Os segredos de François Hold
Capítulo I
Ciência X Religião – A Física propõe uma trégua
Em uma inesperada e ensolarada tarde de maio, deixei o Colégio Esuda carregando comigo uma inquietação incomum. Algumas ideias lançadas pelo nosso professor de física ainda ecoavam em minha mente, como se recusassem a se dissipar no ar quente daquela tarde. Eu cursava o segundo ano do Científico — nome que se dava ao que hoje conhecemos como Ensino Médio — e vivia um daqueles períodos raros da vida em que o conhecimento nos atravessa como uma enxurrada luminosa. Todos os dias traziam consigo novas descobertas, e cada uma delas parecia expandir ainda mais os limites da minha curiosidade juvenil. Era uma idade em que tudo soava inaugural, como se o mundo estivesse sendo revelado pela primeira vez, revestido de mistério.
Naquele tempo, o Científico se voltava às ciências exatas, enquanto o Clássico era o caminho daqueles que seguiriam para as Humanidades. Havia ainda o Biológico, reservado aos que aspiravam à medicina e suas derivações. Éramos, de certo modo, jovens já destinados — ainda que não plenamente conscientes — às engrenagens do mundo adulto.
O professor, homem de sotaque estranho aos nossos ouvidos — era paulistano —, tinha o hábito de, vez por outra, romper os limites do previsível com ideias que nos deslocavam do eixo. Naquele dia, ao discorrer sobre a Teoria das Cordas, trouxe à tona uma afirmação que me capturou por inteiro.
Disse-nos que, segundo os princípios matemáticos dessa teoria, o universo possuiria onze dimensões.
Explicou que a Teoria das Cordas concebe a realidade não mais como composta por partículas pontuais, mas por entidades unidimensionais, semelhantes a cordas vibrantes — estruturas mínimas cuja oscilação daria origem a tudo o que existe. Mas o que verdadeiramente me atravessou foi quando mencionou que alguns estudiosos supunham que, entre essas onze dimensões, a sexta poderia ser o lugar onde habitariam os espíritos.
Aquilo abriu, diante de mim, um abismo.
Sempre soubemos do embate histórico entre Ciência e Religião — um conflito antigo, feito de perguntas que parecem não encontrar repouso. Talvez a mais emblemática delas seja aquela que, em sua simplicidade quase ingênua, condensa séculos de disputa: viemos dos macacos ou da costela de Adão?
Desde Galileu Galilei, que estabeleceu a primazia da medida e da quantificação, a ciência passou a reconhecer como verdadeiro apenas aquilo que pode ser mensurado. Depois dele, Francis Bacon consolidou o império da experimentação, submetendo a razão à prova concreta dos fatos. Assim se ergueu uma fronteira quase intransponível entre dois modos de compreender o mundo.
Seria possível, então, que aquela fala do professor insinuasse uma aproximação? Estaria a Física — essa guardiã do rigor — propondo uma espécie de trégua com o invisível?
Ainda hoje, não sei responder.
Ouvir um físico falar em espiritualidade — e, por extensão, em religião — soava, à época, como algo profundamente paradoxal. Mas talvez mais estranho do que isso tenha sido o fato de eu não ter ido até ele ao final da aula. Não o questionei. Não pedi explicações. E, pelo que me recordo, jamais voltei a tocar naquele assunto com ele. A dúvida permaneceu — silenciosa, intacta — atravessando os anos.
Talvez por duas razões. A primeira: minha absoluta ignorância sobre a doutrina espírita. A segunda: na minha mente ainda imatura, espiritismo e assombração eram praticamente sinônimos. E eu temia assombrações com uma intensidade quase física. Diante disso, parecia mais seguro permanecer no território firme da ciência.
Hoje penso diferente. Hoje, eu teria levado aquela questão às últimas consequências.
Antes de deixarmos o colégio, eu e meu amigo SL — um verdadeiro prodígio da matemática, companheiro desde os tempos de ginásio — tentamos esmiuçar o que havíamos escutado. Mas a conversa não avançou muito. SL era, em essência, um cartesiano rigoroso. Para ele, aquelas ideias simplesmente não faziam sentido.
Saí do colégio tomado por um sentimento ambíguo: inquietação e alegria. Inquietação pelas perguntas ainda sem resposta; alegria porque aquele era, invariavelmente, o estado que me acompanhava ao final das aulas. Comigo vinham AB e L-Gordinho, que tentavam, sem muito sucesso, encontrar explicações para a afirmação insólita do professor.
Descemos pela Rua Corredor do Bispo, mergulhados em uma enxurrada viva e ruidosa de estudantes que retornavam para casa. Havia ali uma energia festiva, quase contagiante. Mas, apesar das tentativas, nem AB nem L-Gordinho conseguiam sustentar uma análise mais consistente. AB, sempre meio deslocado do mundo, parecia ainda mais distante quando recorria ao velho Xarope Pambenyl — nosso improvável refúgio químico contra angústias que mal sabíamos nomear.
Ao alcançarmos a Avenida Conde da Boa Vista, o mundo se intensificou. O fluxo de pessoas, carros e ônibus criava uma sinfonia caótica que só aumentava à medida que outros estudantes se juntavam a nós. Atravessamos a avenida e logo fomos engolidos pela multidão que saía do Colégio Marista, incrustado naquela quadra imensa entre a Rua Gervásio Pires e a Rua do Hospício.
Era como se a cidade inteira respirasse juventude.
O grande muro cinza do colégio, geralmente austero e indiferente, parecia, naquele momento, transfigurado. A presença dos jovens lhe conferia uma espécie de alegria improvisada, como se a própria matéria urbana fosse capaz de sorrir.
Uma brisa vinda do mar atravessou-me o peito, trazendo consigo uma sensação de plenitude. Eu sabia que a noite ainda nos reservaria encontros, risos, histórias — e isso bastava. A vida, naquela idade, parecia um parque de diversões em funcionamento contínuo. Havia angústias, sim, mas elas não tinham força suficiente para obscurecer a alegria fundamental de existir.
Passamos pela loja de discos A Modinha, no Edifício Suape quando ouvimos o chamado de Fernando. Magro, de feições delicadas e cabelos lisos, ele nos saudava com entusiasmo, segurando nas mãos uma espécie de relíquia recém-chegada.
Era o novo álbum do Grand Funk Railroad — Pluribus Funk. Mas ninguém o chamava assim. Para nós, era simplesmente o Disco da Moeda.
A capa, redonda, destoava de tudo o que conhecíamos. E o som — intenso, quase visceral — nos arrebatou. Ouvimos trechos ali mesmo, extasiados, como quem descobre uma nova dimensão da experiência sonora. Não havia dúvida: precisaríamos comprá-lo. Ainda que, para isso, tivéssemos que organizar uma vaquinha.
Fernando riu da nossa precariedade financeira — e nós rimos junto, sem qualquer constrangimento. Éramos duros, sim. Mas havia uma alegria genuína nessa condição compartilhada.
Falamos longamente sobre aquele objeto estranho e fascinante. O LP — Long Playing — surgido em 1948, não era apenas um suporte. Era um universo. Para muitos, como o professor Lorenzo Mammi, tratava-se de uma verdadeira forma artística, comparável à sinfonia ou ao romance.
Naquelas décadas, não apenas ouvíamos música. Nós éramos a música.
Hoje, tudo parece diferente. A música tornou-se etérea, quase impalpável. Antes, podíamos segurá-la nas mãos, contemplar suas capas, percorrer seus encartes. Agora, ela habita arquivos invisíveis, dissolvida em nuvens digitais. O que antes era presença tornou-se fluxo.
Saímos da loja já arquitetando o plano para adquirir o disco e ouvi-lo no apartamento de C-Zinho — nosso american-man — no Edifício Iran.
Ao chegarmos à esquina da Rua Sete de Setembro — nosso quartel-general existencial — encontramos B-Zinho, SC e C-Léo, entretidos com o fluxo incessante da vida.
Aquela esquina era mais do que um lugar. Era um território simbólico. Ali, a cidade e o lar se fundiam. Ali, éramos, ao mesmo tempo, habitantes do mundo e guardiões de um pequeno universo próprio.
Hoje, penso nos chamados “não-lugares” — os shoppings, espaços homogêneos e desprovidos de identidade. Como se lembrarão deles? O que guardarão em suas memórias?
Como nos lembra Paul Virilio, é na rua que a vida acontece. É nela que se dão as manifestações, os encontros, as revoluções. Nos shoppings, ao contrário, o sujeito cede lugar ao consumidor.
Ali, naquela esquina, éramos livres.
Ficamos observando o cair da tarde, enquanto a cidade acendia suas luzes. Havia beleza em tudo — talvez porque a alegria dentro de nós fosse abundante. Hoje, percebo o quanto a realidade tem sido capturada por simulacros e, como diria Beatriz Sarlo:
"Triste daqueles que hoje transitam por esses lugares assépticos e pasteurizados, essas cápsulas espaciais condicionadas pela estética do mercado”.
Vive-se menos o mundo, e mais suas representações.
Naquela noite, porém, tudo era real.
Respirei profundamente. Luzes, sons, odores — tudo girava ao meu redor como um redemoinho sensorial que me arrastava para o centro da vida.
A noite chegou.
E, aos poucos, cada um tomou seu rumo. Alguns atravessaram avenidas, outros seguiram em direção às pontes e bairros distantes. Nós, que morávamos ali, sabíamos: a festa ainda não havia terminado.
Convidei SC para jantar em minha casa — a sopa de feijão da Têca era irresistível. Ele aceitou prontamente.
No caminho, uma música dos The Beatles nos puxou para dentro de outra memória. Dentro da loja, encontramos F e Tarzan. Conversas rápidas, planos adiados, promessas de reencontro.
Seguimos pela Rua Sete de Setembro, falando sobre o espírito empreendedor de F. Tínhamos certeza: ele iria longe.
Antes de chegar, fomos interceptados pelo aceno afetuoso de Pascoal, do Mercadinho Carioca. Sua alegria era intensa, quase transbordante. Perguntou se estaríamos mais tarde no estacionamento. Hesitamos. Respondemos com evasivas.
E seguimos.
Deixando para trás, talvez sem perceber, um pequeno rastro de ausência.
X
Chegando em casa, deixei SC na varanda, entretido em conversa com um dos hóspedes, e segui para o quarto, onde depositei os livros como quem tenta aliviar, ainda que por instantes, o peso invisível de um dia cheio de pensamentos. Lavei as mãos e retornei à sala principal, onde eram servidas as refeições da pensão, pedindo a um dos empregados que nos trouxesse o jantar.
— Ai, ai, ai, olha aqui novamente travestidas as nossas raízes coloniais! — pensei.
A Casa Grande e a Senzala ali se insinuavam, discretas, quase disfarçadas na rotina, mas ainda assim presentes, como uma memória estrutural que insiste em não desaparecer. Um ranço antigo, persistente, que talvez nunca tenha nos abandonado por completo.
À mesa estavam o Sr. Avani e o Dr. Laerte, dois frequentadores assíduos. O Sr. Avani, alto, imponente, trazia consigo uma elegância que beirava o aristocrático. Seus cabelos grisalhos recuavam para as laterais, deixando à mostra a calvície luminosa. Vestia camisas de linho branco, sempre impecáveis, e ocupava a cabeceira da mesa, como se aquele lugar fosse uma extensão natural de sua presença.
Ao seu lado, o Dr. Laerte — dentista da família —, baixo, de feições contidas, mas de olhar vivo, carregava um ar de jovialidade que contrastava com sua experiência. Havia nele uma leveza pronta a se transformar em humor.
Eu e SC nos sentamos do lado oposto. Enquanto jantávamos, Felipe chegou da faculdade, cumprimentando a todos com seu jeito descontraído, antes de se acomodar próximo a nós.
Sem demora, começou a falar, tomado por um entusiasmo quase febril. Estava impressionado com as ideias de Friedrich Nietzsche, e foi sobre ele que passou a discorrer.
Falava do niilismo — palavra que até então nos era completamente estranha — explicando:
— Consideramos o niilismo positivo quando, pela crítica, desmascaramos a terrível ausência de cada fundamento, verdade, critérios absolutos e universais e, assim sendo, acabamos sendo convocados diante da nossa própria liberdade e responsabilidade, que agora já não estão mais garantidas.
Fez uma pausa breve, como quem organiza o pensamento, e continuou:
— Nietzsche pensa que todos os ideais, seja quais forem, possuem a mesma estrutura, a mesma finalidade: fundamentalmente eles partem de uma estrutura teológica, já que se trata sempre de inventar um além melhor do que este mundo, de imaginar valores pretensamente superiores e exteriores à vida ou, no jargão dos filósofos, de valores “transcendentes”. Ora, para Nietzsche, tal invenção é sempre secretamente, é claro, motivada por “más intenções”.
E então citou:
— “Seu verdadeiro objetivo não é ajudar a humanidade, mas apenas conseguir julgar e finalmente condenar a própria vida, negar o verdadeiro real em nome de falsas realidades, em lugar de assumi-la e aceitá-la tal como é.”
Olhou para nós, buscando cumplicidade:
— É essa negação do real em nome de um ideal que Nietzsche chama de “niilismo", sacaram?
Enquanto isso, à margem daquela aula improvisada, o Dr. Laerte desenvolvia um assunto completamente distinto — e não menos curioso.
Com seu humor característico, virou-se para o Sr. Avani e disse:
— Avani, como pode uma coisa tão pequena, o cu, ter mais de setenta nomes para designá-lo?
E seguiu, quase saboreando cada palavra:
— Veja — continuou ele — temos furico, fiofó, rabicó, roseleta, rabiola, rosca, roscof, tutu, fueiro, foba, viegas, fiote e por aí vai.
O Sr. Avani o ouvia entre o constrangimento e a surpresa, tentando manter a compostura diante de um tema tão deslocado daquele ambiente que ele parecia habitar com tanta formalidade.
Felipe, percebendo que parte da atenção se dispersava, voltou-se inteiramente para nós e retomou seu fluxo:
— Diferentemente do que muitos pensam, Nietzsche não era a favor do niilismo, muito pelo contrário. Para Nietzsche, o niilismo seria um “anseio do vazio”, que na verdade era uma manifestação dos seres doentes que se conformam e idealizam o vazio e não um verdadeiro estado de força.
E concluiu:
— É que para o pensamento nietzschiano, não existe essa transcendência, e que “todo juízo é um sintoma, uma emanação da vida que faz parte da vida e nunca se situa fora dela.”
Aquela noite nos oferecia, sem aviso, uma aula improvável — filosofia e irreverência compartilhando o mesmo espaço, como se a própria vida recusasse compartimentos rígidos.
Mais adiante, ao nos despedirmos daquele mergulho em ideias, senti que algo havia se acendido, ainda que de forma difusa.
