A Estrada, o Sol e os Lobos
A Estrada, o Sol e os Lobos
Dedicatória
Dedico este conto àqueles que caminharam comigo sob o sol impiedoso daquela estrada interminável.
Ao Jorge e ao Caneca, companheiros de juventude, de loucuras, de sonhos musicais e de imprudências que somente a adolescência é capaz de transformar em epopeia.
Sem vocês, aquela aventura jamais teria existido.
E sem a memória de vocês, ela jamais poderia ter sido contada.
Foi embalado pelo estrondo que o Rock provocara no mundo, naquele início vertiginoso dos anos 1960, que eu e Jorge compramos os nossos primeiros violões. Os chamados “conjuntos” começavam a surgir por toda parte. Primeiro vieram Os Beatles, depois os Os Rolling Stones, e logo em seguida a nossa Jovem Guarda, que transformou a juventude brasileira numa legião de rapazes sonhando com guitarras elétricas, topetes, amplificadores e canções de amor.
Foi nesse tempo que começamos a arrancar dos violões os nossos primeiros acordes tortos, inseguros e desafinados, mas que, para nós, soavam como o anúncio glorioso de um futuro artístico inevitável.
Pouco depois, enlouqueci de inveja quando Jorge apareceu com uma guitarra Alex, presente de sua mãe, num modelo vagamente inspirado nas famosas Stratocaster da Fender. Aquilo, para mim, não era apenas um instrumento. Era um passaporte para outro mundo.
Naturalmente, passei a atormentar minha avó para que me comprasse uma também. Mas não qualquer uma. Eu queria justamente a melhor guitarra brasileira da época, uma Giannini. E queria porque, de tolo, eu não tinha absolutamente nada.
O problema era o preço.
Minha avó, numa tentativa conciliadora, propôs comprar uma outra mais barata, da marca Phelpa. Até hoje não sei explicar a razão daquela antipatia irracional, mas eu detestava aquelas guitarras. Detestava o desenho, o acabamento, o nome, tudo. Mimado e teimoso como só os adolescentes conseguem ser, bati o pé: se não fosse a Giannini, então não seria nenhuma.
E assim aconteceu.
Fiquei sem guitarra.
Naquele tempo, Caneca, que era uns três anos mais velho que eu e Jorge, já se encontrava num estágio musical um pouco mais avançado. O que ele fazia ao violão ainda me parecia pertencer a uma dimensão inalcançável. Talvez por isso eu tenha acabado indo parar no contrabaixo, embora, para dizer a verdade, nem eu mesmo me lembre direito de onde aquele baixo surgiu. Em certas épocas da juventude, os objetos simplesmente aparecem em nossas vidas como se fossem soprados pelo vento das circunstâncias.
Era 1968.
Eu tinha quatorze anos. Jorge já andava pelos quinze. E Caneca, aos nossos olhos, parecia praticamente um adulto, com seus dezessete anos recém-chegados e aquela segurança insolente de quem acreditava conhecer o mundo inteiro apenas porque já pegava dois ônibus sozinho.
Nós ainda não havíamos alcançado o grande rito de passagem da juventude da Rua Sete de Setembro: a famosa esquina com a Avenida Conde da Boa Vista. Aquela esquina não era apenas uma esquina. Era um território mítico. Uma espécie de portal para o mundo adulto, com seus mistérios, suas meninas, seus cigarros escondidos, suas conversas intermináveis e suas descobertas perigosas.
Enquanto não chegávamos àquela consagração urbana, sobrevivíamos frequentando os bailinhos do bairro e os clubes mais famosos da cidade — o Português, o Internacional e o Náutico — sempre orbitando a nossa própria rua como pequenos planetas presos à gravidade da adolescência.
Caneca, no entanto, possuía uma inquietação incurável. Não sei de onde surgiam aquelas ideias delirantes que habitavam sua cabeça, mas ele tinha o hábito de escolher, a cada fim de semana, um bairro diferente do Recife para explorarmos. A proposta era simples: ir a pé e voltar de ônibus.
Hoje penso que talvez estivéssemos apenas tentando ampliar o tamanho do nosso mundo.
Numa dessas expedições sem rumo, acabamos indo parar na Mustardinha. Não me lembro mais por que fomos justamente parar ali. Nem como, porque era longe. Talvez Jorge ainda recorde. Talvez nem ele. A memória, às vezes, guarda apenas a atmosfera das coisas e deixa escapar os detalhes.
