurai peidorreiro; As aventuras de Peido e Pum.

Suspense e aventura — 7 homens e um novo segredo: quem peidou?

Policial — Os subterrâneos do Vaticânus; Nas Rebarbas do cu.

Gestão — Desculpem-me, soltei um peidinho; Hoje eu fiz um cocozão; Não frite um bacon no cu; Quem cheirou meu peido; É peidando que a gente se entende.

Terror — Bufas do além-túmulo; O morro dos peidos uivantes.

Ensaios filosóficos — O homem que caga e ri; Peidar é humano, demasiado humano; Quando o ânus coça o sujeito perde a bossa.

Românticos — Me peida!; Deixa eu fazer cocô com você?; O último pingo em Paris; Peidiciana, a megera dos mil peidos; Amores duros e cocôs empedrados passam quase sem deixar marcas; Que dispare o primeiro peido aquele que nunca pecou; Dez ânus depois; Duas belas bufas; Como era lindo o seu peidar.

Épico — As bufas de Avalon.

Ficção — O último ânus sobre a Terra.

Roteiro para novela — A força de um dejeto; Depois daquele peido.

Saúde — As doces e sutis diferenças entre traques, puns, bufas e peidos; O 2” nosso de cada dia.

Ensaio político — Botando a rosca no trombone; Peide agora ou cale-se para sempre.


Percebi, tarde demais, que aquilo exigia registro. Era informação demais para confiar apenas à memória.

Procurei, às pressas, algum suporte — qualquer superfície que pudesse capturar ao menos fragmentos daquele delírio organizado. Encontrei um pedaço de papel esquecido numa lixeira de madeira ao lado da mesa. Resgatei-o como quem salva um documento histórico. Um lápis, solitário, repousava num pequeno vaso entre canetas.

Comecei a escrever.

Ou melhor — a atropelar palavras.

Rabiscos apressados, signos tortos, linhas que já nasciam quase ilegíveis. Eu sabia, enquanto escrevia, que talvez jamais decifrasse aquilo depois. Mas ainda assim insistia — como se o ato de registrar fosse, por si só, uma forma de retenção.

Foi então que outro detalhe me capturou.

Ao lado do vaso, uma folha pequena, amassada, guardava algo que parecia pulsar com outra frequência: a letra incompleta de uma marchinha de frevo. Li:

Se eu peidar você me dá?
Dou, dou, dou…
Então já vou detonar…
Pô, pô, pô…

Mas se eu peidar você me dá?
Dou, dou, dou…
Então já vou detonar…
Pô, pô, pô…

O velho gagá gagueja…
peidando no trem da Central…

Ali, interrompida — como se o próprio riso tivesse atravessado a escrita.

Outro papel, ao lado, trazia fragmentos de uma canção intitulada Penico estreito:

Ai, ai!
Que boca estreita o penico tem…
Quando se caga,
o pau fica de fora…
Quando se mija,
o cu fica também.

Parei.

Por um segundo — talvez dois — não soube se ria ou se me rendia a algum tipo de perplexidade mais profunda. Aquilo tudo já extrapolava o cômico. Havia ali um sistema. Uma estética. Um mundo inteiro regido por suas próprias leis.

Mas o tempo — implacável — voltou a me puxar.

Peguei mais um livro. Tentei uma leitura diagonal. Inútil.

— Carlinhos! — chamou Jo, agora sem disfarçar a tensão.

Eles estavam vindo.

Fechei o livro. Abandonei o resto.

Saímos.

E foi já na fuga que notei, pendurado discretamente na escrivaninha, um último vestígio — talvez o mais definitivo de todos:

Frase do dia:
Merdas cagadas não voltam ao cu.”

Não resisti.

Senti minhas bochechas inflarem involuntariamente — como as de Louis Armstrong ao soprar seu trompete — e por um triz não explodi ali mesmo numa gargalhada irreversível.

Atravessei o escritório quase correndo.

Agarrei Jo pelo braço.

E já na varanda, tentando conter o inevitável, percebi que o riso — aquele riso — já não me pertencia mais.

Ele havia tomado conta de tudo.




Capítulo IV


As exuberantes bundas Valentianas

Continuei rindo sem parar quando François, SC e M-Mentiroso se aproximaram querendo saber o motivo de tanto riso. Tergiversamos dizendo que tínhamos presenciado uma cena muito engraçada com um sujeito que havia tropeçado e em função desse tropeço acabou se chocando contra um poste. Desconcertado, saiu rapidamente e dobrou a esquina tentando escapar daquela cena ridícula que havia se envolvido.

  E aí pessoal, vamos embora? – perguntou SC se dirigindo a nós.

— Meus meninos, vocês não vão embora enquanto eu não mostrar uma coisa que tenho certeza que vocês irão adorar.

— O que é, François? — perguntou M-Mentiroso, que continuava todo solícito.

— Venham cá!  Acompanhem-me! — falou François todo saltitante.

Ele entrou no escritório dirigindo-se até o fundo da pequena sala e depois de revirar alguns livros, pegou um outro maior, desses grandes geralmente dedicados à arte e à fotografia, e com ele nas mãos voltou-se para nós todo sorridente.

  Rapazes, eu quero apresentar a vocês um amigo querido. Ele é  um fotógrafo profissional conhecido no mundo todo pelos seus trabalhos com ensaios de nus femininos.

— Nus femininos… como assim? — perguntou SC todo assanhado sentindo que o seu pênis já começava a ficar levemente arqueado.

— Ele, até pouco tempo atrás – continuou François, - era apenas um excelente profissional que fotografava modelos nuas para uma revista masculina que é publicada lá na França. Como as fotos que ele tirava para esta revista costumavam receber muitos elogios da crítica especializada, ele acabou decidindo viajar por diversos países com o objetivo de publicar Books com Nus femininos do mundo inteiro.

- Caráio, mostra logo isso François! – falei todo excitado, ainda mais porque aquele era o livro que eu tinha a intenção de procurar e que acabei esquecendo.

Antes de nos mostrar o livro, ele o virou para baixo para que não víssemos a capa, e na sequência contou-nos a história de Valentin.

Fotógrafo profissional, ele também é muito conhecido em sua área de atuação por ter verdadeira obsessão por bundas. Nessa peregrinação que decidiu fazer por países dos quatro cantos do planeta, contou-nos François, ele já passou pelo México, por países da América Central e pelos Estados Unidos; na Europa, visitou a Itália, os países nórdicos e por último, aí já na África, o Egito, origem daquele enorme livro que François segurava em suas mãos. De suas andanças pelos países da América Central, resultou o livro que recebera o título de El Culo, onde se podia ver lindas mexicanas, guatemaltecas e caribenhas nuas e em poses pra lá de sensuais.

Nos EUA, ele publicou Ass wide open, que numa tradução livre significaria De ânus bem aberto. Dos países nórdicos, ele lançou Lanus`s rose (O ânus rosa), na Itália ele publicou Lano rosso (O ânus vermelho) e no Egito ele havia lançado A roseleta púrpura do Cairo, que tinha sido o único livro até o momento lançado no Brasil, e era justamente ele que François segurava em suas mãos enquanto ia nos contando a história desse seu adorado amigo. Naquele exato momento, nos confidenciou François, Valentin encontrava-se na África reunindo modelos para seu mais novo trabalho, fato este que pude comprovar pois havia lido na carta que se encontrava em cima da sua mesa. Segundo François nos relatou, este novo livro iria receber o título de O Ânus Negro, fato que também pude comprovar.

Este ensaio fotográfico ainda não havia sido finalizado porque o próprio Valentin havia lhe confidenciado que estava com dificuldades para fotografar as modelos já elegidas em virtude de um certo trauma que carregava desde a infância, trauma este que o fez procurar um terapeuta para poder aprender a lidar. E o pior, nos falou também François, foi que quando o Valentin falou em uma de suas terapias sobre essa sua dificuldade em lidar com o ânus negro, recebeu como resposta do seu terapeuta que ele, o terapeuta, também enfrentava este mesmo problema.

Ambos, Valentin e o seu analista, tinham um sonho recorrente em que estavam prestes a comer o ânus de uma mulher negra quando de repente este ânus começava a crescer de tal forma que chegava a engoli-los, e aí, obviamente, neste momento, eles acabavam acordando apavorados. Rimos todos, a bem dizer um tanto perplexos, dessa situação inusitada que nos foi contada por François.

Ele também nos contou que conheceu Valentin quando de sua última viagem a Paris. Ambos, ele e Valentin, trabalhavam para o mesmo grupo editorial. Mais para frente, ele nos confidenciou que o próprio Valentin já havia vivido por um bom tempo no Brasil quando ainda era rapaz e falava muito bem o português. Isso acabou ajudando para que eles se tornassem amigos.

— Meninos! — exclamou François querendo chamar a nossa atenção —  esse Valentin é um daqueles indivíduos que poderíamos dizer, foi abençoado pelo criador. Todo homem, tenho certeza, gostaria de ser um Valentin na vida.

— Por quê, François? – perguntou SC

  Deixa eu contar uma história pra vocês – respondeu ele com um enorme sorriso no rosto.

— Diz logo, cacete! – completei.

— É o seguinte: o cara é um tarado por bundas, como falei ainda há pouco, não é verdade? Mais precisamente, por rabicós, que ele chama de Dioninho. Ele diz que esse nome vem de Dione, uma namorada que ele teve há muito tempo e que, segundo ele, tinha o mais perfeito de todos — e foi por isso que resolveu chamar o ânus das mulheres de Dioninho. Diz até que, no fundo, tem algo de dionisíaco nisso tudo — essa coisa do excesso, do prazer, da carne… – sorrimos todos juntos.

— Dioninho? Que porra é essa? – perguntou SC sorrindo e sem entender nada.

— Pois é – continuou François. – ele chama o cu das minas de Dioninho, por causa dessa história da Dione. O cara é tão fissurado por fiofós, que até mandou fazer uma flâmula onde aparece escrito a frase I Love Dioninho – voltamos a gargalhar juntos.

— Meninos – prosseguiu mais uma vez François falando sobre o Valentin.

— Como as modelos sabem que ele é um fotógrafo famoso, geralmente não é ele quem as procura. Elas é que vão atrás dele oferecendo os seus fiofós, querendo submetê-los à sua apreciação, como se fosse um currículo, manja? - falou sorrindo.

— Nossa Senhora! – exclamou Jo.

— Pois é, meus filhos. O cara fica em casa e são as meninas que vão até ele oferecer os seus dioninhos, porque se ele, Valentin, aprovar, a carreira delas decola.

— E vou te dizer mais! – prosseguiu ele.

— Como ele, o Valentin, é um enólogo, ou seja, um ótimo conhecedor de vinhos, o cara não é um sujeito comum, não. Muito pelo contrário: ele é bem sofisticado. Todas as vezes que acaba de comer um roscof, ele faz uma analogia como se tivesse degustado um vinho.

— Como assim? – perguntei, rindo a valer pela forma como o François narrava as manias do seu amigo.

— Ele diz assim pra mina, ó!: "Querida, você tem um ânus maravilhoso, com complexos e sedutores aromas em que se destacam as ameixas vermelhas e bem lá no fundo, fundo mesmo, discretíssimo toque amadeirado." – Nessa hora, M-Mentiroso desabou numa enorme gargalhada, que, obviamente, foi seguida por todos nós.

— Quando as modelos levam os seus rabos, ou currículos, como você falou, à sua apreciação, ele faz uma análise realmente bem profunda, não é mesmo? - perguntou Jo com ares de preocupado, embora tudo não passasse de uma encenação. Podíamos claramente perceber um certo sarcasmo em suas palavras.

— Profundíssima – concordou François, sorrindo enquanto jogava sua mecha de cabelos loiros para trás, num gesto um tanto delicado.

— O sujeito... — continuou François — no fundo, é um verdadeiro apreciador de vinhos e dioninhos — falou às gargalhadas.

— Cara, já pensou tu, lá em casa, sem nada pra fazer e de repente vem a gostosa da Fátima Antunes oferecer o dioninho dela pra você apreciar? — falou Jo dirigindo-se a SC.


Fátima Antunes era uma linda mulher que encantava a todos nós naqueles tempos. Oriunda de uma família tradicional, ela residia no Ed. Ouro, que ficava localizado na esquina da Rua Sete de Setembro com a Av. Conde da Boa Vista, lugar onde eu havia morado por algum tempo durante a minha infância e onde residiam os meus tios.

Era a nossa musa inspiradora, bem diferente de outras duas Fátimas que foram nossas contemporâneas. Uma delas, a quem chamávamos de Fátima Urubu, era uma graciosa menina negra, ainda muito jovem, que morava num sobrado que ficava na própria Rua Sete de Setembro, quase esquina com a Rua Martins Jr., sobrado este que ficava bem ao lado do Ed. Mandacaru, prédio onde residia uma outra Fátima, a quem havíamos apelidado carinhosamente de Fátima Boi, que, talvez por ter uma cinturinha mais redonda e estar um pouco acima do peso, deva ter recebido esse infeliz apelido.