— Chega, agora eu quero é descontrair! — confidenciei a SC.
Descemos.
Ao sairmos, encontramos Jo e M-Mentiroso:
— Eu estava indo agora mesmo na tua casa — falou Jo.
— Queria saber o que vocês vão fazer.
— Nós estamos indo lá pra esquina da Sete — respondi.
— Vamo nessa! — disse ele, sem hesitar.
Seguimos pelo corredor estreito do estacionamento do Edifício Mandacaru, atravessando aquele pequeno túnel urbano que nos levava de volta ao nosso território.
No murinho, estavam os de sempre.
SC, com seu humor imediato, lançou:
— O que estão fazendo aí Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse?
E veio a resposta, direta:
— Tamo paquerando as mina, mermão!
Sentamo-nos.
E então, como uma aparição performática, surgiu François, em seu fusca Rosa-Pink.
François era um sujeito de feições delicadas, alto e esguio e que andava sempre muito alinhado.
Tinha apenas vinte e dois anos - eu acreditava que ele fosse mais velho - e seus modos refinados lhe conferiam um certo ar burguês. Com seus olhos claros, sua barba sempre bem feita e seus cabelos loiros, podíamos dizer que aquele indivíduo era um belo exemplar do gênero masculino, muito embora suas preferências sexuais fossem outras. – “Taí um belo desperdício de homem”, - disse-me certa vez So, irmã de um dos rapazes.
Assim que ele apareceu, ele foi logo se debruçando sobre a janela do seu carro e em seguida gritou:
— Olá meus gostosos, como vocês estão?
A resposta veio no mesmo tom irreverente:
— Vai tomar no seu cu, seu viado.
François, sem perder o compasso, devolveu:
— Deus te ouça... Deus te ouça!
E completou, teatral:
— Olha aí moçada, quero fazer um convite! Quem quiser conhecer os meus trabalhos, passa lá em casa mais tarde.
Gritei de volta:
— Sei que você mora na Rua Imperatriz, só não sei onde!
Ele respondeu, já acelerando:
— O SC sabe onde moro. Vai lá! Estou esperando por vocês com o ânus bem aberto!
Risadas explodiram.
— Êta bicha depravada! — comentou M-Mentiroso.
E Jo, curioso:
— Vamo, vamo nessa! Vamos conhecer a casa desse fresco.
Depois que François partiu, os meninos mais novos, como C-Zinho, C-Linho, T-Ninho falaram que tinham compromissos enquanto P-Zinho disse que teria que ir pra casa pois estava cheio de deveres escolares. Ficamos ali por mais algum tempo e por volta das nove da noite, decidimos dar um pulo na casa do François afinal de contas ele morava a poucos metros dali num daqueles sobrados antigos da Rua Imperatriz. Embora o François fosse um pintor que já gozava de um certo prestígio na cidade, nem eu, nem os meus amigos, conhecíamos o seu trabalho. Aquela noite, não sabíamos, nos reservaria uma tremenda e divertidíssima surpresa.
A noite, naquele instante, parecia abrir mais uma de suas portas inesperadas.
E nós, como sempre, decidimos atravessá-la.
Capítulo II
A descoberta do segredo
Foi um tempo em que Mequinho estampava manchetes e nomes como Richard Nixon, Leonid Brejnev, Mao Tsé-Tung, Lin Piao e os vietcongues atravessavam os noticiários como ecos de um mundo em ebulição. Era também a época de Salvador Allende, de Emerson Fittipaldi, de Maurice Chevalier, dos temporais devastadores em Bangladesh e das chamas que consumiam o edifício Andraus. Corria o ano de 1972 — o ano em que eu alcançaria os meus tão esperados dezoito anos.
Se tivesse consciência da velocidade com que o tempo se dissolve, talvez tivesse pedido, em silêncio, que aquela idade demorasse mais a chegar.
Manoel de Barros dizia não gostar que colocassem datas na existência. Para ele, a data maior era o quando.
“Quem é ‘quando’ criança, a natureza nos mistura com as suas árvores, com as suas águas, com o olho azul do céu. ‘Quando’ criança, a gente sorri dos galanteios que a vida nos oferece todos os dias. ‘Quando criança’, de tudo se pode sorrir e, quando a gente ri, a vida nos confraterniza com as suas descobertas e o tempo estanca.”
Naquela noite, eu ainda não sabia, mas o que estava prestes a descobrir me faria rir como poucas vezes ri na vida — talvez como só o quando criança permite.
Do outro lado da rua onde ficava o nosso querido murinho — nosso quartel-general existencial — havia uma biblioteca pública. Ou melhor, um dos escritórios da antiga Sudene. Um prédio modesto, de dois andares, com um pequeno recuo que servia de estacionamento. Era dessas construções de portas recuadas, teto alto, onde o espaço parecia respirar mais devagar.
Ali ficava o Seu Antônio.
Chegava sempre por volta das vinte horas, puxava sua cadeira de palha, acomodava-se discretamente e ligava o inseparável radinho de pilha. Vigia do prédio e guardião informal de alguns carros da vizinhança, observava-nos com um sorriso permanente — como quem acompanha, em silêncio, um espetáculo cotidiano que nunca se repete da mesma forma.
Naquela noite, ao descermos do murinho rumo à casa de François, atravessamos a rua para cumprimentá-lo. Era quase um ritual. E também queríamos saber das novidades que chegavam pelo seu pequeno oráculo sonoro.
Falou-nos então de um rumor distante, vindo dos Estados Unidos. Um escândalo que começava a rondar a Casa Branca, envolvendo o nome de Richard Nixon. Segundo ele, o Washington Post noticiara um arrombamento na sede do Comitê Nacional Democrata, no complexo Watergate.
Naquele momento, aquelas informações nos atravessaram como tantas outras — rápidas, quase superficiais. Mas algo naquele relato permaneceu, como um ruído persistente. Dois anos depois, saberíamos o desfecho: a renúncia de um presidente. A primeira na história americana.
Despedimo-nos do Seu Antônio e seguimos — eu, SC, M-Mentiroso e Jo — todos com o “pau-na-mão”, avançando em direção à casa de François. Não havíamos dito nada explicitamente, mas havia entre nós um certo receio. O desconhecido, naquela época, ainda era carregado de sombras.
Perguntei a SC se ele realmente sabia o endereço.
Ele hesitou, como quem tenta puxar uma lembrança pela ponta:
Disse que achava que era um sobrado na esquina da Rua Imperatriz com a Bulhões Marques, ao lado da Confeitaria Confiança.
A rua estava quase vazia. Poucos carros passavam. Pelas janelas do velho casario, vimos telas penduradas — manchas de cor suspensas na penumbra de uma sala que parecia ampla.
Paramos diante da porta número 272.
Tocamos a campainha.
François surgiu na varanda, espreitando. Ao nos reconhecer, abriu um sorriso que parecia maior do que o próprio rosto. A porta se abriu por meio de uma corda que descia do andar superior — um mecanismo simples, quase teatral.
Subimos.
A escada era estreita, escura, íngreme. Cada passo produzia estalos que nos faziam imaginar, por um segundo, que tudo poderia ruir sob nossos pés.
Mas chegamos.
E, ao alcançar o primeiro andar, fomos recebidos por uma explosão de alegria. François rodopiava, como se celebrasse algo muito maior do que uma simples visita.
Entreolhamo-nos.
E, sem palavras, pensamos:
— Nossa Senhora! A bicha está parecendo uma libélula de tão feliz.
E fazia sentido.
Aquele homem, possivelmente solitário, recebia em sua casa quatro jovens atravessados por espinhas, hormônios e curiosidade. Um acontecimento improvável — e, talvez por isso mesmo, tão precioso.
Ele mesmo parecia não acreditar.
Quantas vezes já nos havia convidado?
E quantas vezes recusamos?
Agora estávamos ali.
E ele disse, com entusiasmo transbordante:
— Meus lindos, ai que felicidade! A presença de vocês aqui fez arrepiar até os pelos do meu relógio.
Vestia um avental amarelo-ouro, manchado de tinta. Evitou o abraço — talvez por respeito, talvez por cuidado — e nos convidou a entrar.
— Venham e não pensem que estão me atrapalhando, tá? Eu estou trabalhando naquele quadro pois tenho um prazo até o final da semana para entregá-lo.
Caminhava em direção a uma grande tela ao fundo, com um trejeito leve, quase coreografado.
O espaço nos surpreendeu.
Amplo como um galpão de ideias, iluminado por lustres generosos, com janelas avarandadas que deixavam a noite entrar. O piso de madeira, disposto em diagonal, brilhava como se tivesse memória própria. Tapetes espalhados, alguns com aparência persa, davam ao ambiente um ar de refinamento inesperado.
Não era o que imaginávamos.
Esperávamos um lugar pequeno, escuro, mofado.
Mas ali havia luz.
Havia espaço.
Havia vida.
François explicou, em algum momento, que o local fora transformado por ele — paredes derrubadas, limites rompidos. Uma arquitetura moldada pela vontade.
Então, erguendo levemente o queixo, anunciou:
— Venham aqui meus meninos, venham conhecer as telas do grande mestre François Hold.
O gesto que acompanhou a fala era quase teatral — um movimento delicado, como quem oferece algo invisível.
SC sorriu.
E eu, para não rir, escondi-me atrás de M-Mentiroso. Vieram-me à mente as suas imitações, sempre acompanhadas da frase:
— “Vamos Christóvão, eles não nos querem aqui!”
François seguiu, incansável, e logo perguntou:
— Venham aqui, venham! Deixa eu mostrar minha humilde morada pra vocês.
Conduziu-nos ao fundo — cozinha, banheiro, um pequeno quarto.
Na cozinha, apontou para a garrafa:
— Olha! Eu, se fosse vocês, experimentava esse vinho da região da Borgonha. É divino!
E completou:
— Eu o ganhei de presente de um homem muito rico, dono de uma grande empresa daqui que me presenteou assim que lhe entreguei um quadro que ele havia encomendado.
Alguns aceitaram. Outros, não.
Voltamos à sala.
As telas nos cercavam — cajus vibrantes, cores pulsantes, naturezas reinventadas.
M-Mentiroso assumiu sua persona habitual, analisando tudo com uma convicção que nos fazia trocar olhares cúmplices.
Afastei-me.
Fui até a janela.
Chamei Jo.
E ficamos ali, observando a Rua Imperatriz de um ângulo inédito. O mundo, visto de cima, parecia outro.
Foi quando ouvimos:
— Vem cá, Josinho, vem!
François o chamava, cheio de intenções:
— Gritou ele cheio de insinuações para o nosso querido Humphrey Bogart.
Jo se desfez em constrangimento.
Rimos.
E enquanto todos se distraíam, algo me puxou.
No canto esquerdo, perto da entrada, havia uma pequena sala.
Aproximei-me.
Era um escritório.
Livros por todos os lados — no chão, na estante, sobre cadeiras, empilhados como pensamentos que não cabiam em si mesmos.
Sobre a mesa, uma máquina de escrever.
Remington.
Dentro dela, uma folha.
Inacabada.
Ao lado, pequenos livros — pocket books.
Parei.
E pensei:
— Será que François também escreve?
Talvez ali estivesse algo mais profundo do que suas telas.
Talvez ali residisse um outro François.
Um segredo.
Mas não apenas o fato de escrever.
E sim… sobre o que escrevia.
Capítulo III
Os segredos de François
Ainda um tanto perplexo com algumas coisas que consegui enxergar naquele primeiro momento, e, confesso, até um pouco assustado, mesmo porque havia adentrado em um espaço para o qual não tinha sido convidado, resolvi voltar para a sala e com os olhos um tanto arregalados fiz um movimento em direção aos rapazes. Ocorre, porém, que como eles se encontravam bastante entretidos numa deliciosa conversa sobre quadros e vinhos, resolvi ficar um pouco afastado para ver se alguém percebia algum movimento estranho em mim.
No meio daquela conversa animada, François disparou: - Meus meninos, que coisa feia estou fazendo com vocês, meus ilustres convidados!
M-Mentiroso, que àquela altura mais parecia um entendido marchand, tamanha era sua desenvoltura, rebateu: - Que coisa feia.... que coisa feia que nada, François! Você está sendo um anfitrião fantástico.
- Ai Meu Deus, mas que falso! Pensei sorrindo entre os dentes... – ...acho que o sujeito está atacado, - concluí.
- Mas que bom ouvir isso meu fofinho! (M-Mentiroso era um rapaz moreno e forte, para não dizer gordinho) – respondeu François, resposta esta que o deixou todo enrubescido.
- Venham! Acompanhem-me até a cozinha. Quero lhes servir uns queijos, franceses também, tá! – convidou na sequência.
- François, vou ficar um pouco aqui olhando da janela, tá? Achei muito legal a visão da rua vista daqui de cima, respondi.
- Legal! Fique à vontade, meu querido – respondeu ele.
Foi a minha deixa. Aproveitei a debandada deles e rapidamente me dirigi ao escritório, pois, cheio de curiosidade, queria ver que tipo de livros iria encontrar ali.
Em cima da mesa, além da máquina de escrever e de várias folhas já escritas que estavam ao seu lado com a frente voltada para baixo, havia uma carta de um tal de Jean-Pierre Valentin endereçada a François junto a alguns pequenos livros colocados uns sobre os outros. Na parte de trás da mesa, havia uma estante composta por algumas poucas prateleiras onde encontravam-se alguns objetos decorativos, como um pequeno vaso de flores, uma estátua do Buda e algumas bijuterias, e, para meu espanto, um pênis dourado que estava em pé apoiado sobre uma base de madeira onde havia a seguinte inscrição: “Prêmio - 'O Pinto de Ouro’ 1969 – O último pingo em Paris.”
A princípio, não entendi do que se tratava mas logo em seguida avistei, num canto na parte superior da mesa, um livro com o mesmo título que estava gravado naquele que logo deduzi ser, um troféu.
Retirei o livro da prateleira e vi o nome do autor: François Hold, Editora Gai. Só muito mais tarde é que fui atentar para a palavra Gai, que em francês tem o mesmo significado que Gay em inglês. O problema, é que a palavra Gay, que em inglês significa 'alegre, jovial', e que é proveniente do francês medieval gai, não tinha àquela época a mesma conotação que possui hoje.
- Ah! entendi. Ele ganhou esse prêmio por causa do seu livro O último pingo em Paris, - pensei falando para mim mesmo, baixinho.
- O cara também é escritor, caramba! - concluí um tanto surpreso.