Foi naquele bairro que conhecemos um rapaz cujo nome o tempo apagou completamente da minha cabeça. O que não apagou foi a imagem da sua bateria improvisada, precária, quase desmontando diante dos nossos olhos.
E foi com ele que nasceu o nosso primeiro conjunto.
Eu no contrabaixo. Jorge na guitarra base. Caneca na guitarra solo. E o novo amigo na bateria cambaleante.
Tocávamos nas festas de algumas das muitas meninas que fomos conhecendo no bairro, em troca de um frango assado e algumas doses de Ron Montilla durante os intervalos. Éramos tão ruins, mas tão ruins, que não demorava muito para alguém gritar do meio da festa:
— Queremos vitrola!
A humilhação só não era absoluta porque a juventude possui um talento extraordinário para sobreviver ao ridículo. Jovens são aventureiros inconsequentes. Se deixar, tomam sopa de garfo e ainda se acham gênios da engenharia.
Certa vez, José, o companheiro da minha avó, nos ouviu ensaiando na casa de Jorge e resolveu batizar aquele desastre musical com um nome que, infelizmente, nos acompanharia por algum tempo:
— The Caatinga Boys.
Foi justamente durante essa fase — movida por sonhos musicais gigantescos e talentos microscópicos — que Caneca apareceu com uma nova ideia. Seus primos tinham uma banda já formada chamada Os Lobos, e ele decidiu que precisávamos conhecê-los.
Havia apenas um pequeno detalhe.
Os tais primos moravam em Carpina, na Zona da Mata pernambucana, a uns cinquenta quilômetros do Recife.
Mesmo assim, Caneca arquitetou o plano com a convicção de um marechal em campanha militar. Tiraríamos um fim de semana para visitá-los. Até aí, tudo parecia razoável. O problema começou quando descobrimos que não tínhamos dinheiro suficiente para a viagem.
Foi então que ele pronunciou a frase que deveria ter servido de aviso para a nossa insanidade juvenil:
— A gente vai a pé.
— A pé, Caneca? — perguntei, olhando para ele como quem encara um doente mental recém-fugido de um hospício.
— Sim, Carlinhos.
— Mas isso é longe pra danado! — protestou Jorge.
Caneca permaneceu sereno. Já tinha tudo calculado naquela sua cabeça perigosamente vazia.
Pegaríamos um ônibus até Camaragibe, no final da Avenida Caxangá, depois da Várzea. Dali em diante, seguiríamos caminhando pela BR-408 até Carpina.
Segundo os cálculos delirantes do nosso grande engenheiro-logístico, sairíamos cedo de casa e, por volta das sete e meia da manhã, daríamos início à nossa gloriosa aventura. Chegaríamos ao destino por volta das duas da tarde, almoçaríamos na casa dos seus tios, tocaríamos em guitarras e amplificadores profissionais, viveríamos enfim o nosso instante de glória artística e, ao cair da noite, retornaríamos tranquilamente para casa, como heróis de uma pequena epopeia juvenil.
Tudo parecia simples nas geografias fantasiosas das nossas cabeças adolescentes.
Imaginávamos que, ao chegarmos à casa dos Lobos e nos vermos cercados por guitarras reluzentes, amplificadores potentes, cabos, pedais e toda aquela parafernália mágica que para nós possuía quase um caráter sagrado, talvez as nossas limitações se tornassem ainda mais evidentes e humilhantes diante do mundo.
Ou talvez — e essa hipótese nos fascinava ainda mais — fossem justamente aqueles equipamentos, aquele isolamento, aquela atmosfera de estrada, poeira e música que despertassem em nós alguma força adormecida, algum talento oculto que sequer suspeitávamos possuir.
Escolhemos cuidadosamente o grande dia e partimos carregando aquela arrogância luminosa que só os muito jovens possuem: a absoluta convicção de que o mundo jamais ousará lhes impor limites.
Na verdade, hoje acredito que partíamos em busca de algo muito maior do que música.
Sem perceber, caminhávamos lentamente em direção ao primeiro grande embate entre os nossos sonhos juvenis e a brutalidade concreta do mundo real.
Mas antes de enfrentar o sol, a estrada e a própria exaustão, precisávamos resolver uma questão muito mais imediata e perigosa: o que diríamos às nossas mães — e, no meu caso, à minha avó.
Foi então que surgiu a solução perfeita, arquitetada com aquela lógica precária e genial que apenas adolescentes conseguem produzir.
Um outro amigo da Rua Sete de Setembro, conhecido pelo apelido de Foquinha — criatura cujos dentes frontais avançavam para fora da boca numa projeção tão impressionante que o apelido lhe assentava como uma assinatura biológica — tinha um pai proprietário de um sítio em Paudalho, cidade próxima de Carpina.