— Pra esse aí... — falou M-Mentiroso, dando continuidade às palavras inicialmente proferidas por Jo — ...quem vai levar o dioninho dela vai ser a Fátima Urubu, ou, quando muito, a Fátima Boi.

— Realmente, M, pra ele, só se for uma dessas mesmo — falei, tentando colocar ainda mais lenha naquela fogueira.

— Olha quem fala? — respondeu ele, procurando me rebater.

— Fiquei sabendo que um dia desses a Fátima Boi te deu o maior beijão lá no elevador do Ed. Amazonas, num foi, Jo? — respondeu ele, lembrando de um fato que realmente tinha acontecido comigo.

— E o cara ficou caidão — respondeu Jo, procurando dar uma força às palavras de SC.

— Agora, meninos… — interrompeu-nos François, talvez até para dar um fim àquela nossa interminável conversa — …mantenham o pintinho de vocês presos na gaiola, porque o que vou mostrar neste momento é simplesmente maravilhoso — completou, mostrando-nos aquele livro que há tempos segurava em suas mãos.

— Ahhhh! O que é isso? — perguntou SC, todo excitado, e nós também não ficamos atrás.

— Caráio, mostra logo esse livro aí, François! — completou M-Mentiroso, que, daquele momento em diante, esqueceu completamente o papel que vinha representando.


O livro que François começou a folhear diante de nós estava repleto de fotos de belas mulheres nuas, nas posições mais ousadas e excitantes. Naquela idade, se um livro daqueles caísse em nossas mãos, era provável que entrássemos num estado de masturbação permanente.

Aquilo, para nós, era completamente novo. Fotos de mulheres peladas, nós nunca tínhamos visto. A única coisa que conhecíamos eram aquelas revistinhas repletas de histórias eróticas, mas que não apresentavam fotos, e sim desenhos livres, feitos à mão.

Ficamos ali nos espremendo, com um querendo passar por cima do outro, tal era o desespero diante daquelas maravilhosas fotos, a maioria em preto-e-branco, com mulheres exibindo suas bundas torneadas e sempre em posições tremendamente sensuais.

— Para de babar em cima de mim, seu filho da puta! — falou SC para M-Mentiroso.

— Tira essa porra desse caráio daqui, véio! — falou M-Mentiroso, dirigindo-se ao Jo, que estava se apoiando sobre ele, querendo encontrar um melhor ângulo para ver aquelas fotos.


Por algum tempo permanecemos completamente entretidos com aquelas lindas mulheres que estavam desfilando perante nossos olhos perplexos, enquanto François ria-se a valer, tamanho era o nosso estado de excitação. 

— François, onde é que vende um livro desses? — perguntou M-Mentiroso.

— Olha, acho que vocês podem encontrar na Livro 7.


A Livro 7 era uma livraria que existia na Rua Sete de Setembro, na quadra seguinte àquela onde ficava o nosso ponto de encontro. Ela foi fundada em 1970, numa pequena loja de pouco mais de 20 metros quadrados, e mudou-se, em 1978, para um enorme galpão, na mesma rua, com o objetivo de se tornar a maior livraria pernambucana. Com os seus cavaletes e estantes ocupando um espaço de 1.200 m², acabou, de fato, entre os anos 1970 e 1980, tornando-se a maior livraria do Brasil em número de títulos e extensão de prateleiras, segundo o Guinness Book.

Era o orgulho de todo pernambucano e, com o tempo, dizem que passou a ser uma espécie de Academia Pernambucana de Letras, na qual ter o seu retrato exposto acima das estantes significava um reconhecimento e uma certa imortalidade para a sociedade literária recifense. Não foram poucos os intelectuais, escritores e poetas que doaram seus retratos para ali ficarem expostos; entre eles, podemos citar Gilberto Freyre, Ariano Suassuna, César Leal e João Cabral de Mello Neto, e muitos deles, inclusive, costumavam fazer o lançamento dos seus novos livros naquele espaço tão badalado.

É lógico que iríamos à Livro 7 para ver se conseguiríamos encontrar aquele livro. Posteriormente, discutindo essa possibilidade, chegamos à conclusão de que dificilmente aquilo poderia se tornar viável por causa de algumas questões básicas: dentre elas, o seu custo — que, para ser adquirido, iria exigir uma angariação de fundos, ou seja, ele não iria pertencer a um só — e, por último, dificilmente conseguiríamos transitar por nossas casas com um livro daquele tamanho sem que nossos pais percebessem. Depois de um bom tempo folheando aquelas páginas desconcertantes, François fechou o livro e falou:

— Chega, meninos… vamos parar por aqui! Não quero ejaculações precoces em minha sala.
E foi então que a sala inteira se desfez numa gargalhada só, um riso coletivo, largo, quase incontrolável.

— Antes de vocês irem embora… deixa eu mostrar mais umas coisinhas.

François voltou ao escritório, guardou com extremo cuidado o livro de Valentin — como quem recolhe um objeto sagrado — e retornou trazendo outros dois volumes, menores, do tamanho de um romance comum.

— Olha… esse livro aqui foi escrito por uma modelo brasileira, hoje muito famosa, descoberta pelo nosso querido fotógrafo. O nome que ela assina é Glorinha Kibunda… embora esse não seja o seu verdadeiro nome. É apenas um pseudônimo.

E então François começou a nos contar — com aquela mistura peculiar de malícia e encantamento — que a modelo ainda era virgem quando Valentin a fotografara nua pela primeira vez. Que acabaram se envolvendo. Que ela, até então inexperiente, além de ter sido desvirginada por ele, passou a se entregar ao sexo anal quase que diariamente, rendida àquela que era a grande tara do mestre da fotografia.

Apaixonou-se. Não por ele apenas — mas por aquilo. Pela prática. Pela descoberta.

E anos depois, como quem registra uma iniciação, publicou um pequeno livro autobiográfico, onde contava um pouco da sua história. O título, segundo François, vinha como uma dedicatória direta, quase íntima, ao seu descobridor:

Este rabo é todo teu, Zé Bedeu.

Diante de um título tão inesperado, tão brutalmente direto, ficamos todos — os quatro — completamente pasmos por um segundo, apenas para, no instante seguinte, desabarmos numa gargalhada única, contínua, contagiante. François nos acompanhava, rindo como quem reconhece o absurdo como forma legítima de verdade.

Logo depois, ele nos contou que Valentin era um apaixonado pela obra de Machado de Assis — e que, tomado por essa admiração, decidira também se lançar como escritor.

Mas que belo cu, Capitu! — fora o nome escolhido para o seu primeiro romance.

E nós… nós já não ríamos: explodíamos.

E rimos ainda mais — se é que isso era possível — quando soubemos que, lá do Senegal, esse fotógrafo que agora ensaiava seus primeiros passos como romancista estava prestes a concluir mais uma obra, com o insólito título de:

Garçom, me veja dois ânus bem passados, por favor!

Quantas surpresas mais aquela noite ainda guardava?
Foi essa a pergunta que me atravessei por dentro naquele instante — sem saber que outras tantas, talvez ainda mais improváveis, estavam por vir.

— Tem mais uma última coisa que eu queria mostrar pra vocês… antes de irem embora.

François caminhou novamente até o quarto e voltou trazendo consigo um pequeno estojo transparente, segurando-o com um certo orgulho quase cerimonial.

— Vocês estão vendo este estojo aqui?

— Sim! — respondemos, praticamente em uníssono.

— O que é isso, François? — perguntou M-Mentiroso.

— Vou contar a história desse pequeno estojo pra vocês…

E então começou.

Disse que, no verão de 1967, quando estivera em Paris — ou melhor, quando dizia ter estado — Valentin o convidara para conhecer um balneário no sul da França: Calanque dEn-vau, uma praia escondida em Cassis, próxima de Marselha, onde moravam seus pais. Um lugar reservado, quase secreto, frequentado pela elite francesa justamente por sua discrição.

SC, surpreso, interrompeu:

— Cara, eu não sabia que você já tinha ido para a França…

François confirmou, com naturalidade. Hoje sabemos que era fantasia — mas, naquele momento, acreditávamos.

E continuou.

Ao chegarem, o pai de Valentin revelou algo curioso: a praia estava imprópria para banho. Intrigante. Inexplicável. Não havia esgoto, nem ocupação urbana por perto. Ainda assim, os testes indicavam um alto grau de coliformes fecais.

François então encurtou:

— Pra resumir, meninos…

Valentin, ao ouvir aquilo, lembrou-se de um amigo que trabalhava na vigilância sanitária de Marselha. Após investigar, chegaram a uma conclusão tão inesperada quanto absurda: a contaminação ocorria porque os frequentadores — franceses pouco afeitos à higiene regular — estavam levando para o mar resíduos oriundos da falta de asseio íntimo adequado.

Foi então que surgiu a ideia.

Uma ideia ao mesmo tempo genial e inimaginável.

A criação da operação:

Opération anus propre, plage propre.
— Operação ânus limpo, praia limpa.

Na entrada da praia, construíram instalações obrigatórias: uma para homens, outra para mulheres. Ali, cada banhista deveria realizar sua higiene anal sob supervisão. Caso o papel acusasse resíduos, recebia um Kit ÂnusLe trousse anus — e era encaminhado para uma cabine com bidê, água quente e todos os instrumentos necessários.

E era justamente esse kit que François agora segurava em suas mãos.

Dentro dele: uma pequena toalha, sabonete neutro, uma esponja… e uma bisnaga de Xilocaína.

— Vocês não estão acreditando em mim, não é?

— Não é questão de acreditar… — respondeu M-Mentiroso — …é que isso é meio inacreditável.

— Mas é verdade, meninos! Olhem aqui…

— Por que tem Xilocaína, François? — perguntou Jo.

E então veio a explicação.

Segundo ele, médicos e sanitaristas consideraram que a praia era muito frequentada por homossexuais e, também, por mulheres que, diante da dificuldade de acesso à pílula anticoncepcional na época, recorriam ao sexo anal como alternativa.

— Ui… que delícia! — completou François, em tom debochado.

— Então as francesas eram todas bundeiras? — ironizou Jo.

— Ah! quer dizer que elas davam a roseleta? — perguntei.

— Púrpura do Cairo… — respondeu François, com rapidez, retomando o universo de Valentin.

A inclusão da Xilocaína, explicou, visava evitar dor durante a higienização — especialmente considerando possíveis ferimentos.

— É bem provável que os aninhos deles estivessem feridos… — disse, rindo copiosamente.

A operação foi um sucesso. A praia voltou a ser própria para banho. Mais tarde, foi desativada por constrangimento dos frequentadores — mas o hábito da higiene permaneceu.

Passamos o estojo de mão em mão, entre curiosidade e um leve constrangimento que pairava, silencioso, entre nós.

Tudo aquilo era novo. Estranho. Fascinante.

E, quando achávamos que já tínhamos visto de tudo, François nos surpreendeu mais uma vez:

— Chega por hoje, meus queridos!

Tentava conter nossa excitação — já transbordante.

— Da próxima vez que vocês vierem aqui… e eu sei que vão voltar… eu vou contar um segredo pra vocês.

— Mais um? Dá uma pista! — pediu SC.

— Além de artista plástico… eu também sou escritor. Mas escrevo para um público… como posso dizer… das meninas… assim como eu.

— Como, escritor? — perguntei, com a mais perfeita cara de inocência.

— Conto outro dia.

— Mas onde vende isso? — insistiu SC.

— São livros meio apócrifos… não se encontram em qualquer lugar.

— Tipo aquelas revistinhas do Recife Antigo? — perguntou Jo.

— Isso mesmo, Josinho… Há lugares específicos. Perto da Universidade Católica, por exemplo. Mas os frescos de Recife sabem muito bem onde encontrar… assim como vocês sabem onde comprar suas revistinhas.

— Está bem, François… da próxima vez você nos conta — encerrou M-Mentiroso.

Mas nunca houve próxima vez.

Nunca mais voltamos àquela casa.

E assim, o segredo permaneceu suspenso — como tantas coisas que a vida nos mostra e depois recolhe, sem explicação.

Com o tempo, esquecemos. Ou fingimos esquecer.

Não frequentávamos livrarias. Não tínhamos como confirmar nada.

Lembro apenas de ter visto, uma única vez, na Livro 7 — enquanto buscava um livro indicado pela escola — um exemplar solitário. Justamente aquele que fora premiado.

Saímos da casa de François carregando uma excitação difícil de nomear. Havíamos sido atravessados por um excesso de descobertas em pouco mais de duas horas.

Mas a noite… a noite ainda não havia terminado.

Eu ainda tinha uma história para contar aos rapazes.

E eles não faziam a menor ideia do presente que estavam prestes a receber.

Curiosamente — e talvez não por acaso — deixamos a casa de François sem que ele voltasse a mencionar, sequer uma vez, sobre o que de fato escrevia.

Talvez porque certos segredos…
precisem permanecer assim.



CAPÍTULO V

Existem risadas que ecoam pela Eternidade

Descemos os estreitos degraus da escada daquele velho sobrado completamente eufóricos, radiantes de uma felicidade que parecia não caber mais dentro de nós. Lá embaixo, já na rua, acenamos para François, que permanecera recostado na varanda para uma última despedida. E assim que entramos na Sete de Setembro — fora, portanto, do alcance de seus olhos —, aquele estado de excitação que até então havíamos mantido contido, seguro por nossas rédeas, rompeu-se de uma vez.