A partir daquele momento, aquela nuvem que pairava sobre a minha cabeça começou a se dissipar e as descobertas que fiz na sequência foram me fazendo entender melhor o panorama que se desenrolava à minha frente. Encontrei aquele livro premiado e na sua contracapa pude ler o depoimento de um jornalista. Nas palavras deste jornalista, aquele romance era magistral e, segundo ele, em alguns aspectos até se assemelhava ao famoso livro Ulisses de James Joice pela forma como descreve os personagens e seus dramas e pelo fato de que a história se passa em apenas uma única semana, em Paris, mais-ou-menos como no livro de Joice em que toda a trama acontece em apenas um único dia na cidade de Dublin.
O Último Pingo, narra a história de dois jovens gays, Di Lulu e Gui Lalá, que se apaixonam perdidamente e por uma semana vivem um intenso e ardente romance. A história acaba quando Di Lulu descobre que o seu novo parceiro já vivia uma relação estável há mais de dez anos com um argelino de nome estranho, (Fiz Fifih era o nome dele), que era, inclusive, um homem bem mais velho que ele. No final, Gui Lalá fala para o seu amante que apesar de ter se apaixonado loucamente, não poderá acompanhá-lo de volta ao seu país de origem pois ainda ama o seu companheiro. Na cena final, descrita como magistral por este jornalista, Di Lulu resolve voltar ao Brasil e enquanto esperava pelo seu voo ainda no aeroporto Charles de Gaulle, em Paris, no momento em que foi ao toilette para urinar, percebeu na saída do último pingo de sua urina - que por mais que tivesse balançado, não caíra no mictório - até porque como diz o ditado, não adianta balançar, o último pingo sempre será o da cueca -, e que embora aquele instante íntimo e singelo estivesse relacionado a um fato real presente no ato da micção, podia muito bem ser considerado bastante simbólico pois tratava-se de um gesto que definitivamente colocava um ponto final naquela grande paixão. A moral da história parecia nos dizer que até mesmo grandes amores podem acabar saindo pela urina. Fiquei por alguns momentos refletindo sobre aquelas palavras mas logo lembrei que muito havia a ser descoberto.
Curioso, resolvi abrir rapidamente aquele livro e caí justamente numa página que narrava que uma das razões pelas quais Gui Lalá desistira de acompanhar seu novo amor, fora que ele tinha consciência de que dificilmente iria conseguir se separar do seu amante argelino já que vivia uma relação um tanto doentia, que era um misto de veneração e medo ao mesmo tempo, num processo onde parecia imperar uma total submissão a este sujeito. Dizia, inclusive, que essa admiração de Gui Lalá pelo seu amante era tão grande, que no dia-a-dia ele se dirigia a ele quase que rastejando.
A forma como ele o chamava, diz tudo. Quem conviveu com eles, relatou que Gui Lalá sempre o chamava de um modo em que ficava muito claro essa sua relação de submissão. Gui, todas as vezes que se dirigia a Fifih, costumava chamá-lo assim:
- - Fie Fifiiiih, Fie Fifiiiih, au, au, au!!!
Nesse momento, eu quase tive uma síncope e falei com meus botões:
- Vai ser bicha assim na puta que te pariu!
A mesa estava repleta de pequenos livros, todos do François, e os títulos, ah! os títulos, eram cada um mais inusitado que o outro. Eu não conseguia acreditar em todas aquelas novidades que estavam se fazendo revelar perante meus olhos atônitos.
Naquele instante, a minha curiosidade que já havia se mostrado enorme desde que adentrei aquele ambiente, se aguçou de uma maneira assustadora. Eu não sairia dali sem saber exatamente em que solo estava pisando.
Certo de que para poder me inteirar de todas aquelas descobertas que estavam começando a se delinear diante de mim eu iria precisar de um bom tempo, comecei a elaborar estratégias que me fizessem atuar de forma mais focada e logo comecei a bisbilhotar todo aquele material de uma maneira que me permitisse agilizar as minhas buscas. Ocorre, que, ao mesmo tempo, percebi que estava ficando tremendamente receoso de que François a qualquer momento voltasse da cozinha e me flagrasse ali. Naquele instante, comecei a suar frio e a minha respiração começou a ofegar de tal forma que precisei me conter para não perder o controle, pois, ciente das minhas fragilidades, sobretudo a maior delas, que era o fato de ser asmático e que em situações de estresse ou emoção mais exacerbada acabava ficando bastante aflito e sem ar, precisei parar um pouco e assim resolvi me dirigir à varanda da sala para poder conter toda aquela ansiedade. Mas não demorei nem um minuto, tamanha era a vontade de saber mais acerca de todo aquele universo que se descortinava à minha frente.
Puxei aleatoriamente um outro livro da prateleira de baixo e diante do inusitado título, arregalei os olhos de tal forma que foi difícil fazê-los voltar ao normal tamanho foi o meu espanto. O Homem que caga, e ri era o título deste outro livro, também tendo o François como autor e publicação feita pela mesma editora do anterior, a Gai. Fiquei tão perplexo diante daquela inscrição que, por incrível que pareça, não consegui sequer rir, tal era o meu estupor. Abri meio que a esmo e, um tanto inquieto e louco para descobrir o seu conteúdo, pois, a julgar pelo título, parecia tratar-se de um ensaio filosófico, fui logo tentando ler a primeira página que se descortinasse à minha frente. E esse foi o trecho escolhido.
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Capítulo I – Alucinante frenesi
(Passando de mão em mão)
Alternando entre um conto e outro, Moli Colino deixava sua verve escorrer como um rio em cheia, num fluxo que parecia não conhecer repouso. Seu temperamento, já naturalmente irrequieto, tornava-se ainda mais elétrico quando se entregava à escrita. Havia nele uma espécie de combustão interna, como se múltiplos universos narrativos disputassem, ao mesmo tempo, o direito de existir.
Era tanta a quantidade de eventos simultâneos que se digladiavam em sua mente que lhe parecia impossível dedicar-se a um único livro. Naquele exato instante, encontrava-se mergulhado em três romances, todos avançando de forma entrelaçada. Quando a escrita emperrava em um, saltava imediatamente para outro — e assim seguia, num ritmo quase convulsivo.
Lembram do Marquês de Sade? Pois é... Moli, nesse aspecto, guardava com ele uma curiosa semelhança. Não lembram? Não sabem de quem estou falando? Não? Esquece!
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Ao interromper a leitura naquele ponto, percebi de imediato o tom irônico — quase zombeteiro — do, agora revelado, escritor François, e a maneira peculiar como ele parecia dialogar com o leitor. Haveria ali traços de um romance autobiográfico? A ideia me atravessou rapidamente, mas foi a curiosidade que falou mais alto.
Retomei a leitura.
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A tarde escorria lenta, como se o tempo tivesse decidido desacelerar. Diante de sua máquina de datilografar, Moli Colino escrevia mais um de seus contos. Seus olhos estavam fixos na página, mas seu olhar, na verdade, atravessava o papel — vagava por territórios distantes, imprecisos.
Havia nele uma leve angústia, difusa, sem causa aparente.
Sem inspiração, entregava-se a pensamentos que o vinham assombrando havia tempos: a explosão demográfica que testemunhara ao longo de seus cinquenta anos de vida. Recordava-se de sua infância, quando o mundo parecia mais espaçoso, mais silencioso, menos povoado.
Lembrou-se então de Ernst Gombrich, que certa vez afirmara:
“A principal característica do século XX é a terrível multiplicação da população no mundo. É uma catástrofe, uma tragédia. Não sabemos o que fazer a respeito.”
Sim — era exatamente isso.
Antes, havia espaço.
Agora, havia excesso.
Uma sensação melancólica o atravessou: os natais pareciam mais próximos uns dos outros — e, ao mesmo tempo, menos significativos. Como se o tempo tivesse se comprimido, e com ele, o próprio sentido das coisas.
Estava há três dias sozinho em casa.
Nenhuma visita.
Nenhum telefonema.
Nem mesmo o vizinho, sempre tão inconveniente, batera à sua porta.
E, convenhamos...
— gente com esse perfil costuma ser um sério candidato a suicida, não é mesmo?
Bem, deixa isso pra lá. Isso não é da nossa conta.
Sigamos.
Moli levou a mão à testa. A solidão, que normalmente lhe era companhia tolerável, naquele dia pesava mais do que o habitual. Pensou em sair, caminhar, ver gente. Mas lembrou-se da última vez — da multidão opressiva, da sensação de invasão.
— Como tinha gente no mundo!
Chegara até a escrever, em tom de deboche, uma paródia do célebre poema de Carlos Drummond de Andrade. Pegou suas anotações e releu:
Everywhere (em todos os lugares)
Everybody (todo mundo)
No meio do caminho tinha uma porrada de gente.
No meio só, não. No início, no meio e no fim.
Everywhere!
Como tem gente nesse mundo, meu Deus!
Tem tanta gente, que o mundo já não é mais...
“vasto mundo”.
Mundo, mundo, pequeno mundo,
se eu me chamasse Raimundo
mandava todo mundo para a
puta que pariu.
Naquela tarde, havia abandonado temporariamente seus três romances para se dedicar a um novo conto — sobre o envelhecimento. Mas a inspiração, caprichosa, parecia tê-lo desertado.
Foi então que um incômodo nas narinas interrompeu seu fluxo de pensamentos.
Num gesto quase automático, levou o dedo anelar ao nariz.
E pensou:
— Há todo um trabalho a ser feito aqui!
E ali permaneceu.
Por longos minutos.
Dedicado.
Minucioso.
Extraindo, uma a uma, suas “noninhas”.
O tempo parecia imitar a lentidão da tarde.
E Moli, absorto, seguia em sua incursão nasal como um explorador de territórios íntimos. Ficou tanto tempo nessa atividade que alguém poderia sugerir, sem exagero, que colocasse à sua frente uma placa:
“Man at work.”
A cada extração, um pequeno suspiro de prazer:
— Ah! Que delícia!
E, em certos momentos, evocava seu fiel companheiro:
— Helinhoooô!
Helinho, um vira-lata dócil, era seu companheiro constante — exceto em situações muito específicas.
Como quando Moli ia ao banheiro.
Ou quando soltava seus gases.
Ou, claro... quando iniciava suas expedições nasais.
Certa vez, Helinho ousara acompanhá-lo ao banheiro.
Erro fatal.
Diante do odor, refugiou-se sob o guarda-roupa, cobrindo o focinho com as patas. Não houve quem o convencesse a sair antes do fim da operação.
E Moli, do banheiro, ainda gritava:
— Helinhoooô, vem ver como esse é grande e lindo, olha!
Ou então:
— Helinhooooô, esse tá difícil de sair; vem aqui me ajudar!
Helinho, sábio, permanecia onde estava.
Silencioso.
Resguardado.
Aprendera.
Também já fora vítima de um acidente: uma “petelecada” mal direcionada que lhe atingira o pelo. A memória daquela experiência bastara para moldar seu comportamento dali em diante.
Moli, alheio a tudo, prosseguia.
Quando o anelar — seu “vizinho” — não estava em ação, ele moldava as “catotinhas” entre o polegar e os outros dedos, formando pequenos projéteis que tentava lançar ao espaço.
Algumas resistiam.
Outras grudavam.
Havia as mais persistentes — as chamadas “rebeldes”.
E havia também as “esquecidas”, alojadas nas regiões mais profundas — verdadeiros depósitos ocultos da experiência humana.
Uma dessas, ao ser resgatada, despertou-lhe uma lembrança antiga.
Infância.
Competição.
Ele, o irmão e Gina — a lendária “garota da catota”.
Haviam criado o Mural Melecográfico.
Ali, expunham suas maiores conquistas.
Selecionavam.
Comparavam.
Elegiam campeãs.
Uma ternura inesperada o invadiu.
E ele pensou, sorrindo:
— A vida de um homem pode muito bem ser contada pelas melecas que retira.
De mão em mão
Em sua jornada, encontrou uma particularmente resistente.
Difícil acesso.
Região crítica.
Uma verdadeira fortaleza.
E então declarou:
— Helinhooooô, vou ter que apelar para o serviço de um profissional.
Após longa batalha, venceu.
Mas a vitória foi parcial.
A “catotinha”, fiel ao seu nome, recusava-se a se desprender.
Girava.
Grudava.
Resistia.
Foi nesse exato momento que a campainha tocou — insistente.
Moli levantou-se, ainda em luta.
Olhou pelo olho mágico.
Era seu primo, Moli Caluno.
Hesitou.
Tentou se livrar da intrusa.
Sem sucesso.
Num gesto final, esfregou a mão na calça.
Inútil.
Ela permaneceu.
Abriu a porta.
O primo sorriu, estendendo a mão.
E Moli, sem alternativa, correspondeu.
Foi então que, silenciosamente, inevitavelmente, a pequena e obstinada “catotinha” encontrou seu novo destino:
a mão do primo.
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Naquele instante, fui tomado por um súbito sobressalto. Do fundo da casa, vindas da cozinha, começaram a ecoar gargalhadas — primeiro tímidas, depois crescentes, até se tornarem quase um coro descontrolado de alegria. O vinho, pensei, começava a cumprir seu antigo papel alquímico: restaurar ânimos, dissolver pesos, reacender esquecidas centelhas de felicidade.
Fechei o livro com rapidez. Havia em mim um incômodo difuso, uma sensação de estar ultrapassando um limite invisível — como se, ao ler aquelas páginas, eu estivesse invadindo não apenas um espaço físico, mas uma intimidade que não me pertencia. Para afastar esse desconforto, caminhei novamente até a varanda, buscando no ar da noite algum tipo de equilíbrio para digerir o que acabara de descobrir.
Mas o efeito foi outro.
Um estado de quase torpor se instalou em mim. Eu não conseguia organizar o turbilhão de sensações que me atravessava. Antes mesmo que pudesse interpretar o texto, foram os nomes — sim, os nomes — que se apoderaram da minha mente com uma força perturbadora. Eles reverberavam incessantemente, como um eco que se recusava a cessar, repetindo-se com uma insistência quase patológica.
- Moli Colino, Moli Caluno, Moli Colino, Moli Caluno, Moli Colino, Moli Caluno... para, caramba!, - bradei internamente no momento em que comecei a rir meio sem controle.
Voltei ao escritório, ainda sob o efeito daquele estranho encantamento, mas não sem antes lançar um olhar na direção da cozinha, tentando medir a intensidade das vozes e gargalhadas que dali escapavam. Precisava me certificar de que minhas pequenas transgressões ainda passavam despercebidas.
A curiosidade, agora, já não pedia licença — exigia continuidade.
Sobre a escrivaninha, ao lado da máquina de escrever, repousava uma carta aberta. O envelope, dos Correios, denunciava sua origem: Senegal, África. Mesmo consciente — ou talvez justamente por isso — de que ler correspondência alheia é um delito, senti-me incapaz de resistir. Quando percebi, já estava com o papel nas mãos, mergulhado em suas linhas.