Pronto.
A história estava criada.
Diríamos que passaríamos o dia naquele sítio.
Nada de perigoso. Nada de aventuras insanas. Nada de longas caminhadas sob o sol assassino do Nordeste.
Ao anoitecer, estaríamos de volta.
Pelo menos era nisso que ingenuamente acreditávamos antes de colocar os pés naquela estrada infinita.
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Pegamos um ônibus na Avenida Conde da Boa Vista, em frente ao Edifício Iran, e seguimos em direção ao bairro de Camaragibe. Seria dali que iniciaríamos a nossa caminhada pela BR-408, estrada que atravessava municípios como São Lourenço da Mata, Tiúma e Paudalho, até alcançar, muitas horas depois, a cidade de Carpina.
Ao descermos no nosso ponto de partida, respiramos fundo como homens prestes a ingressar numa expedição decisiva. Havia em nós aquele sentimento quase solene de quem acredita estar pronto para enfrentar, com a cara e a coragem, tudo o que o caminho pudesse impor.
Daquele ponto exato onde iniciamos a caminhada, sem mochilas, sem cantis e carregando apenas aquela arrogância juvenil disfarçada de coragem, parecíamos homens moldados pelas grandes travessias. Como se já tivéssemos cruzado desertos, serras e fronteiras invisíveis. Como se pertencêssemos, desde sempre, à antiga linhagem dos que seguem a pé em direção ao desconhecido, sem jamais perguntar o que os espera no fim da estrada.
No começo, éramos apenas entusiasmo. O farol verde da liberdade parecia ter finalmente se aberto diante de nós, autorizando a passagem. E assim partimos, tomados por uma alegria quase irresponsável, alimentando na cabeça toda espécie de expectativa grandiosa sobre aquela aventura.
Mas não demorou muito para que a euforia começasse lentamente a ceder espaço à realidade.
Os carros passavam rente aos nossos corpos. Ônibus e caminhões cruzavam a estrada em alta velocidade enquanto caminhávamos por estreitas faixas sinuosas de acostamento, cobertas de areia fofa e cascalhos escorregadios, obrigando-nos a manter atenção constante para não cairmos sob as rodas daquele mundo apressado que rugia ao nosso lado.
Alguns caminhões, daqueles enormes, levantavam rajadas de vento tão violentas ao passar que quase nos desequilibravam. E mesmo assim seguíamos adiante, ainda contaminados por aquela febre irresponsável da juventude, incapazes de compreender plenamente os perigos que uma estrada como aquela podia esconder.
Conversávamos sem parar. Ríamos. Recordávamos as tensões e peripécias da vez em que havíamos entrado clandestinamente no Clube da Polícia Militar. Fazíamos aquilo quase como estratégia de sobrevivência — uma tentativa inconsciente de impedir que o medo, que aos poucos começava a nascer dentro de nós, ganhasse tamanho suficiente para nos fazer desistir.
As horas avançavam devagar.
O ímpeto inicial começou então a dar os primeiros sinais de desgaste. O calor aumentava à medida que o sol subia no céu, embora, naquele tempo, ninguém levasse o calor realmente a sério. Talvez porque a juventude possua essa estranha ilusão de invulnerabilidade, como se o corpo fosse feito de uma matéria diferente daquela que desgasta todos os outros homens.
Anos depois, ao ler Sartre, lembrei-me daquela caminhada. Havia numa de suas observações sobre o verão algo que traduzia perfeitamente o que começávamos a sentir naquela estrada:
“Verão! O céu assombrava a rua, era um fantasma mineral; os transeuntes flutuavam no céu e seus rostos flamejavam.”
Naquele instante, o sol já deixara de ser apenas luz. Tornara-se presença. Peso. Uma força opressiva pairando sobre nossas cabeças.
Depois das onze horas da manhã, quando os primeiros calos e bolhas começaram a nascer em nossos pés desacostumados, o cansaço finalmente resolveu mostrar a sua face.
Foi também depois de São Lourenço da Mata que surgiu um perigo ainda maior do que a proximidade dos veículos.
A paisagem mudou lentamente.
As árvores dispersas e os pequenos arbustos começaram a desaparecer, substituídos por imensas plantações de cana-de-açúcar que avançavam até onde a vista alcançava. Os canaviais agora dominavam os dois lados da estrada, formando corredores intermináveis de folhas afiadas balançando ao vento.