Foi como se alguém tivesse aberto uma comporta.

Risos, gritos, palavrões e gargalhadas explodiram numa espécie de turbilhão coletivo. A alegria nos atravessava de tal maneira que, se fôssemos baderneiros — e felizmente não éramos —, provavelmente teríamos saído chutando latas de lixo, batendo nas portas de ferro das lojas ou acordando a vizinhança inteira apenas para dar vazão àquela energia desmedida que tomara conta de todos nós.

— Caráio! O que foi aquilo? — perguntou SC.

— Meu Deus! Eu precisava de um livro daqueles! — respondeu M-Mentiroso.

— Só você? — perguntei.

SC não perdeu tempo:

— Cacete! Eu, com um livro daqueles lá em casa, ia morrer de tanta bronha!

Jo já sorria de orelha a orelha.

— Mermão, eu mesmo vou bater uma hoje à noite antes de dormir.

— Mermão, tu viste aquela foto que era toda em preto e branco, com apenas os olhos da mulher em cores, e ela estava com a bunda toda abertinha refletida num espelho? — perguntei.

SC arregalou os olhos.

— Aquela da posição Seu Entrêncio”?

Foi uma gargalhada só.

— Eu preferi a daquela mina que foi fotografada perto das pirâmides — disse Jo. — Aquela com aqueles trajes de dança do ventre.

— Aquela com trajes de odalisca, né? — perguntou M.

— Ela mesma! A da posição Seu Enterrêncio” — respondeu SC.

Outra explosão de gargalhadas.

Jo, porém, ainda guardava alguma coisa.

— Cara, e ainda tem mais! Vocês não viram nada.

SC imediatamente se voltou para ele.

— Como assim? Me conta isso direito!

— Não, não estou falando disso.

M-Mentiroso, que doravante passaria a ser apenas M, franziu a testa.

— É! Por falar nisso, o que é que vocês estavam fazendo enquanto a gente estava tomando vinho lá na cozinha?

— Cara, você não faz a menor ideia do que a gente descobriu. A gente, não. Carlinhos — respondeu Jo, apontando para mim.

SC virou-se para mim.

— Vai, Carlinhos! Fala logo, cacete! O que tu descobriu?

— Você ouviu o François falar, no final, que ele também era escritor, não ouviu?

— Sim. Realmente, lembro disso. Mas... e daí? Por acaso você descobriu alguma coisa a mais sobre isso?

— Cara, eu não fiquei lá na cozinha com vocês. Enquanto todo mundo conversava, aproveitei para entrar no escritório do homem. E o que descobri vocês não vão acreditar. Pergunta para Jo. Né, Jo?

— É verdade — confirmou ele.

— O que Carlinhos descobriu é sensacional — completou Jo. — Digo isso porque fiquei ao lado dele, vigiando, com medo de vocês de repente voltarem da cozinha.

— E que foi que ele descobriu? Você chegou também a ver alguma coisa? — perguntou SC.

— Vi, sim. Fiquei ali do lado, fora do escritório, mas Carlinhos ia me mostrando alguns livros que encontrava e lia. Só que, àquela altura, ele já havia descoberto muito mais coisas.

— Conta, caráio! — exigiu SC, já quase pulando.

— Vamos fazer o seguinte — falei.

— Vamos para o nosso local de reunião noturno que eu conto tudo.

O nosso local de reunião ficava no corredor do Edifício Amazonas, onde moravam SC, M e Jo.

Caminhamos uns cinquenta metros. Assim que entramos na Rua Martins Júnior, a rua onde morávamos, percebemos que estava completamente deserta. Diminuímos então um pouco o barulho que vínhamos fazendo. Aquela pequena via misturava lojas e prédios residenciais e, como já passava das onze da noite, não queríamos correr o risco de alguém abrir uma janela e chamar nossa atenção.

Mas a euforia era tamanha que não conseguíamos ficar completamente silenciosos.

Quando entramos na rua, minha avó ouviu nossas vozes lá de cima. Do alto da varanda do segundo andar, de bate-pronto, veio a bronca:

— CarMarino! Que barulho é esse, menino? Vocês estão parecendo maloqueiros!

Fiquei, como de costume, tremendamente envergonhado. Ser chamado à atenção na frente dos rapazes era uma espécie de sentença: eu sabia que imediatamente me tornaria alvo das gozações.

Jo não perdoou:

— Vovozinha tá brigando com o netinho mimado. Fica quietinho, viu, nenezinho?

— Vai se foder, fi da puta! — bradei, emputecido.

Entramos no edifício e subimos pelo único elevador até o andar onde costumávamos nos reunir.

Aquela comprida edificação, construída no início dos anos 1960, tinha três andares e ocupava praticamente metade do quarteirão. Assim que saíamos do elevador, encontrávamos um espaço de aproximadamente doze metros quadrados, com a forma de um triângulo. A porta do elevador funcionava como a ponta daquela figura imaginária. Na base, do lado esquerdo, havia um espaço vazio: era ali que fazíamos nossas reuniões.

Na verdade, tratava-se de um lugar praticamente morto, um desses espaços arquitetônicos por onde quase ninguém passava.

Do lado direito começava o enorme corredor que atendia a todos os apartamentos daquele pavimento. Caminhando em direção às residências, encontrávamos, à esquerda, grandes blocos vazados por onde se podia observar a rua. Durante o dia, eles permitiam a entrada abundante da luz.

Naquele nível ficavam as entradas dos apartamentos do segundo andar, que eram duplex. No primeiro pavimento, sala e cozinha; no andar superior, quartos e banheiro. Ao lado dessas portas havia escadas que levavam aos apartamentos do primeiro andar, menores, compostos por apenas um quarto, uma cozinha integrada à sala e um banheiro.

Todos os apartamentos daquele comprido edifício só podiam ser alcançados através daquele extenso corredor.

Havia, porém, uma coisa que me incomodava um pouco naquele nosso esconderijo noturno.

Ele ficava exatamente de frente e no mesmo nível da varanda da minha casa.

E era justamente ali que, todas as noites, minha avó colocava uma cadeira e ficava espreitando a rua, tendo ao lado a companhia inseparável de Têca, nossa cozinheira, que morava conosco desde o meu nascimento.

Dali, as duas conseguiam ouvir perfeitamente nossas conversas.

Por isso, precisávamos falar baixo.

Não apenas porque era tarde, mas porque, naquela época, havia regras para quase tudo — inclusive para a alegria.

Assim que nos sentamos, ainda tomados pela excitação, SC virou-se para mim:

— Fi da puta! Agora tu vai ter que contar pra gente tudo o que descobriu.

Se eu imaginava que já havia sorrido tudo o que tinha direito naquela noite, estava completamente enganado.

O que sorrimos juntos naquele dia ainda repercute em minha vida até hoje.


Recostados nos blocos vazados e de costas para a rua, sentamos eu e SC. À nossa direita, também apoiados nos mesmos blocos, mas do lado oposto e de costas para a entrada do Edifício Mandacaru, ficaram M e Jo.

— Gente, foi o seguinte... — comecei.

— Assim que vocês foram para a cozinha, percebi que a porta do escritório estava entreaberta. Por curiosidade, para ver o que havia ali, resolvi dar uma bisoiada.

M imediatamente me interrompeu:

— Mas fala dos livros que vocês encontraram, cacete! Vocês não pararam de rir até agora. O que foi de tão escroto que vocês viram?

— Mermão, quer saber como descobri que ele era escritor?

— Como?

— Assim que entrei no escritório, vi uma máquina de escrever. Ao lado dela havia diversas folhas já escritas.

Fiz uma pausa.

— De repente, levei um susto quando vi, em cima da escrivaninha, um pênis dourado apoiado sobre uma base de madeira.

Os três ficaram em silêncio por um instante.

— Um pênis dourado?

— Sim.

— E aquilo era o quê?

— Um troféu que François havia recebido por um de seus livros.

SC arregalou os olhos.

— E qual era o nome do livro?

O Último Pingo em Paris.

— O Último Pingo em Paris? Que porra é essa?

— Pois é. Era justamente esse o nome.

— E o troféu era um pênis mesmo?

— Um pênis dourado, apoiado numa base de madeira.

— Caralho!

A partir dali, continuei contando, um atrás do outro, os livros que havia encontrado.

Os títulos eram tão inusitados que pareciam inventados para uma coleção de absurdos. E talvez fosse justamente isso que mais nos fascinava.

Eu procurava narrar os acontecimentos seguindo, tanto quanto conseguia, a ordem em que os havia descoberto. Era uma maneira de reconstruir a aventura e, ao mesmo tempo, de organizar a minha própria memória. Vez por outra, consultava o pequeno pedaço de papel onde havia feito algumas anotações.

Não seria possível reproduzir todos os textos. Alguns eram extensos demais e, de outros, eu havia lido apenas fragmentos. Por isso, procurei transmitir aos rapazes aquilo que me parecera essencial: a moral de cada história, a bizarrice dos títulos, a capacidade extraordinária de François para transitar pelos mais diversos gêneros literários — de contos infantis a ensaios filosóficos — e, sobretudo, aquela curiosa mistura de seriedade e absurdo que parecia constituir seu estilo.

Eu lhes falava também dos depoimentos que apareciam nas contracapas e nas orelhas dos livros. Eram textos que, apesar dos títulos aparentemente ridículos, conferiam às obras uma espécie de autenticidade inesperada.

François parecia ser capaz de escrever sobre qualquer coisa.

E escrever como se qualquer coisa pudesse esconder uma verdade.

Quanto mais eu falava, mais os rapazes queriam saber.

Eu procurava transmitir o meu próprio estado de espírito diante de cada descoberta. Contava como havia lido determinado trecho e precisado abandonar o escritório de tanto rir. Reproduzia o que conseguia lembrar. Inventava involuntariamente alguma transição. Voltava a um personagem. Esquecia o nome de outro.

E, à medida que falava, a minha própria excitação voltava.

Era como se eu estivesse novamente naquele escritório.

Como se ainda estivesse descobrindo aqueles livros pela primeira vez.

Os rapazes começaram a compreender, finalmente, por que eu havia saído de lá daquele jeito.

O humor foi crescendo.

Aos poucos, nossas gargalhadas se tornaram tão violentas que, embora estivéssemos sentados, acabávamos nos deitando no chão. Os olhos inchavam. As barrigas doíam. As lágrimas escorriam pelo rosto.

Chorávamos de tanto rir.

Do outro lado da rua, da varanda de nossa casa, Têca finalmente perdeu a paciência:

— Gente! Se vocês continuarem sorrindo assim, amanhã vocês irão chorar!

Aquilo era típico daqueles tempos.

O catolicismo ainda possuía uma presença profunda na vida cotidiana, inclusive nas pequenas frases que os adultos repetiam quase sem pensar. Havia uma espécie de prudência moral diante da felicidade, como se a alegria excessiva pudesse provocar alguma forma de punição.

Outro ditado muito comum no Nordeste dizia que era muito bom comer coisas doces, pois de amarga já bastava a vida.

Hoje, olhando para aquela noite com os olhos que o tempo me deu, percebo nesses ditados uma marca muito mais profunda do que eu poderia imaginar quando menino.

Há neles um traço do sentimento de culpa tão presente na tradição religiosa, particularmente no catolicismo.

A ideia de que a humanidade nasce marcada por uma falta original é poderosa. O homem pode expiar seus pecados, pode arrepender-se, penitenciar-se, rezar, confessar-se, fazer promessas, mas permanece carregando uma dívida anterior a ele próprio. Uma dívida que não contraiu pessoalmente, mas que herdou.

A culpa vem antes do indivíduo.

E talvez por isso a felicidade, quando aparece em excesso, pareça suspeita.

Na tradição cristã, o sofrimento possui uma dignidade que a alegria muitas vezes não possui. Cristo veio ao mundo para sofrer e redimir os homens. O sofrimento, portanto, não é simplesmente uma circunstância da existência: ele pode adquirir um sentido moral.

O homem trabalha, sofre, renuncia, espera.

A felicidade parece estar sempre um pouco adiante.

Mesmo quando o protestantismo, sobretudo através de Calvino, produziu uma releitura da relação entre trabalho, riqueza e salvação, permitindo que a prosperidade pudesse ser interpretada como sinal de uma vida ordenada e útil, a velha moral da renúncia continuou profundamente arraigada em sociedades católicas.

Mas então o capitalismo chegou com uma promessa aparentemente inversa.

E aqui está uma das grandes contradições da modernidade.

Durante séculos, o sujeito foi educado para conter seus desejos. Freud, muitos séculos depois, encontraria no interior desse sujeito reprimido uma verdadeira usina de forças.

O homem não poderia simplesmente entregar-se aos próprios impulsos. Para viver em sociedade, precisava aprender a contê-los.

A civilização exigia renúncia.

O desejo precisava ser simbolizado, deslocado, sublimado.