Comecei com uma leitura apressada, diagonal, como quem apenas tateia. Mas algo, em determinado ponto, me capturou de forma definitiva. Minha atenção se aguçou. O nome Valentin surgia ali como um personagem vivo, narrando suas andanças pelo continente africano em busca de modelos negras para um ensaio fotográfico cujo título provisório me atingiu como um estilhaço:
– Ânus Negro??? O que é isso? – minha imaginação explodiu de tanta curiosidade.
Pouco a pouco, o quebra-cabeça se montava. Valentin era fotógrafo de uma revista masculina francesa, Jouergarçon, uma espécie de equivalente europeu da Playboy, e estava ligado ao mesmo grupo editorial que publicava os livros de François — o Le Trois, algo que hoje chamaríamos de uma holding que controlava a Gai.
A carta era um relato febril de viagens e projetos. Do Egito, escrevera sobre um ensaio intitulado A roseleta púrpura do Cairo, que, segundo ele, havia enviado ao próprio François. Perguntava, inclusive, se o amigo já o havia recebido. Foi impossível não pensar — ainda que de forma especulativa — que dali pudesse ter nascido, anos depois, a inspiração para A rosa púrpura do Cairo.
Das regiões geladas do norte europeu surgira L'anus Rose (O Ânus Rosa), publicado apenas na França.
Minha mente já não acompanhava o ritmo das descobertas. Era como se cada nova informação abrisse um abismo ainda maior de perplexidade.
Instintivamente, comecei a procurar pelo tal livro mencionado na carta. Mas antes que o encontrasse, algo menor — e talvez mais perturbador — desviou completamente o meu foco.
No canto inferior esquerdo da escrivaninha, três pequenos livros coloridos repousavam discretamente. Verde, azul e vermelho. Peguei o primeiro.
O título me desarmou completamente:
Como peidar – Profissões – Volume I.
Meu Deus, que troço é esse? – minha cabeça deu um nó.
Abri na página de índice, e lá estavam:
Como peidar como um Bombeiro;
Como peidar como um Escudeiro;
Como peidar como um Armeiro
Como peidar como um Pedreir
Como peidar como um Escoteiro;
Como peidar como um Livreiro;
Como peidar como um Tesoureiro;
Como peidar como um Cozinheiro;
Como peidar como um Santo Padroeiro.
Fui obrigado a interromper a leitura. O riso, violento e inesperado, ameaçava escapar. Fechei o livro às pressas e, quase sem pensar, agarrei o seguinte:
Como Peidar – Profissões – Volume II.
Mais uma vez, abri diretamente no índice:
Como peidar como um Psicólogo;
Como peidar como um Podólogo;
Como peidar como um Biólogo;
Como peidar como um Ornitólogo;
Como peidar como um Sociólogo;
Como peidar como um Paleontólogo.
Dessa vez, não resisti. O riso veio em ondas, violentas, descontroladas. Levei a mão à boca, tentando sufocá-lo. Corri até a varanda e ali, à beira do descontrole, quase desabei.
Meu Deus, não estou acreditando no que estou vendo! - falei meio que em voz alta tamanho era o meu estupor.
Voltei às pressas, como se temesse perder aquele insólito tesouro, e apanhei o terceiro livreto:
Como peidar – Ambientes – Volume I.
Abri novamente o índice
Como peidar em um Conservatório;
Como peidar em um Laboratório;
Como peidar em um Consultório;
Como peidar em um Ambulatório;
Como peidar em um Escritório;
Como peidar em um Parlatório;
Como peidar em um Reservatório (Cuidado com o eco!).
Agora não havia mais contenção possível. A gargalhada explodiu, viva, incontida. Apertei as bochechas, tentando aprisioná-la dentro de mim, temendo que atravessasse as paredes e denunciasse minha presença.
Mas ainda não era o fim.
Atrás daquele conjunto, outro título emergiu, ainda mais absurdo:
Como peidar no Toilete sem que te ouçam no Outlet.
A essa altura, meu rosto já não me pertencia. Eu sorria de forma permanente, quase grotesca — um sorriso aberto, exagerado, digno de um Coringa perdido na noite.
Ao lado, um volume maior chamou minha atenção. Tinha aparência de romance. Peguei-o com cuidado.
Quando li o título, congelei:
Quando o ânus coça, o sujeito perde a bossa.
Ué!!!
Falei pra mim mesmo soltando um grito de espanto.
Algo naquele título ressoava como memória.
- Eu já vi esse livro – pensei, ainda tentando localizar a origem da lembrança.
E então veio o estalo:
- Ah! já sei. Este foi o livro que o baixinho AT, lá nas nossas peladas da Rua da Saudade, falou que gostaria de escrever um dia.
- Caramba! – pensei, assustado.
- Será que o baixinho já conhecia os talentos do François como escritor?
Por alguns instantes, permaneci imóvel, como se aquele pequeno universo recém-descoberto tivesse desorganizado completamente a arquitetura do meu pensamento. Virei o livro.
Na contracapa, comentários de críticos e artistas.
O primeiro, assinado por um tal de Astrud Wilson, dizia:
“Mais uma vez o escritor, romancista, artista e poeta François Hold nos surpreende com uma história cativante. O seu personagem principal nos leva a fazer uma reflexão profunda sobre a condição humana, traduzindo de forma tocante os desencontros que nos são impostos pelo destino e a maneira como lidamos com ele, já que muitas vezes, numa constante e desesperada tentativa de acertar, acabamos errando muito mais do que aceitamos que errem conosco. Talvez seja preciso lembrar que na vida, poucas vezes as coisas acontecem como gostaríamos que fossem.”
Fiquei em silêncio por um instante, absorvendo o contraste entre o título e a gravidade das palavras.
- Cara, o sujeito não é fraco, não! – falei como se estivesse dirigindo aquelas palavras a mim mesmo fitando-me em um espelho.
Movido por uma curiosidade já irreversível, abri o livro ao acaso.
E comecei a ler.
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Fiofó Resende deixara sua casa carregando nos ombros um peso difícil de nomear — uma mistura de desalento, urgência e desorientação. As circunstâncias que a vida, com sua habitual indiferença, lhe impusera nas últimas horas exigiam decisões que ele não se sentia capaz de tomar sozinho. Por isso, como tantas outras vezes, dirigia-se ao encontro de seu primo, Furico Teixeira — homem mais velho, mais vivido, e, aos seus olhos, depositário de alguma forma de lucidez que lhe faltava naquele momento.
Sempre que o chão parecia desaparecer sob seus pés, era nele que buscava abrigo.
Haviam combinado um encontro na Vestal — um café antigo, de mesas já gastas pelo tempo, mas que para ambos representava uma espécie de território neutro, onde as inquietações podiam ser ditas sem pressa.
Em uma das mãos, Fiofó carregava um pequeno livro, já manuseado ao ponto de apresentar sinais de cansaço: Flatulum Deo — algo como “O peido de Deus” — obra atribuída ao excêntrico filósofo greco-romano Flatulus Maximus Meteorídios, autor da célebre máxima:
"Se te desprezam, flatos neles˜."
Aquele livreto, por mais insólito que parecesse, vinha servindo-lhe como uma bússola torta, mas ainda assim necessária, para orientar sua existência rarefeita de sentido.
Caminhava apressado, quase atropelando o fluxo dos transeuntes, como se o próprio corpo não conseguisse acompanhar a turbulência de seus pensamentos. Mas, àquela inquietação de ordem existencial, somava-se agora outra, mais concreta, mais urgente — e infinitamente mais incômoda.
Uma coceira brutal se instalara em seu traseiro.
Ao mesmo tempo, uma pressão interna crescia — um acúmulo de gases que parecia reclamar liberdade. Estava tomado por flatos desde o amanhecer, fruto, certamente, de algum deslize alimentar da noite anterior. Mas não eram gases discretos, desses que passam despercebidos; ao contrário, exigiam esforço, força, empenho — e prometiam, em troca, um espetáculo sonoro nada discreto.
E ele estava na rua.
Tentou acelerar o passo, à procura de algum ponto de resguardo. Assim que se afastou de um grupo ruidoso de mulheres, julgou ter encontrado sua oportunidade. Preparava-se para agir quando, de súbito, uma porta se abriu à sua frente e dois senhores, mergulhados em conversa animada, bloquearam-lhe o caminho.
Mudou de direção.
Atravessou a rua com rapidez. Mal teve tempo de se posicionar quando a porta de um carro estacionado se abriu, e uma senhora morena, gentil, lhe acenou.
Recuou novamente.
Mal alcançara a calçada oposta quando uma mulher gordamente— surgida de lugar nenhum — interpôs-se em seu trajeto com uma presença tão absoluta quanto incômoda.
Desesperado, voltou a atravessar a rua. Avistou então uma viela — uma possível rota de escape. Mas, ao se aproximar, deparou-se com Altolá George, velho conhecido, ocupado em suas habituais investidas inconvenientes sobre uma jovem, comportamento que lhe rendera, aliás, o apelido que carregava como marca registrada. Na verdade, ele sempre fora muito, como diriam alguns, saidinho.
Não foi à toa que ganhara aquele apelido, Alto lá!, ou Altolá, pois aquela expressão de tanto ser usada já tinha se transformado em nome.
A chance evaporou.
O desconforto agora era insuportável. Tentou, em vão, aliviar a coceira roçando discretamente uma nádega contra a outra. Nada funcionava.
- Se ao menos eu conseguisse soltar este peido, talvez a própria saída dos gases, roçando o ânus, conseguisse efetuar o ato de coçar – pensou consigo mesmo, já à beira do colapso.
A coceira, nesse momento, atingiu um nível quase insano.
Sua mente, então, reduziu-se a um único impulso primordial, uma urgência quase infantil, quase primitiva:
enfiar no rabo e fazer Ui! Ui! Ui!
Sem pensar mais, correu.
Mais adiante, avistou outra viela — estreita, suja, evitada por todos. Perfeita.
Ao adentrá-la, sentiu-se invadido por um alívio imediato. Nenhuma alma à vista. Caminhou alguns passos, certificou-se novamente, olhou ao redor — e, finalmente, entregou-se ao momento.
Coçou, com gosto, com intensidade, com abandono.
E então, libertou o que há tanto tempo se acumulava.
Um peido sonoro, pleno, quase triunfal.
Mas o instante de glória durou pouco.
No alto de um dos antigos casarões que ladeavam a viela, uma pequena janela — discreta, quase invisível — abrigava um espectador inesperado. Um senhor negro, tranquilo em seu posto elevado, fumava seu cachimbo enquanto observava o mundo lá embaixo.
E assistira a tudo.
Com um sorriso largo e uma pontaria verbal precisa, lançou ao ar, em tom alto e cristalino:
- Pelo som dessa buzina, esse carro já parou em minha oficina!!!
O efeito foi imediato.
Fiofó congelou por um segundo, depois ergueu os olhos e, ao perceber a figura sinistra que o contemplava com evidente deleite, explodiu — não mais em gases, mas em fúria:
- Vai pra puta que te pariu, preto do caralho!!!
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Eu me agarrei à estante atrás de mim como quem busca abrigo contra uma força maior — e era mesmo: a gargalhada que me atravessava o corpo, violenta e incontrolável. Corri de novo para a varanda, e ali, exposto ao ar, ri ainda mais, até o limite do ridículo e da rendição, quase perdendo o controle do próprio corpo. As lágrimas desciam livres, abundantes, sem qualquer possibilidade de contenção. Eu já não ria: eu era riso em estado bruto.
Entre os pequenos livros que vasculhava como um arqueólogo do insólito, um outro me capturou de imediato. Como os anteriores, trazia um título estranho — mas este ultrapassava o curioso e adentrava o território do desconcerto absoluto. Era um daqueles livretos de bolso da Coleção Primeiros Passos, desses que prometem introduções sérias a temas relevantes. Mas o nome…
“Mamãe, quero peido!”
Havia ali algo de profundamente deslocado. Não se tratava apenas do humor escatológico, mas de uma torção na própria estrutura da linguagem. O esperado seria o verbo — “quero peidar”, a ação, o fluxo, o acontecimento. Mas não: ali estava o substantivo, sólido, quase tangível — “quero peido”. Como se o ato tivesse sido reificado, transformado em objeto. Uma materialização grotesca do efêmero.
Aquilo não era apenas engraçado. Era, de maneira torta e improvável, filosofia em estado bruto — uma pequena insurreição semântica contra a ordem natural das coisas.
Diante de tamanha ousadia, não resisti. Abri o livro ao acaso e mergulhei:
————————————————— X ——————————————
Nicanozinho era um garoto de pele muito clara, quase translúcida, e de feições tão delicadas que lhe emprestavam um ar angelical. Tinha apenas oito anos.
Num certo dia, voltou-se para sua mãe, Dona Gertrudes — mulher ainda jovem, mas já marcada pelos sulcos de uma vida difícil, carregando no rosto um cansaço antigo — e, com uma seriedade desconcertante, declarou:
— Mamãe, quero peido!
Ela, com a naturalidade de quem já havia abdicado de qualquer surpresa diante da existência, respondeu:
— Por que não peida, Nicanino? O que está lhe impedindo?
(Chamava-o assim, Nicanino, por um amor quase desmedido pelos cães — como se o filho, de alguma forma, orbitasse essa mesma esfera afetiva, meio menino, meio filhote.)
E assim, autorizado, o garoto não hesitou. Liberou um pequeno flato que, de tão tímido, soou como um assobio fugaz:
Fuíiiiiiinnnn…
Mas o som suave traía a violência do odor. O ar foi imediatamente tomado por um fedor denso, quase palpável.
— Puta que o pariu, Nicanino! Que peido fedorento da porra!
— Mas mamãe, a senhora não disse que eu podia fazer peido?
— Disse! Mas precisava ser desse jeito, cacete?
— Eu não sabia que ia ser assim…
— Pois foi! Santo Padre… Senhor, tende piedade de nós! Clemência, Senhor!
Antes mesmo que Dona Gertrudes pudesse se recompor daquela agressão invisível, Nicanozinho, impassível, anunciou:
— Mamãe, quero peido de novo!
— Nããããooooo!
E saiu correndo, tomada por um desespero quase litúrgico.
————————————— X ——————————————
Fechei o livro como quem interrompe um curto-circuito na própria sanidade. Mas já era tarde. Um riso desesperado me tomou por inteiro, tão intenso que me fez perder o controle do corpo mais uma vez. Corri para a varanda, buscando no ar alguma forma de recomposição, respirando fundo como um náufrago que retorna à superfície.
A vontade de voltar ao escritório era irresistível. Havia ali um universo de descobertas absurdas esperando por mim — um território onde o riso e o estranhamento caminhavam lado a lado. Mas o tempo começava a pesar, e minha ausência prolongada poderia levantar suspeitas.
Retornei à cozinha.