No início, os caminhões carregados de cana surgiam apenas de vez em quando. Mas, à medida que avançávamos e aquelas plantações se tornavam mais densas e extensas, eles começaram a se multiplicar.
E foi então que um novo perigo começou lentamente a revelar a sua verdadeira face diante de nós.
X
O sol do meio-dia havia deixado de ser luz fazia muito tempo. Transformara-se numa entidade cruel, suspensa sobre nossas cabeças, esmagando lentamente três adolescentes imprudentes contra o acostamento ardente da estrada Recife–Carpina.
Já não conversávamos mais. Caminhávamos. Apenas isso. Um pé diante do outro, como condenados atravessando algum purgatório perdido no interior de Pernambuco.
Os calos tinham crescido dentro dos sapatos como pequenas brasas vivas. Cada passo fazia as bolhas se romperem lentamente contra a palmilha ensopada de suor. Em determinado momento, paramos à beira da estrada para decidir qual sofrimento parecia menos desumano: continuar calçados, deixando os pés serem triturados dentro dos tênis, ou tirá-los e entregar a carne viva ao chão escaldante, às pedras e ao cascalho fervendo sob aquele sol assassino.
Jorge foi o primeiro a tirar os sapatos. Caminhou alguns metros rangendo os dentes, pisando devagar, como quem atravessasse brasas. Depois parou. Não suportou.
Caneca já não falava quase nada. O suor descia pelo rosto e desaparecia antes mesmo de alcançar o pescoço. E havia ainda um detalhe que hoje me parece inacreditável: tínhamos partido para aquela aventura sem levar uma única garrafa d’água. Nem cantil. Nem nada. Como se a juventude fosse uma proteção sobrenatural contra a sede, o sol e a estupidez.
A garganta queimava por dentro. A língua começava a ficar grossa, áspera, quase colada ao céu da boca. O próprio ar parecia seco demais para respirar.
Foi então que avistamos o casebre.
Pequeno. De barro. Perdido à margem da estrada como uma sobra esquecida do mundo.
Na frente dele estava uma mulher negra, magra até os ossos, dessas figuras que a pobreza vai lentamente apagando sem jamais conseguir derrubar completamente. Trazia no colo uma criança pequena e outras duas permaneciam perto dela, silenciosas, olhando-nos com aquela mistura de medo e curiosidade que só existe nos lugares onde a vida sempre foi dura demais.
Ao lado da casa havia uma cacimba.
Pedimos água. Não lembro qual de nós ainda teve forças para falar.
A mulher nos olhou por alguns segundos sem dizer palavra. Depois caminhou lentamente até a cacimba e puxou uma corda velha que descia para o fundo escuro da terra. Surgiu então uma espécie de bacia de lata, pingando aquela água barrenta e morna que parecia ter sido arrancada das profundezas secas do sertão.
Ela pegou um copo de latão, velho, carcomido pelo tempo, e o encheu.
Quando olhei para dentro dele, meu corpo estremeceu.
A água estava cheia de pequenos bichos. “Martelos”, como chamávamos naquele tempo. Minúsculas criaturas escuras, girando lentamente dentro do copo, como girinos ainda incompletos.
Senti o estômago embrulhar imediatamente. Por um segundo pensei que não conseguiria beber aquilo. O cheiro da água, o aspecto daquele líquido morno, os bichinhos se movendo devagar... tudo parecia impossível.
Mas a sede era maior que o nojo. Muito maior.
Fechei os olhos e bebi.
Bebi segurando a náusea dentro da garganta, tentando impedir o corpo de rejeitar aquela água miserável que, naquele instante, parecia a única coisa existente entre nós e o desmaio naquela estrada.
Jorge fez o mesmo. Caneca também.
E nunca mais esqueci aquela sensação.
Porque naquele dia compreendi que existe um ponto em que o corpo humano deixa de escolher. Ele apenas sobrevive.
Depois seguimos andando. Lentamente. Em silêncio. Três vultos queimados de sol avançando pelo acostamento como retirantes de alguma seca invisível.
A estrada tremia adiante sob o calor escaldante. Os caminhões passavam rugindo ao nosso lado, levantando vento, poeira e pequenas pedras. Naquela região cercada por imensas plantações de cana-de-açúcar, eles agora haviam se tornado presença constante. Se antes surgiam apenas de tempos em tempos, em pequenos números, daquele ponto em diante pareciam brotar sem cessar da própria paisagem, atravessando a estrada abarrotados até alturas absurdas, carregando montanhas de cana recém-cortada precariamente equilibradas sobre as carrocerias.