O sujeito neurótico freudiano era, nesse sentido, um sujeito dividido entre aquilo que desejava e aquilo que a sociedade permitia que ele desejasse.

Mas o capitalismo industrial, particularmente com a expansão do fordismo, criou uma necessidade nova.

Era preciso produzir cada vez mais.

E, para que aquilo que se produzia pudesse continuar circulando, era necessário que as pessoas comprassem.

Não bastava mais fabricar objetos.

Era preciso fabricar consumidores.

O sujeito precisava ser libertado de suas antigas amarras para tornar-se desejante.

O capitalismo não poderia sobreviver indefinidamente produzindo apenas necessidades básicas. Era necessário fazer com que os indivíduos desejassem aquilo que antes sequer imaginavam precisar.

Foi nesse movimento que a antiga moral da renúncia começou, progressivamente, a encontrar seu avesso.

A sociedade que durante séculos dissera ao homem:

Controle o seu desejo.”

começou a dizer:

Deseje.”

E não apenas isso:

Deseje mais.”

É nesse ponto que a leitura de Deleuze e Guattari sobre o desejo torna-se particularmente interessante.

O sujeito deixa de ser compreendido apenas como alguém que precisa reprimir seus impulsos e passa a ser pensado também como uma máquina desejante, atravessada por fluxos, signos, objetos e forças.

O desejo passa a circular.

E o capitalismo aprende a capturá-lo.

Aquilo que antes precisava ser reprimido agora pode ser vendido.

Aquilo que antes era pecado pode tornar-se mercadoria.

Aquilo que antes era proibido pode tornar-se anúncio.

O capitalismo descobriu uma coisa extraordinária: não precisava destruir o desejo.

Podia lucrar com ele.

E talvez seja justamente aí que aquela velha contradição apareça com toda sua força.

Ainda existiam — e ainda existem — milhões de pessoas formadas por uma cultura religiosa que lhes ensina a desconfiar da felicidade, ao mesmo tempo em que vivem dentro de uma sociedade que lhes repete diariamente que a felicidade está logo ali, na próxima compra, no próximo objeto, no próximo corpo, na próxima experiência.

A Igreja diz:

Não deseje demais.”

O mercado responde:

Deseje tudo.”

E o indivíduo fica no meio.

Talvez, por isso, Têca estivesse certa.

— Gente! Se vocês continuarem sorrindo assim, amanhã vocês irão chorar!

Eu mal conseguia falar de tanto rir.

— Têca... nós já estamos chorando hoje!

E era verdade.


— Pessoal — falei, tentando retomar o fio da conversa —, o que mais chamou a minha atenção nos trechos que li é que eles começavam sérios, mas depois descambavam numa baixaria de dar dó. O cara chega a descrever cenas íntimas das pessoas, essas coisas que a gente não fala pra ninguém.

M olhou para mim.

— Carlinhos, pelo que tu me descreveste, tratam-se de passagens literalmente escatológicas, né?

— Isso mesmo.

— E tem mais — continuou M. — Você tem que levar em conta que só leu alguns trechos. Você não sabe o que existe nos livros inteiros.

— Verdade.

— Por exemplo...

Ele começou a rir.

— Você não sabe qual é o problema do Fiofó.

— Que Fiofó?

— O Resende, cacete!

M rolou no chão.

Jo entrou na conversa com aquela voz que usava quando queria transformar qualquer história numa novela:

— E você, Carlinhos, também não sabe o que aconteceu...

Fez uma pausa dramática.

DEPOIS DAQUELE PEIDO...

E caiu no chão.

SC já estava quase sem respirar.

— Nem também o que aconteceu DEZ ÂNUS DEPOIS!

Mais gargalhadas.

— Conta mais! Conta mais! — pediu Jo.

Eu ainda não sabia que aquela noite seria uma espécie de arqueologia involuntária do universo de François Holderling.

Eu só sabia que havia encontrado alguma coisa extraordinária.

— Cara, teve um livro que li — falei — que tinha um personagem hilário, como todos os que vi.

— Hilário como? — perguntou M.

— Além daqueles nomes que falei para vocês... Fiofó Resende, Furico Teixeira... lembram? Tinha uma tal de Joana Sassa Sá e outro que se chamava Massaranduba Cornélius.

— Joana Sassa Sá... que porra é essa? — disparou SC, voltando a deitar no chão de tanto rir.

— Esse tal de Sassa Sá, não lembro bem agora, era uma bichinha que, quando criança, foi apaixonado por uma garota chamada Lana. Só que essa tal de Lana acabou morrendo num acidente. Segundo a história, ele ficou tão destruído com aquela perda que acabou se tornando homossexual por causa da decepção. Antes, seu nome era Waldecy.

— E aí? — quis saber Jo.

— E aí que esse cara, já adulto, tinha ficado com uma espécie de TOC, transtorno obsessivo-compulsivo, não é isso?

Olhei para M, porque, naquela época, eu o considerava o mais sábio do grupo.

— Isso mesmo.

— Pois bem. Essa bichinha vivia repetindo ao léu algumas frases que ficaram gravadas em sua mente. Coisas do tipo: Eu sei que fui com Lana”... ou Me digas, Lana, por que te quero, Shana”.

SC interrompeu:

— Shana? O que é isso?

— Shana é buceta, cacete! — respondeu Jo, de forma curta e grossa.

— Não saquei a do cara. Qual é?

— Pelo que entendi, ele falava isso porque não se conformava com ela nunca ter dado para ele. Acho.

Parei por um instante.

— Mas essa coisa de ele ficar falando o tempo todo eu sei que fui com Lana” me parece mostrar o tamanho da solidão e da dor provocadas pela falta dela. É como se ele tentasse se convencer de que aquela relação existiu. Como se repetisse a frase para preencher o vazio deixado por alguém que já não estava mais ali.

Os rapazes ficaram um pouco mais quietos.

— O François, pelo que vi, vai fundo na alma dos personagens. Ele capta os clamores mais íntimos de cada um. Mesmo quando fala dos tiques, das manias, das idiossincrasias, das loucuras e dos trejeitos, parece estar tentando revelar a estrutura emocional de cada personagem.

Jo não deixou passar.

— Olha o cara, mermão... idiossincrasia”, estrutura”, trejeito”... Neguinho não é fraco, não!

Rimos.

— Mas, Jo... — prossegui — você entendeu? Tem outro personagem com uma mania parecida com a do Sassa Sá. Quer saber qual?

— Diz logo, caráio!

— Tinha outro personagem, eu ia falar dele, mas me lembrei de outro agora. Só que não lembro nem o nome dele, nem o do livro. Deixa eu falar desse primeiro antes que esqueça.

Expliquei que a história narrava a vida de um homem que tinha uma terrível mania. Eu não sabia se aquilo poderia ser chamado de mania ou tique.

— Um tique nervoso? — perguntou M.

— Algo parecido.

— Mas qual era a dele?

— Mermão, é um negócio muito engraçado e muito esquisito.

— Conta logo, véio!

— Esse cara tinha mania de falar tudo três vezes.

Os três me olharam.

— Não lembro exatamente, mas era mais ou menos assim: se alguém perguntasse Onde você foi ontem?”, ele respondia: Fui lá na Vestal, na Vesdau, na Veslau”.

Os rapazes começaram a rir antes mesmo de compreender.

— E tem mais! Podia ser que a palavra a ser repetida tivesse outras que rimassem com ela e que fossem palavras reais. Mas, quando não havia uma rima possível, ele inventava qualquer coisa, contanto que completasse as três palavras.

SC pediu um exemplo.

— Deixa eu ver se lembro. Podia ser algo como: Estou precisando tomar um ar, tomar um mar, tomar um lar”.

Já estávamos sorrindo novamente.

— Ou: Ela foi posar nua, posar crua, posar tua”.

As gargalhadas voltaram.

— Só que, na maioria das vezes, essas palavras nem existiam. Então ele dizia qualquer coisa: Acho que vou tomar um café, um cabé, um dedé”... ou Essa água é transparente, transpamente, transpadente”.

E fui eu quem primeiro desabou no chão.

— Caráio! Que coisa louca essa, né, gente? — disse M.

— E ele explica no livro que essa coisa de falar tudo três vezes era lacaniana.

SC parou de rir por um instante.

— Lacaniana?

— É. Ele dizia que aquela necessidade era maior do que ele.

— Mas o que é isso, lacaniano?

— Cara... não sei ao certo. Ele diz que aquilo era lacaniano porque, para o personagem, aquela necessidade era maior do que ele.

Hoje, tantos anos depois, consigo compreender melhor aquilo que naquela noite eu apenas repetia sem entender.

Quando François dizia que aquela necessidade era maior do que o Eu”, estava tocando, ainda que de maneira literária e talvez deliberadamente irreverente, numa questão central da psicanálise.

Naquele tempo, eu pouco conhecia Freud, Lacan, Reich ou Jung. Na verdade, ainda hoje reconheço a distância entre aquilo que conheço e a imensidão de suas obras. Mas, olhando retrospectivamente, percebo que François havia colocado diante de nós, sob a forma de um personagem grotesco e engraçado, uma questão profundamente séria: até que ponto somos realmente senhores daquilo que fazemos?

Freud havia construído sua teoria justamente sobre a existência de uma dimensão psíquica que não se submete inteiramente à consciência.

O sujeito pensa que sabe por que age, mas existe algo nele que fala por outras vias.

O inconsciente aparece nos sonhos, nos atos falhos, nos sintomas, nos lapsos, nas repetições.

Há alguma coisa que insiste.

Alguma coisa que retorna.

Na formulação freudiana, o conhecido enunciado segundo o qual onde estava o Isso, deve advir o Eu” aponta para o esforço de tornar consciente aquilo que antes permanecia submetido às forças inconscientes.

Lacan retomaria essa formulação e a recolocaria em outros termos, insistindo que o Eu não é um soberano absoluto instalado no centro do sujeito. O sujeito é atravessado pela linguagem, pelo desejo, pelo inconsciente.

O Eu que acreditamos possuir não é uma fortaleza.

É uma construção.

E talvez por isso aquela mania do personagem de falar tudo três vezes fosse tão interessante.

Ele não escolhia repetir.

A repetição o escolhia.

Ela surgia.

Irrompia.

E ele obedecia.

Aquela necessidade não era simplesmente uma decisão racional do personagem. Era como se alguma coisa inscrita nele exigisse a repetição, e o homem, apesar de saber que aquilo era estranho, não conseguisse simplesmente dizer:

Não farei isso.”

Hoje compreendo que era isso que François estava tentando dizer quando chamava aquela compulsão de lacaniana”.

Havia algo maior do que o Eu.

Algo que vinha de trás dele.

Algo que o atravessava.

Naquela noite, porém, eu ainda não possuía vocabulário para explicar nada disso.

Eu só achava engraçado.

E talvez seja uma das coisas mais curiosas da memória: às vezes, a compreensão chega décadas depois do acontecimento, quando já não somos mais capazes de separar aquilo que vivemos daquilo que posteriormente aprendemos a enxergar.

— Cara, isso aí é bem verdade — completou Jo.

— Como assim? — perguntei, surpreso.

— Veja aquele exemplo que o Juca Chaves falou no último programa!

— O que foi que ele disse?

— Ele falou que, quando a mulher quer dar, meu amigo, não tem quem segure. Se o marido a prender dentro do guarda-roupa, ela o trairá com o cabide.

Houve um segundo de silêncio.

— Puta merda!... É verdade — disse M, sorrindo.


Voltei então às estranhas e estapafúrdias histórias contidas nos livros de François.

— Olha, tem outro personagem dele que se chama Massaranduba Cornélius. Esse era aquele que eu disse que tinha um lance parecido com o Joana Sassa Sá, lembram?

Os três fizeram que sim.

— O coitado nunca se deu bem na vida. Toda mulher que arranjava acabava traindo ele. Só que existiu uma que foi aquela que ele mais amou. Chamava-se Renêe.

— Renêe? — perguntou M.

— É. Renêe.

— E o que tem ela?

— Cornélius foi terrivelmente apaixonado por essa mulher. Ela foi o primeiro amor da vida dele. Os dois cresceram juntos, com as famílias fazendo votos de que se casariam quando fossem adultos. Só que, quando ela ficou mocinha, apaixonou-se perdidamente por um caipira e fugiu de casa com ele.

— Puta que o pariu! — disse Jo, compadecido.

— Mas o que aconteceu? — perguntou M.

— O sujeito nunca mais se recuperou. Acabou ficando com uma mania que muito bem poderia ser um TOC, sei lá.

SC imediatamente encontrou uma oportunidade.

— E como era essa mania, essa mandia, essa bibia?

A frase nos destruiu.

Caímos todos no chão.

A imitação involuntária do personagem que falava tudo três vezes havia atingido o próprio narrador.

Quando conseguimos respirar novamente, continuei:

— Tudo o que ele fazia... se soltava um peido, se espirrava, tropeçava, tirava uma meleca, fazia alguma coisa errada... qualquer coisa... ele dizia:

Parei.

— “Ah! Renêe... por quê? Por que, Renêe?”

As gargalhadas voltaram.