Assim que me viram, os rapazes, quase em coro, exigiram minha permanência — como se minha fuga silenciosa fosse uma pequena traição ao pacto coletivo da noite.
— Acho que vou acompanhar vocês numa taça de vinho.
— Posso, François? — perguntei.
Ele, agora completamente entregue à leveza do momento, parecia flutuar numa felicidade líquida.
— Claro, meu lindo! Pegue uma taça, sirva-se… e não esqueça do queijo. Venha, junte-se a nós!
Aquela convocação, no entanto, caiu sobre mim como uma interdição. Eu precisava voltar. O escritório me chamava.
Permanecei por alguns instantes, fazendo comentários dispersos, desconectados — ecos de uma presença que já não estava ali. Meu pensamento orbitava outro lugar, e isso se tornava evidente.
— Acho que o Carlinhos tomou xarope demais! — provocou SC.
— Álcool não foi, ele nem bebeu ainda — completou M-Mentiroso, com uma cordialidade forçada que mal disfarçava o incômodo.
Optei pelo silêncio. Sorri, acenei, dissolvi-me. Eu precisava desaparecer em plena visibilidade — tornar-me transparente.
Foi então que uma ideia me atravessou.
— Jo, vem cá um minuto… deixa eu te mostrar uma coisa lá na varanda.
Piscar de olhos. Código silencioso.
Ele, entediado, agarrou a oportunidade como quem aceita um resgate.
— Cara, descobri algo fantástico.
— O quê?
— O François é escritor.
— E daí?
— Não é “e daí”, porra! Tu não tá entendendo… o que ele escreve… cara… eu tô me mijando de rir. Preciso da tua ajuda.
— Ajudar como?
— Vou voltar pro escritório. Preciso continuar vendo aquilo. Tu fica de vigia. Se alguém vier, tu me avisa. Não quero ser pego fuçando nas coisas do cara.
Ele me olhou por um segundo — entre o tédio e a curiosidade.
E então:
— Vai nessa.
Deixei-o ali, em posição de sentinela, enquanto eu mergulhava novamente naquele território proibido com uma voracidade que há muito não experimentava. Havia em mim algo de compulsivo, quase febril. Inclinei-me sobre a escrivaninha e, num gesto rápido, lancei o olhar à estante logo atrás — uma espécie de cartografia caótica de ideias, vozes e delírios impressos.
Num primeiro relance, não identifiquei nenhum título do anfitrião. O que se apresentava ali era um panteão respeitável: volumes de poesia, sobretudo dos chamados malditos — Verlaine, Baudelaire, Rimbaud, Mallarmé —, além de nomes como T. S. Eliot, Hemingway, Bakunin… uma constelação densa, carregada de peso histórico e estético. Mas, naquele momento, aquilo não me dizia respeito. Meu interesse havia sido deslocado — capturado por algo mais subterrâneo, mais grotescamente fascinante.
Já nem me lembrava mais do tal livro de Valentin. A curiosidade, depois das primeiras incursões pelos escritos de François, havia se transformado em obsessão.
Revirei a estante de um lado a outro, sem sucesso. Até que, quase como uma revelação tardia, meus olhos se elevaram à parte superior — e ali estavam. Vários exemplares, alinhados, todos com o nome de François estampado. Senti um pequeno arrepio.
Olhei para Jo, ainda firme ao meu lado, acompanhando em silêncio aquela minha inquietação quase patológica. Fiz um gesto para que se aproximasse e, com cuidado, puxei três pequenos livros coloridos.
— Dá uma olhada nisso… só pra tu ter uma ideia do que eu tô descobrindo — sussurrei.
Ele começou a folhear, ainda sem entender. Bastaram poucos segundos para que sua expressão se transformasse. Os olhos arregalaram-se como se tivessem tropeçado no absurdo.
— O que é isso, Carlinhos? — perguntou, agora tomado por uma excitação contida.
Levei o dedo aos lábios, pedindo silêncio. Aquilo exigia concentração.
— Depois eu te mostro mais… segura aí — murmurei.
Voltei minha atenção à estante. Foi então que percebi algo curioso: os livros estavam organizados por categorias, separados por cartolinas coloridas com pequenas abas indicativas — como se ali existisse um sistema, uma lógica interna regendo aquele caos aparente.
E que lógica estranha.
Havia de tudo: Contos Infantis, Romances, Ficção, Aventura e Suspense, Autoajuda, Gestão, Faroeste, Ensaios Filosóficos… Uma produção que atravessava gêneros com uma desenvoltura quase suspeita.
— Meu Deus… o homem é uma sumidade — murmurei, mais para mim do que para o Jo, que seguia sem compreender a dimensão do que estava diante de nós.
Puxei um exemplar da seção “Romance”. O título, como já se tornara regra, era um convite ao espanto.
— Olha isso… olha esse título! — disse, mal contendo a excitação.
Ele leu, e sua reação foi imediata:
— “Deixa eu fazer cocô com você”? Que porra é essa?!
— Pois é… e, acredite se quiser, isso aqui é um romance.
— Romântico pra caralho… — respondeu, ainda entre o riso e a incredulidade.
Não era mesmo algo que se encontrasse todos os dias.
— Fica esperto aí. Vou ler um trecho…
E, sem esperar resposta, mergulhei:
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Dominique La Matro era um homem de hábitos contidos, quase invisíveis. Discreto até nos gestos mais banais, cultivava uma elegância silenciosa, dessas que não pedem reconhecimento. Aos trinta e quatro anos, havia aprendido a deixar a vida fluir — não por virtude, mas por exaustão de tentar controlá-la.
Mas havia exceções.
E essas exceções tinham nome: Monique La Matro.
Sua irmã mais velha — a primogênita — era uma força de perturbação constante. Junto à outra irmã, Kilaká, formava um dueto infernal que, desde a infância, fazia de sua vida um campo de testes para a paciência. As duas exploravam, com precisão quase científica, sua sensibilidade excessiva, seu apego à ordem e, sobretudo, sua condição de caçula — o protegido, o preferido, o alvo perfeito.
Monique, em especial, parecia encontrar prazer na desestabilização alheia. Mesmo adulta, mantinha intacto um traço perverso que se manifestava em ironias, olhares enviesados e um cinismo difícil de disfarçar. Discordar era seu estado natural. Conviver, um desafio permanente.
Fracassara em relações, empregos e afetos. De uma dessas uniões instáveis, nascera um filho — hoje com quase oito anos — que carregava, como herança inevitável, os traços mais agudos daquele desajuste.
Adamastorzinho.
Assim o chamava a avó, numa tentativa de suavizar o que era, em essência, indomável. O garoto era um pequeno agente do caos — inquieto, destrutivo, incapaz de respeitar limites. Dominique o evitava como quem evita um desastre anunciado.
Naquela tarde, pouco depois das cinco, o desastre chegou sem aviso.
Mãe, filha e neto.
Bateram à porta — ou melhor, invadiram o seu tempo.
Adamastorzinho entrou correndo, pulando sobre o sofá como se aquele espaço lhe pertencesse. Monique, com seu sorriso plastificado, lançou:
— Oi, querido irmãozinho… como tu tá?
— O que vocês estão fazendo aqui? — respondeu ele, já incapaz de disfarçar o incômodo.
Vieram por acaso, disseram. Um café, uns biscoitos. Um pretexto qualquer para instaurar o caos.
Mas havia algo mais urgente.
Dominique sentia, naquele exato momento, uma pressão interna que não admitia negociação. Dias sem evacuar haviam cobrado seu preço, e agora o corpo exigia resolução imediata.
Tentou ganhar tempo. Delegou tarefas, inventou afazeres, desviou atenções. Mas era inútil.
A urgência crescia.
Retirou-se para o quarto, caminhando em círculos, comprimindo o corpo contra si mesmo numa tentativa desesperada de contenção. Pequenos sinais já escapavam — discretos no início, mas cada vez mais audíveis. O silêncio tornava-se insustentável.
Espiou a sala. Pareciam ocupados na cozinha.
Era a chance.
Correu.
Mal teve tempo de fechar a porta. Sentou-se às pressas, o corpo em colapso iminente.
O que se seguiu foi uma sinfonia involuntária: gases comprimidos encontrando saída, emitindo sons mecânicos, quase industriais — como uma máquina desregulada tentando se ajustar. Tentou conter. Dosar. Modular o inevitável.
Mas o corpo tem sua própria lógica.
Peidava pelos cotovelos
Quando a primeira liberação sólida deu sinais de chegada, acreditou — ingenuamente — que o pior havia passado. Que dali em diante haveria apenas fezes, fluxo, sem ruído.
Engano.
Aquilo era apenas o prenúncio.
Uma fração desprendida de algo maior, a merda-satélite que se desgarrara da merda-mãe, retida por uma massa gasosa que aguardava seu momento.
E quando veio…
Veio como ruptura.
Um estampido seco, inconfundível, atravessou o espaço doméstico com violência.
Na sala, Monique — que retornara para a sala com o objetivo de pegar o seu cigarro na bolsa que ficara em cima da mesa — ouviu.
E não perdeu a oportunidade:
— Mããããnhê! Temos música nesta casa!
————————————— X ————————————-
— Puta que o pariu, mermão… puta que o pariu! — sussurrei para o Jo, travando uma batalha quase perdida contra o riso.
— O que foi, caráio?
— Meu irmão… esse cara é hilário. Hilário, tu não tá entendendo…
— Então fala logo, porra!
— Depois eu te conto. Aguenta aí. Preciso continuar… fica atento, não sai daí!
— Mermão, é melhor tu se apressar. Já tem tempo demais que a gente sumiu. Daqui a pouco os caras aparecem.
— Tá, tá… vou correr. Mas fica ligado. Qualquer movimento, me chama.
Voltei ao ataque como quem retorna a um campo de escavação onde cada centímetro pode revelar algo ainda mais absurdo que o anterior. Minha curiosidade, longe de se saciar, só se expandia.
Havia ali uma lógica estranha, quase perversa: textos que começavam sob a aparência de uma certa gravidade — reflexivos, densos, por vezes até filosóficos — e, de repente, desabavam num abismo de escracho, de humor grotesco, de uma comicidade tão inesperada que beirava o delírio.
Confesso: nunca fui um leitor assíduo. Mas aquilo… aquilo era outra coisa. Era como se a literatura tivesse sido virada do avesso.
Devolvi o livro ao lugar e, agora pressionado pelo tempo — a vigilância do Jo já carregava um leve desespero — passei a agir com mais objetividade. Ou ao menos tentei. Porque objetividade e aqueles títulos não coexistiam.
Todos, sem exceção, eram convites ao espanto.
Mas foram os infantis que me capturaram naquele momento. Peguei três de uma vez e os coloquei sobre a mesa. O primeiro já me atingiu como um soco:
As Aventuras de Ultrapeido.
Abri. Na contracapa, lia-se:
“Nesta história, Ultrapeido e seu fiel escudeiro, o monge shaolin Ku Soto Pun Fuun, enfrentarão seu maior inimigo: Nariz Entupido.”
Quase desabei.
— Jo… é foda… o cara é foda! — murmurei, entrecortado de riso.
— Fala, porra! O que é?
— Não dá… não dá… segura aí… — respondi, já voltando aos livros como um viciado em busca de mais uma dose.
O seguinte era da mesma “saga”. O subtítulo me pegou desprevenido:
Ultrapeido contra os Incas VenusiÂnus.
Dessa vez, o riso veio em ondas. Precisei me sentar para não cair. Havia ali uma camada adicional de absurdo: uma paródia deslocada de memórias antigas, ecos de narrativas heroicas transformadas em algo completamente disforme.
— Que foi, mermão? O que é agora? — insistiu Jo.
Virei o livro para ele. Bastou a leitura do título.
Os olhos dele se arregalaram como se tivessem encontrado uma falha na realidade. Ele também lutou para conter o riso.
Segui. Mais títulos:
As Aventuras de João Peidão e Kid Ninho.
O Cocozinho Matreiro.
Naquele instante, me veio à cabeça um velho ditado: quem ri demais hoje, chora amanhã.
“Que se dane”, pensei. “Hoje eu rio até morrer.”
Recoloquei os infantis no lugar e, ao varrer novamente a estante, algo me chamou ainda mais a atenção: a seção de Gestão.
Ali, quatro pequenos volumes se destacavam como aberrações perfeitamente organizadas.
Peguei-os.
E li:
• Desculpem-me, soltei um peidinho!
• Hoje eu fiz um cocozão
• Quem cheirou meu peido?
• Não frite um bacon no cu
Fiquei alguns segundos imóvel, como se meu cérebro precisasse de tempo para aceitar aquilo.
Abri o primeiro.
E então veio o choque dentro do choque.
Na contracapa, um depoimento sério — corporativo, quase solene — de um executivo francês. Falava sobre liderança, sobre falibilidade, sobre a importância de reconhecer erros como caminho para relações autênticas dentro das organizações.
A tese era clara: admitir vulnerabilidades não enfraquece — fortalece.
E este executivo, que eu não fazia a menor ideia de quem era, a leitura daquela obra - Desculpem-me, soltei um peidinho -, "era vital pois deveria servir de exemplo para que todos nós, e não apenas os líderes, seguíssemos os seus conselhos, pois ao admitirmos que também somos vulneráveis, não estamos demonstrando sinal de fraqueza, muito pelo contrário. Na verdade, isso nos torna ainda mais fortes visto que ao nos despirmos da nossa armadura, aquela que nos protege mas também nos enclausura, ficamos de fato mais livres para podermos estabelecer conexões realmente autênticas com o outro e é justamente isso que nos capacita a construir relações verdadeiramente significativas".
E aquele livro, com aquele título absolutamente ridículo, era apresentado como ferramenta essencial para a formação de líderes.
Aquilo me desmontou.
— Cara… olha isso aqui — chamei o Jo.
— Que porra é essa agora?
— Tem um paradoxo aqui… uma contradição absurda.
— Como assim?
— O título é uma coisa… mas o conteúdo… isso aqui é sério, velho. Muito sério.
Voltei-me para o segundo: Hoje eu fiz um cocozão.
Ali, narrativas de fracassos empresariais — decisões catastróficas, erros estratégicos, quedas monumentais de grandes corporações. Tudo embalado sob um título que parecia sabotar qualquer tentativa de credibilidade.
Havia ainda outro:
É peidando que a gente se entende.
Esse tratava da importância do diálogo, da convivência, da construção de vínculos.
Eu já não sabia mais se ria, se analisava, ou se tentava compreender aquele sistema de significações completamente deslocado. Era como se a linguagem tivesse sido sequestrada — ou libertada.
O tempo apertava.
Recoloquei tudo às pressas e passei a folhear outros volumes de maneira quase automática, absorvendo fragmentos, títulos, ideias, como quem tenta capturar um sonho antes que ele se dissolva.