Muitas vezes, com o balanço bruto da pista, algumas daquelas varas se soltavam e eram arremessadas violentamente em direção ao acostamento por onde seguíamos. E aquilo não tinha absolutamente nada de brincadeira. Algumas cruzavam o ar como verdadeiros aríetes e, quando vinham enfileiradas e apontadas para frente, pareciam lanças primitivas lançadas contra nós. Bastaria uma única atingir em cheio qualquer um de nós para provocar um ferimento grave — talvez até fatal.
Ainda assim continuávamos caminhando.
Enquanto o couro dos nossos pés rachava sob o peso da estrada, alguma coisa dentro da nossa própria coragem também começava lentamente a se romper. E o sol, impiedoso, parecia nos acompanhar do alto como uma entidade feroz, decidido a testar até onde a juventude consegue suportar a loucura que ela mesma inventa.
Depois daquela água retirada da cacimba — aquela água morna, barrenta, cheia de pequenos seres vivos que tivemos de beber de olhos fechados para não vomitar — continuamos caminhando pela estrada em silêncio, como se cada um de nós tivesse entrado sozinho dentro da própria exaustão.
O sol permanecia acima de nossas cabeças como uma condenação. Já não queimava apenas a pele. Parecia cozinhar lentamente os pensamentos.
Foi então que vimos o rio.
Ele corria do outro lado da pista, paralelo à estrada, como uma aparição. Escuro. Silencioso. Quase imóvel sob aquela luz branca do meio-dia. Não era muito largo — talvez quinze ou vinte metros — mas depois de horas caminhando naquele inferno de poeira, calor e sede, aquele pedaço de água nos pareceu uma espécie de milagre.
Sem pensar muito, atravessamos a rodovia e começamos a descer a ribanceira. A terra solta escorregava sob os nossos pés já destruídos pelas bolhas. Em alguns trechos havia mato seco, pedras e pequenos barrancos que precisávamos segurar com as mãos para não cairmos rolando até a margem.
Quando finalmente chegamos lá embaixo, permanecemos alguns segundos apenas olhando o rio.
Havia nele uma beleza estranha.
A água era escura, quase negra em alguns pontos, talvez pela profundidade ou pelo reflexo da vegetação. A correnteza não parecia muito forte, mas também não era completamente mansa. O rio seguia seu caminho em silêncio, indiferente à nossa miséria, como se existisse ali desde o princípio do mundo.
No ponto onde estávamos próximo a água erguia-se um enorme rochedo ovalado bem no meio do rio. Devia ter quase dois metros acima da superfície. Era imponente. Antigo. Coberto por um lodo espesso que brilhava sob o sol. A pedra parecia respirar umidade e perigo ao mesmo tempo.
Tentamos imaginar se seria possível subir nela. Não era. A rocha era lisa demais. Arredondada demais. Escorregadia como sabão. Bastava olhar para compreender que qualquer tentativa terminaria em queda.
E então entramos na água… de roupa e tudo.
Jorge mergulhou primeiro. Depois Caneca. Eu fui entrando devagar, sentindo a correnteza bater nas pernas enquanto observava aquela pedra enorme bem no centro do rio, silenciosa como um animal adormecido.
Anos depois, o Jorge me diria não recordar exatamente daquele momento e jurava que apenas ele e o Caneca haviam entrado na água, enquanto eu permanecera na margem, vencido pelo receio. Mas minha lembrança é outra. Lembro do calor queimando a pele, do corpo exausto, da poeira acumulada nas pernas e da sensação quase desesperada de precisar mergulhar naquele rio. O medo pode até ter existido por alguns segundos, mas o calor falou mais alto.
E nunca esquecerei a sensação daquele primeiro mergulho.
O corpo inteiro pareceu estremecer quando a água fria tocou minha pele ardendo de calor. Foi como se alguém arrancasse de dentro de mim, por alguns instantes, todo o peso daquela estrada. A poeira. O suor seco. A sede. O sol. O medo.
E havia qualquer coisa profundamente estranha naquele momento.
Pouco antes, estávamos bebendo água infestada de pequenos bichos numa cacimba miserável à beira da estrada, tentando sobreviver ao sol do Nordeste. Agora, mergulhávamos naquele rio escuro como três fugitivos recém-saídos de algum deserto.
A juventude tem dessas loucuras: transforma qualquer sobrevivência em aventura e qualquer perigo em liberdade.
Ficamos ali por algum tempo, boiando, mergulhando, respirando fundo, deixando que a água levasse embora um pouco do inferno daquela caminhada. Mas o sol continuava acima de nós. Observando tudo. Esperando pacientemente que voltássemos para a estrada.
