Os Jardins Suspensos da Auroriana

Os Jardins Suspensos da Auroriana


Da esquerda para a direita: Cleón, eu, Tona e, agachado, Ciro

Naquele sábado acordei tomado por uma alegria rara, dessas que já despertam dentro da gente antes mesmo que os olhos consigam se abrir por completo. O dia amanhecera luminoso e, diante de mim, parecia existir apenas um vasto território de possibilidades: música, risadas, encontros, cervejas geladas e mais uma daquelas longas tardes nos jardins suspensos do Edifício São Christóvam, na Rua da Aurora, a poucos metros da Avenida Conde da Boa Vista, onde o Ciro passara a morar desde que se casara, no início daquele ano de 1976.





O apartamento dele ficava no décimo quinto andar, mas era um andar acima, no décimo sexto, que existia o nosso pequeno território de liberdade. Na parte detrás do edifício havia um terraço ajardinado, uma espécie de mirante urbano suspenso sobre o Recife. Ali, alguns bancos de cimento se alternavam com grandes vasos de cimento colados às paredes, cheios de areia e plantas ornamentais que o vento da tarde fazia balançar suavemente. Em volta do terraço, uma mureta de vidro grosso reforçada por grades de ferro — semelhantes às de uma cela — cercava aquele espaço improvável de contemplação. Sentados ali, com as pernas preguiçosamente esticadas e os copos sempre por perto, víamos a cidade inteira aos nossos pés: o Capibaribe serpenteando silencioso, a Ponte Duarte Coelho recortando a paisagem e o movimento incessante da Rua da Aurora correndo muito abaixo de nós, como se pertencesse a outro mundo.


Durante a semana, a vida me esmagava sem piedade.

Naquela época, eu trabalhava em dois empregos. Pela manhã, das sete à uma da tarde, era digitador no Bandepe. À noite, das sete da noite até uma da madrugada, assumia o turno de Operador de Computador na Sudene.

Quando deixava a Sudene, já passava da uma da manhã. Eu chegava em casa exausto, movido apenas por um único desejo: dormir. Mas dormir também era um luxo escasso. Às cinco e meia da manhã, o despertador já me arrancava novamente da cama para mais um dia no banco.

À tarde, depois do expediente no Bandepe, eu ainda tentava recuperar algumas horas de sono antes de seguir novamente para a Sudene.

Minha vida, durante aqueles anos, resumia-se a três verbos: trabalhar, deslocar-me e dormir.

Não havia tempo para televisão, descanso ou mesmo para permanecer junto da mulher e da minha primogênita de apenas um aninho de idade como eu gostaria. A semana passava diante de mim como uma longa esteira industrial onde os dias eram apenas peças repetidas de uma engrenagem infinita.

Talvez por isso os sábados adquirissem uma importância quase sagrada.

Quando eles finalmente chegavam, eu queria apenas viver.

E viver, para mim, significava ocupar algum lugar agradável às margens da Rua da Aurora, ouvir música até o cair da noite, conversar sobre absolutamente tudo, beber algumas cervejas e saborear o nosso inseparável barbitúrico predileto — aquele velho passaporte químico que, entre um gole e outro, abria silenciosamente as portas de mundos paralelos onde a realidade parecia menos dura e a existência um pouco mais suportável.


Naquele sábado específico, acordei decidido a comprar algumas fitas cassete da marca TDK. Não qualquer uma. Eu queria a lendária TDK SA-X60, à base de cromo, objeto de desejo de qualquer apaixonado por som naquela época.

Havia comprado recentemente um novo Cassete Deck da Akai e pretendia explorar tudo o que aquele aparelho podia oferecer.

Minha relação com a música vinha da infância.

Cresci nos anos sessenta ouvindo os Beatles e, já no final daquela década, comecei a descobrir as bandas que redefiniriam completamente o nosso universo sonoro.

Foi um amigo chamado Humberto, aquele que foi considerado no início dos anos 1970 como sendo o primeiro hippie que a cidade conhecera, e quem terminou de escancarar para mim as portas do Rock.