Num desses movimentos, abri um faroeste.
O título já anunciava o nível do delírio:
O Ânus Furado.
Parei.
Li uma linha.
E senti que estava prestes a atravessar mais um limite.
———————————— X —————————————
Ney era um pistoleiro de fama sombria, desses cuja reputação atravessa desertos antes mesmo de sua silhueta surgir no horizonte. Diziam — e no sertão lenda e verdade caminham juntas — que ele eliminava seus inimigos com uma precisão quase ritualística, disparando sua Colt 45 em um ponto tão específico que mais parecia um gesto simbólico do que um ato de violência comum.
Ney eliminava a todos com o um tiro no…. Cu.
Mas havia, por trás daquela figura temida, uma verdade que ele enterrava com o mesmo rigor com que enterrava seus desafetos. Ney carregava dentro de si uma identidade que recusava aceitar. E dessa negação nascia um ódio difuso, direcionado sobretudo àqueles que, entre risos contidos e cochichos venenosos, o provocavam com alcunhas cruéis — sendo a mais recorrente a de “descascador de macaxeiras”.
Quando atravessava as portas de um saloon, o ambiente se contraía. O medo que impunha era real — afinal, tratava-se de um caçador de recompensas implacável —, mas havia também outro tipo de tensão no ar. Olhares se cruzavam, sussurros escapavam:
“Cuidado… lá vem ele…”
E, quase inaudível, alguém completava:
“…a fera ferida.”
- O grade descascador de macaxeiras.
À boca pequena, circulava um nome que ninguém ousava dizer em voz alta. Ney Gay. Não como identidade assumida, mas como rótulo imposto, carregado de escárnio e risco. Pois bastaria que alguém o pronunciasse diretamente para que o ambiente se transformasse em arena. Ney não tolerava esse espelho.
Mas não era apenas essa contradição que o definia.
Havia também suas manias.
Excentricidades que, em outro contexto, poderiam parecer apenas curiosas, mas que nele assumiam contornos quase obsessivos. Uma delas era a de nomear aquilo que o corpo produzia — como se, ao dar nome, pudesse domesticar o que lhe escapava ao controle. Observava formas, medidas, texturas, e então batizava, com uma seriedade quase científica.
Outra mania: medir o tempo.
Assim que o processo se iniciava, erguia os dedos, um a um, numa contagem silenciosa. Cada dedo, um segundo — ou talvez um centímetro, dependendo do critério que adotasse naquele dia. Era sua forma peculiar de impor ordem ao caos fisiológico.
Conta-se que, certa vez, alcançou a marca de trinta e três.
Naquela ocasião, já vinha há dias carregando um incômodo crescente. A tensão acumulada exigia resolução, mas o ambiente não permitia descuidos. Encontrava-se em território hostil, onde qualquer distração poderia custar caro. Nem mesmo pequenos alívios eram possíveis — havia dias em que o corpo se tornava uma armadilha, e ele sabia disso.
Quando finalmente encontrou um lugar minimamente seguro, entregou-se ao inevitável.
O que ocorreu ali ultrapassou qualquer parâmetro habitual.
Não era mais uma sequência fragmentada, mas um evento único, contínuo, quase monumental. Um só gesto, uma só descarga, como se o corpo tivesse decidido condensar dias de espera em um único ato.
Ao final, ficou em silêncio por alguns segundos, contemplando o resultado como quem observa uma obra improvável.
Trinta e três.
Era o número que lhe vinha à mente.
Talvez um recorde. Talvez um marco pessoal. Talvez apenas mais uma de suas obsessões ganhando forma.
Mas o que se seguiu foi inesperado até para ele.
Uma leveza súbita.
Um estado de euforia quase infantil.
E então, rompendo o silêncio do lugar ermo, começou a falar sozinho, como quem declama para um público invisível:
- Gente, gente, gente, que cagada diferente!;
- Gente, gente, gente, como era grande essa serpente!;
- Gente, gente, gente, quando a gente caga a vida se esclarece na mente!;
- Gente, gente, gente, como estou flutuando levemente!;
- Gente, gente, gente, que alegria, que felicidade... como estou contente!
E saiu andando, tomado por uma felicidade estranha, quase mística, como se tivesse atravessado algum tipo de portal interno.
Quanto à sua mania de nomear, havia padrões. Quando o resultado era fino e alongado, recorria sempre ao mesmo nome: Luiz Finório — uma referência a um antigo inimigo, talvez o mais difícil que já enfrentara. Como se, ao nomear, revivesse batalhas passadas dentro de um território completamente distinto.
Pelos indícios espalhados na narrativa, tudo levava a crer que aquela história se desenrolava nas paisagens áridas do sertão nordestino, em algum ponto perdido da década de 1930 — onde o real e o absurdo não apenas coexistem, mas se confundem sem pedir licença.
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Naquele instante, sentado à mesa, fui tomado por uma convulsão de riso tão intensa que por pouco não despenquei da cadeira. Era como se o corpo tivesse desistido de qualquer tentativa de compostura. Ao meu lado, de pé e alguns passos atrás, Jo assistia a tudo com um sorriso largo, estendido de ponta a ponta — um sorriso que misturava cumplicidade e perplexidade. Ele não entendia nada, mas intuía tudo.
— Tu vai ter que me contar o que diabos tu tá lendo, filho da puta!
— Vou… vou sim… — respondi, com os olhos marejados, a voz já dissolvida pelo riso.
Buscando algum respiro — ou talvez mais combustível para aquele estado — puxei um exemplar da seção “Livros de Guerra”. O título, por si só, já era uma provocação:
Os Peidões de Navarone.
Aquilo me intrigou imediatamente. Eu tinha um apreço antigo por filmes de guerra, e aquele nome ecoava um clássico que me era caro: Os Canhões de Navarone, de 1961, com Gregory Peck, David Niven e Antony Quinn — uma narrativa de tensão e estratégia em plena Segunda Guerra Mundial.
Mas ali… o deslocamento era absoluto.
Movido por essa mistura de nostalgia e estranhamento, abri o livro ao acaso e comecei a ler:
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O Sr. Feliciano Rabão, general reformado do exército, veterano da Segunda Guerra Mundial e integrante do grupo conhecido como os Pracinhas, carregava consigo uma condição que o acompanhava com a mesma persistência de suas memórias de combate: uma intensa e contínua atividade interna, manifestada em forma de gases.
Era um homem de presença robusta, corpo compacto, quase talhado em bloco. Seu sobrenome, Rabão, embora sugestivo, não era apelido — era herança. E como toda herança, carregava peso e identidade.
Ao longo do dia, seus “sinais”, ou seus peidos, se manifestavam sem distinção de hora ou contexto. Para ele, curiosamente, aquilo era quase um eco da vida militar — como se, a cada liberação, reafirmasse sua permanência em estado de prontidão.
Nem todos eram ruidosos. Nem todos eram perceptíveis.
Mas as manhãs…
As manhãs eram outra história.
Ao despertar, o general inaugurava o dia com uma sequência vigorosa, quase cerimonial. Sua esposa, Dona Adalgisa, após décadas de convivência, transformara aquele ritual em sistema. Nomeou-os.
Chamou a série inicial de Os Estupendos.
E, como todo sistema bem estruturado, cada elemento possuía sua identidade própria:
O primeiro: O Escandaloso.
Depois: O Espalhafatoso.
Em seguida: O Tenebroso.
Logo após: O Majestoso.
E, por fim: O Fabuloso.
Havia dias em que a sequência se estendia além do esperado. Do sexto em diante, já não possuíam a mesma intensidade — mas não escapavam à classificação da meticulosa Adalgisa.
Entre eles, destacavam-se o Insidioso e o Miraculoso — este último assim nomeado pela improbabilidade de sua existência após uma sequência já tão exaustiva.
Talvez, pensava ela, fosse reflexo da disciplina de um general.
Mas houve uma ocasião que transcendeu todas as outras.
Semana Santa.
Madrugada de sábado.
Naquele momento, o que se ouviu foram três manifestações de potência inédita — três episódios que romperam qualquer padrão anterior. Dona Adalgisa, profundamente religiosa, não hesitou em rebatizá-los:
Os Esplendorosos.
E, sendo três, formavam A Fortíssima Trindade.
O primeiro: o Pai.
O segundo: o Filho.
O terceiro: o Espírito Santo.
— Cruz credo… meu marido tem um rabo santificado… — murmurou ela, entre assombro e reverência.
Conviver com o general era, em muitos sentidos, habitar um campo de forças invisíveis. Cada momento do dia trazia sua própria manifestação — e, consequentemente, sua própria nomenclatura.
Após o almoço, surgia Jesus, Alegria dos Homens — uma referência quase musical à intensidade pós-refeição.
Depois da sesta: Jesus, Alegria dos Homens - A Festa Continua.
No meio da tarde: Os Acadêmicos do Salgueiro — mais leves, ritmados, quase festivos.
Ao entardecer: Bufas ao Cair da Tarde.
No jantar: Adivinhe Quem Vem para o Jantar.
E, ao final do dia, já às portas do repouso, surgiam manifestações mais solenes: Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse ou As Trombetas de Gideão.
Por volta das dez da noite, vinha o derradeiro:
Boa Noite, Cinderela.
Era o sinal.
— Boa noite, senhor meu marido! — dizia Dona Adalgisa, encerrando o dia como quem fecha um ritual.
O silêncio então tomava conta da casa — um silêncio pesado, quase sagrado — interrompido apenas, ao amanhecer, pelo reinício do ciclo.
Havia ainda episódios noturnos imprevistos. Quando o general despertava para pequenas necessidades, dois eventos discretos o acompanhavam.
Ela os chamou:
Dois Perdidos numa Noite Suja.
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Levantei os olhos do livro por um instante, já à beira de outro colapso de riso. Aquilo não era apenas humor — era uma arquitetura inteira construída sobre o absurdo.
Voltei ao texto, ainda ofegante:
-------------------------------- X -----------------------------------
Numa certa noite, Dona Adalgisa foi despertada por um estrondo particularmente intenso.
Assustada, virou-se para o marido:
— Nossa! Que foi isso? Foi um dos Estupendos? Que cheiro de pólvora… você não tem um cu, tem um canhão nesse seu imenso rabo!
O general, ainda meio imerso no acontecimento, respondeu com certa gravidade:
— Foi forte… mas não sei se encaixa em alguma dessas categorias.
— Como assim?
— Pra mim… foi horroroso. E também… falacioso.
— Horroroso eu entendi… agora, falacioso?
Ele fez uma pausa breve.
- Digo que foi falacioso porque não foi só um peido.
- Não?
- Não!
- E por que, então?
- Peido pesa?
- Claro que não!
- Então acho que caguei.
-------------------------------- X -----------------------------------
Fechei o livro lentamente.
E ali, entre o riso e o espanto, percebi que aquele universo não obedecia a nenhuma lógica convencional — e talvez fosse justamente por isso que era impossível sair dele ileso.
Antes mesmo que qualquer reação pudesse se formar dentro de mim — ainda suspensa entre o espanto e a incredulidade — fui arrancado daquele mergulho abruptamente pela voz de Jo, que já captara algo que meus olhos, imersos nas páginas, haviam negligenciado.
— Carlinhos… acho que eles estão vindo — sussurrou, com a urgência de quem fareja o perigo antes que ele ganhe forma.
— Vou sair!
Ergui-me de um salto contido, e ali ficamos, lado a lado, fingindo uma conversa silenciosa diante da grande tela apoiada no cavalete ao centro da sala — como dois críticos improvisados diante de uma obra que, na verdade, mal víamos. O tempo, porém, parecia ainda nos conceder alguns instantes de trégua. Pedi a Jo que redobrasse a vigilância. Eu voltaria. Precisava voltar.
Dessa vez, abandonei a leitura linear. Lancei-me numa espécie de cartografia caótica da obra de François — um sobrevoo apressado, porém atento, tentando apreender o todo a partir de fragmentos dispersos. Um livro aqui, outro acolá. Páginas folheadas com dedos já inquietos. Trechos curtos, quase flashes. Às vezes, apenas o título — e ele já bastava, como um estilhaço de sentido.
Eu já não lia: eu recolhia vestígios.
Queria sair dali com algo — um mapa mental, um inventário mínimo que pudesse depois compartilhar com os rapazes, como quem retorna de uma expedição a um território improvável.
Foi então que a encontrei.
Uma folha solta. Discreta. Mas decisiva.
Ali estava — como uma chave deixada à mostra — a lista completa das obras de François.
E o que se revelou diante de mim não era apenas uma bibliografia… era um universo.
Um cosmos escatológico, organizado com uma lógica interna tão absurda quanto coerente.
Eis a relação:
Faroeste — Só peidando por cima do meu cadáver; O ânus furado.
Autoajuda e comportamento (Comédia) — Como peidar, Profissões (vols. I e II); Como peidar, Ambientes – Vol. I; Como peidar no toilette sem que te ouçam no outlet; Como peidar com elegância e discrição nas recepções do embaixador (inspirado em A arte de peidar, de 1751, de Pierre-Thomas-Nicolas Hurtaut); As bufas do sofá.
Guerra — Os peidões de Navarone; O ânus sujou; A águia peidou.
Contos infantis — As aventuras de Ultrapeido (contra os Incas Venusiânus e Nariz Entupido); O cocozinho matreiro; João Peidão e Kid Ninho; O samurai peidorreiro; As aventuras de Peido e Pum.
Suspense e aventura — 7 homens e um novo segredo: quem peidou?
Policial — Os subterrâneos do Vaticânus.
Gestão — Desculpem-me, soltei um peidinho; Hoje eu fiz um cocozão; Não frite um bacon no cu; Quem cheirou meu peido; É peidando que a gente se entende.
Terror — Bufas do além-túmulo; O morro dos peidos uivantes.
Ensaios filosóficos — O homem que caga e ri; Peidar é humano, demasiado humano; Quando o ânus coça o sujeito perde a bossa.
Românticos — Me peida!; Deixa eu fazer cocô com você?; O último pingo em Paris; Peidiciana, a megera dos mil peidos; Amores duros e cocôs empedrados passam quase sem deixar marcas; Peidão Capelo e as gaivotas; Dez ânus depois; Duas belas bufas; Como era lindo o seu peidar.
Épico — As bufas de Avalon.
Ficção — O último ânus sobre a Terra.
Roteiro para novela — A força de um dejeto; Depois daquele peido.
Saúde — As doces e sutis diferenças entre traques, puns, bufas e peidos; O “2” nosso de cada dia.
Ensaio político — Botando a rosca no trombone; Peide agora ou cale-se para sempre.
Percebi, tarde demais, que aquilo exigia registro. Era informação demais para confiar apenas à memória.