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Não lembro quanto tempo permanecemos naquele rio. Talvez meia hora. Talvez mais. O tempo, ali, parecia ter perdido completamente a importância.
Por alguns momentos, voltamos simplesmente a nos divertir, como se tivéssemos esquecido a enorme enrascada em que havíamos nos metido. Naquelas águas escuras, profundas e generosas, deixamos para trás, ainda que temporariamente, o peso da estrada, do medo e do cansaço. Voltamos a ser quase crianças — dessas que ainda não possuem qualquer dimensão real do que a vida representa ou dos perigos silenciosos que ela tantas vezes esconde pelo caminho.
Devemos ter ficado ali até percebermos que nossas baterias, de algum modo, pareciam recarregadas. Mas havia uma outra realidade, até então adormecida, que começou lentamente a cobrar sua presença: a fome.
Já passava da uma da tarde.
E uma verdade dura se impôs diante de nós: era preciso retomar a caminhada. Sedentos ou não. Famintos ou não. Cobertos de bolhas ou não.
Retornamos à estrada com a estranha sensação de alma lavada. Nossos corpos e roupas ainda permaneciam encharcados pela água revitalizadora daquele rio. Mas a distância que ainda nos separava de Carpina continuava gigantesca.
Daquele ponto em diante, tornou-se evidente que o nosso planejamento inicial havia ido completamente pelo ralo. A ideia de chegar à cidade por volta das duas da tarde já não passava de uma fantasia juvenil esmagada pela realidade da estrada.
Nos primeiros minutos após o retorno, apesar do sol continuar nos golpeando como um carrasco impiedoso, sentimos uma breve ilusão de recuperação. O banho parecera devolver não apenas alguma energia aos nossos corpos exaustos, mas também um pouco da coragem que os perigos do caminho vinham lentamente corroendo desde a manhã.
Caminhamos então com mais firmeza.
Mas os nossos calos não haviam desistido de nós.
Continuavam ali, ardendo a cada passo, transformando os sapatos em pequenas máquinas de tortura. E novamente surgiu entre nós aquela dúvida cruel que nos ocorrera lá atrás: seria menos doloroso continuar calçados ou seguir descalços pela estrada abrasadora?
Foi mais uma batalha silenciosa que tivemos de vencer para continuar avançando.
Apesar do sol feroz. Da poeira. Das dores lancinantes nos pés. Dos caminhões de cana que continuavam passando ao nosso lado como monstros metálicos, arremessando aqueles seus aríetes voadores que cruzavam o ar como lanças primitivas em nossa direção... seguimos.
Ao chegarmos a Paudalho, por volta das cinco horas da tarde, já caminhávamos sustentados apenas pelos últimos resquícios de energia.
Paudalho parecia repousar dentro de uma espécie de grotão. Para alcançá-la, percorremos uma longa descida que devia ter talvez dois quilômetros de extensão. Não sei precisar. Lembro apenas da sensação de estar lentamente afundando dentro da paisagem.
Mas, depois que cruzamos a entrada da cidade e retornamos a estrada em direção a Carpina, a geografia resolveu nos impor mais uma provação.
A estrada voltou a subir.
Algumas placas começaram a surgir indicando a distância restante, enquanto diante de nós se erguia uma subida longa e cruel, justamente quando nossas reservas de energia pareciam finalmente alcançar o limite absoluto.
O dia começava lentamente a escurecer.
E foi então que meu corpo começou a ceder.
Asmático desde os primeiros meses de vida, comecei a respirar com dificuldade. O ar já não entrava nos pulmões com facilidade. Caminhava ofegante, tentando esconder o mal-estar, mas Caneca, que era o mais velho do grupo e talvez o mais lúcido entre nós naquele momento, percebeu rapidamente a gravidade da situação.
Foi ele quem tomou a decisão.
Precisávamos conseguir uma carona.
Alguma boa alma dirigindo uma Rural Willys, que seguia na mesma direção que a nossa, ao ver aqueles três jovens consumidos pelo sol, pela poeira e pelo desgaste da viagem, resolveu parar para nos ouvir. Depois que contamos de onde vínhamos e para onde tentávamos chegar, o homem se compadeceu da nossa situação.
Foi graças àquela inesperada demonstração de humanidade que finalmente conseguimos chegar a Carpina.
Mas isso aconteceu pouco antes das seis da tarde.
E logo descobriríamos algo terrível.
X
Chegamos ao nosso destino por volta das cinco e quarenta da tarde.