Ele morava num enorme casarão da velha Rua da Matriz, quase nos fundos da Igreja da Boa Vista, e possuía uma coleção de discos absolutamente impressionante para aqueles tempos.

Foi ali, naquela casa antiga impregnada pelo cheiro de vinil e móveis envelhecidos, que ouvi pela primeira vez bandas como Led Zeppelin, Deep Purple, Uriah Heep e Black Sabbath.

Humberto ia me apresentando cada disco como quem revela segredos iniciáticos.

E para que eu pudesse carregar comigo um pouco daquele universo, ele gravava aquelas músicas em fitas cassete que eu escutava num pequeno aparelho portátil da Crown, meu companheiro inseparável daqueles anos.

Eu o levava para todos os lugares.

Com o passar do tempo, fui me tornando cada vez mais exigente com som. Já não bastava apenas ouvir música; eu queria mergulhar nela.

Tornei-me, aos poucos, um audiófilo obsessivo. Passei a sonhar com equipamentos sofisticados, amplificadores valvulados, toca-discos suíço Thorens com cápsulas americanas Shure V-15 e caixas acústicas capazes de revelar frequências que pareciam escondidas do restante da humanidade.

Na época em que comprei meu primeiro Cassete Deck com características quase profissionais, eu já possuía uma razoável coleção de LPs e havia desenvolvido um pequeno ritual pessoal: montar longos pout-pourris musicais em fitas cuidadosamente gravadas. Hoje chamam isso de playlist.

Assim, quando os amigos apareciam em minha casa, não precisávamos interromper constantemente a viagem sonora para trocar discos. Eu simplesmente colocava a fita para rodar e deixava a música conduzir as nossas memoráveis tardes.

Naquele tempo, porém, aquilo era quase uma obra de artesanato afetivo.
Essas fitas também eram utilizadas quando íamos, nas tardes de domingo, para as margens do Rio Capibaribe-Beberibe, ali na Rua da Aurora. Eram elas que eu levava junto com o meu portátil cassete.

Entretanto, não tinham muita serventia quando, aos sábados, aportávamos na casa do Ciro. Ali em cima, naquele jardim suspenso que ficava apenas um andar acima do apartamento onde ele morava, eram os discos mesmos que tinham vez.


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Depois do almoço, e de haver passado toda a manhã daquele sábado testando as minhas novas fitas TDK como quem prepara silenciosamente um ritual, peguei minha esposa, minha filha primogênita — que ainda não havia completado um ano de vida — e seguimos para a casa do Ciro, a poucas quadras dali.

O edifício onde ele morava, como já disse antes, erguia-se na parte mais urbana da Rua da Aurora, onde o Recife parecia pulsar entre o concreto, o rio e a fumaça lenta dos ônibus que atravessavam a cidade. Normalmente eu ainda aguardava em casa a chegada do meu irmão Tona e do meu primo Cléon. E então partíamos juntos, quase sempre tomados pela mesma sensação indefinível de quem se encaminha não exatamente para um lugar, mas para um estado de espírito.

Ao chegarmos, as mulheres permaneciam no apartamento conversando sobre a vida, os filhos, as pequenas dificuldades do cotidiano e as esperanças silenciosas que acompanham toda juventude recém-casada. Nós quatro, porém, imediatamente assumíamos o nosso velho ofício litúrgico: carregávamos a vitrola do Ciro escada acima até o jardim suspenso.

Depois vinha a operação técnica que repetíamos todos os sábados como se estivéssemos montando um observatório astronômico clandestino. Jogávamos pela balaustrada do terraço uma enorme extensão elétrica que descia balançando até a janela do apartamento. Lá embaixo, a esposa do Ciro a recolhia pacientemente e a ligava na tomada. Poucos segundos depois, o prato da vitrola começava a girar, e o mundo à nossa volta parecia enfim encontrar o seu eixo.

Naqueles tempos, alguns discos já haviam conquistado residência permanente em nossas almas.

Spartacus, do Triumvirat, surgia grandioso e teatral como uma ópera futurista destinada a jovens que acreditavam que a música ainda podia mudar a estrutura invisível do mundo. Godbluff, do Van der Graaf Generator, trazia consigo uma espécie de angústia cósmica, algo ao mesmo tempo sombrio e transcendental. Já Free Hand e The Power and the Glory, do Gentle Giant, eram quase tratados secretos sobre inteligência, ironia e arquitetura sonora.

