Perto da Borda
Perto da Borda
Saímos naquela manhã do Colégio Esuda com a leveza de quem acabara de atravessar mais uma prova — não apenas escolar, mas quase iniciática. Era o ano mágico de 1972, e havia no ar uma promessa difusa, como se o mundo estivesse prestes a se revelar de outra maneira.
Passava das dez e meia quando encontrei Aroldo Bispo à porta do colégio. Sem grandes cerimônias, como convém às amizades verdadeiras, decidimos seguir até Boa Viagem, almoçar em sua casa e deixar o dia nos conduzir. Descemos pela Rua Corredor do Bispo, aquela diagonal discreta que liga a Rua do Príncipe à Gervásio Pires, e dali ao pulsar nervoso da Avenida Conde da Boa Vista. Caminhávamos em estado de liberdade recém-conquistada, inventando possibilidades, como se o tempo nos pertencesse.
Ao alcançar a avenida, já viva e tumultuada, uma brisa vinda do mar nos tocou. Trazia consigo algo mais que o vento — uma espécie de presságio. Misturava-se aos odores do Capibaribe, e naquele instante tive a impressão clara de que algo novo nos aguardava, algo que ainda não sabíamos nomear.
Foi então que, ao chegarmos à esquina com a Rua da Aurora, junto à Ponte Duarte Coelho e ao lado do antigo Cine São Luiz, fomos puxados — como por uma força invisível — para dentro da loja Aky Discos. Ali, naquele recuo em arco, quase como um pequeno templo profano, nos deparamos com o inesperado: o novo álbum do Yes, recém-chegado. Seu nome: Close to the Edge.
Era mais do que um disco. Era um acontecimento.
Já carregava comigo a memória ainda recente de Fragile, que me fora apresentado meses antes por Cirinho, recém-chegado dos Estados Unidos com sua bagagem de sons e descobertas. Aquele álbum abrira em mim uma fenda irreversível. Até então, eu orbitava entre The Beatles, e os gigantes do peso e da distorção como Grand Funk Railroad, Deep Purple, Led Zeppelin, Uriah Heep e Black Sabbath. O Pink Floyd já me rondava, é verdade, mas ainda sem me capturar por inteiro.
Mas Fragile — ah, aquele disco — rompeu tudo.
“Roundabout” começou como um enigma: o Moog ascendente, abruptamente cortado por um violão clássico de Steve Howe, e depois o baixo de Chris Squire, que não apenas sustentava — ele dançava. Ali, algo em mim se reorganizou. Anos depois, seria esse chamado que me levaria ao piano.
E agora, diante de Close to the Edge, sentia o mesmo abalo sísmico antes mesmo da primeira audição. A capa — concebida por Roger Dean — já não trazia paisagens fantásticas, mas um enigma contido, como um livro fechado que exigia ser aberto com reverência.
Eu e Aroldo nos entreolhamos. Éramos duros — e sabíamos disso. Mas naquele instante, como por uma conspiração do destino, reunimos o suficiente. Saímos da loja carregando não apenas um disco, mas uma chave.
Atravessamos a ponte Duarte Coelho em estado de excitação silenciosa. Seguimos até a Praça Joaquim Nabuco e dali rumo a Boa Viagem. Ao chegar, almoçamos na casa de Aroldo, sob o cuidado generoso de sua mãe. Mas sabíamos: aquele disco não pertencia àquele espaço doméstico. Ele exigia outra atmosfera.
E assim partimos novamente, agora em direção à casa de um jovem conhecido de Aroldo, filho de um brigadeiro da Aeronáutica. Fomos recebidos e conduzidos ao seu quarto. A agulha tocou o vinil.
A audição foi breve — quase um vislumbre. O Lado A, com sua única faixa monumental, nos desconcertou. O Lado B prometia expansões ainda mais vastas. Mas o ambiente não nos permitia mergulhar. Era como observar o cosmos por uma fresta.
Saímos dali e fomos nos sentar no banco de cimento à beira da praia. O mar à nossa frente, o disco ainda ecoando dentro de nós. Tentávamos decifrar.
A faixa-título começava com uma guitarra atonal, caótica, quase violenta. Não sabíamos para onde aquilo nos levaria. Nunca tínhamos ouvido nada semelhante.
— É pambenílica demais — disse Bispo.
E eu concordei.
Pambenílica: palavra nossa, código íntimo. Referência ao Pambenyl, xarope que nos empurrava para estados alterados da percepção. Aquela música fazia o mesmo — sem substância, apenas som.
Decidimos voltar ao centro. Precisávamos de Cirinho. Ele entenderia.
Na esquina da Sete de Setembro com a Conde da Boa Vista — nosso observatório do mundo — encontramos também Cleon. Bastou mencionar o disco, e a decisão foi imediata: subiríamos ao apartamento.
Mas não antes de um ritual preliminar — uma visita à farmácia. Sabíamos que aquele mergulho exigia mais do que ouvidos.
Instalados no quarto, diante da pequena vitrola, iniciamos o verdadeiro encontro. E ali, na varanda, observando o fluxo incessante da cidade — carros, ônibus, pessoas — tudo começou a se reorganizar. A cidade virou música. A música virou mundo.
Cada acorde nos atravessava. Cada passagem nos expandia. Aquilo não era apenas escuta — era transformação.
Hoje, olhando para trás, compreendo: aqueles dias, aqueles encontros, aquelas descobertas — tudo isso formou o barro sensível de quem nos tornamos. Há experiências que não passam. Elas permanecem em estado latente, prontas para serem revividas a cada lembrança.
Envelhecemos, é verdade.
Mas aqueles jovens — sentados à beira do mundo, à beira do som, perto da borda — continuam vivos. Não como memória distante, mas como presença contínua, cravada em nossas almas, pulsando, silenciosamente, dentro de nós.
Carlos Pessegatti (Carlinhos)
Abril de 2026
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