Rodinha de samba, não era, não!



Era mais uma daquelas noites quentes de verão, dessas que hoje o corpo reconhece antes mesmo da lembrança, e a turma da Esquina Sete, fiel ao seu próprio ritual, mais uma vez se reunia. Não exatamente naquela esquina emblemática — ponto de partida e retorno, berço de tantas histórias e de tantos de nós — mas ali, no velho estacionamento, território improvisado onde as noites se alinhavam.

Postavam-se como sempre: enfileirados, sentados ao longo do muro extenso, como se aguardassem uma senha invisível, um chamado secreto para algum serviço que ninguém sabia nomear — e talvez nem precisasse.

Curioso registrar: o calor, esse que hoje pesa, insiste e me aflige, não habita minhas memórias. Hoje ele me oprime; ontem, era ausência. Dizem — e as más línguas às vezes acertam — que, com o passar dos anos, precisamos de mais frio para nos conservarmos. Um grau a menos por ano, como se fôssemos matéria sensível em processo de desgaste. Talvez haja verdade nisso: o tempo exige refrigeração da alma.

Lembro-me então de Jean-Paul Sartre, que certa vez escreveu sobre o verão como quem revisita um engano da memória: na infância, o sol era festa, pura luz; o calor, inexistente. Mais tarde, torna-se presença esmagadora. O céu, um espectro mineral; os corpos, chamas em movimento. Sim — o calor existia, mas não permanecia.

E assim, ignorando-o, a cidade brilhava.

Luzes em múltiplos matizes riscavam a noite. De algum lugar, não muito distante, o vento trazia o sopro salgado do mar, uma brisa que acariciava o excesso. As placas em neon pulsavam como constelações urbanas, e a noite, sempre em festa, não abria exceção naquele dia.

E ali, competindo com esse brilho elétrico, estavam eles — os rapazes — reunidos mais uma vez. Havia riso, havia grito, havia algo entre alegria e dor vibrando no ar.

Mas por que dor?

Antes da cena, a origem.

Aquela brincadeira — se é que se pode chamar assim — certamente não nascera dos mais frágeis. Não, não de mim. Eu tinha juízo, ou ao menos acreditava ter. Aquilo só podia ter vindo dos mais robustos, dos que carregavam no corpo a força e no espírito uma certa inclinação ao excesso. Os “monstrinhos”. Os irmãos F e N.

Sim, só podia.

Naquela noite, estavam todos de pé, encostados nos carros que pontuavam a rua. Sete, oito figuras — um pequeno coletivo — e à frente deles, um escolhido. De costas. Exposto. O centro involuntário do jogo.

A regra era simples, quase brutal em sua simplicidade: um golpe desferido pelas costas. O atingido deveria adivinhar o autor. Acertava? Trocavam de lugar. Errava? Recebia outro golpe. E assim a roda girava — entre vinganças e fracassos, entre justiça e acaso.

Havia momentos em que a identificação era fácil. Certos golpes carregavam uma assinatura. Violentos demais para serem anônimos. Bastava recompor o fôlego, virar-se e apontar. Era um dos monstrinhos, inevitavelmente. E eles se denunciavam no riso — caíam no chão, incapazes de conter a própria gargalhada.

Quando isso acontecia comigo, o mundo se estreitava numa única palavra: vingança.

Mas nunca era à altura.

Faltava-me força. E sobrava-lhes resistência. Touros humanos. Meus golpes mal os tocavam, enquanto os deles me atravessavam. Se nas brincadeiras do Seu Martinho minhas mãos apenas ardiam, ali eu saía com o ar faltando no peito.

Até que, numa dessas noites, fui eu o escolhido.

De costas. Vulnerável. Respirando entre um impacto e outro, tentando manter a dignidade entre golpes sucessivos. Até que veio um — um desses que não se esquecem — e me derrubou.

Caí.

O chão me acolheu com dureza. O sangue subiu ao rosto. Levantei-me como pude, inflamado por uma mistura de dor e revolta.

— Féla da puta! Só pode ter sido você, seu monstro miserável!!!

Virei-me.

E lá estava N — também no chão, mas por outra razão: ria. Ria como se o mundo fosse apenas aquilo. Ria até perder o equilíbrio.

— Puta merda, caralho! Precisava bater tão forte assim?!

— Vem pra cá agora! Vou me vingar!

Mas quanto mais eu falava, mais ele ria. E o riso dele contaminava tudo. Era impossível contê-lo — espalhava-se pelo grupo, dissolvia a tensão, desarmava até a minha raiva.

— Não fui eu! Foi o F!

— F um caralho! Foi você! Você! E para de rir!

Mas ele ria.

E os outros riam.

E, contra toda lógica, eu também sentia a risada querendo escapar.

— Vocês estão rindo porque não foi em vocês!

A promessa de vingança ecoava — mais ritual do que intenção.

Naqueles dias, saía dali muitas vezes decidido a não voltar. Jurava a mim mesmo que era a última vez.

E no dia seguinte… tudo dissolvido.

Porque, no fundo, eu sabia: pertencer àquela turma era maior que qualquer pancada. Aquelas “iniquidades” — vistas de fora como violência — eram, para nós, linguagem. Não havia maldade nelas, apenas intensidade.

Era assim que se vivia.

A juventude se reunia para celebrar, ainda que de formas tortas. Tudo era motivo de encontro. Diferente de hoje, onde tantos se encontram para se confrontar.

Naquele tempo, a televisão engatinhava, as propagandas eram quase inocentes, e o mundo ainda não havia sido capturado pela virtualidade. Não havia internet, nem jogos eletrônicos, nem redes sociais.

A vida acontecia na rua.

Nos encontros.

Nos bailes.

E até naquelas rodinhas — que, definitivamente, não eram de samba.

Hoje, tudo se tornou conexão e desconexão. Amizades que se iniciam com um clique e se desfazem com outro. Redes que crescem em número e minguam em densidade. Relações leves demais para resistirem ao tempo.

Mas não aquelas.

Aquelas persistem.

Mesmo com décadas de silêncio, permanecem intactas em algum lugar profundo. Não se apagam. Não se dissolvem. Apenas repousam.

E, paradoxalmente, aquelas sessões de pancadaria — duras, intensas, absurdas — ajudaram a forjar algo que o tempo não conseguiu romper.

Não eram rodinhas de samba, é verdade.

Mas havia música.

E essa música — invisível, indizível — ainda toca.

E continuará tocando…

até que o último dos nossos corações decida, enfim, silenciar.

Carlos Pessegatti (Carlinhos)

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