Mas aquele dia, na verdade, começara muito antes.

Ainda pela manhã, sozinho em meu apartamento, enquanto o sábado lentamente despertava sobre a cidade, eu colocara para tocar The Who by Numbers. Havia algo naquele disco que funcionava para mim como um chamado de abertura. Uma espécie de invocação íntima para tudo aquilo que ainda aconteceria nas horas seguintes. Como se Pete Townshend e Roger Daltrey anunciassem, faixa após faixa, que aquele não seria apenas mais um dia comum no calendário dos homens.

E talvez realmente não fosse.

Porque hoje compreendo que existem tardes que, sem que percebamos, passam a existir fora do tempo.

Sentados entre os vasos de cimento daquele jardim suspenso, cercados pelo rumor distante do Capibaribe e pela luminosidade dourada que lentamente descia sobre a Rua da Aurora, conversávamos durante horas intermináveis. Havia cervejas, garrafas de Coca-Cola espalhadas pelo chão, cigarros acesos entre uma discussão e outra e, naturalmente, o nosso inseparável Pambenyl, cuidadosamente escondido entre as plantas dos grandes vasos encostados às paredes do terraço, como se estivéssemos ocultando um segredo de Estado.

Falávamos de música, de mulheres, de política, do futuro, de arte, de filosofia, de sonhos impossíveis e das estranhas inquietações existenciais que pareciam nunca abandonar a nossa geração. Às vezes discutíamos apaixonadamente durante quase um disco inteiro apenas para concluir, ao final, que ninguém havia convencido ninguém de coisa alguma. E isso pouco importava. O essencial era aquela comunhão invisível que se estabelecia entre nós.

Éramos jovens demais para compreender a fugacidade da vida e, exatamente por isso, acreditávamos inconscientemente que aqueles encontros se repetiriam para sempre.

O sol então começava a descer lentamente atrás dos edifícios do Recife. As luzes da cidade iam se acendendo uma a uma. O rio escurecia. A brisa da noite começava finalmente a vencer o calor acumulado do dia. E havia sempre um momento — impossível hoje de determinar com precisão — em que todos nós parecíamos mergulhar num breve silêncio contemplativo, como se soubéssemos, mesmo sem admitir, que algo precioso estava acontecendo ali.

Depois, pouco a pouco, desmontávamos o nosso pequeno universo.

A vitrola retornava ao apartamento. A extensão era recolhida. As garrafas vazias desapareciam. Os discos voltavam cuidadosamente para suas capas. E cada um seguia novamente para a própria vida.

Eu então voltava para casa tomado por uma estranha sensação de plenitude. Durante a semana dormia pouco, esmagado pelas obrigações dos dois empregos e pela pressa feroz daqueles anos. Mas naquela noite, não.

Naquela noite eu dormia em paz.

Porque, sem saber, havíamos passado mais uma tarde inteira suspendendo o peso do mundo acima da cidade.


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A verdade é que esse pequenino conto carrega dentro dele uma matéria-prima muito poderosa: amizade, música, juventude, ritual, cidade, memória e tempo. Tudo isso aparece no texto com enorme força imagética.

O que mais me impressiona nesse conto é como aqueles encontros no terraço deixavam de ser apenas reuniões de amigos ouvindo discos e passavam a representar quase uma pequena resistência poética contra a dureza da vida adulta que já começava a nos cercar. A vitrola subida para o jardim, a extensão elétrica descendo pela balaustrada, os discos girando sobre Recife ao entardecer… tudo isso possui uma dimensão cinematográfica muito forte.

E o final, acho, ficou particularmente bonito porque ele não fecha apenas um dia. Ele fecha uma era da vida.

Esse conto tem uma atmosfera muito madura, muito humana e profundamente nostálgica sem cair em sentimentalismo fácil. Há verdade nele. E isso é o que sustenta uma boa literatura memorialista.

Assim penso eu.




















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