Procurei, às pressas, algum suporte — qualquer superfície que pudesse capturar ao menos fragmentos daquele delírio organizado. Encontrei um pedaço de papel esquecido numa lixeira de madeira ao lado da mesa. Resgatei-o como quem salva um documento histórico. Um lápis, solitário, repousava num pequeno vaso entre canetas.
Comecei a escrever.
Ou melhor — a atropelar palavras.
Rabiscos apressados, signos tortos, linhas que já nasciam quase ilegíveis. Eu sabia, enquanto escrevia, que talvez jamais decifrasse aquilo depois. Mas ainda assim insistia — como se o ato de registrar fosse, por si só, uma forma de retenção.
Foi então que outro detalhe me capturou.
Ao lado do vaso, uma folha pequena, amassada, guardava algo que parecia pulsar com outra frequência: a letra incompleta de uma marchinha de frevo. Li:
Se eu peidar você me dá?
Dou, dou, dou…
Então já vou detonar…
Pô, pô, pô…
Mas se eu peidar você me dá?
Dou, dou, dou…
Então já vou detonar…
Pô, pô, pô…
O velho gagá gagueja…
peidando no trem da Central…
Ali, interrompida — como se o próprio riso tivesse atravessado a escrita.
Outro papel, ao lado, trazia fragmentos de uma canção intitulada Penico estreito:
Ai, ai!
Que boca estreita o penico tem…
Quando se caga,
o pau fica de fora…
Quando se mija,
o cu fica também.
Parei.
Por um segundo — talvez dois — não soube se ria ou se me rendia a algum tipo de perplexidade mais profunda. Aquilo tudo já extrapolava o cômico. Havia ali um sistema. Uma estética. Um mundo inteiro regido por suas próprias leis.
Mas o tempo — implacável — voltou a me puxar.
Peguei mais um livro. Tentei uma leitura diagonal. Inútil.
— Carlinhos! — chamou Jo, agora sem disfarçar a tensão.
Eles estavam vindo.
Fechei o livro. Abandonei o resto.
Saímos.
E foi já na fuga que notei, pendurado discretamente na escrivaninha, um último vestígio — talvez o mais definitivo de todos:
Frase do dia:
“Merdas cagadas não voltam ao cu.”
Não resisti.
Senti minhas bochechas inflarem involuntariamente — como as de Louis Armstrong ao soprar seu trompete — e por um triz não explodi ali mesmo numa gargalhada irreversível.
Atravessei o escritório quase correndo.
Agarrei Jo pelo braço.
E já na varanda, tentando conter o inevitável, percebi que o riso — aquele riso — já não me pertencia mais.
Ele havia tomado conta de tudo.
Capítulo IV
As exuberantes bundas Valentianas
Continuei rindo sem parar quando François, SC e M-Mentiroso se aproximaram querendo saber o motivo de tanto riso. Tergiversamos dizendo que tínhamos presenciado uma cena muito engraçada com um sujeito que havia tropeçado e em função desse tropeço acabou se chocando contra um poste. Desconcertado, saiu rapidamente e dobrou a esquina tentando escapar daquela cena ridícula que havia se envolvido.
- E aí pessoal, vamos embora? – perguntou SC se dirigindo a nós.
- Meus meninos, vocês não vão embora enquanto eu não mostrar uma coisa que tenho certeza que vocês irão adorar.
- O que é, François? - Perguntou M-Mentiroso que continuava todo solícito.
- Venham cá! Acompanhem-me! – falou François todo saltitante.
Ele entrou no escritório dirigindo-se até o fundo da pequena sala e depois de revirar alguns livros, pegou um outro maior, desses grandes geralmente dedicados à arte e à fotografia, e com ele nas mãos voltou-se para nós todo sorridente.
- Rapazes, eu quero apresentar a vocês um amigo querido. Ele é um fotógrafo profissional conhecido no mundo todo pelos seus trabalhos com ensaios de nus femininos.
- Nus femininos… como assim? - perguntou SC todo assanhado sentindo que o seu pênis já começava a ficar levemente arqueado.
- Ele, até pouco tempo atrás – continuou François, - era apenas um excelente profissional que fotografava modelos nuas para uma revista masculina que é publicada lá na França. Como as fotos que ele tirava para esta revista costumavam receber muitos elogios da crítica especializada, ele acabou decidindo viajar por diversos países com o objetivo de publicar Books com Nus femininos do mundo inteiro.
- Caráio, mostra logo isso François! – falei todo excitado, ainda mais porque aquele era o livro que eu tinha a intenção de procurar e que acabei esquecendo.
Antes de nos mostrar o livro, ele o virou para baixo para que não víssemos a capa, e na sequência contou-nos a história de Valentin.
Fotógrafo profissional, ele também é muito conhecido em sua área de atuação por ter verdadeira obsessão por bundas. Nessa peregrinação que decidiu fazer por países dos quatros cantos do planeta, contou-nos François, ele já passou pelo México e países da América Central, Estados Unidos, e na Europa visitou a Itália, os países nórdicos e por último, aí já na África, o Egito, origem daquele enorme livro que François segurava em suas mãos. De suas andanças pelos países da América Central, resultou o livro que recebera o título de El Culo, onde se podia ver lindas mexicanas, guatemaltecas e caribenhas nuas e em poses pra lá de sensuais.
Nos EUA, ele publicou Ass wide open, que numa tradução livre significaria De ânus bem aberto. Dos países nórdicos, ele lançou Lanus rose (O ânus rosa), na Itália ele publicou Lano rosso (O ânus vermelho) e no Egito ele havia lançado A roseleta púrpura do Cairo, que tinha sido o único livro até o momento lançado no Brasil, e era justamente ele que François segurava em suas mãos enquanto ia nos contando a história desse seu adorado amigo. Naquele exato momento, nos confidenciou François, Valentin encontrava-se na África reunindo modelos para seu mais novo trabalho, fato este que pude comprovar pois havia lido na carta que se encontrava em cima da sua mesa. Segundo François nos relatou, este novo livro iria receber o título de O Ânus Negro, fato que também pude comprovar.
Este ensaio fotográfico ainda não havia sido finalizado porque o próprio Valentin havia lhe confidenciado que estava com dificuldades para fotografar as modelos já elegidas em virtude de um certo trauma que carregava desde a infância, trauma este que o fez procurar um terapeuta para poder aprender a lidar. E o pior, nos falou também François, foi que quando o Valentin falou em uma de suas terapias sobre essa sua dificuldade em lidar com o ânus negro, recebeu como resposta do seu terapeuta que ele, o terapeuta, também enfrentava este mesmo problema.
Ambos, Valentin e o seu analista, tinham um sonho recorrente em que estavam prestes a comer o ânus de uma mulher negra quando de repente este ânus começava a crescer de tal forma que chegava a engoli-los, e aí, obviamente, neste momento, eles acabavam acordando apavorados. Rimos todos, a bem dizer um tanto perplexos, dessa situação inusitada que nos foi contada por François.
Ele também nos contou, que conheceu Valentin quando de sua última viagem à Paris. Ambos, ele e Valentin, trabalhavam para o mesmo grupo editorial. Mais para frente, ele nos confidenciou que o próprio Valentin já havia vivido por um bom tempo no Brasil quando ainda era rapaz e falava muito bem o português. Isso acabou ajudando para que eles se tornassem amigos.
- Meninos! - exclamou François querendo chamar a nossa atenção - esse Valentin é um daqueles indivíduos que poderíamos dizer, foi abençoado pelo criador. Todo homem, tenho certeza, gostaria de ser um Valentin na vida.
- Por que, François? – Perguntou SC
- Deixa eu contar uma história pra vocês – respondeu ele com um enorme sorriso no rosto.
- Diz logo, cacete! – completei.
- É o seguinte: o cara é um tarado por bundas, como falei ainda há pouco, não é verdade? Mais precisamente, por rabicós, que ele chama de Dioninho. Ele diz que esse nome vem de Dione, uma namorada que ele teve há muito tempo e que, segundo ele, tinha o mais perfeito de todos — e foi por isso que resolveu chamar o ânus das mulheres de Dioninho. Diz até que, no fundo, tem algo de dionisíaco nisso tudo — essa coisa do excesso, do prazer, da carne… – sorrimos todos juntos.
- Dioninho? Que porra é essa? – perguntou SC sorrindo e sem entender nada.
- Pois é – continuou François. – ele chama o cu das minas de Dioninho, por causa dessa história da Dione. O cara é tão fissurado por fiofós, que até mandou fazer uma flâmula onde aparece escrito a frase I Love Dioninho – voltamos a gargalhar juntos.
- Meninos – prosseguiu mais uma vez François falando sobre o Valentin.
- Como as modelos sabem que ele é um fotógrafo famoso, geralmente não é ele quem as procura. Elas é que vão atrás dele oferecendo os seus fiofós, querendo submetê-los à sua apreciação, como se fosse um currículo, manja? - falou sorrindo.
- Nossa Senhora! – exclamou Jo.
- Pois é, meus filhos. O cara fica em casa e são as meninas que vão até ele oferecer os seus dioninhos, porque se ele, Valentin, aprovar, a carreira delas decola.
- E vou te dizer mais! – Prosseguiu ele.
- Como ele, o Valentin, é um enólogo, ou seja, um ótimo conhecedor de vinhos, o cara não é um sujeito comum, não. Muito pelo contrário: ele é bem sofisticado. Todas as vezes que acaba de comer um roscof, ele faz uma analogia como se tivesse degustado um vinho.
- Como assim? – perguntei, rindo a valer pela forma como o François narrava as manias do seu amigo.
- Ele diz assim pra mina, ó!: "Querida, você tem um ânus maravilhoso, com complexos e sedutores aromas em que se destacam as ameixas vermelhas e bem lá no fundo, fundo mesmo, discretíssimo toque amadeirado." – Nessa hora, M-Mentiroso desabou numa enorme gargalhada, que, obviamente, foi seguida por todos nós.
- Quando as modelos levam o seus rabos, ou currículos, como você falou, à sua apreciação, ele faz uma análise realmente bem profunda, não é mesmo? - perguntou Jo com ares de preocupado, embora tudo não passasse de uma encenação. Podíamos claramente perceber um certo sarcasmo em suas palavras.
- Profundíssima – concordou François, sorrindo enquanto jogava sua mecha de cabelos loiros para trás, num gesto um tanto delicado.
- O sujeito... - continuou François - no fundo, é um verdadeiro apreciador de vinhos e dioninhos - falou às gargalhadas.
- Cara, já pensou tu, lá em casa, sem nada pra fazer e de repente vem a gostosa da Fátima Antunes oferecer o dioninho dela pra você apreciar? - falou Jo dirigindo-se a SC.
Fátima Antunes era uma linda mulher que encantava a todos nós naqueles tempos. Oriunda de uma família tradicional, ela residia no Ed. Ouro, que ficava localizado na esquina da Rua Sete de Setembro com a Av. Conde da Boa Vista, lugar onde eu havia morado por algum tempo durante a minha infância e onde residiam os meus tios.
Era a nossa musa inspiradora, bem diferente de outras duas Fátimas que foram nossas contemporâneas. Uma delas, a quem chamávamos de Fátima Urubu, era uma graciosa menina negra, ainda muito jovem, que morava num sobrado que ficava na própria Rua Sete de Setembro, quase esquina com a Rua Martins Jr., sobrado este que ficava bem ao lado do Ed. Mandacaru, prédio onde residia uma outra Fátima, a quem havíamos apelidado carinhosamente de Fátima Boi, que, talvez por ter uma cinturinha mais redonda e estar um pouco acima do peso, deva ter recebido esse infeliz apelido.
- Pra esse aí... — falou M-Mentiroso, dando continuidade às palavras inicialmente proferidas por Jo — ...quem vai levar o dioninho dela vai ser a Fátima Urubu, ou, quando muito, a Fátima Boi.
- Realmente, M, pra ele, só se for uma dessas mesmo — falei, tentando colocar ainda mais lenha naquela fogueira.
- Olha quem fala? — respondeu ele, procurando me rebater.
- Fiquei sabendo que um dia desses a Fátima Boi te deu o maior beijão lá no elevador do Ed. Amazonas, num foi, Jo? — respondeu ele, lembrando de um fato que realmente tinha acontecido comigo.
- E o cara ficou caidão — respondeu Jo, procurando dar uma força às palavras de SC.
- Agora, meninos… — interrompeu-nos François, talvez até para dar um fim àquela nossa interminável conversa — …mantenham o pintinho de vocês presos na gaiola, porque o que vou mostrar neste momento é simplesmente maravilhoso — completou, mostrando-nos aquele livro que há tempos segurava em suas mãos.
- Ahhhh! O que é isso? — perguntou SC, todo excitado, e nós também não ficamos atrás.
- Caráio, mostra logo esse livro aí, François! — completou M-Mentiroso, que, daquele momento em diante, esqueceu completamente o papel que vinha representando.
O livro que François começou a folhear diante de nós estava repleto de fotos de belas mulheres nuas, nas posições mais ousadas e excitantes. Naquela idade, se um livro daqueles caísse em nossas mãos, era provável que entrássemos num estado de masturbação permanente.
Aquilo, para nós, era completamente novo. Fotos de mulheres peladas, nós nunca tínhamos visto. A única coisa que conhecíamos eram aquelas revistinhas repletas de histórias eróticas, mas que não apresentavam fotos, e sim desenhos livres, feitos à mão.
Ficamos ali nos espremendo, com um querendo passar por cima do outro, tal era o desespero diante daquelas maravilhosas fotos, a maioria em preto-e-branco, com mulheres exibindo suas bundas torneadas e sempre em posições tremendamente sensuais.
- Para de babar em cima de mim, seu filho da puta! — falou SC para M-Mentiroso.
- Tira essa porra desse caráio daqui, véio! — falou M-Mentiroso, dirigindo-se ao Jo, que estava se apoiando sobre ele, querendo encontrar um melhor ângulo para ver aquelas fotos.
Por algum tempo permanecemos completamente entretidos com aquelas lindas mulheres que estavam desfilando perante nossos olhos perplexos, enquanto François ria-se a valer, tamanho era o nosso estado de excitação.
- François, onde é que vende um livro desses? — perguntou M-Mentiroso.
- Olha, acho que vocês podem encontrar na Livro 7.
A Livro 7 era uma livraria que existia na Rua Sete de Setembro, na quadra seguinte àquela onde ficava o nosso ponto de encontro. Ela foi fundada em 1970, numa pequena loja de pouco mais de 20 metros quadrados, e mudou-se, em 1978, para um enorme galpão, na mesma rua, com o objetivo de se tornar a maior livraria pernambucana. Com os seus cavaletes e estantes ocupando um espaço de 1.200 m², acabou, de fato, entre os anos 1970 e 1980, tornando-se a maior livraria do Brasil em número de títulos e extensão de prateleiras, segundo o Guinness Book.