— Como se aquela pergunta tivesse ficado presa dentro da cabeça dele. Uma pergunta sem resposta. Uma pergunta que não queria calar. Ele a carregava pela vida inteira.

Fiz uma pausa.

— E isso é o que acho mais fantástico na narrativa de François. Ele não parece interessado apenas em fazer rir. Por trás do grotesco, existe sempre alguma coisa profundamente humana.

M me olhou.

— Como assim?

— Esse homem foi abandonado. Perdeu a mulher que amava. E transformou a dor da perda numa frase que passou a acompanhá-lo pelo resto da vida. O Ah! Renêe, por quê?” virou uma espécie de ritual da sua existência.

Continuei:

— E tem outra coisa. O que achei mais fantástico é a maneira como François conversa diretamente com quem está lendo.

— Como assim?

— Tem uma hora em que acontece alguma coisa com Cornélius e o escritor pergunta ao leitor: E aí, querido leitor? Como foi mesmo que o Cornélius falou? Como foi?”

Os rapazes já começavam a rir.

— Então ele mesmo responde: Ah! Renêe, por quê?”

Mais risos.

— Depois fala novamente com o leitor: Vamos, vamos agora, todos juntos... Ah! Renêe, por quê?”

Eu já mal conseguia falar.

— E repete outra vez: Não ouvi direito, por favor, fale mais alto... Ah! Renêe, por quê?”

M já estava no chão.

— E termina dizendo: Agora sim! É isso aí, meu caro amigo. Você entendeu direitinho. Parabéns! Percebo que já sacou o nosso querido personagem. Mas voltando à gélida bovina...”

Jo interrompeu:

— Gélida bovina? O que é isso?

— Voltando à vaca fria, cacete! — respondeu M.

— Muito bem sacado, M!

Aquilo me fascinava.

François criava uma ponte direta com o leitor. Não deixava que a narrativa permanecesse confinada às páginas. Era como se abrisse uma janela e chamasse quem estava do outro lado:

Você aí. Está entendendo?”

E talvez essa fosse uma das coisas que mais me impressionavam naquele escritor que eu acabara de descobrir por acaso.

— Ué, mas você nunca lê! — disse M.

E, como quase sempre acontecia, ele tinha razão.

A história de Cornélius, porém, não era apenas uma sucessão de piadas.

Era a história de um homem dilacerado pela saudade de uma mulher que o abandonara.

Em determinado momento, inconsolável, ele se dirigira aos deuses para pedir que a devolvessem.

E os deuses lhe responderam:

— A morte é mais forte do que nós.

— Não podemos devolver aquilo que a morte levou. Mas podemos pôr fim ao seu sofrimento. Podemos fazê-lo esquecer a sua amada. Podemos curá-lo da saudade.

Horrorizado, Cornélius respondeu:

— Não, mil vezes, não! Pois é o meu sofrimento que a mantém viva junto de mim.

Foi então que compreendi, ainda que de maneira incompleta, por que aquela expressão — “Ah! Renêe, por quê?” — era tão importante.

Não era simplesmente uma mania.

Era a forma que aquele homem encontrara para não perder completamente a mulher que havia perdido.

Enquanto perguntasse por quê?”, Renêe ainda estaria dentro dele.

Enquanto sofresse, ela permaneceria viva.

E há uma estranha beleza nisso.

Às vezes, o sofrimento é a última coisa que nos resta de alguém.

E então preferimos sofrer a esquecer.


— Conta mais, Di Lulu! — gritou SC.

— Vai se foder, Gui Lalá... Altolá George! — respondi.

Mais uma rodada de risos.

No final daquela história, descobri que, quando Massaranduba estava no leito de morte, um padre fora chamado para ministrar-lhe a extrema-unção.

O sacerdote aproximou-se do moribundo.

— Diga agora, meu filho. Diga a Deus suas últimas palavras.

SC já sorria, antecipando o desfecho.

— E o que foi que ele disse?

— Pois bem. O padre pediu que Cornélius proferisse suas últimas palavras. Ele fez um gesto pedindo que o sacerdote se aproximasse. Quando o reverendo chegou perto, o moribundo levantou levemente a cabeça e, fazendo um esforço extremo, levou a boca ao ouvido do padre.

Fiz uma pausa.

— E disse baixinho:

— “Ahhhh... Reeeeenêe... poooor quê?”

Pausa.

— E depois...

— Tumba!

Caiu morto.

SC abriu um sorriso tão grande que parecia ter iluminado o corredor inteiro. Em seguida, deitou-se no chão, completamente curvado sobre si mesmo, abraçando a barriga com os dois braços.

Riu tanto que ficou sem ar.

Precisamos acudir o infeliz.

Quando finalmente conseguiu respirar, levantou-se.

Eu perguntei:

— Aonde você vai, cara?

— Acho que vou ali mijar, ali cagar, ali babá...

Mal terminou a frase e caiu novamente no chão.

A gargalhada foi tão alta que ecoou por todo o prédio.

De longe, começaram a surgir vários psius!” pedindo silêncio.

Jo entrou na brincadeira:

— Aproveita e leva o Kit Ânus...

SC respondeu:

— Leva você, seu fresco! Você que fica dando a roseleta lá nos pátios do Americano Batista!

A referência era ao colégio onde Jo estudava, uma importante instituição de ensino fundada em 1906 por um missionário americano, por onde passariam, entre outras personalidades, Ariano Suassuna e Gilberto Freyre.

Mas, naquela noite, história e literatura tinham cedido lugar à mais absoluta anarquia verbal.

E talvez fosse justamente isso que nos fazia tão felizes.


— Cara... espera um pouco, cacete! — pedi, tentando recuperar o fôlego. — Tem outra história que me chamou bastante a atenção pelo nome dos personagens.

Os três me olharam.

— Eles eram todos iniciados por advérbios, adjetivos... sei lá... palavras proparoxítonas.

— Como eram, Renêe? — perguntou M.

— Ó! Anota aí: O Estropiado Pedro; Encafifado Nunes; Esclerosado Célio; Abilolado Lúcio; Empedernido Clésio; Enciumado Jones; Emputecido Mauro.

Parei.

— Havia personagens femininas que não obedeciam à regra. Uma delas era A Ridícula Lu, também conhecida como Lalu. E a prima dela se chamava Lee Lourdes.

— Lee Lourdes?

— É. E a história explicava que ela havia recebido esse nome porque só usava roupas, calças e macacões da marca Lee.

M ficou pensativo.

— Ah!

Fez uma pausa.

— Pelo que estou entendendo, François, ou seja, o autor, teve a ideia de colocar no próprio nome do personagem uma característica dele. Você lê o nome e já traça previamente um perfil do indivíduo.

Olhou para nós.

— Genial!

— Tô te falando... o cara é foda, véio!

— Sem falar na quantidade de livros que ele escreveu — disse Jo.

— E nos gêneros. Ele escreve quase tudo — completou M.

— Eu contei a quantidade de livros que ele escreveu, não contei?

— Contou.

— Vocês viram!

Havia algo de vertiginoso naquela descoberta.

François não era simplesmente um homem que escrevia.

Parecia ser um homem que habitava a escrita.

Como se pudesse entrar em qualquer gênero literário, vestir qualquer personagem, experimentar qualquer voz e depois retornar ao seu próprio corpo.

E, quanto mais eu falava sobre ele, mais a figura daquele velho escritor se tornava misteriosa.


— Cara, lembrei de outra história agora — falei.

— Conta aí, Renêe — respondeu SC, que havia desistido definitivamente de ir ao banheiro.

— Mermão, também não vou lembrar o nome do livro, mas era uma história sobre três bichas de origem libanesa.

Jo levantou as sobrancelhas.

— E tem bicha libanesa?

— Sei lá. Na história tinha.

— Qual era o lance?

— Eu só li um pedacinho. Dizia assim: Era uma vez três bichas libanesas que se chamavam Al Ali, Al Aqui e Al Acolá.”

M começou a rir.

— E daí?

— Segundo a história, quando estavam juntas, tornavam-se quase onipresentes.

— Caráio! Mas como assim, onipresentes?

— É que quando estavam juntas...

Já comecei a rir antes de terminar.

— ...era como se estivessem em toda parte.

Fiz um gesto com as mãos.

— Aqui, Ali e Acolá!

Deitei no chão.

Os outros vieram atrás.

Aquela história, para nós, era de uma lógica perfeita.

Nesse momento, lembrei de outra passagem.

— Olha mais essa!

— Diz logo, cacete! — respondeu SC, já com lágrimas nos olhos.

— Tinha duas bichinhas que eram irmãos gêmeos. Um se chamava Nin Onin Oninho e o outro Din Odin Odinho. Também eram conhecidos como Ritinho e Cristino.

Jo riu.

— O cara ter um filho bicha já é foda. Agora ter logo dois de uma vez é de lascar.

Mais uma vez, o chão virou nosso lugar de encontro.

— A última! A última! Tem mais uma que lembrei agora.

Os três fizeram silêncio, na expectativa.

— Tinha um outro personagem chamado Rales Silubú. Esse tinha uma mania também muito esquisita.

— Qual?

— Era um sujeito extremamente perfeccionista. Não admitia cometer nenhum erro. E todas as vezes que fazia alguma coisa errada, ele mesmo se autocriticava dizendo: Como você é burro, Manu!”

M interrompeu:

— Manu?

— Sim. Esse era o nome que ele dava a si mesmo.

Começamos a rir.

— Então, toda vez que fazia uma cagada, dizia: Manu, Manu, Manu, vai tomar no cu!”

Naquele momento, não apenas eu, mas todos nós rolamos novamente pelo chão.

E, no meio daquela convulsão coletiva de risos, lembrei-me do fiel escudeiro de Ultrapeido.

A lembrança me atingiu como um raio.

— Ku Soto Pun Fuun!

SC desabou novamente no chão.

Por pouco não urinou nas calças.


Não tenho ideia de quanto tempo ainda permanecemos ali, relembrando aquelas incríveis passagens dos livros de François.

Não tínhamos relógio.

Mas o tempo, naquela noite, parecia não obedecer ao relógio.

Ele obedecia ao riso.

Só tomei conhecimento de que a noite já estava avançada quando minha querida avó me chamou da varanda.

Já se aproximava da meia-noite.

Era hora de ir para casa dormir.

Não sem antes tomar minha gemada noturna.

Aquela, sim, era obrigatória.

A lembrança da gemada, naturalmente, apenas aguçou a tiração de sarro dos meus amigos.

E assim, quando acreditávamos que finalmente havíamos esgotado todo o assunto, M-Mentiroso — reflexivo como sempre, mesmo quando a reflexão vinha acompanhada de uma gargalhada — teve uma sacada genial.

Foi então que nossa conversa deu uma guinada de cento e oitenta graus.

E foi justamente naquele instante que percebemos que talvez ainda houvesse muito mais a descobrir sobre François Holderling.



CAPÍTULO VI

Desculpem-me os menos letrados, mas filosofar é fundamental

Àquela altura, nós, que já estávamos exaustos de tanto rir, começamos a mudar o ritmo da conversa. A noite havia avançado muito e, embora fôssemos jovens e tivéssemos aquela resistência quase inesgotável que só os adolescentes parecem possuir, o cansaço do longo dia começava finalmente a dar sinais de vida.

Até então, havíamos nos limitado a rir das histórias, dos títulos absurdos e dos temas nada convencionais daquele escritor que, poucas horas antes, era para nós apenas um velho desconhecido e que agora já se transformara no misterioso François Holderling.

Mas M-Mentiroso tinha outra coisa em mente.

Foi ele quem, naquela altura da noite, introduziu uma pergunta que mudaria completamente o rumo da conversa.

— Não sei... — começou, pensativo — mas me parece que o fato de o François ser viado tem alguma coisa a ver com isso.

Paramos.

— Alguma coisa a ver com o quê? — perguntei.

Ele procurava organizar o pensamento.

— É que... como ele sofreu uma alteração no seu modo natural de funcionamento...

— Como assim? — interrompi, querendo entender onde ele pretendia chegar.

M respirou fundo e tentou novamente.

— O cara... quer dizer, o homem, o macho, tem sua zona erógena na parte da frente, na bilola...

Não resistimos.

Começamos a rir.

— Deixa eu continuar, cacete! — reclamou ele.

— Fala, Renêe, por quê? — provoquei.

Ele me lançou um olhar atravessado.

— Então! A bicha sofre de fissura, tara, atrás, no cu. Entendeu?

— Mas onde você quer chegar? — perguntou Jo.

— É o seguinte: por ter sofrido essa modificação, por sua zona erógena ter se desviado da frente para trás, a visão de mundo dele sofreu uma alteração.

SC franziu a testa.

— Explica melhor.

M parecia ter encontrado finalmente o fio de sua teoria.

— Se ele tem sua zona erógena no rabo, todo o mundo dele vai girar tendo aquela região como ponto de partida.

Naquela época, evidentemente, nenhum de nós possuía conhecimento suficiente para perceber a quantidade de preconceitos, simplificações e equívocos que havia naquela teoria improvisada. Éramos adolescentes tentando explicar o mundo com as ferramentas que tínhamos à mão — e as ferramentas, naquela noite, eram péssimas.