E antes que aquela bondosa alma que nos havia resgatado seguisse viagem, ainda teve tempo de nos lançar um último olhar — desses que apenas os mais velhos sabem dar, quando enxergam nos jovens a inconsequência que um dia também carregaram no peito.
Com voz mansa, quase paternal, disse-nos apenas:
— Tomem juízo, rapazes… e nunca mais inventem uma loucura dessas.
Hoje compreendo que aquele homem não estava apenas nos aconselhando.
Estava nos devolvendo à vida.
Do ponto onde nos deixou, na entrada da cidade, sinceramente não sei como conseguimos chegar até a casa dos primos do Caneca.
Nossos corpos já não obedeciam plenamente às nossas vontades. Caminhávamos por puro instinto, como sobreviventes atravessando os escombros invisíveis da própria imprudência.
Àquela altura, o sonho musical já havia evaporado completamente.
Os Lobos.
A banda.
As guitarras.
Os amplificadores.
Tudo aquilo subitamente perdera importância diante de necessidades muito mais primitivas e urgentes: água, comida, sombra, repouso.
Queríamos apenas sobreviver ao dia.
Tomar um banho.
Engolir litros de água.
Comer qualquer coisa que nos devolvesse algum resto de humanidade.
O nosso épico juvenil terminava ali, derrotado pelo sol, pela fome, pela sede e pela brutalidade daquela estrada interminável.
E fizemos uma promessa silenciosa, dessas que não precisam ser pronunciadas:
Nunca mais.
Nunca mais voltaríamos a repetir uma insanidade daquela natureza.
Mas certas lições só conseguem permanecer vivas porque foram escritas diretamente sobre a carne.
Quando finalmente chegamos à casa dos primos do Caneca e começamos a relatar nossa ensandecida travessia, alguém — não recordo mais quem — arregalou os olhos ao ouvir que pretendíamos voltar para Recife naquela mesma noite.
— Gente… o último ônibus sai às seis horas!
A frase caiu sobre nós como uma sentença.
Entramos imediatamente em desespero.
Naquela época, telefone em casa era quase um artigo de luxo, e nenhum de nós possuía um.
Se não conseguíssemos voltar, nossas mães mergulhariam numa aflição impossível de descrever.
Certamente começariam a se procurar e é provável que buscariam notícias em hospitais, talvez até em delegacias.
E pela primeira vez naquele dia, percebi que a nossa aventura não envolvia apenas três adolescentes idiotas desafiando a estrada.
Havia mães esperando os seus filhos voltarem para casa.
Saímos então numa disparada enlouquecida.
Não sei com que pernas.
Não sei com que forças.
Não sei sequer com que sapatos.
Parecia que corríamos não apenas contra o tempo, mas contra a possibilidade concreta do desastre.
Mas foi inútil.
Quando chegamos ao pequeno terminal rodoviário, vimos apenas a ausência.
O último ônibus acabara de partir.
A sensação que tive naquele instante foi a de um abismo se abrindo sob os nossos pés.
Ficamos ali, imóveis, cobertos de poeira, suor e exaustão, olhando uns para os outros sem saber o que fazer.
Até que alguém nos informou que ainda existia uma possibilidade:
Se conseguíssemos chegar até Tiúma, haveria ônibus para Recife até às dez da noite.
Foi então que o Caneca — sempre ele — falou quase num sopro aflito:
— Vocês precisam arrumar uma carona.
Ele próprio pretendia permanecer ali, na casa dos parentes, e voltar apenas no outro dia.
E foi ele, num gesto quase desesperado, quem conseguiu convencer o motorista de um velho caminhão a nos levar naquela direção.
Ainda hoje não esqueço aquele caminhão.
Velho. Barulhento. Sacolejando pela estrada escura como uma máquina agrícola arrancada do fundo do mundo.
Mas naquele momento ele nos pareceu a própria salvação.
Chegamos finalmente à pequena cidade próxima de São Lourenço e, de lá, conseguimos embarcar de volta para Recife.
Devia ser por volta das dez da noite quando desembarquei diante de casa.
Minha avó já havia falado com a mãe do Jorge e as duas estavam completamente aflitas.
Ao me ver surgir ao longe, da varanda, soltou um grito que até hoje guardo dentro de mim.
Não foi exatamente um chamado.
Foi um uivo.
Um uivo de alívio.
De amor.
De medo acumulado durante horas.
— CarMarino! Onde vocês estavam, meninos?!
Mas eu já não possuía energia sequer para narrar a dimensão da nossa tragédia tropical.