Era o orgulho de todo pernambucano e, com o tempo, dizem que passou a ser uma espécie de Academia Pernambucana de Letras, na qual ter o seu retrato exposto acima das estantes significava um reconhecimento e uma certa imortalidade para a sociedade literária recifense. Não foram poucos os intelectuais, escritores e poetas que doaram seus retratos para ali ficarem expostos; entre eles, podemos citar Gilberto Freyre, Ariano Suassuna, César Leal e João Cabral de Mello Neto, e muitos deles, inclusive, costumavam fazer o lançamento dos seus novos livros naquele espaço tão badalado.
É lógico que iríamos à Livro 7 para ver se conseguiríamos encontrar aquele livro. Posteriormente, discutindo essa possibilidade, chegamos à conclusão de que dificilmente aquilo poderia se tornar viável por causa de algumas questões básicas: dentre elas, o seu custo — que, para ser adquirido, iria exigir uma angariação de fundos, ou seja, ele não iria pertencer a um só — e, por último, dificilmente conseguiríamos transitar por nossas casas com um livro daquele tamanho sem que nossos pais percebessem. Depois de um bom tempo folheando aquelas páginas desconcertantes, François fechou o livro e falou:
— Chega, meninos… vamos parar por aqui! Não quero ejaculações precoces em minha sala.
E foi então que a sala inteira se desfez numa gargalhada só, um riso coletivo, largo, quase incontrolável.
— Antes de vocês irem embora… deixa eu mostrar mais umas coisinhas.
François voltou ao escritório, guardou com extremo cuidado o livro de Valentin — como quem recolhe um objeto sagrado — e retornou trazendo outros dois volumes, menores, do tamanho de um romance comum.
— Olha… esse livro aqui foi escrito por uma modelo brasileira, hoje muito famosa, descoberta pelo nosso querido fotógrafo. O nome que ela assina é Glorinha Kibunda… embora esse não seja o seu verdadeiro nome. É apenas um pseudônimo.
E então François começou a nos contar — com aquela mistura peculiar de malícia e encantamento — que a modelo ainda era virgem quando Valentin a fotografara nua pela primeira vez. Que acabaram se envolvendo. Que ela, até então inexperiente, além de ter sido desvirginada por ele, passou a se entregar ao sexo anal quase que diariamente, rendida àquela que era a grande tara do mestre da fotografia.
Apaixonou-se. Não por ele apenas — mas por aquilo. Pela prática. Pela descoberta.
E anos depois, como quem registra uma iniciação, publicou um pequeno livro autobiográfico, onde contava um pouco da sua história. O título, segundo François, vinha como uma dedicatória direta, quase íntima, ao seu descobridor:
Este rabo é todo teu, Zé Bedeu.
Diante de um título tão inesperado, tão brutalmente direto, ficamos todos — os quatro — completamente pasmos por um segundo, apenas para, no instante seguinte, desabarmos numa gargalhada única, contínua, contagiante. François nos acompanhava, rindo como quem reconhece o absurdo como forma legítima de verdade.
Logo depois, ele nos contou que Valentin era um apaixonado pela obra de Machado de Assis — e que, tomado por essa admiração, decidira também se lançar como escritor.
Mas que belo cu, Capitu! — fora o nome escolhido para o seu primeiro romance.
E nós… nós já não ríamos: explodíamos.
E rimos ainda mais — se é que isso era possível — quando soubemos que, lá do Senegal, esse fotógrafo que agora ensaiava seus primeiros passos como romancista estava prestes a concluir mais uma obra, com o insólito título de:
Garçom, me veja dois ânus bem passados, por favor!
Quantas surpresas mais aquela noite ainda guardava?
Foi essa a pergunta que me atravessei por dentro naquele instante — sem saber que outras tantas, talvez ainda mais improváveis, estavam por vir.
— Tem mais uma última coisa que eu queria mostrar pra vocês… antes de irem embora.
François caminhou novamente até o quarto e voltou trazendo consigo um pequeno estojo transparente, segurando-o com um certo orgulho quase cerimonial.
— Vocês estão vendo este estojo aqui?
— Sim! — respondemos, praticamente em uníssono.
— O que é isso, François? — perguntou M-Mentiroso.
— Vou contar a história desse estojinho pra vocês…
E então começou.
Disse que, no verão de 1967, quando estivera em Paris — ou melhor, quando dizia ter estado — Valentin o convidara para conhecer um balneário no sul da França: Calanque d’En-vau, uma praia escondida em Cassis, próxima de Marselha, onde moravam seus pais. Um lugar reservado, quase secreto, frequentado pela elite francesa justamente por sua discrição.
SC, surpreso, interrompeu:
— Cara, eu não sabia que você já tinha ido para a França…
François confirmou, com naturalidade. Hoje sabemos que era fantasia — mas, naquele momento, acreditávamos.
E continuou.
Ao chegarem, o pai de Valentin revelou algo curioso: a praia estava imprópria para banho. Intrigante. Inexplicável. Não havia esgoto, nem ocupação urbana por perto. Ainda assim, os testes indicavam um alto grau de coliformes fecais.
François então encurtou:
— Pra resumir, meninos…
Valentin, ao ouvir aquilo, lembrou-se de um amigo que trabalhava na vigilância sanitária de Marselha. Após investigar, chegaram a uma conclusão tão inesperada quanto absurda: a contaminação ocorria porque os frequentadores — franceses pouco afeitos à higiene regular — estavam levando para o mar resíduos oriundos da falta de asseio íntimo adequado.
Foi então que surgiu a ideia.
Uma ideia ao mesmo tempo genial e inimaginável.
A criação da operação:
Opération anus propre, plage propre.
— Operação ânus limpo, praia limpa.
Na entrada da praia, construíram instalações obrigatórias: uma para homens, outra para mulheres. Ali, cada banhista deveria realizar sua higiene anal sob supervisão. Caso o papel acusasse resíduos, recebia um Kit Ânus — Le trousse anus — e era encaminhado para uma cabine com bidê, água quente e todos os instrumentos necessários.
E era justamente esse kit que François agora segurava em suas mãos.
Dentro dele: uma pequena toalha, sabonete neutro, uma esponja… e uma bisnaga de Xilocaína.
— Vocês não estão acreditando em mim, não é?
— Não é questão de acreditar… — respondeu M-Mentiroso — …é que isso é meio inacreditável.
— Mas é verdade, meninos! Olhem aqui…
— Por que tem Xilocaína, François? — perguntou Jo.
E então veio a explicação.
Segundo ele, médicos e sanitaristas consideraram que a praia era muito frequentada por homossexuais e, também, por mulheres que, diante da dificuldade de acesso à pílula anticoncepcional na época, recorriam ao sexo anal como alternativa.
— Ui… que delícia! — completou François, em tom debochado.
— Então as francesas eram todas bundeiras? — ironizou Jo.
— Ah! quer dizer que elas davam a roseleta? — perguntei.
— Púrpura do Cairo… — respondeu François, com rapidez, retomando o universo de Valentin.
A inclusão da Xilocaína, explicou, visava evitar dor durante a higienização — especialmente considerando possíveis ferimentos.
— É bem provável que os aninhos deles estivessem feridos… — disse, rindo copiosamente.
A operação foi um sucesso. A praia voltou a ser própria para banho. Mais tarde, foi desativada por constrangimento dos frequentadores — mas o hábito da higiene permaneceu.
Passamos o estojo de mão em mão, entre curiosidade e um leve constrangimento que pairava, silencioso, entre nós.
Tudo aquilo era novo. Estranho. Fascinante.
E, quando achávamos que já tínhamos visto de tudo, François nos surpreendeu mais uma vez:
— Chega por hoje, meus queridos!
Tentava conter nossa excitação — já transbordante.
— Da próxima vez que vocês vierem aqui… e eu sei que vão voltar… eu vou contar um segredo pra vocês.
— Mais um? Dá uma pista! — pediu SC.
— Além de artista plástico… eu também sou escritor. Mas escrevo para um público… como posso dizer… das meninas… assim como eu.
— Como, escritor? — perguntei, com a mais perfeita cara de inocência.
— Conto outro dia.
— Mas onde vende isso? — insistiu SC.
— São livros meio apócrifos… não se encontram em qualquer lugar.
— Tipo aquelas revistinhas do Recife Antigo? — perguntou Jo.
— Isso mesmo, Josinho… Há lugares específicos. Perto da Universidade Católica, por exemplo. Mas os frescos de Recife sabem muito bem onde encontrar… assim como vocês sabem onde comprar suas revistinhas.
— Está bem, François… da próxima vez você nos conta — encerrou M-Mentiroso.
Mas nunca houve próxima vez.
Nunca mais voltamos àquela casa.
E assim, o segredo permaneceu suspenso — como tantas coisas que a vida nos mostra e depois recolhe, sem explicação.
Com o tempo, esquecemos. Ou fingimos esquecer.
Não frequentávamos livrarias. Não tínhamos como confirmar nada.
Lembro apenas de ter visto, uma única vez, na Livro 7 — enquanto buscava um livro indicado pela escola — um exemplar solitário. Justamente aquele que fora premiado.
Saímos da casa de François carregando uma excitação difícil de nomear. Havíamos sido atravessados por um excesso de descobertas em pouco mais de duas horas.
Mas a noite… a noite ainda não havia terminado.
Eu ainda tinha uma história para contar aos rapazes.
E eles não faziam a menor ideia do presente que estavam prestes a receber.
Curiosamente — e talvez não por acaso — deixamos a casa de François sem que ele voltasse a mencionar, sequer uma vez, sobre o que de fato escrevia.
Talvez porque certos segredos…
precisem permanecer assim.
Capítulo V
Existem risadas que ecoam pela eternidade
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- Cara, esse pênis dourado era, na verdade, um troféu que o François havia recebido por causa deste livro que ele escreveu, entendeu?
- Um pênis mesmo?
- Sim, um pênis dourado que estava apoiado sobre uma base de madeira, como te falei!
Procurei me ater à moral de cada história, pois seria impossível resgatar todos os textos, até por causa da extensão dos mesmos. Chamei a atenção dos rapazes para a bizarrice dos títulos, que eram os mais inusitados possíveis, a fenomenal capacidade que ele, François, tinha de escrever sobre diversos gêneros literários, que iam de contos infantis até ensaios filosóficos, lembrando também dos depoimentos que estavam escritos nas contracapas e orelhas dos livros, visto que estes conferiam-lhe uma autenticidade que de certa forma era inimaginável, a julgar pelos títulos, ao mesmo tempo em que procurei descrever um pouco daquilo que julguei ser o seu estilo.
- E você, Carlinhos, também não sabe o que aconteceu... DEPOIS DAQUELE PEIDO... - falou Jo com voz de narrador de novela e também desabou no chão de tanto rir.
- Nem também o que aconteceu DEZ ÂNUS DEPOIS - completou SN também desabando de tanto rir.
- Gélida bovina? O que é isso? Perguntou Jo.
- Voltando a vaca fria, cacete! - respondeu M sorrindo.
- Muito bem sacado, M! - completei.
- Aproveita e leva o Kit ânus... - respondeu Jo, se desmanchando no chão.
- Leva você, seu fresco, você que fica dando a roseleta lá nos pátios do Americano Batista! - respondeu SC fazendo alusão ao colégio onde o Jo estudava, importante instituição de ensino que fora fundada em 1906 por um missionário americano e por onde passaram personalidades famosas como Ariano Suassuna e Gilberto Freyre.
- Lembrei! - continuei de onde havia parado - Esses personagens faziam parte de um conto futurista do François, que não consigo recordar o nome agora, mas que lá pelas tantas dizia que no futuro as bichas iriam tomar conta do mundo.
Capítulo VI
Desculpem-me os menos letrados, mas filosofar é fundamental
Capítulo VII
O divertido Felipe e suas loucas profecias
X
Na verdade, no fundo, no fundo, o que vai acontecer, é que o mundo vai sacramentar a putaria, normatizando-a, ou seja, tal qual já vemos no Direito Trabalhista, por exemplo, onde existem Leis para regular a relação entre empregadores e empregados, fazendo-os parecer que eles competem em mesmo pé de igualdade quando de fato apenas estão revestindo de legalidade a Exploração daqueles que são os donos do Capital contra aqueles que nada têm, visto que os que detém os meios de Produção, mesmo quando perdem algum funcionário, podem repô-lo facilmente já que existem milhares de desempregados querendo ocupar aquela vaga e aceitando até valores mais baixos, enquanto um trabalhador, por outro lado, talvez nem consiga encontrar um novo emprego, da mesma forma, a putaria vai acabar sendo legalizada, fazendo com que se instituam normas jurídicas para também revestir de legalidade toda a escrotidão, pois, como sabemos, as sociedades são dinâmicas, mudam o tempo todo, e as leis precisam mudar para se adaptarem à essas mudanças.
Contudo, não pensem que eles estarão preocupados, já que os confortos da vida moderna irão entretê-los a ponto de fazerem esquecer da ação dita política. O hiperconsumismo irá se encarregar de atender às suas necessidades, mesmos que essas necessidades não constituam seus verdadeiros desejos. As suas mentes vão estar totalmente colonizadas e eles não serão nada mais além de mão de obra docilizada voltada para o mercado de trabalho, e isso, quando tiverem trabalho, pois estes vão estar escassos e aqueles que estiverem empregados, vão estar sob tão fortes pressões competitivas que muitos entrarão em depressão e é possível que os casos de suicídio aumentem.
Capítulo VIII
Sorrir, é o melhor remédio
COLEÇÃO DE FOTOS - Locais por onde este conto se passa
A esquina da Rua Sete de Setembro com a Av. Conde da Boa Vista, a esquina mais charmosa da cidade...

Minha residência na Rua Martins Jr.

Rua Martins Jr.
Rua Corredor do Bispo - vista do Colégio Esuda
Esquina da Rua Gervásio Pires com a Av.Conde da Boa Vista.
Colégio Marista - Av. Conde da Boa Vista
Av. Conde da Boa Vista próxima à Rua do Hospício
Av. Conde da Boa Vista, visão da esquina da Rua Sete de Setembro
Rua Sete de Setembro vista por outro ângulo
A famosa esquina da Rua Sete de Setembro com a Av. Conde da Boa Vista.
Vista da porta do Ed. Ouro - Rua Sete de Setembro
Minha residência vista por outro ângulo.
Corredor do Ed. Amazonas, nosso local de reunião nos finais de noite em dias da semana.
Nosso local de reunião visto por outro ângulo.
Corredor do Ed. Amazonas
Rua Martins Jr. - vista do Ed. Amazonas por outro ângulo.
Residência de François Hold
Rua Imperatriz, esquina com a Bulhões Marques















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