Mas, paradoxalmente, havia no raciocínio de M uma intuição que me faria pensar durante muitos anos.

A ideia de que aquilo que ocupa o centro de uma existência pode acabar organizando a maneira como alguém percebe o mundo.

Foi essa parte da ideia que me interessou.

— Cacete... esse gordinho tem umas sacadas fudidas! — falei.

— Gordinho é a puta que pariu! — respondeu M, imediatamente irritado.

— Calma, Renêe, por quê?

E continuei:

— M, isso me faz lembrar do filme... na verdade, do livro 2001: Uma Odisseia no Espaço, que li pouco tempo atrás.

M me olhou como se eu tivesse enlouquecido.

— O que é que um filme, livro, sei lá, de ficção científica tem a ver com isso que estamos falando?

— Peraí, Di Luluzinho...

— Vai tomar no seu cu, sua bicha!

— Deixa eu falar, véio!

— Fala logo!

Ele estava cada vez mais irritado.

— Olha, lá no livro... Vocês viram o filme, não viram?

Todos concordaram.

— Pois o filme não esclarece algumas coisas que o livro explica com muito mais detalhes. Lembram quando os caras descobrem aquele monólito negro na Lua, semelhante ao que havia sido encontrado na Terra milhões de anos antes?

Todos fizeram que sim.

— Pois bem. No livro, a descoberta daquele objeto está associada a uma anomalia magnética. Os cientistas não chegaram até ele simplesmente porque olharam para a superfície da Lua e viram uma pedra preta. Havia alguma coisa naquele lugar que não se comportava como deveria.

M continuava sem entender.

— Ainda não estou entendendo onde você quer chegar, cacete!

— Calma!

Eu já estava entrando naquele modo de explicar as coisas que, como o tempo demonstraria, me acompanharia pela vida inteira.

— Aquele monólito provocava uma alteração mensurável no campo magnético da região. E foi justamente essa alteração que denunciou sua presença.

— E daí?

— E daí que a gente está falando da mesma coisa que você estava falando!

M me encarou.

— Como assim?

— Você disse que, se uma determinada região se torna o centro de uma existência, tudo começa a girar em torno dela. Eu estou tentando levar sua ideia para outro lugar.

Fiz uma pausa.

— No caso do monólito, existe uma anomalia. Uma coisa que não deveria estar ali, pelo menos não daquela maneira. E justamente por ser diferente, ela altera o ambiente ao redor e acaba sendo percebida.

M ainda parecia não convencido.

— Eu estou falando da mesma coisa que você, véio!

Continuei:

— A sua teoria é que, se a experiência de François fez com que determinado ponto passasse a ocupar o centro de sua existência, isso poderia alterar a maneira como ele percebe o mundo. É como se aquela região funcionasse como um centro gravitacional.

— Um centro gravitacional? — perguntou Jo.

— É. Tudo acaba sendo atraído para lá.

SC entrou na conversa:

— Então é como se tivesse um buraco negro!

— Exatamente!

— Mas o cu é um buraco negro! — disse SC.

E caiu novamente no chão, contorcendo-se de tanto rir.

Jo completou:

— É por isso que todos os livros dele giram em torno de temas anais!

— Isso mesmo! — concordei.

M finalmente pareceu compreender.

— Ah! Agora entendi o que você está falando.

Fez uma pausa.

— É que você dá uma volta da porra para falar uma coisa, cacete!

Foi uma frase simples.

Mas ela dizia respeito a uma característica minha que, naquele momento, eu ainda não sabia que carregaria pela vida inteira.

Eu era prolixo.

Sempre fui.

Gostava de dar voltas, construir caminhos, abrir parênteses, voltar ao começo, acrescentar uma explicação à explicação e, quando finalmente chegava ao ponto, descobria que talvez tivesse criado mais três caminhos para chegar até ele.

Com o tempo, cheguei a fazer chacota dessa minha particularidade.

Criei uma frase que usava sempre que alguém reclamava da minha maneira de explicar as coisas:

Carlos, o prolixo — eu demoro, mas explico.”

E talvez essa pequena frase dissesse mais sobre mim do que eu imaginava.

Eu não sabia simplesmente dizer.

Eu precisava explicar.

Precisava construir uma ponte entre o ponto de partida e o lugar onde queria chegar.

Às vezes, uma ponte tão comprida que ninguém mais lembrava onde ficava a outra margem.


Foi então que Jo, que até aquele momento havia se comportado como um ouvinte atento, lembrou-se de uma coisa que considerou bastante intrigante.

— Gente, isso me fez lembrar de uma coisa que certa vez ouvi minha mãe dizer.

— O que foi que ela disse? — perguntou SC.

Jo hesitou por um instante.

— Vocês sabem que minha mãe tem uma queda pelo espiritismo, não sabem?

— Sei muito bem — respondi. — Lembro daquele dia em que fomos lá naquela casa assombrada para ver aquela sensitiva baixar uns espíritos.

Só de lembrar, senti novamente aquele antigo desconforto.

Jo imediatamente percebeu.

— Isso mesmo! Aquele dia em que fomos lá e a mulher te chamou na sala e disse que você era médium. Lembra?

— O que aconteceu? — perguntou SC, curioso.

— Depois eu conto essa história para vocês. Foi muito engraçado. O cara se borrou de medo.

Jo olhou para mim, divertindo-se com a lembrança.

Eu havia sido o protagonista involuntário daquela noite.

— Mas diz logo o que você disse que sua mãe falou, cacete! — impacientou-se M.

Jo então explicou:

— Minha mãe falou que, quando um espírito encarna diversas vezes como mulher e depois encarna como homem, muitas vezes ele não aceita essa condição e isso pode levá-lo a determinados comportamentos.

SC imediatamente encontrou motivo para gozação.

— Olha o cara... o sujeito não é fraco, não!

M, porém, queria entender.

— Não entendi o que ela quis dizer com comportamentos desviantes”.

— É que o sujeito, por ter vivido outras vidas como mulher, quando nasce homem pode não se conformar e querer continuar agindo como se fosse mulher.

— Entendi... — disse SC.

Fez uma pausa.

— O cara nasceu homem, mas no fundo continua sendo mulher. Nasceu pra comer, mas só quer saber de dar...

A gargalhada voltou a ocupar o corredor.

Naquela noite, nós misturávamos tudo.

Psicanálise, ficção científica, espiritismo, sexualidade, literatura, religião.

Tudo entrava na mesma panela.

E talvez seja justamente isso que aconteça quando jovens começam a filosofar sem saber que estão filosofando.

Não possuem ainda os instrumentos para separar os campos do conhecimento.

Por isso os misturam.

E, ao misturá-los, às vezes produzem absurdos.

Mas, às vezes, produzem perguntas.

E as perguntas, muito mais do que as respostas, permanecem.


Quando conseguimos novamente recuperar o fôlego, retomamos a questão levantada por M, agora reforçada pelas lembranças que 2001 havia provocado em mim e pelas explicações espirituais trazidas por Jo.

A certa altura, alguém lembrou de Valentin.

E foi aí que a conversa ganhou uma nova direção.

Valentin, afinal, funcionava como uma espécie de contraponto a François.

Enquanto François estava obcecado pelos temas anais que apareciam em seus livros, Valentin possuía sua própria obsessão: as nádegas femininas.

Pareciam opostos.

Mas havia algo que os aproximava.

Os dois haviam permitido que uma determinada dimensão da existência ocupasse um espaço desproporcional em suas vidas.

E, quando algo ocupa o centro de uma existência, existe o risco de que tudo passe a ser interpretado a partir dali.

Essa foi, pelo menos, a conclusão a que chegamos naquela noite.

Hoje, olhando para trás, percebo que nossa teoria era obviamente ingênua. Não era a sexualidade de François que determinava sua literatura, nem uma preferência sexual poderia ser tratada como uma anomalia” capaz de reorganizar biologicamente uma visão de mundo.

Mas havia uma intuição escondida naquele raciocínio juvenil.

Uma intuição que considero válida até hoje:

aquilo que colocamos no centro da nossa existência tende a reorganizar o restante do mundo ao seu redor.

Uma paixão pode fazer isso.

Uma ideologia pode fazer isso.

Uma religião.

Um medo.

Uma obsessão.

Uma lembrança.

Um trauma.

Um desejo.

Até mesmo uma ideia.

O centro não precisa ser verdadeiro para organizar uma existência.

Basta que seja poderoso.

E foi justamente essa percepção, ainda rudimentar, que nos levou a uma conclusão que ultrapassava François e Valentin.

Começamos a imaginar o futuro.

Se um homem pode passar a enxergar o mundo inteiro através de uma única obsessão, o que aconteceria se uma sociedade inteira fosse submetida ao mesmo processo?

E se nossos desejos fossem progressivamente organizados por aquilo que nos cerca?

E se, em vez de escolhermos livremente aquilo que desejamos, passássemos a desejar aquilo que o mundo nos ensina a desejar?

E se aquilo que acreditamos ser nosso pensamento fosse, na verdade, apenas o resultado de forças que atuam sobre nós?

Naquela época, naturalmente, não tínhamos condições de formular a pergunta dessa maneira.

Éramos apenas quatro garotos sentados num corredor, tarde da noite, falando sobre um escritor estranho, um homem obcecado por bundas, um monólito perdido na Lua e teorias espirituais que misturavam encarnações e sexualidade.

Mas, de algum modo, sem que soubéssemos, havíamos colocado o pé numa estrada que iria muito atém daquela noite.

Começávamos a descobrir uma coisa inquietante:

talvez o perigo não estivesse apenas naquilo que desejávamos.

Talvez estivesse também em descobrir quem havia escolhido o objeto do nosso desejo.

Foi assim que, entre risadas, palavrões, ficção científica, espiritismo e filosofia improvisada, começamos a elaborar uma visão de futuro.

E aquela visão que compartilhamos naquela noite...

não era nada animadora.

Capítulo VII

O divertido Felipe e suas loucas profecias

Depois de termos chegado àquelas conclusões sobre as idiossincrasias do escritor François e de seu amigo, também escritor e fotógrafo, Valentin — sujeito que, até aquele dia, sequer conhecíamos —, procurei trazer à baila algumas palavras que recentemente havia escutado de Felipe, aquele estudante de Filosofia a quem já me referi anteriormente. Havia nelas algumas questões que fugiam completamente ao lugar-comum.

Felipe era uma pessoa que tinha um ponto de vista diferente do convencional e, talvez por isso mesmo, muitas vezes acabava sendo ridicularizado pelos colegas que estudavam outras disciplinas.

Ele havia se tornado o alvo preferido dos demais hóspedes, sobretudo pelos assuntos que costumava discutir durante as refeições e pelas posições que defendia. Os outros moradores — e também aqueles que não residiam na pensão, mas apenas faziam suas refeições ali — formavam um grupo bastante eclético. Havia estudantes de Medicina, Engenharia e Direito, além de pessoas das mais diversas profissões. Entre elas, um delegado de polícia, um dentista, o gerente de um grande magazine da época — a Viana & Leal, considerada então a loja mais moderna da cidade, na Rua da Palma — e o gerente da sapataria A Esquisita, entre tantos outros.

Eram pessoas que poderíamos chamar de comuns, pouco habituadas às questões levantadas pelo nosso amigo, que, carinhosamente ou não, havia recebido o apelido de O Profeta, por causa de sua mania de predizer o futuro.

Não eram raras as ocasiões em que seus colegas tentavam fazer chacota de suas ideias. Nem sempre, entretanto, conseguiam levar vantagem. Felipe tinha uma riqueza de argumentos que frequentemente acabava produzindo um verdadeiro cala-boca” na maioria deles, embora suas explicações nem sempre parecessem convincentes, simplesmente porque os outros não conseguiam acompanhar o caminho que seu raciocínio percorria.

Filosofia era então uma disciplina normal do ensino médio, assim como havia sido o Latim, até que ambas fossem retiradas dos currículos escolares depois do golpe militar de 1964, por motivos que, para nós, pareciam bastante óbvios: eram disciplinas que faziam pensar. E pensar era justamente uma atividade de que os militares não gostavam muito — sobretudo quando percebiam que outras pessoas também poderiam fazê-lo.

Como eu nunca havia tido contato direto com aquela disciplina, era natural que sentisse alguma dificuldade quando alguém fazia uma reflexão mais profunda, fosse sobre que assunto fosse. Tratando-se de temas estritamente filosóficos, então, a dificuldade era ainda maior.

Entretanto, sempre fui movido por uma curiosidade extremada. E, como vinha sendo levado a fazer uma série de elucubrações em função dos estudos de Física Quântica que começavam a me despertar novas perguntas, sentia meus sentidos se aguçarem todas as vezes que me deparava com alguém que dominasse aquele universo de conhecimentos que, para mim, naquela idade, ainda era completamente novo.

Sérgio e Felipe foram as primeiras pessoas com quem tive contato e que me trouxeram discussões e temas abordados pelos grandes mestres da Filosofia. Havia ainda C-Zinho, amigo da Sete, apaixonado por Sartre.