Tomei um banho longo, quase ritualístico, como se tentasse arrancar da pele a poeira daquela estrada maldita.
Depois, bebi quase de um só gole uma garrafa inteira do meu refrigerante preferido.
Comi um prato enorme de feijão, purê de batatas e carne desfiada preparado pela Têca.
E, como se eu ainda fosse uma criança devastada pela febre, minha avó apareceu com uma gigantesca gemada feita com carinho… e uma boa dose de raiva.
Segundo ela, olhando para o meu corpo esquálido e consumido, eu havia perdido alguns quilos naquela aventura absurda.
E eu, que já era franzino por natureza, parecia agora um sobrevivente recém-saído de uma guerra nordestina particular.
Naquela noite ouvi o Sermão da Montanha umas dez vezes.
Talvez mais.
E no dia seguinte acordei tão abatido, tão vazio de forças, que sequer consegui ir à escola.
Passei o dia inteiro deitado, em repouso absoluto, sendo alimentado quase de forma compulsiva por minha querida vó Iolanda, como se ela acreditasse que comida, afeto e cuidado fossem capazes de devolver um neto arrancado das mãos imprudentes do mundo.
X
Por um único dia encenamos a vida de um retirante das secas. Mas aquilo não era verdadeiramente o nosso destino. Não era o nosso fardo histórico. Não era o peso que a vida havia colocado sobre os nossos ombros desde o nascimento. Nós podíamos voltar. Os retirantes, muitas vezes, não podiam. E talvez tenha sido exatamente essa consciência silenciosa, ainda que confusa, que tornou tudo aquilo tão perturbador.
Comemos poeira naquele dia. Poeira grossa, quente, amarga, dessas que entram pela boca, pelos olhos e parecem raspar por dentro a própria alma. E quem um dia aprende o gosto da poeira verdadeira passa o resto da vida tentando não voltar a senti-lo.
Às vezes penso que aquela aventura insana jamais terminou de fato. Talvez continuemos caminhando por ela até hoje, mesmo décadas depois, atravessando outras estradas, outros desertos e outras formas de exaustão. E a grande lição que restou daquela travessia maldita foi a descoberta brutal de que somos frágeis. Somos limitados. Somos criaturas finitas tentando fingir eternidade diante do abismo. A vida, no fundo, parece existir sob uma única lei primordial: sobreviver. Não desafiar inutilmente os próprios limites. Não brincar com aquilo que pode nos destruir. Porque todo ser vivo, no instante mais profundo de sua existência, sabe que carrega dentro de si a consciência silenciosa da própria mortalidade.
O nordestino é antes de tudo um forte. O nordestino. Não nós.
Carlos Pessegatti (Carlinhos)
SOBRE ESTA HISTÓRIA
Com o passar dos anos, o tempo vai silenciosamente redesenhando as nossas lembranças.
Algumas cenas permanecem intactas, quase luminosas. Outras desaparecem sem deixar vestígios. E existem ainda aquelas que sobrevivem apenas em fragmentos dispersos, escondidos nas regiões mais profundas da memória.
Quando vivemos uma experiência em conjunto, algo curioso acontece: cada pessoa guarda partes diferentes da mesma história. Uns se lembram de palavras. Outros, de gestos. Alguns preservam imagens inteiras; outros conservam apenas sensações, medos, cheiros, silêncios ou pequenos detalhes que os demais já esqueceram completamente.
Desde que comecei a escrever os contos sobre a minha juventude e sobre os inesquecíveis Setembrinos da Rua Sete de Setembro, quase sempre fiz isso sozinho, confiando apenas nas minhas próprias lembranças.
Mas com Os Lobos aconteceu algo diferente.
Ao conversar novamente com o Jorge e o Caneca sobre aquela insana aventura que vivemos juntos, percebi que cada um deles ainda guardava, nas gavetas da memória, fragmentos preciosos daquela travessia — cenas, episódios, diálogos e detalhes que o tempo havia apagado de mim.
Foi então que, pela primeira vez, resolvi reunir todas aquelas recordações espalhadas como peças de um grande mosaico afetivo.
Por isso, esta narrativa não pertence apenas a mim.
Ela foi construída pela memória coletiva de todos nós.
E talvez seja exatamente isso que torne certas histórias tão especiais: elas sobrevivem porque permanecem vivas dentro de várias pessoas ao mesmo tempo.
Meu mais profundo agradecimento ao Jorge e ao Caneca, porque sem a participação, as lembranças e a generosidade de cada um deles, este conto simplesmente não existiria.

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