Sérgio era um sujeito tremendamente estranho. Tinha algumas características físicas que chamavam muito a atenção das pessoas: um lado da cabeça maior que o outro, uma perna mais comprida que a outra e outras particularidades que, naquela época, nós, garotos, observávamos com a indiscrição própria da idade. Além disso, era bem mais velho do que todos nós.

A esquina da Sete de Setembro fazia parte do percurso que ele fazia entre a Praça Maciel Pinheiro — ponto inicial dos ônibus da Zona Sul e local onde morava — e a Fafire, faculdade onde lecionava Filosofia.

De tanto passar por aquela esquina e nos encontrar ali reunidos, acabou um dia parando para conversar conosco. Não demorou muito para se transformar em mais um integrante daquele imenso grupo.

Através deles, novas reflexões começaram a surgir em minha cabeça, descortinando horizontes que eu jamais havia imaginado.

Certo dia, durante uma refeição, Felipe, de maneira divertida, chocou a todos quando afirmou:

— No futuro, o mundo vai virar gay”.

— De onde você tirou isso, meu amigo Profeta? — perguntou Humberto, estudante de Medicina, com um evidente tom de cinismo.

— É isso mesmo que vocês ouviram! — respondeu Felipe, sorrindo e se divertindo com o furor que aquela frase havia provocado entre os presentes.

— Explica isso pra gente, ó grande Profeta! — provocou o Dr. Laerte, em tom de escárnio, embora houvesse em seu semblante uma certa curiosidade.

— Vocês me deixariam fazer uma pequena explanação das minhas ideias?

— Claro! — concordaram todos.

Acreditassem ou não no que ele iria dizer, havia ali uma certeza: alguma coisa interessante sairia daquela boca.

Vou tentar, agora, ater-me ao máximo àquilo que me lembro dos argumentos apresentados por Felipe para defender a afirmação que havia feito.

                                               


No futuro, o mundo vai virar gay.

As bichas deixarão de ser exceção para se tornarem regra e, acreditem em mim, vai ser chique ser veado.

A opção sexual não vai mais depender do sexo com que o garoto nasceu, se macho ou fêmea, menino ou menina. Essa criança vai escolher, ainda jovem, se será “penetrando” ou penetrado, ou os dois, e os pais vão aceitar isso com a maior naturalidade.

Não pensem na coisa como ela é hoje: uma bicha sendo comida por um machão. Até porque esses machões são, muitas vezes, verdadeiras bichas enrustidas.

Vamos ter bicha com bicha. O casamento entre elas vai se tornar uma coisa natural e elas poderão até receber o aval jurídico para adotar uma criança, se assim desejarem.

Uma menina, ainda criança, quando os pais perguntarem o que deseja ser quando crescer, dirá que quer ser empresária.

— E em que ramo você vai atuar, minha filha? — perguntarão os pais.

E ela responderá que pretende montar uma sapataria.

O menino, por sua vez, também vai querer ser empresário, mas preferirá administrar uma granja, onde haverá milhares de pintinhos”.

Sexo não será mais uma questão de gênero. Será uma questão de opção. Pessoas do mesmo sexo poderão se casar e até adotar filhos.

Vai ser uma verdadeira putaria franciscana”.

Na verdade, no fundo, no fundo, o que vai acontecer é que o mundo vai sacramentar a putaria, normatizando-a.

Será mais ou menos como já vemos no Direito Trabalhista, por exemplo, onde existem leis para regular a relação entre empregadores e empregados, fazendo parecer que ambos competem em condições de igualdade, quando, na verdade, estão apenas revestindo de legalidade a exploração daqueles que são donos do Capital sobre aqueles que nada têm.

Os que detêm os meios de produção, mesmo quando perdem um funcionário, podem substituí-lo facilmente, porque existem milhares de desempregados querendo ocupar aquela vaga e aceitando, muitas vezes, valores ainda menores. O trabalhador, por outro lado, talvez nem consiga encontrar um novo emprego.

Da mesma forma, a putaria vai acabar sendo legalizada. Vão instituir normas jurídicas para também revestir de legalidade toda essa escrotidão.

As sociedades são dinâmicas. Mudam o tempo todo. E as leis precisam mudar para se adaptar às transformações sociais.

As pessoas vão se irritar se, no meio do caminho, encontrarem alguém morto e aquela morte estiver atrapalhando seus compromissos, fazendo-as chegar atrasadas a algum lugar.

Será o ápice da banalização do mal e da violência, como já nos havia dito Hannah Arendt.

No final das contas, meus amigos, a sociedade vai civilizar Sodoma e Gomorra.

E aí a putaria estará instituída de vez e, aos olhos de todos, será considerada normal.

O mundo, tal como o conhecemos hoje, estará muito diferente daquele em que vivemos.

As cidades, ou melhor, as megalópoles, estarão tão cheias de gente e as pessoas estarão tão irritadas umas com as outras pela batalha diária que terão de enfrentar pela sobrevivência que, se alguém estiver atravessando uma rua e outra pessoa se interpuser em seu caminho, será bem provável que ela deseje empurrá-la em direção aos carros, simplesmente porque aquela pessoa está atrapalhando sua passagem.

Em algumas cidades haverá mais carros do que gente, tornando-as acolhedoras para os automóveis e inteiramente hostis aos seres humanos.

Os indivíduos passarão mais tempo dentro dos carros e no trabalho do que dentro de suas próprias casas, junto de suas famílias.

Todos os valores serão esquecidos ou mudarão substancialmente. As relações simbólicas desaparecerão.

Os indivíduos voltar-se-ão cada vez mais para si mesmos e o espaço público desaparecerá, pondo fim ao cidadão, esse sujeito de direitos, mas também de deveres.

As questões políticas deixarão de ter grande relevância.

O discurso público será amplamente esvaziado de substância moral e espiritual.

Mas não pensem que as pessoas estarão preocupadas com isso.

Os confortos da vida moderna irão entretê-las de tal maneira que elas acabarão esquecendo até mesmo da chamada ação política.

O hiperconsumismo se encarregará de atender às suas necessidades, mesmo que essas necessidades não correspondam aos seus verdadeiros desejos.

Suas mentes estarão completamente colonizadas.

Eles não serão muito mais do que mão de obra docilizada, voltada para o mercado de trabalho.

E isso, quando tiverem trabalho.

Porque os empregos estarão cada vez mais escassos e aqueles que estiverem empregados viverão submetidos a tamanhas pressões competitivas que muitos entrarão em depressão.

É possível até que os casos de suicídio aumentem.

                                            


Aquelas palavras soaram como uma verdadeira bomba.

Inclusive para mim.

Eu as havia considerado tremendamente pertinentes, embora não possuísse estofo suficiente para acreditar que pudessem ser tomadas como argumentos realmente coerentes. Afinal de contas, naquele nosso momento histórico, não dispúnhamos, acredito, de elementos suficientes para embasar um raciocínio daquela natureza.

Era bem provável que Felipe, em virtude dos pensadores que vinha estudando e até das reflexões que algum de seus professores pudesse ter feito em sala de aula, tivesse razões para formular uma afirmação daquela dimensão.

— Isso é um verdadeiro absurdo! — falou novamente Humberto, agora em tom de escárnio.

Percebi, pela maneira exasperada como se colocou, um certo ceticismo raivoso em suas palavras. Os demais acabaram acompanhando sua reação.

A discussão que se seguiu às palavras — eu diria proféticas — de Felipe, porque muito do que ele havia dito corresponde hoje à realidade que estamos vivenciando, transformou-se numa verdadeira anarquia, com piadas e gozações de todos os tipos.

Contei aquela passagem aos rapazes com o objetivo de colocar mais lenha nos questionamentos que inicialmente havíamos levantado sobre a disfunção de François.

Já passava da meia-noite e a madrugada dava seus primeiros passos. Era natural que o cansaço começasse a ficar visível em todos nós, embora nem por isso tivéssemos abdicado de nos divertir, mesmo diante daqueles temas tão polêmicos e controversos.

— Mas de onde esse Felipe tira essas ideias? — perguntaram M e Jo quase ao mesmo tempo.

— Olha, cara, pelo que venho escutando dele quase todos os dias, seja no café da manhã, no almoço ou na hora do jantar, que são os momentos em que todo mundo vai para a sala fazer as refeições, ele tira essas ideias sobre o futuro da humanidade, de que as coisas vão desandar e tudo mais, das teorias de Hobbes, de Marcuse — esse ele fala muito —, de Foucault, de Malthus, de um tal de Guy Debord, que lançou um livro bombástico agora em 1968 chamado A Sociedade do Espetáculo, e dos filósofos da Escola de Frankfurt, entre eles Adorno e Benjamin.

— Mas você conhece essas teorias? Do que ouviu falar? — quis M saber mais.

— E esse tal de Hobbes? Eu já ouvi falar — perguntou Jo.

— Segundo eu ouvi Felipe comentar, Thomas Hobbes, autor de um livro chamado Leviatã, estudando a natureza humana, chegou à conclusão de que cada homem viveria guiado pelo princípio do benefício próprio. Por causa disso, passaria a ver o outro como um objeto de ameaça, porque esse outro estaria sempre se interpondo em seu caminho, atrapalhando-o. Então, a solução encontrada por Hobbes teria sido a criação de um Estado artificial que estivesse acima de todos, estabelecendo leis e regras que permitissem aos homens viver em sociedade.

— A lei tem de ser coercitiva, senão a gente vai querer invadir o espaço do outro e aí o mundo voltaria à barbárie — falou M, com um semblante introspectivo e sério.

Mas não parou por aí.

— Olha só: esses dias, meu professor de História, falando numa das aulas, afirmou que depois de Hobbes veio John Locke, um filósofo inglês que disse que essa coisa do Leviatã, esse ser artificial que está acima dos seres naturais — nós, diga-se de passagem —, não estaria assim tão acima do bem e do mal.

Segundo Locke, contou-nos o professor, esse Ser, representado pela figura dos Estados ou dos governos, teria um dono. E esses donos seriam sempre a classe dominante de cada época.

Só para concluir, lá pelas tantas, meu professor disse que, nesse sentido, a Democracia é uma ilusão.

— Caramba, M! Uma hora tu vai ter que me falar mais sobre isso — completei.

Na sequência, voltei àquele discurso que Felipe havia feito alguns dias antes e que provocara o maior reboliço lá em casa.

— Olha! Mas não pensem que esse sujeito, o Felipe, é bobo, não!

— Como assim? — perguntou SC.

E logo completou:

— Hoje, por exemplo, Carlinhos, percebi que o cara é um tirador de sarro. Mesmo quando fala aquelas coisas lá do tal de Nietzsche, que eram bem malucas...

— Você sacou?

— Sim! Claro!

— Pois é! Nesse dia, depois que todo mundo ficou agitado, pensa que o cara ficou de bobão na história? Ficou nada! Sabe o que ele falou no final, para a ira de todos?

— Diz aí! — quis Jo saber.

— Ele disse assim: Escreve aí o que estou falando. No futuro, um filho ou neto seu vai ser viado e vai se virar pra você dizendo que quer casar com aquela outra bichinha amiga dele.”

— Cara, veja bem — falou M, com ares introspectivos.

— O que foi? — quis saber.

— Você falou que Felipe tinha dito que, no futuro, não teríamos mais bicha se relacionando com machões, não foi?

— Falei, sim! — respondi.

— Só que estou lembrando agora que isso, de certa forma, já foi previsto pelo François — completou.

— Como assim? Não estou entendendo o que você quer dizer.

— Cara, você não nos contou de um livro do François que ganhou um prêmio de literatura?

— Disse, sim. Por quê? — perguntei, curioso.

— Nesse livro que ele ganhou, sei lá, o Pinto de Ouro, que se chamava O Último Pingo em Paris, o François já antecipa isso quando narra o romance vivido pelas bichas Di Lulu e Gui Lalá — concluiu M.

— Isso sem contar aquela outra história que você narrou das bichas libanesas, não foi mesmo?

— Verdade! Você tem razão. Naquelas histórias já se fala do romance entre duas bichas. Bem lembrado, M — acenei positivamente.

— Não... era só isso que eu queria dizer — finalizou.

— Mas pode concluir — ordenou-me.

— Cara, me diz uma coisa! — falou SC, que parecia intrigado.

— Fala! — respondi.

— Como é que funciona a relação de duas bichas?

— Não entendi! — respondi, meio perplexo, porque não compreendia muito bem a pergunta.

— Quem come quem? São duas bichas, ora...

Falou com a cara mais cínica do mundo.

— Sei lá, rapaz! Eles devem fazer sorteio — respondi, já me esborrachando de rir.

E, depois, prossegui:

— Um deles diz assim: Ontem foi você quem deu, não foi? Então hoje sou eu que quero dar.”

Falei fazendo trejeitos afetados, entrando no personagem.

— Aí um deles diz assim: Só dou se você me contar uma piada suja e pesada” — intrometeu-se Jo.

E completou:

— “Eu conto”, diz a outra bicha. E, em seguida, fala: Um elefantinho caiu na lama.”

Rimos todos novamente e assim permanecemos por mais um bom tempo.

— Com essas conversas nós acabamos nos desviando do que você estava falando lá atrás — falou M.

E, parecendo que estava me dando uma ordem, completou:

— Continue!

— Então... voltei ao lugar de onde tinha parado — e prossegui. — Lá no final, para arrebentar com os caras, ele, Felipe, se saiu com uma frase de um filósofo alemão, um tal de Feuerbach.

Parei um instante, tentando lembrar o nome.

— Ah! Lembrei. Feu-er-bach. Feuerbach. É isso. Onde ele diz:

Nosso tempo, sem dúvida, prefere a imagem à coisa, a cópia ao original, a representação à realidade, a aparência ao ser.”

— Puta que pariu... ele falou isso? Depois eu queria entender melhor por que ele disse isso. Você sabe?

— Cara, ele disse tudo aquilo e depois se retirou da sala. Na verdade, eu também não compreendi muito bem, pois falou isso depois de ter dito um monte de coisas que nem vou lembrar direito agora. Mas, pelo que me parece, tinha alguma coisa a ver com o fato de as coisas estarem sendo substituídas por suas imagens e com a maneira como o olhar das pessoas estava sendo disciplinado para enxergar não a realidade em si, mas aquilo que estava sendo colocado em seu lugar.

E olhem que o cara, esse tal de Feuerbach, disse isso há mais de cem anos!

Ah! Lembrei de mais uma coisa que Felipe disse antes de se retirar.

Ele também falou que, no futuro, vai existir — aí eu não entendi direito — um tipo de algoritmo computacional em que você vai dar, teclar, sei lá, um tipo de indexação que vai fornecer a lista de noventa e nove por cento das bichas.

— Como assim? — perguntou SC, voltando a sorrir.

— Cara, isso eu não sei te dizer.

Sobre essa última afirmação, fazendo uma possível conexão com a realidade de hoje, talvez exista alguma similaridade com a figura de uma hashtag, algo do tipo... #lulu. Ou, para aqueles que frequentam as paradas do orgulho gay, #orgulhosolulu.

— Te cuida, SC! Cuidado com os filhos e os netos que vai ter para não se decepcionar. Já pensou tua neta dizendo pra você que quer fazer aranha-com-aranha?

Foi uma gargalhada só.

— Vai se foder! Vai ser a tua que vai dizer isso. Ela vai querer montar uma sapataria com o nome A Esquisitona!

E todos nós, que naquele momento já havíamos diminuído bastante o ritmo, voltamos a sorrir desenfreadamente.

— Bem, pessoal, vocês têm aula amanhã só à tarde. A minha é logo de manhã cedo. Vou nessa! — falou M, já se levantando.

— É, tá na hora. Vamo nessa! — repetiu SC.

— Vai tomar sua gemadinha, Moli Colino, vai! — falou Jo, tirando um último sarro da minha cara.

M saiu andando por aquele comprido corredor, cantarolando a marchinha de frevo escrita pelo nosso querido François.

Quando chegou àquele ponto do refrão em que a canção dizia:

Então já vou detonar / pô, pô, pô...”

Ele arqueou sua bunda gorda e disparou um sonoro, comprido e rasgado peido.

Aquele gesto recebeu de nossa parte uma resposta quase instantânea.

Falamos praticamente todos ao mesmo tempo:

— Pelo som dessa buzina, esse carro já parou em minha oficina!

A reação dele também foi imediata:

— Vão todos vocês tomar nos seus digníssimos cus!



Capítulo VIII

Sorrir é o melhor remédio

Fomos para nossas casas exaustos de tanto sorrir naquela noite.

Mas não era apenas o cansaço provocado pelas gargalhadas. Estávamos exaustos de tanta felicidade — se é que alguém pode, algum dia, se cansar de ser feliz.

Há um antigo provérbio chinês que diz que a criança ri mais que o jovem; o jovem, mais que o adulto; e o adulto, mais que o idoso.

Talvez seja mesmo assim.

Naquele dia, porém, sorrimos como talvez nunca tivéssemos sorrido antes e como, provavelmente, nunca mais conseguiríamos sorrir depois. Não com aquela intensidade, pelo menos. Éramos jovens e, naquela idade, quase tudo era capaz de nos fazer rir.

Vivíamos como se nossos rostos e nossas bocas tivessem sido feitos para parir sorrisos, tal qual uma mulher nasce preparada para parir filhos.

O sorriso vinha fácil.

Bastava uma palavra atravessada, um gesto inesperado, uma piada sem graça, um apelido, um tropeço, um olhar cúmplice e, de repente, estávamos todos rindo.

Talvez porque ainda não tivéssemos aprendido a economizar a felicidade.

Com o passar dos anos, entretanto, parece que vamos perdendo, pouco a pouco, essa capacidade quase infantil de sorrir. A vida vai nos ensinando a ser cautelosos, sérios, responsáveis. Vamos acumulando preocupações, perdas, decepções, ausências. E, quando percebemos, já não rimos com a mesma facilidade.

Talvez por isso eu tenha chegado à conclusão de que ser sábio seja, entre tantas outras coisas, reaprender a rir daquilo que um dia nos fez sorrir.

Reinventar a vida para que ela continue nos oferecendo alguma alegria, mesmo quando a tristeza já conhece nosso endereço.

Mesmo quando a morte começa a se aproximar.

Mesmo quando descobrimos, às vezes tarde demais, que algumas das pessoas que nos fizeram rir já não estão mais aqui para rir conosco.

Foi naquela noite que nosso amigo Felipe nos apresentou Nietzsche, e talvez tenha sido justamente por isso que, tantos anos depois, eu ainda me lembre de algumas de suas palavras sobre o humor.

Nietzsche compreendia o riso como uma espécie de tábua de salvação diante dos desgostos da existência:

O homem sofre tão terrivelmente no mundo que se viu obrigado a inventar o riso.”

E teria dito também:

Deveríamos tachar de falsa toda verdade que não tenha sido acompanhada de um sorriso.”

Talvez haja alguma sabedoria nisso.

A vida, afinal, já é suficientemente séria para que precisemos acrescentar a ela uma seriedade permanente.

A medicina, que tanto evoluiu desde os tempos de nossa juventude, também passou a reconhecer diversos benefícios provocados pelo humor e pelo riso. Dizem que ele pode aliviar a dor, melhorar a circulação, reduzir o estresse e a fadiga, promover relaxamento muscular, estimular a liberação de endorfinas e até fortalecer nossas defesas.

O riso parece fazer ao corpo aquilo que a esperança faz à alma: lembra-lhe que ainda vale a pena continuar.

Mas talvez exista algo que nenhuma estatística médica consiga medir.

A lembrança.

Hoje me pergunto se aquilo que vivíamos em nossa juventude não era tão intenso justamente porque havia prazer em quase tudo o que fazíamos. Não apenas prazer no sentido físico, imediato, mas uma espécie de encantamento diante da própria existência.

Rubem Alves certa vez se fez uma pergunta parecida. E encontrou uma resposta que, para mim, explica muito do que sinto quando volto a esses tempos através da memória:

Era PRAZER? Era. Mas era mais que prazer. Era alegria.
A diferença? O prazer só existe no momento.
A ALEGRIA é aquilo que existe só pela lembrança.
O prazer é único, não se repete. Aquele que foi, já foi. Outro será outro. Mas a alegria se repete sempre. Basta lembrar.”

É exatamente isso.

Hoje, quando volto àqueles dias, percebo que eles já não me pertencem como pertenciam antes. O tempo levou as ruas, as casas, as vozes, os corpos jovens, os encontros e até algumas das pessoas que fizeram parte daquela história.

Mas não levou tudo.

Porque há coisas que o tempo não consegue destruir.

Há momentos que, uma vez amados, parecem adquirir uma espécie de imunidade contra o esquecimento.

É por isso que sinto uma enorme saudade daqueles tempos em que éramos felizes e ninguém estava morto.

Talvez Fernando Pessoa tenha conseguido dizer isso de uma maneira que nenhuma explicação conseguiria alcançar.

A saudade é uma coisa estranha. Ela dói justamente porque aquilo que amamos já não pode ser recuperado. Mas, ao mesmo tempo, ela nos oferece uma espécie de milagre: permite que aquilo que perdemos continue existindo dentro de nós.

Rubem Alves também compreendeu isso de forma extraordinária ao dizer que a saudade é a inclinação da alma na direção das coisas amadas que se perderam.

E talvez seja exatamente isso.

A alma se inclina para trás.

Volta às ruas.

Às casas.

Às esquinas.

Às vozes.

Aos amigos.

Às brincadeiras.

Às noites intermináveis.

Aos risos que pareciam não ter fim.

Volta até mesmo àqueles que já partiram.

Porque, no fundo, onde mora a saudade, não existe propriamente esquecimento.

Ali só moram as coisas que foram amadas.

E o amor, esse estranho e poderoso guardião da memória, não suporta o esquecimento.

Por isso, enquanto eu puder lembrar, eles continuarão existindo.

Continuará existindo a Rua Sete de Setembro.

Continuará existindo aquela esquina.

Continuarão existindo os Setembrinos.

Continuarão existindo François, Valentin, Felipe, Sérgio, C-Zinho e todos aqueles outros personagens que o tempo tentou transformar em passado.

Continuarão existindo as nossas conversas absurdas, as nossas descobertas, as nossas discussões, as nossas paixões, os nossos medos e, sobretudo, as nossas gargalhadas.

E talvez seja essa a única forma verdadeiramente humana de vencer o tempo.

Não impedindo que ele passe.

Mas impedindo que ele leve tudo consigo.

Afinal, o passado não desaparece completamente quando termina.

Ele continua vivendo na memória de quem o amou.

E, enquanto houver alguém capaz de lembrar, aquilo que aconteceu um dia continuará acontecendo, de alguma maneira, dentro de nós.

É por isso que escrevo.

Não para reconstruir exatamente aquilo que fomos — porque ninguém consegue voltar a ser menino depois de ter envelhecido.

Escrevo para visitar novamente aquele menino que ainda existe em algum lugar dentro de mim.

O menino que corria pela Sete de Setembro.

O menino que ria de qualquer coisa.

O menino que não sabia que o tempo passaria tão depressa.

O menino que acreditava, como todos nós, que aquelas noites jamais terminariam.

Talvez seja por isso que, tantos anos depois, ainda consiga ouvir nossas vozes atravessando a madrugada.

Ainda consigo enxergar nossos rostos.

Ainda consigo ouvir as gargalhadas.

E, por um breve instante, quando a memória abre suas portas, tenho a impressão de que estamos todos novamente juntos.

Como se ninguém tivesse partido.

Como se nenhuma rua tivesse desaparecido.

Como se o tempo tivesse apenas feito uma pausa.

E então compreendo que talvez Felipe tivesse razão em algumas de suas loucas profecias.

O mundo mudou.

Nós mudamos.

Quase tudo mudou.

Mas existe uma coisa que o futuro não conseguiu destruir:

aquilo que a nossa memória decidiu amar.

E foi então que compreendi, finalmente, aquilo que Adélia Prado resumiu em poucas palavras, como somente os grandes poetas conseguem fazer:

O que a memória ama, fica eterno.”

Talvez seja essa a verdadeira eternidade.

Não aquela dos deuses, das estrelas ou dos grandes monumentos.

Mas a eternidade humilde das coisas pequenas.

Uma rua.

Uma esquina.

Uma casa.

Uma amizade.

Uma gargalhada.

Um olhar.

Uma noite que parecia não ter fim.

Um grupo de garotos que, sem saber, estava vivendo os dias que um dia chamaria de os melhores dias de suas vidas.

E agora, tantos anos depois, quando fecho os olhos e volto para aquele tempo, ainda consigo ouvi-los rindo.

E sorrio também.

Porque, afinal, eles continuam aqui.

Todos eles.

Todos nós.

Enquanto houver memória.

Enquanto houver amor.

Enquanto houver alguém para contar a história.

Enquanto houver alguém capaz de sorrir.








COLEÇÃO DE FOTOS

Os lugares onde a história aconteceu

Imagens dos dias atuais



 


A esquina da Rua Sete de Setembro com a Av. Conde da Boa Vista, a esquina mais charmosa da cidade...


 








  Minha residência na Rua Martins Jr.










                                                    Rua Martins Jr.








Rua Corredor do Bispo - vista do Colégio Esuda






Esquina da Rua Gervásio Pires com a Av.Conde da Boa Vista.



 Colégio Marista - Av. Conde da Boa Vista





Av. Conde da Boa Vista próxima à Rua do Hospício







Av. Conde da Boa Vista, visão da esquina da Rua Sete de Setembro




Rua Sete de Setembro vista por outro ângulo 




A famosa esquina da Rua Sete de Setembro com a Av. Conde da Boa Vista. 



 


Vista da porta do Ed. Ouro - Rua Sete de Setembro





Minha residência vista por outro ângulo.



Corredor do Ed. Amazonas, nosso local de reunião nos finais de noite em dias da semana.






 Nosso local de reunião visto por outro ângulo.






Corredor do Ed. Amazonas 





Rua Martins Jr. - vista do Ed. Amazonas por outro ângulo.

Residência de François Holderling
Rua Imperatriz, esquina com a Bulhões Marques















                  

 







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